“Irresponsável”

Recebi um mail assinado pelo “Secretariado”, a dar uma “Informação aos membros do Bloco de Esquerda”. Essa informação também está aqui.

É curioso que A Mesa Nacional do Bloco, de todos os adjectivos que tinha à sua disposição para caracterizar a saída do Ruptura do BE, decidiu utilizar “irresponsável”.
“Irresponsável” porquê? Segundo a nota da Comissão Política, este grupo “durante anos” ocultou as suas divergências com a Direcção, tendo aprovado resoluções por mero truque entrista… Mas se assim é, porque é que a saída é “irresponsável”?
A decisão de saída do BE é, bem pelo contrário, a mais responsável.
Para já, é coerente com a linha política do Ruptura, que diverge da do Bloco.
Não me parece que o Ruptura tenha “ocultado as suas divergências”. Desde que entrei para o Bloco, os Ruptura sempre foram oposição e apenas os vi convergir com a Direcção quando nas reuniões da concelhia de Lisboa apanhavam boleia do Luís Fazenda para bater no Sá Fernandes.
Depois, é bom para a própria Direcção do Bloco. Para quem fica.
A minha experiência enquanto militante do BE é que a discussão sempre se polarizou muito entre “a maioria” e os Ruptura. Os Ruptura intervinham organizadamente nos plenários, utilizando boa parte do tempo disponível para debate. A Direcção respondia na mesma moeda e, mesmo na intervenção final, sempre vi Louçã a centrar demasiado a coisa na resposta aos seus arqui-inimigos da FER.
Militantes de base como eu, com poucos espaços para participar na vida do partido, acho que ficam sempre com uma sensação de que o plenário não correu lá muito bem e de que se avançou muito pouco… Ora, é minha esperança, que talvez com a saída do Ruptura do Bloco, desapareça algum ruído dos plenários e se aprofunde um pouco mais o debate e o confronto de ideias.

Mas seja como for, o “irresponsável” não é único pormenor que me incomoda no mail que eu recebi. O que me incomoda verdadeiramente é todo um tom que convoca (em versão mais amadora) os “ortodoxos” do PCP…. A começar logo pela assinatura do mail…
“O Secretariado”. O Secretariado do quê? O Secretariado! “O”! “Secretariado”. Ponto.
Depois é aquela conversa da “ocultação das divergências”. Que acusação é essa? Ainda por cima agora que eles saíram… Não se percebe nada. Qualquer comentador anónimo dos meus posts escreve isso aqui em baixo, mas não assina ou mete um nickname… Não me manda um mail assinado pomposamente “O Secretariado”!
Pior é toda a história do relatório: No dia tal puseram um vídeo no youtube que aos 6 minutos e 30 segundos Gil Garcia diz isto. No dia tal a FER distribuiu um jornal que dizia aquilo… Não têm coisas mais importantes para dizer aos militantes, “O Secretariado”?
E a menção ao MRPP? “o novo partido da FER é apenas mais um grupo, entre outros, e com a mesma linha do MRPP” Mas que partido? O que vai ser criado? Mas como é que já sabem que vai ter a mesma linha do MRPP? E, já agora que se deram ao trabalho de convocar o tema, qual é a linha do MRPP?
Enfim, parece-me mesmo que irresponsável não foi a saída da Ruptura/FER do Bloco de Esquerda…

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21 thoughts on ““Irresponsável”

  1. Tanta coisa que pode ser discutida acerca da cisão do Rutura, e o título da mensagem enviada entre os camaradas mais jovens para discussão interna resume-se a: “Ruptura acha que tem 200 membros.”

