Occupied Lisbon

Parece que vão tentar despejar a es.col.a no fim do mês. A ler sobre essa iminente situação fui-me lembrando das inúmeras casa ocupadas em Lisboa que foram sendo despejadas e do que delas foi feito depois. Das várias dezenas de tentativas de ocupação que foram feitas não houve mais do que três ou quatro que tenham durado mais do que meses, e apenas uma que tenha durado mais do que um ano. Sendo o quadro legal bastante diferente de outros países o processo de ocupação foi sempre bastante complicado, em Espanha ou na Holanda, por exemplo, a queixa do proprietário dá origem a um processo no tribunal e só após a conclusão deste podem os ocupantes ser expulsos, isto dá uma janela de três meses a vários anos que permite construir projectos mais complexos e duradouros. Apresentam-se estes casos enquanto exemplos, mas seria interessante ver quantas casas ocupadas e despejadas continuam vazias, sem dúvida a maioria.
A casa okupada da praça de espanha foi ocupada em 1996. Propriedade da Câmara de Lisboa, João Soares, seu presidente na altura, acedeu a que os ocupantes permanecessem no espaço desde que não “espalhassem muito o movimento okupa por Lisboa”. A casa esteve ocupada até agosto 2002 e de certo modo organizou e relançou partes e correntes daquilo que grosso modo poderá ser um movimento anarquista em Lisboa, mas essa é outra história. Funcionou de modo assiduo enquanto sala de concertos para uma considerável cena musical underground que hoje em dia toca em lugares bastante mais dignos, como estações de metro patrocinadas por empresas de telecomunicações. Após a vitória de Santana Lopes o executivo camarário decidiu por termo à ocupação e enviou Helena Lopes da Costa, mais tarde envolvida em vários casos de corrupção durante o periodo de Santana e Carmona na câmara, para despejar os ocupantes. Estes resistiram e barricaram-se lá dentro entrando em negociações que deveriam continuar no dia seguinte, mas não chegou a haver dia seguinte porque às seis de manhã, aproveitando uma saída para ir comprar comida, a PSP invadiu a casa e expulsou os ocupantes, tendo esta sido imediatamente demolida. Os ex-proprietários da casa moveram um processo à câmara, esta tinha sido vendida sob a promessa de que não seria demolida. Helena Lopes da Costa apressou-se a dizer aos repórteres que os ocupantes tinham recusado a oferta de um espaço em Chelas, quando na verdade essa proposta não tinha sido sequer feita, tinha sido mencionado que eventualmente poderia ser cedido um espaço, não especificado, e nada mais. Lopes da Costa foi ainda ao quintal da casa enquanto decorriam as negociações. Logo que saiu correu aos jornalistas dizendo que tinha estado dentro da casa onde o chão mal se distinguia entre seringas. Os jornalistas conheciam a credibilidade da senhora e não divulgaram sequer essas afirmações.

