Os novos pastores

Aconteceu uma manifestação organizada pela Rubra, Ruptura, M12M, Precários e mais umas quantas pessoas. Muitas assembleias ajudaram a prepará-la e muitas noites sem sono a colar cartazes. Munidxs desse património, essxs activistas lideraram a manifestação e não hesitaram em calar, orientar e trabalhar com a polícia para que tudo se passasse como tinham previamente definido.
Há quem ache que isto é legitimo, e quem não pense assim (muito se escreveu e escreverá sobre isso).
Interessa-me agora o day after. No dia 16 houve uma assembleia popular e acontece que a força do microfone com PA em cima da carrinha já não existia, também havia gente muito cansada da parte da organização e, surpresa das surpresas: aquilo não estava garantido, ao ponto de uns desordeiros terem ocupado a estrada para aí realizar a dita assembleia. E mais, a organização incorreu num erro táctico grosseiro: não conseguiu fazer nesse segundo dia o que tão bem fez no primeiro – transformar a Assembleia num comício-espectáculo.
O unanimismo não aconteceu e pronto: os organizadores estavam manifestamente à rasca, independentemente da geração a que pertenciam. Porém, não podendo dar por perdido o momento, Renato Teixeira, um dos mais activos organizadores da manifestação, usou da palavra para sublinhar, de forma bem emotiva, que para si “houve um 15 de Outubro e um 16, estou com o primeiro não sei se estou com o segundo!”. E porque será que Renato põe em causa a assembleia que ele próprio convocou? É que houve quem pusesse em causa decisões já tomadas.
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Para que toda a argumentação da defesa das decisões previamente tomadas ganhasse corpo e força moral, Renato teve a coragem de dizer, aos berros, que a moção que cozinhou em diversas reuniões e que estaria a ser posta em causa por uma ou duas intervenções, teria sido aprovada no dia anterior, pasme-se, por 20 mil pessoas!!!!! Ora, será que o Renato nos quer dizer que contou 20 mil braços no ar (e já agora quais os números das abstenções e dos votos contra?) ou simplesmente farejou a coisa???
Este expediente não é novo, pois claro. A seguir a qualquer manifestação da CGTP, por exemplo, também se lê um comunicado (e subitamente passa-se de manifestação a plenário) e uma camarada pergunta (não diz) rapidamente: “votos contra, votos a favor, aprovado por unanimidade!”. Pois é, mas esse tempo já foi e o pessoal não é assim tão parvo e é por isso que muita gente aqui, nos blogues, facebooks e assembleias, queremos assembleias sem micros, em grupos, onde se possa falar, discutir e aprovar em consciência.
Será que para o Renato Teixeira 20 mil pessoas por entre um enorme barulho no meio da rua podem aprovar, em consciência, o que quer que seja? Pelos vistos sim, tal foi a emotividade com que embalou a garganta para usar este argumento na assembleia que lhe estava a escapar.
É curioso ver como na história se usa há muito tempo esta coisa dos números para o que se quer. A título de exemplo, José Estaline, quando chega à chefia o que faz? Alarga o comité central do seu partido de umas dezenas para umas centenas. E porquê? Porque sabia que ninguém consegue discutir o que quer que seja com 300, 400 pessoas. (O PCP ainda usa este método para garantir todo o poder aos seus organismos executivos, mas o PCP ainda se fica por perto 200 pessoas, agora usar em seu nome 20mil?)
A tão desejada vanguarda
Mas afinal isto acontece porquê? Qualquer um dos grupos dominadores nesta organização tem uma vontade de vanguarda hiper-explícita. Tendo (cada um a sua) uma resposta prévia para os problemas das pessoas que acorrem ou virão a acorrer ao chamamento indignado, a questão fundamental, como também foi dito pelo mesmo orador, passa a ser não o que vamos fazer, com quem e quando, mas o número de gente que adere às suas ideias. Para tal podem fazer-se alianças tácticas momentâneas, mas o objectivo é sempre o de engrossar as fileiras. Por falar em alianças, é bom ver esta misturada oportunista (quem ouviu e quem ouve hoje o que o pessoal da Rubra diz sobre o pessoal do M12M,! ou mesmo a curiosa aliança com os mesmos protagonistas com quem fizeram a cisão no Bloco).
Pois é, há uma outra forma de ver as coisas, há quem não precise de decidir previamente o que quer que os outros pensem. É verdade, por mais estranho que pareça, há até quem fique contente quando vai a uma assembleia e o “seu grupo” não detém uma maioria. Há, no fundo, e esta é a diferença, quem se organize para arranjar apoiantes para a causa justa e quem ache que essa causa, a justa, só pode ser encontrada na multiplicidade, garantida pela total libertação dos meios de coação como são os casos da polícia, dos micros no topo de carrinhas de apoio, das ordens de comportamento e das agendas prévias cheias de razões justas.
Há um mundo novo que não quer nem precisa de vanguardas (espero). Quem quer apanhar o comboio e quem quer descer já no apeadeiro do socialismo inflamado pronto a comer?
A (minha) preocupação não é de todo apontar o dedo, infantilmente (sei que o Renato nunca largará Lénin mas podia ter menos vergonha, e citá-lo, em vez de brincadeiras pós-modernas), como escreve no 5 dias, mas averiguar quais são os limites das alianças e dos comportamentos: certos podem suscitar alianças, outros podem separar-nos.
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11 thoughts on “Os novos pastores

