Impasse transmontano num documentário


Anseio Lisboa como penso Damasco e descubro ainda Trás-os-Montes, terra materna. Desde o “Veredas” (Joao César Monteiro,1977) que não entrava em convulsão com um missa transmitida num écran. No entanto, ao contrário de “Veredas”, compreendemos que o padre da « La vie au loin » (Marc Weymuller, 2011) enveredou pela carreira eclesiástica para possuir um dia o rádio a pilhas com o qual o padre da sua infância fazia um brilharete. «Que assim se veja a força da igreja » onde se « respeita mais a morte do que a vida » (excertos do Veredas), e onde se canta à Nossa Senhora para que esta “abençoe os emigrantes, que da nossa terra são tantos” (excerto de “La Vie au Loin”).
« La vie au loin » é mais do que isso, é um retrato de uma região isolada onde neva como em Paris, onde a faina se faz ao ritmo da época romana. Veem-se instrumentos agrícolas desprovidos de motores, manobrados pelo homem graças à musculatura dos animais.
Cruzam-se personagens que passaram por Angola, Brasil ou França e que voltaram um dia de nevoeiro à terra fria. Escreve-se poemas ao som de uma maquina de escrever comprada com muito esforço a 20 contos no Porto. Entra-se em catarse com a dor da morte de um pai, “oh meu pai, junta-te à minha mãe que já lá está”. Gritos de dor necessários, já tão pouco aceites em sociedades autocensuradas. Que se grite histericamente… vozes femininas de desespero, tal como um ritual fúnebre no sul da Tunísia.
“La vie au loin” é um retrato de Portugal do interior, onde ainda se contam histórias de bruxas, vive-se de histórias de casamentos com o pastor do povo e sofre-se de solidão.
A televisão analógica não pareceu fazer parte da paisagem, quanto mais a digital. Mas engane-se aquele que pensa que não se sonha no futuro em terras isoladas do pos-materialismo, com modos de vida ancestrais. Derretemo-nos em frente do filme “La vie au loin” não porque se colocam perguntas existenciais… mas sim essenciais.
Giacometti conseguiu gravar e reabrir uma caixa de pandora de cânticos quase desaparecidos. Não que seja uma revivalista de um mundo perdido, mas faz sentido compreender as condições de vida presentes daqueles que vivem (mesmo que seja) num longínquo lugar. “La vie au loin” acabou de ser realizado, é um produto da modernidade.

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19 thoughts on “Impasse transmontano num documentário

  1. Não vi ainda o filme, mas ocorre-me: e ir a Trás os Montes em vez de dizer banalidades?
    “é um retrato de uma região isolada onde neva como em Paris, onde a faina se faz ao ritmo da época romana.”
    “um retrato de Portugal do interior, onde ainda se contam histórias de bruxas, vive-se de histórias de casamentos com o pastor do povo e sofre-se de solidão.
    A televisão analógica não pareceu fazer parte da paisagem, quanto mais a digital. Mas engane-se aquele que pensa que não se sonha no futuro em terras isoladas do pos-materialismo, com modos de vida ancestrais”
    desconhecimento e essencialismo; construção da diferença; exotização do “outro” (arcaico, puro, reminiscência dos modos de vida ancestrais?!)… enfim, uma onda nada moderna…

  2. Ocorre-me : veja o filme em vez de dizer generalidades. Desenvolva…estou interessada… mas nao compreendi uma vez que limitou-se a reproduzir o que escrevi! Acusa-me de desconhecimento e essencialismo? Se for o caso… muita tinta tenho para gastar. talvez tenhamos as mesmas referencias bibliograficas.
    Imagino que vive em Tras-os-montes para falar assim. Nao vivo, nem viverei. Fui e frequento. Historias de bruxas existem, tal como em Lisboa ou em qualquer outra parte do mundo, cidade ou campo. Sacraliza-las é diferente.

  3. O comentário do emanuel tá bem metido, há que reconhecer. Shift, não fiques ofendid@, este teu post é realmente um mimo de banalidades. São banalidades queridas, mas são banalidades.
    Ocorre-me dizer: somos todos um bocado parvos, não é preciso ficar na defensiva. Estaremos à espera das crónicas da Tunísia, dos arredores de Paris, etc, porque curtimos desses textos motivadores, queridos e tantas, tantas vezes, cheios de banalidades.

  4. Car@ Chiquilin, de facto que nome tao ternurento… impossível ficar ofendida se não fosse a sua falta de concentração no que diz respeito os meus posts. Raramente meto os pés nos arredores de Paris… portanto, raramente também escrevo sobre eles. Já a Tunes vou mais regularmente. As banalidades são representações sociais, logo são uma realidade.

  5. Vi este filme no Festival Jean Rouch. Este texto é um retrato fiel do filme, mas também das condições de vida de uma parte da população transmontana, que aliás muitos ignoram. Sou transmontana, parece que isto ajuda a legitimar o que acabei de escrever.