Meses depois do despejo alguns dos ocupantes combinaram um piquenique no espaço abandonado para comemorar o aniversário da ocupação da casa. Nem meia hora lá ficaram porque foram imediatamente corridos à bastonada. O buraco esteve vazio até hà um ou dois anos, ou seja, esteve oito anos sem uso. Um baldio entre um prédio e uma vivenda que albergava uma clinica. A clinica saiu e uma esquadra da polícia ocupou a vivenda. Num acto de miserável ironia o espaço da casa ocupada da praça de espanha é hoje a metáfora perfeita de tudo o que está mal no mundo: O parque de estacionamento da esquadra da PSP.
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As imagens do google ainda não revelam o parque de estacionamento. O buraco esteve assim oito anos
Em 2000 foi ocupada a casa de São Mamede na rua de São Mamede ao largo do caldas. Diz que um dia Paulo Portas se cruzou com um dos ocupantes e lhe soltou um sonoro “Bom dia vizinho” ao que o ocupante lhe respondeu “vai para o caralho”. Foi ocupada enquanto habitação para um grupo de seis ou sete pessoas e durou quatro ou cinco meses. Era propriedade da Santa Casa da Misericórdia e um dia dois funcionários que foram lá ver algo descobriram que tinha sido ocupada. Seguiu-se uma conversa na sede da santa casa onde foi explicitamente dito aos ocupantes que se estavam regalmente a cagar se tinham outro sitio ou não, que a santa casa era uma empresa como outra qualquer e que tinham X dias para se porem a andar. Os ocupantes lá permaneceram mais uns dias até uma madrugada que acordaram com a polícia a arrombar a porta. Espertos e agéis como eram fugiram por trás, passando para o Chapitô e dai para liberdade. 12 anos depois a casa permanece vazia e emparedada.
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São Mamede Volveremos!
Em 2004 foi ocupado um palacete na rua do Passadiço em Lisboa, com vista a servir de habitação e de centro social. Iniciou-se desde logo uma relação com a miudagem do bairro que frequentava a casa com o mesmo à vontade, até mais, do que o colectivo que a ocupou. Chegou-se a um acordo verbal com o proprietário em que se ali poderia permanecer enquanto um projecto de reabilitação não fosse aprovado, tendo vários representantes seus visitado a casa em diferentes ocasiões para inspecção e análise das infrastruturas, tarefa que sempre decorreu pacificamente. Para além de servir de casa a cerca de dez pessoas o espaço organizava inúmeras actividades e dava abrigo a outros tantos projectos de vários colectivos não envolvidos directamente com a sua manutenção. Cerca de seis meses depois de ser ocupado o proprietário informou que tinha planos para o sitío e que este teria de ser abandonado. Combinou-se uma data e foi marcada uma festa de despedida para a sexta-feira anterior ao dia em que os ocupantes abandonariam o edificio. Mas nessa mesma sexta de madrugada cerca de trinta agentes das forças de intervenção da PSP desceram em rapel a fachada interior do edificio, com as escadas ao lado, e detiveram as cerca de 10 pessoas que lá dormiam, a maior parte despertada por vários agentes da polícia a irromperem nos seus quartos com armas apontadas. A polícia tinha recebido uma queixa seis meses antes e tinha decidido executar o despejo naquele mesmo dia. Sete anos depois a casa continua vazia e emparedada.
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23 thoughts on “Occupied Lisbon

  1. Faltou falar de alguns outros projectos mais ou menos bem sucedidos, como a casa de Benfica, ocupada durante alguns 6 meses também. 2 casas em Queluz, durante alguns anos. 1 casa em Cascais, outra na Linha do Estoril. Foram menos emblemáticas, mas contiveram experiências diferentes e importantes cada uma delas.
    E quê ? agora?
    Mesmo na Praça da Figueira há um prédio novo, todo remodelado, que foi abandonado imediatamente a seguir Às obras. A quem pertence? ao BPN.
    Por isso a todos nós, já que ali estão enfiados parte do roubo que esses cabrões nos andam a fazer há anos.
    Abraço

  2. Foram as que conheci melhor, haverá outras tantas histórias tão ou mais dignas de serem conhecidas.
    Siga p praça da figueira.

  3. Não cheguei a perceber que diz a lei portuguesa sobre isto…
    É que em Espanha, é também ilegal, o que se passa é que existem organizações que teem consultoria judicial (grátis) e vão procurando buracos na legislação para que consigam okupar e resistir mais tempo.
    Também é importante mencionar que a única forma de ganhar força nestes projectos é fazer exactamente como na escola, criar workshops e fazer um espaço para a gente e com a gentes daí!!

  4. a escola é realmente isso, uma escola de ideologia hippie reaccionária. foi ocupada por um banda de activistas e ideólogos para venderem o seu peixe. merecem tanta solidariedade como as iniciativas do partido estalinista ou da igreja católica. esses pelo menos têm que pagar pelos seus espaços e não estou a ver porque teria que ser diferente para esta seita que difunde ideologia reaccionária. se essa ideologia se materializasse era uma autêntica hecatombe do género humano, pela fome e pela doença. não passam de confusionistas. rua com eles!

  5. o problema da defesa da ideologia única é esta, pensar que tudo o resto é o apocalispe. é a falta de conhecimneto e de exemplos praticos daquilo que nao se ve sempre. a net, criada pelo nosso senhor permite um implosão dessa desculpa tipicamente quadrada, uma representação da classe preguiçosa.
    pensem mais, vejam mais e percebam que o que se passa é um roubo e a solução nõ é a responsabilização apenas individual. é muito mais que isso.
    deixem-se de merdas

  6. No no palacete da rua do passadiço houve grandes obras. Apesar da fachada se manter o edifício foi todo destruido, mesmo com as características arquitectónicas e decorativas que interessava aos proprietários salvaguardar. A fachada deve ser para os agentes imobiliários “dizerem” á câmara que preservaram o edificado. São os regulamentos que a cãmara tem para inglês ver na salvaguarda do património urbano e srquitectónico do centro histórco da cidade. O edifício e jardim estavam em excelente estado (quando em 2004 o visitei no âmbito das actividades que ali decorriam) mas está hoje destruído. Memória descritiva? Memória histórica?´Isto é outra história a juntar a esta outra tenebrosa da polícia a aparecer assim a meio da noite e do julgamento das pessoas assim detidas

