Num Dezembro sequioso, uma Tunísia insaciável.

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“Agentes do Imperialismo tirem as mãos da nossa causa”.
Em Julho 2011 encontrei uma Tunísia ávida de futuro, hoje encontro uma Tunísia ávida de presente. A resignação democrática e geral a uma « modernidade » liberal islâmica tolheu os meios e capacidade de acção de uma pequena minoria sedenta de projectos societais eloquentes e progressistas. Mas deixemo-nos de eloquências, este ultimo discurso está desde há muito tolhido pelas verdades de fachada modernista. Aqui ou ali, « ici ou dans les pays du lointain», as pessoas querem trabalho e pão… trabalhar para comer pão, comer pão para sobreviver, sobreviver para « malgré tout » sobrepobreviver !
Enquanto ouço o apelo da mesquita para a súplica dirigida a Allah, apercebo-me que nao sei muito bem que sentido dar a este texto. Que não sei se o melhor é dar pão àqueles que não o têm ou perguntar porque é que as pessoas não têm pão para comer ? A caridade não engana, mas alimenta o corpo. As questões com respostas alimentam o espírito e frustram cada víscera do nosso corpo.
Questões abstractas para uma situação concreta e agravada por um modelo omnipresente (e sobretudo) de evolução linear imposto pelo o « Ocidente ». A « tradição » aspira a « modernidade », diz-se. E esquece-se, no entanto, que é uma linearidade estrita e rigorosamente económica, cujo resultado reflecte numa fricção entre dois corpos sociais que são tudo menos divergentes. A divergência não se encontra nos valores, na cultura arabo-muçulmana… se ela existe… se ela é tangível… esta divergência encontra-se num modelo económico que aspirja merda por todo o lado (desculpar-me-ão a ejaculação linguística, não me consegui conter). Um sistema financeiro mundializado que tudo é menos fictício, joga com a fome e ao mesmo tempo com o desejo popular de liberdade. Faz emergir burqas no campo de visão social, extinguidos outrora na era dos regimes ditatoriais neocoloniais. Focalizar-me sobre este ultimo elemento, não é do meu agrado, o uso do véu ou não é apenas a face especuladora da força de convergência entre a modernidade financeira e a modernidade islâmica. Engana-se aquele que pensa que estamos perante uma forma revivalista do arcaísmo muçulmano.
Em Tunes contra tudo isto, frente à Assembleia, um punhado de comunistas, mutilados da revolução, desempregados e mineiros de Gafsa fizeram um sit-in… estavam ali para ficar se não fossem as sandwiches distribuídas hoje para dispersar a malta. Ao que parece toda a gente está a ser evacuada para o hospital com uma intoxicação alimentar !
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Enfermeiro (desempregado) do sit-in que nao deve ter conseguido dar conta das intoxicações alimentares.
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Discurso de um diplomado no desemprego.
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« Tunísia Livre contra os cobardes ». (Dia 17 de Dezembro, 1° aniversário da morte de Bouazizi, o 1°Governo « posrevolucionário » será divulgado)
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Tapete para limpar os pés onde figuram 4 bandeiras representando o eixo : FranceAfrique, o Sionismo, Wallstreet e as Monarquias do Golfo.

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2 thoughts on “Num Dezembro sequioso, uma Tunísia insaciável.

  1. Li e entre outras retenho “sobrepobreviver”. Terà futuro.
    Verifica-se – me parece- que a nova Tunisia se devia de “metabolisar” a “sensibilidade” muçulmana (demasiado importante para ” s’en passer” na gestão politica do pais. E’ frustrante para os progressistas – digamos- mas o pleito…

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