  6. Verei o filme.
    Só me parece que, se é mais um documentário que escolhe olhar para a realidade transmontana e ver uma paisagem sem televisão, ancestral, campos trabalhados por animais musculados e por homens e mulheres que lembram, na melhor das hipóteses, a Idade Média (quando não mesmo a préhistória!); então, com toda a probabilidade constitui mais um exercício que contribui para o confinamento de uma região e de quem lá vive a uma construção cultural plana, homógenea, limpa, ancorada nas densas brumas da história e da tradição.
    Não será nada de novo. Muita gente muito bem intencionada o tem feito. Desde há muito que, a partir de lisboa, porto, paris ou por aí,se olha para o nordeste de Portugal como o último reduto de qualquer coisa.
    Nas últimas décadas, então, esse reduto teve de ser levantado, estudado, apreciado, registado e filmado pois ali é que estariam os últimos não sei o quê e é preciso mesmo salvá-los. Para quê?
    Não é por acaso que os grandes investimentos na região são hoje no turismo (depois de um boom de pavilhoes multi usos, claro). Trás-os-Montes – destino pitoresco. Destino de natureza, de raízes, do bem comer…

  7. O meu problema é que não é nada disso que vejo em Trás-os-Montes. Vejo uma região que, entre outras coisas que o turismo não vai resolver, saiu do isolamento, mas onde se pagam agora portagens escandalosas para lá chegar; uma região cheia de desemprego, de onde continuam a ter de sair famílias inteiras para frança, alemanha, suiça, para não voltar mais; uma região onde quem tenta continuar agricultor não consegue escoar a produção, vivendo dependente de subsídios e esmolas cada vez mais difíceis e complexas de obter; uma região onde a maioria, idosa, tem de continuar a cultivar para complementar as reformas de miséria; uma região sem educação, cheia de analfabetos, mas onde quem fica não pode pôr os filhos na escola, porque a escola é longe e não há ninguém mais para trabalhar os campos; uma região onde o alcoolismo é maior que a solidão e onde casar é (principalmente para os homens)uma miragem; uma região deserta, sem oportunidades, quase sem chama.

  8. Pareceu-me que o discurso que elaborou (não nos podemos tratar por tu?) à volta do filme apontava pouco para estas dimensões reais da região e dos seus problemas, remetendo mais para o universo do “Reino Maravilhoso”.
    O “outro” constrói-se à custa de violência simbólica (sobre a sua “cultura”, “caracter”, “identidade”, “essencia”, “etnia” etc). quando se diz que “é um retrato de uma região isolada onde neva como em Paris, onde a faina se faz ao ritmo da época romana. Veem-se instrumentos agrícolas desprovidos de motores, manobrados pelo homem graças à musculatura dos animais.”; não consigo ver como se possa não estar a contribuir para uma visão essencialista de uma região (complexa, diversa) e dos que nela habitam (complexos, diversos).
    Isto, claro, sacralizando ou não as bruxas.(será possível, teologicamente falando?).

  9. Chiquilin eram umas bolachas, havia alguém que me chamava assim. Eu curto destes textos, pode mesmo dizer-se que desbundo. Queria só chamar a atenção para a facilidade com que se cai em tudo o que o Emanuel vai referindo, mas sem estrilho. Gosto de ler as crónicas desta correspondente por aí (não nos suburbios parisienses), espero que continuem sempre.

