Allô Damasco ?

Vivas, aqui em baixo deixo-vos um mail de um amigo que vive e trabalha em Damasco. O estilo do texto é típico de uma escrita “mailistica” e de uma tradução rápida feita por mim em cima dos joelhos. Embora não concorde com tudo o que ele diz, tem a vantagem de ser um relato “bruto” do seu quotidiano, da percepção política do que se passa “sur place”, sem maquilhagem nem triagem mediática. Por fim, dá-nos alguns elementos para a compreensão da situação. Escusado seria dizer que pedi a devida autorização para publicar aqui.
« Olá,
A desorientação governa por todo o lado, há uma falta de objectividade flagrante de todos os lados, uma guerra mediática suja especialmente do lado daqueles que possuem os medias, que controlam a informação e a press mundial (capitais americanos, europeus e do Golfo árabe). A concentração da propriedade das sociedades de informação internacionais explica porque é que a press livre tem desaparecido pouco a pouco, a margem de liberdade de expressão não pára de recuar.
Sinto que esta aliança política/económica/mediática conseguiu com a sua propaganda meter-nos numa situação de embaraço moral perplexo. Estamos no centro de uma “matraquage” mediática intensiva que nos empurra a enveredar por uma posição ou uma outra, sem a menor verificação dos factos ou informações, sob o risco ou ameaça de sermos catalogados como participantes activos na matança das crianças sírias.
Creio que o que se passa atualmente assemelha-se ao cenário que foi instaurado antes da ocupação do Iraque em 2003. é a mesma política de diabolização, a propagação de valores morais (democracia, liberdade, proteção dos civis…) e a sua aplicação seletiva.
O modelo é exatamente o mesmo que no Iraque. Mas na Líbia e agora na Síria, constato que houve um ajustamento local inteligente (customization), mais « arabizado ».
Quanto a mim, continuo em Damasco, continuo a fazer vai e volta todos os fins-de-semana ao Líbano. A vida em Damasco já não é a mesma que tu conheceste, podemos ver que as pessoas não se sentem em segurança como antes. Os cafés e mesmo as ruas estão vazias a partir das 22horas. Temos algum receio de sair de noite, mesmo no centro da cidade que era bastante calmo antes dos atentados. O ambiente em Damasco foi envenenado depois dos atentados suicidas, mas ainda assim é relativamente melhor que noutras regiões. O bairro onde vivo desde que tu estiveste cá continua calmo, a maioria dos habitantes são Drusos e Cristãos. No entanto, há alguns subúrbios mais agitados mesmo em Damasco. é ai onde vivem as camadas da população mais desfavorecidos, onde há uma islamização maior e onde os Cheiks/corrente islâmica são mais influentes e seguidos. Onde a situação é mais tensa, constato este panorama, nomeadamente um sectarismo agudo onde domina um sentimento « anti-Alawites». As mesquitas e os media, sobretudo Al-Jazira, Al-Arabiya e canais salafistas que propagam os fatawas, o takfir de Alawites e Xiitas, não mostram as incitações ao odio e à violência, nem as denunciam. Ao contrário, alimentam e amplificam este sentimento. O regime e os Alawites são diabolizados, transformou-se o desconforto dos pobres e as suas aspirações por uma vida melhor em rancor e odio contra os Alawites.
Sobre a tua questão sobre a situação em Homs : há uma grave escalada de sectarismo (Sunita/ Alawites), parecendo cada vez mais uma guerra civil. A cidade é constituída por uma mistura de confissões (Sunitas, Alawites, Cristãos…). A maioria são Sunitas, os Alawites representam apenas um quarto da população. Mais uma vez a situação parece como a do Iraque no pós ocupação pelos americanos em 2003 (conflito entre Xiitas e Sunitas). Muitos acontecimentos ocorreram nos últimos meses para chegar a esta grave situação de carnificina quotidiana em Homs. Estamos longe da autodefesa contra a repressão de Estado. Neste exato momento estamos numa situação de guerra, Homs é hoje aquilo que foi Fallujah no Iraque ou na Tchetchénia para os combatentes jihadistas. Ninguém pode negar a crueldade dos serviços sírios de segurança. Centenas de civis parecem ter sido mortos pelas forças armadas. Mas temos também que reconhecer que a violência é oriunda de vários lados da barricada e é por isso que também há um numero elevado de soldados mortos (perto de 2 000 pessoas). A teoria propagada que são soldados mortos pelo próprio regime, por estes terem recusado em « abrir » fogo contra os civis, é uma pura mentira. é uma propaganda mediática.
Em Homs, a violência resulta tanto do exército e serviços de segurança, como dos combatentes islâmicos, e dos militantes Sunitas e Alawites. Os médias mostram apenas um lado da realidade, é sobretudo a imagem que querem veicular de um regime armado que mata civis e manifestantes pacíficos. Por exemplo, estima-se que perto de 1000 Alawites foram massacrados/executados em Homs pelas milícias jihadistas ou antirregime. Os medias contam e fotografam essas vitimas como civis mortos pelo exército sírio. A maior parte dos 200 cadáveres estropiados e mostrados pendurados nas ruas antes da ultima reunião da ONU eram Alawites. Estes cadáver foram “stockés” e centralizados para esse « filming ». Os dias que precederam a reunião foram os dias mais pacíficos em Homs, toda a gente conhece o fiasco. é a mesma política de propaganda mediática e cobertura seletiva de acontecimentos (focalização sobre alguns factos, dissimulação ou mesmo fabricação de outros) alternados com as declarações politicas internacionais que lembram o célebre speech de Colin Powell na ONU sobre as armas de destruição massiva no Iraque e que veio a revelar-se uma pura fabricação enganosa.
Bawsat »

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6 thoughts on “Allô Damasco ?

  1. Porque haveremos de confiar nesse teu amigo? Pretender que todos os media e opositores sírios estão em conluio para fabricar mentiras monstruosas, simplesmente não tem plausibilidade nenhuma.

  2. Joan P. ecrsigue:vallfosca,Els catalans, uns som massa sentimentals i massa poc practics en els afers que toquen a la nostra identitat nacional amb quatre paraules ens tenen contents i els altres agafen aquesta maxima tan perversa que diu el que no son pessetes son punyetes i l’apliquen tambe als afers nacionals. Entre els uns i els altres anem arreglats tots plegats.Una encaixada company

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