Exercício de autocrítica

Tive mais uma altercação com um automobilista que teve todos os clichés do costume – «devias andar encostado à berma em vez de andares a atrapalhar o trânsito», «nem traz matrícula, nem capacete» – e alguns bem divertidos e originais: «É ciclista mas nem uma garrfinha de água traz» e «o desgraçado nem sequer carro tem».
Houve no entanto um “argumento” dele que me deixou a pensar: «Se está aqui uma ciclovia [estávamos na Duque D´avila] porque é que vai pela estrada?».
A construção de ciclovias (pelo Dr. José Sá Fernandes enquanto eleito pelo Bloco de Esquerda, já agora, só para animar os meus leitores de estimação…), teve como principal impacto o sinal público que se deu de que esta cidade também era ciclavel e que era socialmente desejável que mais gente pudesse circular de bicicleta.
Por outro lado, institui-se uma espécie de regime de apartheid, contrário à filosofia da desejável partilha de espaço na cidade, em que o sinal que se dá é que as bicicletas têm de ir nos seus caminhos próprios “para não atrapalhar o trânsito”.
Eu, que sempre defendi a criação de uma rede ciclável, tenho cada vez mais a sensibilidade de que, nesta altura, já não se justifica investir mais em ciclovias.
Vale bastante mais a pena canalizar todos os fundos disponíveis, para a promoção da mobilidade ciclável, para um sistema (nem que fosse piloto) de bicicletas de uso partilhado em Lisboa.

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19 thoughts on “Exercício de autocrítica

  1. Reacção intuitiva que espero, espero bem, para não dizer exijo, seja conforme à resposta dos livros devidamente consultados.
    As ciclovias não significam, nem de perto nem de longe, que os ciclistas estejam excluidos das vias normais (tirando talvez as auto-estradas, felizmente raras nos centros urbanos).
    Portanto, em principio, o carro malcheiroso não tem que andar na ciclovia, mas é perfeitamente legitimo, e permitido pelo codigo da estrada, o ciclista andar na rua (desde que não seja em contramão e desde que ele respeite as regras e os sinais de trânsito).
    Consequência : v. pode não ter matricula (não havia matricula nas biclas a uma determinada altura ? ou estarei a confundir com os ciclomotores ?) mas tem tanto o direito de estar onde esta como a tia do automobilista que o intereplou tem de andar no banco traseiro do carro malcheiroso dele.
    E se por acaso existem regras em contrario, é de agir urgentemente para as revogar.
    Boas

  2. Tens de levar a bicla no metro. Assim já não atrapalhas o trânsito, não ouves bocas e fazes o teu número junto das garinas ;)

  3. Isso é mesmo uma grande ideia, anónimo!
    E sobre o José Sá Fernades? Não queres comentar também? ;)

  4. Grande ideia a tua! Mais ninguém se lembrava de entrar com uma bicla dentro do metro à hora de ponta

  5. A minha ideia não é levar uma bicla no metro à hora de ponta, mas sim haver a hipótese de a levar fora das horas de ponta.
    Como habitual, truquzinhos…
    Se te vir um dia no Metro de bicicleta vou gozar tanto contigo :) …E tu eventualmente justificarás que fizeste com sucesso o tal “número junto das garinas” (desculpa lá, mas quem se lembra de escrever uma coisa dessas é porque realmente anda a pensar numa coisa dessas), e que agora estão a ir juntos para tua casa e não fazia sentido um ir de metro e outro de bicla… vou gozar contigo e vai ser aqui uma cóboiada na caixa de comentários do Spectrum.
    Estamos a precisar dessas polémicas! Baixamos para 400 visitas diárias :)

  6. João: concordo contigo, mas creio que há realmente regras que têm de ser revogadas e até lá não as tenciono cumprir. Por comodidade e como forma de mostrar que são estúpidas…
    Sem desenvolver muito – tenho de ir apanhar sol – digo-te que passo sinais vermelhos (nomeadamente para virar logo à direita) e ando no sentido contrário dos automóveis em ruas em que a largura
    é ais do que suficiente para passarmos os 2 ao mesmo tempo em segurança se eles não forem em excesso de velocidade (como é muitas vezes hábito).