  2. O Grupo Ruptura Fer aderiu ao BE, o grupo Ruptura Fer deixou o BE, pelo meio ficaram muitas dùvidas sobre as verdadeiras razões , da sua adesão.
    Estiveram QUASE SEMPRE em desacordo, com estratégia seguida pelo BE.
    Ameaçaram sair por várias vezes, e utilizaram a comunicação social para fazer eco dessas saidas, e respectivos desmentidos.
    Agora decidem criar mais um partido, sem se perceber na fase actual qual será o seu espaço, e sobretudo a sua utilidade.
    O tempo dos grupusculos, mais ou menos de esquerda,já está ultrapassado.
    A esquerda precisa de unidade, para fazer frente ao ataque das direitas.
    Precisa de propostas claras para mobilizar os trabalhadores , na resposta á crise.
    A Ruptura será cada vez mais Ruptura e cada vez menos Fer….

  3. Pelo menos vai passar a existir um autêntico partido de extrema-esquerda em Portugal. E não esta cowboiada em que é tudo do xerife.
    Paulo pá!Que saudades!

  4. PAULINHO!!! QUE SAUDADES!!!
    Com a tua ausencia tive memo para mudar o meu nick para I ♥ Renato Teixeira. Gosto muito de ouvir a comandar as tropas nas indignações, acho que tem futuro o moço.
    Felizmente voltaste e cai na real

  5. Eheh!!! o RIck Dangerous já se está a fazer ao piso para vir a engrossar as fileiras do futuro, hipotético, e autêntico grande partido da extrema-esquerda em Portugal, ao que isto havia de chegar.

  6. Em relação ao ruptura tenho a dizer que fico muito agradado com o reguresso do Paulo. Devemos centrar-nos nas questões politicas centrais!

  7. Não sei se é verdade ou não, mas chegou-me por fonte segura que o “Paulo” é o heterónimo liberal do Gil Garcia (e também o verdadeiro “estripador de Lisboa”), que andou todo este tempo sem aparecer para deixar amadurecer a saudade, após anos a piscar o olho à malta do spectrum e a marinar o seu killer instinct), para agora ressurgir após o anúncio da sua cisão com o Bloco e com a formação de um novo partido bué de esquerda memo a sério. Paulo (Gil Garcia), o teu sentido de timing político e estratégia são brilhantes, tiro-te o chapéu. Já agora – apontamento estético – o teu cabelo grisalho e espetado em contraste com as camilsolas e blazers pretos ficam-te a matar, és todo bom.

  8. Depois de passarmos o tempo todo a ouvir “irresponsável” do Passos Coelho, do Seguro, da Troika e sei lá de quem mais, só nos faltava agora também ouvir destes tipos. Devem ter apanhado o tique.

  9. Valter, até tu poderás entrar no grande partido de extrema-esquerda que eu virei a fundar, um dia, num qualquer quarto escuro. Garanto-te que haverá muita troika troika e poucos comunicados do secretariado com a palavra “talibã” lá escrita.

  10. Estou dentro, RIck, mas aviso-te desde já que tenho um fetiche por burkas, alinhas? Podemos convidar, num dos intervalos das orgias selvagens, o Paulo para um menage-a- trois de extrema-esquerda inesquecível. Achas que ele alinha?

  11. A identidade do Paulo enquanto infiltrado da extrema-esquerda no meio dos comentadores de caixas de comentários de direita é o segredo mais precioso do movimento Valter. Acabas de comprometer tudo. Estás a pedir um castigo severo e palmadinhas no rabo. Nada que não se arranje.

