Uma outra série de perguntas a Raquel Freire, talvez mais interessantes que as da pública

Raquel Freire afirmou num dia recente numa entrevista a uma rádio que todos os que atiraram garrafas à policia dia 24 de Novembro seriam agentes infiltrados. A acusação de que toda a gente que numa manifestação que decide a certo momento incorrer numa qualquer ilegalidade é na realidade um agente da autoridade não é nova e é recorrentemente usada pela esquerda institucional. Tal ocorre, presumo, por duas razões: a primeira será por alguma ingenuidade de quem tem com estes fenómenos um contacto feito apenas à distância e mediado pelos media e pelos Danieis Oliveiras e Raqueis Freires deste mundo. A segunda será por desonestidade política de quem tem como objectivo criminalizar as partes do movimento que não se revêm numa lógica representativa ou que de algum modo não concordam com a tipologia contestatária proposta pelos acusadores.
Nos últimos anos têm sido aqui discutidas aqui no spectrum e em outros locais todas estas questões, sendo problemáticas complexas cuja pertinência e termos de discussão se vêm continuamente actualizados e informados pelo que se vai passando em todo o mundo e numa perspectiva local. Considerando que é de certo modo inútil e pouco interessante propor este debate dentro de uma dicotomia entre “violentos” e “pacíficos”, já que é uma simplificação idiota que impede a reflexão politicamente mais interessante de uma superação dessas categorias, há quatro perguntas que no entanto gostaria de fazer à Raquel Freire:
1 – Presumindo que a Raquel sabe que obviamente não foram só polícias infiltrados a reagir de modo mais ou menos activo à violência policial gostava que comentasse isto: Nunca conheci nenhum militante ou manifestante que advocasse que a violência fosse o único e exclusivo modo de intervenção política e que não considerasse e concebesse inúmeras situações onde tal violência seria totalmente contra-produtiva. No entanto conheci inúmeras pessoas que recusavam categoricamente a violência e que estavam dispostas inclusivamente a serem violentas para com os violentos ou de facilitar uma acção violenta da polícia contra eles. A separação parece-me então ocorrer não entre “violentos” e “pacíficos” mas entre aqueles os “violentos” que admitem uma utilização difusa da violência e os “violentos” para quem só o estado está legitimizado a utilizar essa violência e que a admitem utilizar para sustentar esse monopólio. Apoia então a Raquel a repressão policial sobre aqueles que numa manifestação decidam cometer alguma ilegalidade?
2 – Considerando que em Portugal os grupos a que está associada essa utilização da violência enquanto alegado Modus Operandi tiveram até agora uma diminuta influência política é possível afirmar que não houve um contexto ideológico e identitário demarcado na eventual resistência que houve à carga policial. Do mesmo modo, a dar-se uma repetição deste tipo de confrontos numa maior ou menor escala, será muito difícil afirmar que serão os “anarquistas” ou os “autónomos” a participar neles. Que comentário lhe merece então, Raquel Freire, que nas duas últimas manifestações essas acções tenham sido levado a cabo por um grupo de pessoas difuso e numeroso? Perante a perspectiva de uma futura ilegalidade de massas continuará a afirmar que são todos polícias infiltrados?
3 – Sendo que a acção ilegal e violenta da polícia põe em risco de modo severo, brutal e arbitrário a integridade fisica dos manifestantes estes têm ou não o direito de se defender?
4 – Perante a questão da repressão policial e da infiltração de agentes à paisana o que é propõe para além da eleição de representantes e da partilha de declarações indignadas e inflamadas no facebook?

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5 thoughts on “Uma outra série de perguntas a Raquel Freire, talvez mais interessantes que as da pública

  1. Não é novidade para ninguém que o pacifismo, escudado em valores universais facilmente reconhecidos por muita gente, como dar prevalência ao diálogo sobre o pontapé, preferir a paz à guerra, a derrota política de um adversário ao seu assasinato, acaba por fazer a apologia do monópolio da violência pelo estado.
    E isto é grave, por várias razões:
    – Porque legitima brutalmente o estado e os seus meios repressivos, no limite a necessidade da sua existência para controlar uma sociedade de selvagens.
    – Porque afina a sua moral com a moral católica, do dar a outra face mesmo quando se está a ser roubado e vilipendiado por todos os lados.
    – Porque diz às pessoas que não se podem defender da polícia ou das agressões do estado. E aqui vamos do cassete elevado sobre as nossas cabeças, aos cordões policiais que nos rebanham até à obrigação judicial de pagarmos impostos – quem não sente os descontos à segurança social que sacam 1/2, 1/3 de muitos salários como a maior agressão sofrida em cada mês.
    – Porque este pacifismo de quem gosta de falar nas televisões e nas rádios, e sobretudo de falar sobre os outros milhares que afluem a manifestações, não é estratégico. Nunca ninguém me explicou como através dele derrotamos a enorme máquina ideológica e policial que nos asfixia a que costumamos chamar capitalismo. E não é estratégico porque não é nada, é bonito e aceitável nos media, e medíocre como pensamento sobre o Mundo que estamos viver.
    Aqueles que não são de todo pacifistas e que sabem quão armadilhado está esse antagonismo entre violentos e pacíficos devem procura estilhaçar estas palavras que canalizam o pensamento para as vias pueris do parlamento dos pequeninos. Em Oakland inaugurou-se parece-me algo bastante interessante: non-violent barricades. Se existe realmente um monopólio da violência e ele nos afecta diariamente, então todos os actos, repito todos os actos (à la Carvalho da Silva) contra o estado e o capital são não violentos, anti-violentos, de libertação, revolucionários. Derrube não violento de baias. Coktails molotovs não violentos. Incêndio de viaturas policiais e de alta cilindrada não violento. Ocupação e destruição não violenta do parlamento. Espacamento não violento de policia infiltrado que tentaram deter alguém.

  2. Nada se pode esperar de candidatos a gestores do capitalismo, mais conhecidos como esquerda, a não ser este tipo de retórica que reconhece ao estado o direito ao monopólio da violência, e eles próprios se tornarem substitutos da polícia.
    um texto interessante:
    « Sans toi aucun rouage ne tourne… » bit.ly/vG5grQ
    em inglês: bit.ly/uAhlR8

  3. Uhm.
    Não tenho vontadinha nenhuma de defender a raquel, ou de atacar qualquer expressão genuina de raiva, venha como vier.
    de qq maneira apareceu a palavra ‘estrategicamente’ e seria de pensar porque a policia acha util ‘estrategicamente’ ter alguns dos seus a derrubar baias e a andar à pera com o corpo de intervenção. Isto não tira valor à vontade de partir as grades, ou lançar molotovs, simplesmente pensar se queremos estar a fazer o mesmo que eles.

  4. Em última análise, Carlota, podia simplesmente alvitrar que “estrategicamente” a vontade da PSP é travar tudo, antevendo tudo. Não haver montras partidas porque uma marca de sumos se lembrou há uns anos de fazer uma publicidade em que se colava um plástico transparente nas montras dos cafés com uma garrafa a “entrar pelo vido adentro”; não haver motins porque há meses que eles estão previstos nas opiniões jornalísticas; não haver derrube de barreiras ou confrontos porque isso é feito por agentes infiltrados.
    A questão não me parece ser “se queremos estar a fazer o mesmo que eles”, pois eles estão dispostos a tudo e muitas dessas coisas simplesmente nos enojam; a questão deveria ser “o que queremos nós fazer?”, independentemente das lógicas da polícia (e que me parecem ser cada vez mais desprovidas de qualquer lógica).

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