  7. confesso escassa pachorra para boa parte dos ciclistas. comportam-se tão mal como muitos automobilistas transferindo para as duas rodas a mesma falta de respeito pelo outro e os comportamentos de condução perigosa (como ultrapassar automóveis pela direita, metendo-se entre o passeio e uma viatura que não está a contar com ela.)
    Mas a mim, que sou essencialmente peão, o que irrita mesmo é levar com os ciclistas em cima do passeio, como se a bicicleta não fosse um veículo, ou atravessando montados passadeiras pejadas de gente em contra-mão.

  8. Discordo que a rede ciclável já esteja “no ponto”. Ainda faltam muitas ciclovias – nomeadamente as que ligam a parte baixa do planalto alto da cidade – para fechar a rede.
    Agora, se a solução são ciclovias que separam as bicicletas do resto do trânsito, se são faixas pintadas no chão, ou sharrows que indicam a presença de ciclistas, ou ainda as famosas bici+bus, é uma questão que os técnicos, os engenheiros e os arquitectos que fazem o planeamento da rede ciclável saberão optar, consoante as características das vias.
    Alguma legislação precisa de ser revista entretanto. No caso das ciclovias tem de cair a obrigatoriedade de um ciclista circular nela quando existe, podendo optar por ir na estrada se assim o entender (às vezes é bem mais rápido, quando há dezenas de peões atraídos para as ciclovias, algo que até compreendo que façam).
    Depois é a criação do estatuto das faixas bici+bus no código da estrada, que ao que parece ainda não está resolvido.
    O facto é que ainda há muita gente a circular pelos passeio… Talvez tenham medo de circular na estrada, mas isso não lhes dá o direito de buzinar para os peões – que não têm mais nenhum sítio por onde circular – se afastarem. E é a essas pessoas que as ciclovias fazem falta, para experimentar este meio de transporte na cidade.
    E farão ainda mais falta quando (finalmente) houver o sistema de bicicletas de uso partilhado.

  9. Eu diria ao Anónimo das 11:17 que é sempre irritante ver alguém a abusar da posição dominante para oprimir o outro… De bibicleta no passeio ou nas passadeiras a fazer razias aos peões é um abuso condenável…
    Agora, daí a comparar os automobilistas aos ciclistas, é uma tal diferença de escala que soa a demagogia… É como comparar Paulo Portas a Hitler, ou coisa assim…
    Um carro, para além de ter extrenalidades negativas na cidade, no ambiente e na qualidade de vida de todos que uma bicicleta não tem, um carro que dê um pequeno toque num peão ou numa bicicleta, manda logo o outro para o hospital na melhor das hipóteses… Já uma bicicleta que dê um toque num carro, com dificuldade fará um risco na pintura.
    Por exemplo: As ultrapassagens aos carros pela direita, que tanto te choca: tendo em conta que a velocidade de uma bicicleta será 20 km por hora, o carro para ser ultrapassado, deverá ir mais devagar… Provavelmente estará parado a buzinar… Qual é o grande perigo que isso oferece para o automobilista ou para o ciclista?
    Qualquer automóvel a andar a 50 km hora na cidade, mesmo que esteja a fazer uma linha recta entre a expo e Belém, está estatisticamente a ser mais perigoso do que uma bicicleta a ultrapassar pela direita um automóvel parado.
    Infelizmente, as mortes por atropelamento, os choques com as traseiras de outros automóveis, os despistes, os embates frontais com os carros que vêm em sentido contrário, estão aí para o demonstrar.

  10. truquezinhos o caralho! O metro já permite o transporte gratuito de bicicletas depois das 20h e durante todo o dia aos fins de semana e feriados.

