A propósito de relativismo… e civilizações.

Há um problema na tradução das declarações de Claude Guéant (Ministro de Sarkozy)no Publico de hoje. Não seria muito grave se essa tradução não eufemizasse o sentido e as intenções do mesmo. Enquanto que Claude Guéant diz « Toutes les civilisations ne se valent pas », o Publico traduz “nem todas as civilizações são equivalentes”. Enquanto que a segunda faz apenas referência a uma hierarquia de civilizações de maneira abstracta, a primeira faz alusão a um sistema de valores “justos” existentes em certas civilizações e inexistentes noutras. As declarações de Guéant são mais graves do que isto, incluem “nous devons proteger notre civilization”. A oposição francesa diz em uníssono que estas declarações servem a campanha eleitoral, nomeadamente para “roubar” votos ao FN. Outros sublinham o perigo de trazer termos como “civilização” para praça pública. Alain Gresh aqui lembra que a “ideia de civilização está na base do argumentário de muitas das políticas coloniais ao longo da História.
Aqui em baixo, um texto para francófilos (não fossemos nós elitistas). é uma carta aberta (“très puissante”) de André Breton escrita em 1925 (inícios do surrealismo) a Paul Claudel. Dois aspectos estão no hors-champ deste texto: um Político e outro Literário. O primeiro contra a guerra do Rif em Marrocos, o segundo contra os escritores “estadistas”, imagem incorporada com sucesso por Paul Claudel. Esta carta poderia ter sido escrita hoje a Guéant.




”Nous souhaitons de toutes nos forces que les révolutions, les guerres et les insurrections coloniales viennent anéantir cette civilisation occidentale dont vous défendez jusqu’en Orient la vermine et nous appelons cette destruction comme l’état de choses le moins inacceptable pour l’esprit. (…) Nous saisissons cette occasion pour nous désolidariser publiquement de tout ce qui est français, en paroles et en actions. Nous déclarons trouver la trahison et tout ce qui, d’une façon ou d’une autre, peut nuire à la sûreté de l’Etat beaucoup plus conciliable avec la poésie que la vente de « grosses quantités de lard » pour le compte d’une nation de porcs et de chiens. C’est une singulière méconnaissance des facultés propres et des possibilités de l’esprit qui fait périodiquement rechercher leur salut à des goujats de votre espèce dans une tradition catholique ou gréco-romaine. Le salut pour nous n’est nulle part. Nous tenons Rimbaud pour un homme qui a désespéré de son salut et dont l’oeuvre et la vie sont de purs témoignages de perdition. Catholicisme, classicisme gréco-romain, nous vous abandonnons à vos bondieuseries infâmes. Qu’elles vous profitent de toutes manières ; engraissez encore, crevez sous l’admiration et le respect de vos concitoyens. Écrivez, priez et bavez ; nous réclamons le déshonneur de vous avoir traité une fois pour toutes de cuistre et de canaille.”


Paris, le 1er juillet 1925.

André Breton, Lettre ouverte à M. Paul Claudel Ambassadeur de France au Japon

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