  12. A saída do Bloco
    1. A FER decidiu sair do Bloco no inicio de 2011 por causa do Alegre e do abandono das causas fracturantes? Isso dizem eles agora, porque, na verdade, era um plano bem antigo..
    “Em Portugal, fazemos parte do Bloco de Esquerda e trabalhamos no seu interior sem ilusões sobre a sua evolução. No caso do Governo Sócrates não manter a sua maioria absoluta, a pressão para formar uma coligação PS/BE será muito forte. Em todo o caso, considerando as condições actuais, o trabalho no BE e, mais ainda, a actividade nos movimentos sociais enquanto militantes dos Bloco, representa a melhor táctica para chegar outros sectores militantes e a que oferece melhores possibilidades para a construção de um partido, a partir da nossa inserção na juventude e no sector bancário.”
    In texto Europeu das Teses do congresso da LIT de 2008, página 10
    Original em italiano está disponível aqui: http://www.partitodialternativacomunista.org/index.php?option=com_content&task=view&id=810&Itemid=45
    A FER nunca publicou este texto no seu site. A versão em espanhol que esteve disponível no site da LIT omitia este momento de franqueza dos militantes da LIT
    2. O Ruptura tinha certeza de uma coisa, que iria sair do Bloco não sabia era quando. Aliás entende desde início que o BE é: “um remake pouco original das velhas e reaccionárias utopias do reformismo europeu”. (Teses congresso LIT).
    A questão dos Talibans:
    A direcção do Bloco na sua nota redigiu o seguinte:
    “Os membros do Bloco lembram-se de intervenções tão extravagantes como o apelo à constituição de brigadas para apoiar os talibãs no Afeganistão”
    Os membros do Ruptura/FER têm-no negado publicamente, ou como Gil Garcia nas inúmeras declarações públicas que fez, têm evitado abordar o assunto, mas vamos aos factos e às fontes:
    1. A LIT, a organização internacional da Ruptura/Fer, com sede em São Paulo, enviou uma carta ao Partido dos Trabalhadores do Paquistão (LPP, Labor Party of Pakistan) intimando os seus dirigentes e militantes a combaterem sob o comando dos talibans no Afeganistão. Farooq Tariq respondeu em nome do LPP lembrando simplesmente que, se os militantes paquistaneses, ateus e revolucionários, se colocassem ao serviço dos talibans, seriam sem dúvida gentilmente assassinados por estes e de imediato, tornando pouco útil o seu gesto generoso. Ler o resto aqui
    2. A carta da LIT bem como a resposta de Farooq Tariq podem ser lidas aqui
    O livre porte de armas
    1. Há uns anos atrás debateu-se internamente a questão do livre porte de armas, a posição do BE foi e ainda é de oposição. O Ruptura/FER divergiu, posicionando-se favoravelmente ao porte de armas, posição que o PSTU (secção brasileira) já tinha defendido em matéria de referendo, juntamente com toda a direita brasileira.
    “Vote Não! Pelo direito à autodefesa dos trabalhadores O desarmamento não vai resolver a violência. O objetivo dessa campanha é manter nas mãos do Estado o monopólio da violência e da repressão”
    As Presidenciais
    1. Na convenção de 2007 o Bloco de Esquerda foi acusado pela FER de não querer ganhar as eleições e de apenas lutar pelo fim da maioria absoluta a José Sócrates. Diziam que para isso bastava vontade da Direcção do BE, a solução passaria por uma coligação: Bloco de Esquerda + PCP + Manuel Alegre + CGTP.
    2. Chegado o tempo das Presidências a FER mudou diversas vezes de posição, defendeu Manuel Alegre, Fernando Nobre e por fim o voto em branco ou o voto em Francisco Lopes (Spectrum, 5dias, Ruptura/FER). Fernando Rosas sintetizou bem toda a novela num artigo que pode ser encontrado aqui
    Portugal em Estado Pré-Revolucionário (em 2008)
    1. “A situação política vivida em Portugal hoje aproxima-se bastante da descrita pelo revolucionário russo Vladimir Lenine como aquela em que “os de baixo não querem e os de cima não conseguem” governar. Para estar à altura desta situação, a esquerda não pode se limitar a fazer o mesmo de sempre.”
    2. “…Em contraste com o refluxo Espanhol posterior à constituição do Governo Zapatero, Portugal tem vivido mobilizações massivas que representam o despertar da classe trabalhadora Portuguesa, passiva durante muito tempo…”
    Excerto retirado de Una politica revolucionaria para Europa LIT-CI EUROPA, textos programáticos do penúltimo congresso da LIT.

  13. Dá-se portanto o caso de uma carta escrita em S.Paulo ter sido convertida numa intervenção (no plural, note-se) feita em Lisboa. Está bonito.
    Nem vos quero contar o que vi e ouvi num acampamento realizado pelos jovens da 4ª Internacional em Roma pelos idos de 2001.

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