  11. Saboteur, A esmagadora maioria dos automobilistas nunca na vida pensou em termos de prejuízo ambiental. Um ciclista sim, pelo que custa bem mais vê-los comportarem-se de forma escassamente respeitadora, mostrando-se tão desrespeitosos como alguns automobilistas. Ao volante devem ser tão trogloditas como um taxista.
    Sou engenheiro pelo que a conversa sobre massas e velocidades está mais que entranhada em mim. Não é isso que está em causa. As ultrapassagens pela direita são proibidas pelo o código de Estrada. Ainda por cima não se trata de uma regra sem sentido, trata-se de uma questão da mais estrita e sensata segurança. O mais certo é que o automóvel não conte ser ultrapassado por essa banda, entrando facilmente em movimento sem dar pelo facto de estar a vida de um irresponsável em risco.

  12. Pois é seu anonimo 10:15 mas lá por as pessoas andarem de bicicleta não quer dizer que tenham qualquer tipo de consciência no prejuizo ambiental, nem tão pouco quem anda de carro ou outro veiculo motorizado é um sacana anti-ecologico sedento de sangue e morte..inda por cima nos dias que correm, onde a bicicleta é mais um acessório de moda social tal como um bulldog francês ou outra idiotice produzida em fábrica para consumo da massa “alternativa”…pessoalmente acho que um ciclista com consciencia de tudo o que tá mau na estrada tem ainda mais razão pa andar pelo meio dos carros a distribuir pontapés nas portas a a mostrar o rego (enquanto pedala por entre o transito) a todas as donas de casa chocadas por demorarem 45min a fazer um trajecto de 2km pa ir buscar as jovens crias ao infantario quando podia muito faze-lo a pé (ou de bicicleta) preservando mais a sua saude, das suas crias e gozando melhor o seu tempo em familia…o problema surge de há muitos anos pa cá em todo o segmento das duas rodas..os automobilistas nem concentrados na sua propria conduçao vao, quanto mais em motas e bicicletas que passam sem eles verem pela esquerda, direita , por cima ou por baixo…o problema passa tambem pelos domingueiros…sejam eles de bicicleta ou de carro ou de trotinete, aquelas pessoas que, nao só ao domingo, mas todos os dias da sua vida, andam como se o mundo girasse a volta da sua viatura e toda gente tivesse que andar ao seu passo…ta certo, evitar a passadeira com peoes e os automobilistas coitadinhos, vitimas do seu proprio engarrafamento e da sua idiotice..e é ve-los a correr e a passear por cima das ciclovias, que o chao é mais bonito e lisinho, nao se gastam os tenis de corrida…o mais certo mesmo, é o automovel nao contar ser ultrapassado por lado nenhum porque é o rei da estrada, e não so em andamento…quantos ciclistas em lisboa nao se espetam em portas a abrir de carros estacionados e de outros veiculos que estacionados entram na via sem ver se alguem de duas rodas se cruza no seu caminho…quando tirei a carta nao me lembro em centenas( si e foram centenas ) de testes que fiz ver quest~es relacionadas com bicicletas nas faixas de rodagem, talvez devesse começar por ai…talvez pudesse passar por um maior control e mais apertado limite de velocidade a certas horas por toda a cidade…e noutro assunto, essas faixas bici bus é muito boa ideia, desde que haja educaçao nesse sentido, de toda a parte, mas parece que alguem resolveu por esta sociedade a dar passos maiores que as pernas a um ritmo mais stressante possivel e depois quando ha merda chamam-nos selvagens, ignorantes, fora do sitio, e “acidentes”..fugareiros? mata-los a todos, inclusive os da minha familia! esste texto está sem o novo acordo ortográfico e sem a maior parte dos acentos por decisao do autor que nao tempo pa discutir bicicletas digitais..

