As palavras não deixam

Se pedirmos a um jornalista para verificar se o título “Ajuda financeira chega no dia 20 de Janeiro” é correcto ele irá investigar se a data está certa e, uma vez confirmado esse facto, garantirá que o título está correcto. O valor lógico da proposição é “verdadeiro”. O título passa o teste. Os outros elementos da proposição – “ajuda financeira”, “chega” – são considerados dados, nomes e acções neutras. É evidente que não é assim. Cada uma das palavras que usamos possui uma carga semântica que evoca esta ou aquela ramificação de significados, esta ou aquela resposta humoral; uma história de uso, que evoca esta ou aquela memória; uma etimologia que acorda esta ou aquela ressonância e que lhe cria uma árvore genealógica de narrativas específica, etc..
E como apareceu a expressão “ajuda financeira”? De facto, aquilo que designamos por “ajuda financeira” é, simplesmente, um empréstimo. E empréstimo é não só uma expressão mais correcta como mais neutra. Sabemos isso porque há empréstimos que nos aliviam e outros que nos entalam. É possível criar narrativas diferentes à volta da expressão “empréstimo”. Posso dizer “aquele empréstimo permitiu-lhe salvar a empresa” ou “o que o levou à falência foi aquele empréstimo”. Posso dizer que o “empréstimo negociado com a troika tem um juro usurário”, mas já não o posso dizer se lhe chamar “ajuda”. As palavras não deixam.
Um “resgate” também é uma coisa boa. Salva-nos. Não é possível dizer nada mau de quem nos resgata. E haverá coisa melhor que um “programa de assistência económica e financeira”? E será possível ser contra o rigor e a disciplina? Ou contra a “racionalização das empresas públicas de transportes”? E será que um “ajustamento estrutural” pode fazer outra coisa que não seja dar-nos mais solidez? Quem é que pode não gostar que as estruturas estejam ajustadas?
E quando se chama “maturidade cívica dos portugueses” à ausência de contestação e “tumultos” aos protestos será possível a uma pessoa sensata defender ou participar nos últimos? A expressão “flexibilidade laboral” é igualmente inatacável. Quem é contra a flexibilidade? Não saberão que a rigidez só leva a fracturas e que a flexibilidade permite adaptarmo-nos ao meio? “Austeridade” é um pouquinho mais difícil, mas também tem um lado bom. Não é como “empobrecimento” ou “descida do nível de vida” que é só mau.
E quando nos dizem que “precisamos de união e não de clivagens” não é evidente que a união é boa e que as clivagens são más? Não é evidente que um discurso que afirme que a união nacional pode ser má e as clivagens boas se tem de empenhar num combate desigual, montanha acima?
Não se trata apenas de, no discurso mediático, se dar uma proeminência excessiva ao discurso do poder, como quando, como mero exemplo entre mil, se arranca uma notícia sobre o “acordo de concertação” com o lead “Governo garante que estão salvaguardados os direitos dos trabalhadores” – factualmente correcto mas claramente parcial. Trata-se de algo infinitamente mais subtil. Tão subtil que há mesmo jornalistas que, ingenuamente, garantem que não existe. Trata-se de manipular os media obrigando-os, discretamente, a usar apenas o léxico autorizado, que contém implícita a narrativa do poder.

O léxico autorizado, José Vítor Malheiros

Anúncios

One thought on “As palavras não deixam

  1. também acho interessante pensar na utilização excessiva que o jornalismo faz do obscuro tempo verbal do presente futuro composto: homem terá morto, mulher terá roubado, alguém terá dito. qual é a veracidade expressa por este tipo de afirmação? mas aconteceu ou não aconteceu? suposição? insinuação? a cargo de quem fica o esclarecimento das dúvidas levantadas por estas frases? tendo em conta o objectivo jornalístico de verdade e clareza, isto parece-me sempre muito estúpido. agora, se é intencional ou apenas fruto da incompetência de quem o escreve, outra discussão daria (!).

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s