  1. N estive na assembleia de dia 16, mas estive no dia 15 quando se leu o manifesto, ele foi lido, não foi posto a votação. É certo que a quantidade de gente presente faria de uma eleição da Mesa ou a aprovação de uma moção ou manifesto um acto puramente simbólico e propagandístico, de qualquer forma, como símbolo de um outro tipo de democracia que se quer opôr à que se pratica na casa em frente, não teria sido má ideia.

  2. o Comité central do PCP tem 150 elementos. Fica tão perto dos 200 como da centena… algum rigor não ficava mal.
    150 já é considerado democrático ou ainda é uma estratégia Estalinista para o controlo da discussão colectiva?

  3. caro alberto, acha que 150 pessoas que reunem de dois em dois meses (creio e peço desculpa se faltar rigor)durante um fim de semana em das 9 às 18h podem realmente decidir alguma coisa? ou limitam-se a peblescitar o que propôs o secretariado ou a comissão política?
    já com 10 não é fácil, quanto mais com 150!

  4. O pior carx paradise café, é que não vai ser fácil a esquerdalhada fazer o que seja colectivamente. Essa é a verdadeira utopia. Aqui em casa, por vezes, nem os putos consigo convencer, e lá tenho eu de exercer o meu poder.

  5. O erro no número de membros no PCP pode pressupor um erro maior no número de membros do PC(bolchevik) mas já agora pôe-se uma pergunta: não é verdade «também» que o José Estaline matou todos?
    Será que ele alargou o nº para assim poder matar muitos?

  6. Cem mil em Lisboa tomam escadaria do Parlamento
    Polícia de choque faz guarda ao edifício. Alguns manifestantes abandonaram o local por nãos e identificarem com os incidentes
    A multidão subiu a Assembleia da República, ao final da tarde, depois de terem sido deitadas abaixo as baias que resguardavam o edifício. A situação esteve por momentos menos controlada quando ovos, tinta ou outro objecto foi arremessado por um dos manifestantes lisboetas.
    No meio da confusão, pelo menos uma pessoa desmaiou. Um homem de meia-idade sentiu-se mal e acabou por ter de ser levado da praça pelo INEM. Várias pessoas foram atingidas por tinta e garrafas.
    Alguns manifestantes aproveitaram uma falha na segurança e um jovem queimou um jornal sentado em cima de um dos leões da entrada do Parlamento – um sinal apoiado por muitos dos milhares que ali se encontram. O corpo de Intervenção chegou ao local de imediato. Esta polícia de choque tenta controlar o acesso ao edifício público e cerrou fileiras no topo das escadarias. Estão aí cerca de cinquenta elementos do corpo de intervenção.
    (…)
    Durante os momentos de tensão que ali se registaram, membros da organização da manifestação tentaram acalmar os ânimos, pedindo às pessoas para se manterem calmas.
    Os incidentes não agradaram a muitos manifestantes, que abandonaram o local. Algumas dezenas rumaram a casa, indignados com a tomada da escadaria do Parlamento, que é contrária às regras da manifestação.
    (…)
    fonte TVI24
    PUBLICADA POR “À FORTIORI” EM DOMINGO, OUTUBRO 16, 2011

  7. Espera aí: a decisão da acampada que Renato Texeira tanto critica agora, foi tomada numa reunião onde ele estava e nunca manifestou desacordo.
    Eu até que posso entender que fazer a acampada pode não ser eficaz, mas quem a está a fazer tem todo o direito de a experimentar, viver e prender. Não é por isso que lhes rejeito o apoio solidário.
    Apresento as minhas ideias, debato com eles e na boa..
    Só ainda não entendo o que leva o Renato a andar tão zangado com pessoal que está a aprender coisas simples mas importantes como debater ideias e construir alternativas

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