  10. Emanuel TM,
    Desde que postei este post já duas pessoas me contactaram para falar dos protagonistas do filme, da poesia das suas palavras, da « essência » do seu quotidiano. Duas pessoas, que como eu têm de uma maneira ou de outra uma ligação a esta região. Duas pessoas que ao contrario de mim pensam talvez Trás-os-Montes como esse « Reino Maravilhoso » de que fala. Pergunto-me, e porque não ? Qual é a nossa legitimidade para censurar uma visão de beleza e de estética numa paisagem que de facto é deslumbrante (será o Emanuel a negá-lo ?). Estaremos destinados a limitar o nosso olhar a um cenário socioeconómico devastado ?
    Muito sinceramente, confesso-lhe, essa imagem idílica do regresso à ruralidade pura não a tenho, talvez por ter incorporado memorias familiares dolorosas dessa mesma ruralidade. Vou mesmo mais longe, sou um bicho citadino que teme o rural… não esqueço a imagem de um filme japonês que vi há uns anos largos, que começa por uma panorâmica de uma paisagem fascinante, e quando pouco a pouco se faz o zoom e entramos na intimidade da aldeia descobrem-se todos os males de uma sociedade levados ao extremo. Dir-me-á que continuo num registo mitificado do rural. Do « Reino Maravilhoso » passei ao « Reino dos pecados ». Se quer que lhe diga aprendi a ser mística por vezes (mesuradamente claro), seguir simplesmente as minhas intuições para poder analisar aquilo que vejo sem categorias científicas prefabricadas. Foi a partir desse momento que comecei a ser tolerante com as minha intuições, que comecei a apreciar certos filmes. As tecnologias audiovisuais evoluíram para a felicidade do espetador. Cada vez que vejo filmes etnográficos dos anos 60 sobre um determinado ritual, uma técnica de artesanato ou agrícola agora desaparecida não fico desgostosa porque essas praticas se perderam, não as quero salvar ou ressuscitar, fico apenas feliz por ter acesso a esses arquivos.
    E porque não estamos numa terapia de grupo, falemos então das condições materiais de vida. Embora esteja de acordo com quase tudo o que descreve de Trás-os-Montes, onde não vejo contradição com a minha descrição do filme, ainda assim acho que está a ser optimista nomeadamente sobre um dos aspectos – o isolamento. Falá-nos das portagens, imagino que foram construídas estradas, mas será então que toda a gente tem carros? Ou haverá mesmo toda uma franja da população transmontana sem mobilidade, no isolamento total, uma vez que se tem testemunhado a supressão de uns quantos quilómetros de linhas férreas ou rodoviárias publicas? Fala da emigração… pois é, triste é o país onde se tem de pedir à Nossa Senhora que “abençoe os emigrantes, que da nossa terra são tantos”. Não achou piada a esta alusão religiosa, foi isso? Para mim, ao contrario, é uma metáfora que serve como exemplo muito pragmático de um país onde a emigração tem constituído uma verdadeira ruptura biográfica (uma verdadeira hemorragia nalguns casos) para muitas das suas famílias. Diz-nos também que “o alcoolismo é maior que a solidão”, finalmente caiu na mesma tentação que o realizador do filme, confinando toda “uma região e de quem lá vive” a uma “construção cultural plana, homogénea ».
    Do que é que estamos a falar afinal ? Que não há uma essência transmontana e dos transmontanos em particular ? Que tudo é mais “complexo”, mais “diverso” ? Que as condições materiais de existência dos transmontanos são o resultado de politicas consecutivas litoral-centradas ? Não preciso de ser convencida, já sou uma adepta fervorosa do construtivismo social e uma resistente contra a construção do “outro” pela violência simbólica baseada numa postura etnocêntrica e essencialista.
    Por fim, apercebo-me que a imagem da charrua manobrada pelo homem graças à musculatura dos animais, técnica da época romana, não foi do seu agrado. Diz-me que é um discurso que contribui a reduzir a região a essa « visão essencialista ». Não será o seu olhar mais quadrado do que o meu, roçando o evolucionismo ?

  11. E porque sou uma verdadeira relativista cultural, acho que o Emanuel está a puxar tudo à sua sardinha. Relativize, nem todo o mundo « olha para o nordeste de Portugal como o último reduto de qualquer coisa ». há quem ache que é o Alentejo, outros o Minho, outros o deserto do Sahara.

  12. c’est si beau ce que tu écris sur le film, je l’ai vu re-défiler sous mes yeux, ce que tu dis est très juste, il va à l’essentiel, il questionne les êtres de ces villages.
    J’y ai retrouvé tant de thématiques “vernaculaires”. J’ai beaucoup aimé son approche, Le réalisateur m’a dit avoir une ligne directrice dans son oeuvre, questionner le rêve, et tu as vu comme il parle de leurs rêves et comme il est juste de les découvrir sous cet angle là ?

  13. muito bem, acordamos o essencial, acho que se avançou desde o post propriamente dito.
    continuo sem ter visto o filme.
    só um ou outro reparo:
    não comentou a relação entre a construção de um universo que remete para a ancestralidade e para as raízes (o reino maravilhoso) e os processos de mercantilização da cultura, operados nomeadamente através do turismo (o único maná segundo muitos dos presidentes de câmara da região) e empreendidos em nome, claro, do desenvolvimento regional (que, como concordamos, está longe de ser satisfatório). é porque é este tipo de dinâmicas, muito verificáveis em Trás-os-MOntes, que me parecem ser o “mal nisso” da reeificação da beleza natural, das serras ou das bruxas (viu a performance montalegrense da sexta feira 13?).
    De resto, não se zanguem! também gosto muito de Trás-os-Montes e espero poder encontrar-vos todos por lá um dia destes…

  14. So o careto pareco estar zangado com o pessoal. Deve estar cansado da sua mascara e personagem tradicionalista.
    Nao vejo mal algum em reeificar-se serras e montes se isso serve à preservaçao e reconhecimento publico da biodiversidade (aqui, assumo, derivo para os meus codigos pos-materialistas). A mercantilizaçao da mesma, claro, é de combater nao fossemos nos pelo acesso justo e igualitario dos recursos naturais. Sobre os abusos cometidos pelas camaras da regiao no que diz respeito o turismo, conhece sem duvida melhor do que eu…
    Com as bruxas nao me meto. Tenho muito respeito.

  15. Emi,Peguei um errinho aqui. O link Mais da barra de nvgaeae7e3o este1 apontando para a seguinte URL:-O que faz com que a pe1gina ne3o seja aberta (precisa tirar o sedmbolo # do link) quando se clica no link.De resto, realmente o site e9 lindo.Parabe9ns,Carlos.

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