  7. ganda posta!
    De alguma maneira parece que falar de okupação é falar do passado.
    O abandono não abrandou na cidade, a propriedade urbana não é mais meiga para com os seus habitantes. Mas parece que uma nova maneira de falar e agir sobre isto é urgente. Mesmo nas capitais do movimento, cada vez menos espaços autónomos.
    A escola pode dar pistas para esta discussão, mas custa-me aceitar que seja esse o único caminho. e que falta faz a lisboa uma okupa das antigas.

  8. A Câmara mudou e a casa foi desocupada e demolida.
    Quanto mais alavancas de poder estiverem mais à esquerda, mais possibilidades há para o próprio Movimento avançar em todo o lado

  9. A câmara é de esquerda agora e o espaço ocupado na rua de são lázaro na greve geral de 2010 foi imediatamente despejado. não ouvi nem ai nem ui da Roseta ou do Sá Fernandes. Lembras-me o discurso de algumas pessoas em Bolonha em 2004 quando o Coferatti, uma espécie de Carvalho da Silva italiano, chegou à câmara, tudo muito esperançoso acerca de um novo momento de colaboração entre o movimento social e o poder local. ed invece no. um ano depois tudo despejado e a levar porrada na rua.
    (19 aninhos)

  10. Aliás Saboteur, tendo já ouvido esse tipo de argumentação várias vezes, e sendo que acho que até há diferenças entre um poder de esquerda e um de direita, gostava que me ilustrasses um ou dois casos em que tenha acontecido essa colaboração entre a esquerda nas “alavancas do poder” e o movimento social que tenham sido assim tão porreiras.

  11. Curioso, gostava de saber onde arranjas-te essa informaçao, sobre alguns desses espaços ocupados na tuga. Querias falar do que não aconteceu nos espaços depois das ocupações, no entanto ficás-te
    por algumas histórias muito mal contadas…
    Esqueces o importante, para falar do superfícial.

  12. Provavelmente não haverá em Lisboa um exemplo absolutamente marcante tipo Porto Alegre e o seu Fórum Social Mundial, mas eu valorizo – se calhar por estar habituado às derrotas consecutivas do Movimento – os pequenos grãos de areia, os pequenos movimentos, os pequenos avanços, até como uma pequena contribuição que pode ser depois mais importante do que o que se pensava num primeiro momento.
    A cena da casa da praça de Espanha acho que é um bom exemplo. Mas nessa altura, a Câmara apoiava colectividades formais e informais das mais diversas formas, nos jogos de lisboa, nas festas de Lisboa, nas comemorações do 25 de Abril… Aliás, eu vinha de Sacavém para Lisboa na noite de 24 e depois no dia 25 porque eram sempre brutas festas, grandes concertos, que acho que de alguma forma ajudam também a formação das pessoas… Lembro-me de ler um artigo no Expresso contra a CML por promover um concerto gratuito com o Mano Chao, que supostamente incentivava o uso de drogas…
    Apoios a associações, a projectos… Ainda temos ali no WC um exemplar do jornal do pelouro da juventude da CML, distribuido gratuitamente, onde colaboravam a marta lança, o ricardo noronha, o pedro vieira… creio que tudo isso conta. Eu proprio cheguei a fazer um nº de uma publicação – que se ficou pelo 1º nº – com o apoio da CML, o Causas Comuns, que tem um grande texto do Manuel João Vieira sobre o 25 de Abril.
    ….Mas a própria cedência de uma sala de um S. Jorge para uma qualquer iniciativa é mais ou menos facilitada conforme o momento político que se vive numa câmara e as sensibilidades políticas de quem decide. Isso não é evidente? Idem para a facilidade com que se tiram licenças de ocupação de espaço público e de ruído para festas e concertos, por exemplo.
    Mas para acabar em grande, conto-te que quando o PNR pôs um outdoor no Marquês, houve grande indignação, mas o Vereador dos Espaço Público do PSD saíu em defesa do outdoor e da “liberdade de expressão”. O mesmo Vereador mandou retirar depois muito diligentemente o dos Gato Fedorento porque era um “cartaz privado sem licença camarária”… Ora, com outro Vereador na CML, o Out-door do PNR de Entrecampos foi retirado algumas horas depois e guardado em parte incerta para nunca mais voltar. (e ainda hoje, se vires nos fóruns, espumam pela boca de raiva eheheh)
    Neste momento os fachos têm de continuar a considerar a possibilidade de a CML lhes sacar o outdoor e ir por água abaixo aquele investimento que fizeram (que ainda é pesado). Mas o mais importante é o sinal que se dá do inadmissível que é afirmar publicamente e às claras que os imigrantes têm que ser expulsos e coisas do género.