  13. ah..e enquanto as pseudo ciclovias que temos funcionarem so para domingueiros e passeatas e corridas de fundo e estacionamentos automobilisticos podem ter a certeza que vou ciclar na estrada até toda gente perceber que as ciclovias sao as “estradas” das bicicletas, alias, sao estradas mesmo, sem aspas. não é a toa que nos estados unidos quando alguem atropela um peão ou um ciclista utilizando um automovel seja considerado “assault with a deadly weapon”…mas aqui a policia gosta é de outros carnavais, e nem me venham com a historia da caça á multa, se eles quisessem, aliás, se eles fizessem realmente o trabalho deles ( e tou a falar de transito), tavam ricos…

  14. O anónimo de 9 de Março pergunta “mas quem é José Sá Fernandes?”
    Trata-se do Vereador que foi atacado na última intervenção de fundo do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal por querer substituir os carros da frota da CML por carros eléctricos numa vergonhosa operação de marketing
    http://lisboa.bloco.org/sites/default/files/http___www.am-lisboa.pt_index.php_eidtx_nawsecuredlu0file_fileadmin_assembleia_municipal_partidos_politicos_be_propostas_intervencao_de_joana_na_informacao_escrita.pdf

  15. Eh pá foda-se vai pela ciclovia quando podes, agora que a tens é que queres fazer do caos da cidade um espaço ciclável. se estiveres a contar com a cidadania de outrém bem que podes esperar.

  16. Ao zé, do dia 16 que me interpela, respondo que
    como peão uso transportes públicos (não percebo a lenga-lenga toda em redor dos automóveis com que fui mimoseado mas imagino que seja discursar por lugares comuns) e que como preguiçoso nem para apanhar o metro corro, quanto mais nas ciclovias.
    O que não quero é quase ser atropelado por bicicletas como aquela de ontem que travada por um sinal vermelho, galgou da estrada para a passadeira, quase me passando por cima para percorrer parte do passeio sem desmontar e aproveitar o sinal verde dos peões um pouco mais à frente.
    os passeios tornaram-se muito radicais com o pessoal das bicicletas, quero lá saber se demoram menos a ir buscar os filhos à escola. eu nem tenho filhos.
    E sim, quando um automobilista abrir a porta da direita e esmagar um ciclista, que não devia estar ali, essa do porte de deadly weapon é mesmo boa ideia. Não vamos é multar o ciclista que acabou de se suicidar, coitadinho, por não cumprir o código da estrada.

  17. Pedro, sf3 ne3o percebo a lf3gica do aba fanica meniara de trazer mais pessoas para este meio de transporte e9 mesmo dando-lhes a segurane7a da forma mais evidente das vias exclusivas. Depois, naturalmente, as pessoas ve3o sair das ciclovias e andar pelas estradas de uma forma natural…bb. Se o que impede as pessoas de andarem de bicicleta for a segurane7a (objectiva ou subjectiva), e se as ciclovias resolverem esse problema (pelo menos o da segurane7a subjectiva), como, quando e porquea se dare1 o salto da zona segura para a zona perigosa ? Ne3o seria de esperar que as pessoas sf3 andassem nas ciclovias? Como e9 que treinar algo numa zona segura te estimula ou ensina a treinar esse mesmo algo numa zona perigosa ?E se isso realmente acontecer, se as pessoas comee7arem a usar a estrada e ne3o sf3 a ciclovia, ne3o podere1 significar que o factor fundamental para as pessoas comee7arem a usar a bicicleta no dia-a-dia ne3o e9 ter zonas seguras mas simplesmente je1 terem algum he1bito de usar a bicicleta? E nesse caso, ne3o havere1 formas de promover esse experimentar a bicicleta que sejam mais eficientes do ponto de vista do investimento pfablico, da segurane7a de todos os utentes da via pfablica, da safade pfablica, da livability das cidades, etc, etc? Ne3o fare1 sentido que nos guiemos pela me1xima First, do no harm. ?O uso da bicicleta tem aumentado visivelmente nos faltimos 3 anos, praticamente sem ciclovias. O que este1 a causar este aumento? De que forma e9 que essas causas podere3o ser estimuladas pelas entidades pfablicas e privadas?Nestas questf5es, muitas vezes tenho mais perguntas que respostas

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