Encontrado no Indymedia

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“A organização desta manifestação já vos mandou sentar”
Podemos considerar a Manifestação que ocorreu no passado 15 de Outubro um sucesso, um momento de início de diversas lutas e o local onde um amplo movimento composto de muitas perspectivas diferentes conseguiu mostrar a si próprio a força que tem.
O amplo espectro de pessoas e colectivos presentes e as variadas opiniões e perspectivas que neste movimento se encontram, se alimentam e dialogam são o que torna forte este protesto e dinâmico este movimento. Para lá das suas reivindicações, os desenvolvimentos do último ano foram sobretudo um lugar de encontro. Naturalmente este encontro nem sempre é fluido e facilmente nos deixamos levar por questões pouco construtivas, mas aqui estamos para aprender uns com os outros.
A força deste movimento dependerá da habilidade que tivermos em lidar com estas e outras dificuldades, mas as suas expressões foram deixando claro: O movimento não quer líderes ou vanguardas, quer diferentes lutas que se apoiem e alimentem mutuamente; não quer discursos oficiais e doutrinas, quer discussões e debates que proponham alternativas e hipóteses; não quer os formatos clássicos da representação, quer inventar novas formas de estar, viver e discutir a política.
Deixámos de estar isolados, ganhámos força, ganharemos cada vez mais.
A ocupação das escadarias de São Bento foi um desses momentos de encontro. Largos milhares, cuja diversidade está espelhada nas diferentes bandeiras e faixas, perderam o medo que lhes foi imposto pelo poder e pelos meios de comunicação e ocuparam as escadarias da sede do poder central sem que ninguém se tivesse magoado. Amanhã caberá pensar que mais podemos fazer e que esta ocupação não foi que o início de muito mais, que não pode ser considerada a vitória da guerra mas sim da batalha, mas que hoje ninguém nos tire o prazer de a celebrar e de viver ainda com gosto o momento em que reclamámos algo que é nosso e em que finalmente deixámos de sair à rua a horas certas.
Entenda-se no entanto que a invasão pacífica das escadarias de São Bento aconteceu apesar de um diminuto grupo, em controlo do único meio possível de comunicação com toda a praça, a tentar proibir e evitar a todo o custo. Cabe proceder a algumas considerações. Porque é que neste movimento plural e descentralizado foi o acesso ao microfone “aberto” controlado por um núcleo fechado que decidiu quem pôde ou não falar e o que pôde ou não dizer?
Em particular:
A tentativa de abafar os gritos de “invasão” que momentos antes do início da ocupação algumas pessoas começavam já a gritar junto às grades, e que encontrou eco em vários cantos da praça, com o apelo de que fosse posta rapidamente “música animada”.
Minutos mais tarde quando um rapaz subiu à carrinha e apelou à invasão foi-lhe imediatamente cortado o som e arrancado o microfone das mãos. Quem se tentou aproximar para perceber o que se passava foi fisicamente impedido de o fazer.
Momentos depois aconteciam as situações confusas que abriram as brechas que permitiram a ocupação. Entende-se que à distância seja imperceptível o que se estaria a passar à volta da estátua direita do Leão, mas algo era perfeitamente visível: que alguém estava lá em cima, equilibrado a dezenas de metros do chão, com um polícia à paisana a puxar-lhe os pés, algo que muito facilmente poderia ter terminado de modo trágico. E no entanto a reacção da carrinha de som, o único meio com capacidade de comunicar com toda a praça, foi gritar primeiro tranquilamente e depois, literalmente ordenando, histericamente que toda a gente se sentasse.
E quem dominava este sistema de som?
Elementos do colectivo Precários Inflexíveis que são também funcionários do Bloco de Esquerda e elementos do colectivo M12M.
Não se trata de discutir a legitimidade da participação ou não de militantes ou simpatizantes de partidos políticos neste movimento, a sua pluralidade prevê essa mesma situação e as experiências e opiniões de qualquer um serão sempre bem-vindas, mas quando é um funcionário de um partido político com representação parlamentar a decidir quem pode ou não falar num microfone alegadamente aberto em frente à assembleia da república numa manifestação cujo sentimento geral que a unifica é o de extrema frustração ante o poder político profissional, quando deixamos que sejam os mais clássicos métodos de controlo político a dominar os momentos que queremos comuns e horizontais, todo este projecto sincero e esforçado de construção de alternativas vê-se minado.
Do mesmo modo é pertinente questionar qual é a legitimidade dos membros do M12M para literalmente ordenar a dezenas de milhares de pessoas que se sentem? Porque razão tinham alguns dos elementos do M12M um salvo-conduto através das linhas policiais e uma linha aberta de diálogo com a polícia sem que em momento algum tivessem informado a manifestação e a assembleia do que era discutido nesses contactos? Para que serve então essa linha aberta de diálogo, mantida por pessoas que em nenhum momento foram legitimadas pela assembleia para a manterem, se a informação que ela circula não chega aos principais visados, os manifestantes que no fim da noite foram expulsos, agredidos e detidos pelo corpo de intervenção? Ter-se-ão vivido momentos de pânico naquela praça, o que os originou terá sido menos as centenas de pessoas que subiam pacificamente as escadarias do que a absoluta histeria de quem gritava em nome das crianças e fazia eco das ameaças fantasmagóricas proferidas nos últimos meses pelo governo. Os discursos de Portas e Coelho que procuram equivaler qualquer protesto forte com violência gratuita não servem só para assustar a população em geral mas também todos aqueles que estão fartos de esperar. O M12M ao ter procurado por todos os meios sabotar aquilo que era uma vontade de uma enorme quantidade de gente ali presente tornou-se cúmplice das tentativas de incutir o medo e o desespero entre aqueles que decidiram tomar finalmente as suas vidas nas suas mãos.
Meio mundo a gritar RISE UP e a autoproclamada organização a gritar “sentem-se”.
Ainda assim, não temos medo. Não tenhamos medo e não nos sentemos!
Indignados que ocuparam as escadarias de São Bento

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