  13. “A casa okupada da praça de espanha foi ocupada em 1996. Propriedade da Câmara de Lisboa, João Soares, seu presidente na altura, acedeu a que os ocupantes permanecessem no espaço desde que não “espalhassem muito o movimento okupa por Lisboa””.
    Não sei onde é que foste buscar essa…

  14. Fui buscar ao relato, em primeira mão, de várias pessoas do grupo inicial que a ocupou. A história também é relatada numa entrevista numa qualquer fanzine anarquista da altura, cujo o nome agora me escapa. Era isso?

  15. Mas Sab, isso é tudo muito bonito e agradável, ou seja, parece-me simpático o anti-racismo desavergonhado nesse caso, o apoio a certas iniciativas, a cedência de espaços e meios.
    Mas apenas muito tangencialmente é que essas coisas são o “movimento”. O movimento não a uma sociedade civil que encontra nos meios facilitados pelo poder o local a capacidade de se expressar e organizar, e também não é que por vezes tanto o poder como a esquerda coincidam nos seus inimigos.
    A ocupação de um imóvel na câmara era tolerada por várias razões menos óbvias, entre as quais um certo paternalismo, e também ser considerado algo mais excêntrico do que político. De aí o aviso que podiam ficar desde que não espalhassem muito a “coisa”. Ou seja, era tolerada exactamente porque não era encarada enquanto “movimento”. Porque quando foi assim claramente comprendida não durou nem dois dias, vide são lázaro.

  16. Eu também acho que “O movimento não é uma sociedade civil que encontra nos meios facilitados pelo poder o local a capacidade de se expressar e organizar”. Mas acho que se o poder local facilitar os meios ao movimento isso é útil e bom e não é mau.

  17. Esta coisa da okupação cheira-me a parasitas… por outro lado gosto da ideia se estiver virada para a comunidade e para actividades que possam enriquecer a vida das pessoas. Porém, não olhemos só para um lado da coisa…

  18. 3 dias depois de ser escrito este post a Kylakankra despediu-se . RIP e tal … :|
    1.bp.blogspot.com/-Sl2HPnX-e8A/T1nrK-KBixI/AAAAAAAAQe4/r-kNXsNi2nA/s1600/666666666.jpg

  19. canarchaudry / Gosh David what am I going to do without your vlog that bngris so much fun!..are you sure the snow is outside and not inside?? lol!! and yeah! I clearly remember Katsu, awesom cat! thanks to him for taking your mind away for a split second there while blogging. Honestly,you have the most priceless reaction to subtle noises around you put a smile on my face each time haha..idk,why that is. and oh,let me guess letter A is probably Amber’s! (nvm)Well, it’s day off and thought to come here and ramble a bit:) I must say..what a tremendous accomplishment that is for you to be able to act the leading role of the famous Nandito Ako miniseries, you did such an amzing job playing Josh Bradley, I almost forgot your real name haha really enjoying all the episodes so far including the bunnysuit scene!:)..I agree, what a great bunch of people! Nandito Ako family is!! Oh, and Bench family too..awesome stuff!:)Good to know you are in a relax mode at home even thou you are still busy w/ the finishing touches on OPM Forevermore album(exciited) and also with working on the new songs for everyone to enjoy to be release while you are on your 2 years mission. Thank you for always choosing songs carefully and lovingly which relate to what’s going on in your next chapter in life. I would like to think this kind of heartfelt emotional songs is what you are able to connect your heart with the world, a special gift that you are bless with, David:) Thank you for following your heart and spreading the peace,love and harmony thru music. I believe it is the most important things human race struggle with from the beginning of time and it is gonna come haha Oh boy..sorry for rambling way longer than you the least I could do before you go, hope this is not the end thou:) Thank you for everything David. looking forward sending you a letter or postcard on your mail address. gosh, hope you will find it lol. Alright,have fun with the family, take care always David:):):)>

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