Se o Front de Gauche ganha, muita coisa vai mudar !


No comício de Marselha, aclamado pela multidão, Jean-Luc Mélenchon responde: “Tinhamos combinado que era para dizer “resistência”, não “Mélenchon ao poder”, mas não se preocupem eu sei o que fazer com ele”. Muitos jornalistas quando se encontram frente a frente com Mélenchon começam precisamente por uma questão que está intimamente ligada a esse aspecto : “não acha que há um excesso de personalização na sua campanha ?”. à partida a esta pergunta eu responderia “nem mais nem menos do que os outros candidatos”. Ser presidente em França não é mesma coisa que ser presidente em Portugal. Ser presidente em França é acumular um conjunto de poderes, é estar, diria, numa linha de governo de tradição Bonapartista onde o soberano detém um poder forte. A isto chama-se um regime presidencialista. O Front de Gauche no seu programa defende a abolição deste sistema para substitui-lo por um regime parlamentar. Portanto, torna-se estranha a acusação dos oposicionistas sobre a estratégia de personalização do candidato do Front de Gauche, quando Mélenchon é precisamente um dos únicos candidatos a defender a supressão da figura do presidente da república “absolutista”.
Mas não sejamos mais papistas que o papa, temos que assumir: o gajo é bom, é mesmo muito bom. O Mélenchon numa tribuna, é como um Maradona num campo de futebol. Espantada com o meu entusiasmo, sigo pela primeira vez uma campanha presidencial minuto por minuto, comício em comício, entrevista em entrevista. Rimos, batemos palmas, gritamos “resistência” nos bares de bairro onde assistimos colectivamente à tournée du Front de Gauche pelo país fora. É uma organização pensada, com uma fachada de espontaneidade… ainda assim parece que resultou, de um pequeno rebanho de ovelhas tornàmo-nos num mar de gente. Li o programa inteiro do Front de Gauche como se tratasse do “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Num só rasgo. Mas em vez de um evangelho encontrei um verdadeiro programa que visa uma sociedade igualitária, começando pela implementação do salário mínimo a 1700 euros (bruto por 35h/semana) e a fixação de um salário máximo. Podem chamar culto de personalidade, “heroizaçao”, moda… o que quer que seja. Parto de uma certeza e assumo-o: deleito-me com a sua capacidade oratória, com o seu lirismo, derreto-me quando ele fala no “temps des cerises” e na bandeira vermelha, tenho uma lágrima no canto do olho quando colectivamente nos meetings dizemos “Non pasaran” ou cantamos aos milhares a internacional.
Dito isto, corre o rumor que o gajo é um pouco resmungão nos bastidores, mas o que interessa isso quando aquilo que defendemos não é apenas a pessoa mas um programa, não é apenas a forma mas também o fundo. Volto por isso ao titulo deste post: “muita coisa vai mudar”. Quando num programa assume-se a insubmissão como pratica de ação estamos automaticamente numa dinâmica de mudança. Desobediência é o termo utilizado para expressar que a França, se o Front de Gauche ganhar, não seguirá as diretivas neoliberais da Europa. Não se quer com isto demonstrar que a linha pelo Front de Gauche defendida é a negligência de um projeto político e de direitos sociais ao nível europeu. Ao contrario, pode-se ler no programa que o Front de Gauche agirá no sentido de desenvolver novas politicas europeias, libertas dos tentáculos dos mercados financeiros. O BCE, a sua missão e o seu estatuto atual, seria o primeiro alvo de uma proposta de remodelação. Esta instituição passaria a estar sob controlo democrático. Claro que quem fala assim não é gago. Mélenchon quando dá um espaço especial à Europa nos seus discursos, e quando fala nos golpes duros que a populaça dos países do Sul sofre, sabe que o seu país não é periférico, e que se a França mudar de rumo, “muita coisa vai mudar”. “Nao lutamos apenas por nos, de todos os lados observam o que estamos a fazer (…) vamos acabar com o eixo Merkozy, de violência e austeridade” (ultimo meeting – 20 de abril – Porte de Versailles). Estas palavras soam um pouco a pretensiosismo regional vindo de uma elite iluminada avangardista, mas quando sabemos que nos movemos num terreno de dominações nacionais, estas frases acabam por ser de um realismo trágico.
Mas os dois grandes feitos do Front de Gauche, do meu ponto de vista, sintetizam-se em duas grandes palavras: União e Ideias. Ter conseguido unir uma diversidade de forças, tornando-se cada uma delas mais fortes e com uma capacidade de dialogo mais ampla, é tornar colorido um espaço que nos habituamos a ver cinzento. O resultado não poderia ser outro que a criação e inscrição no espaço publico de liberdade e circulação de ideias de progresso social, pulsando tanto Sarkozy (ex°fiscalidade) como Hollande (ex°salário mínimo) a rever o seu programa. Quem diria que o PCF aceitaria tocar na energia nuclear? Eh oui, o Front de Gauche propõe uma planificação ecológica, que utiliza os avanços tecnológicos, inventividade, inteligência, no sentido de olear a engrenagem produtiva francesa em compatibilidade com as regras verdes. Por outro lado, não poderia deixar de referir que Mélenchon foi o único a dar luta à Marine Le Pen, a conseguir reduzi-la ao seu saco de veneno. A utilizar palavras justas que desconstroem um discurso que “destila odio” em relação aos estrangeiros. Não ter pejo de dizer: regularização de todos os sans-papiers. Foi o primeiro a dizer que basta de falar de integração, toda a “gente come couscous e merguezes em França”, a integração está mais do que feita (aqui há um pequeno cheiro de republicanismo à la française, palavras sinceras de humanismo universalista ao qual poderíamos opor alguns argumentos, mas ficará para um próximo texto).
Tanta coisa para contar desta campanha… uma campanha que sublinhou a importância de não ignorarmos o facto dos ricos terem uma consciência de classe, enfatizando assim a necessidade de nos organizarmos igualmente pelos nossos interesses. Domingo estarei na praça de Stalinegrad para uma soirée eleitoral organizada pelo Front de Gauche para festejar colectivamente os resultados de mudança (espero-o muito sinceramente).

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12 thoughts on “Se o Front de Gauche ganha, muita coisa vai mudar !

  1. Hà ir votar e hà vir lutar !
    O Mélenchon não è mais do que Mittérand ou Manuel Alegre. E um homem do “sistema” que escolheu uma via mais social-democrata (esteve no Partido socialista francês 21 anos). Em Portugal seria como apoiar a candidatura de Manuel Alegre… O que è permitido claro, mas que não se esconda uma ideologia atravès dum “retoque” com bandeiras vermelhas e militantes vestidos de “sans-culottes”…
    Espero ver a mesma vontade de mobilizar as massas quando entraremos no “troisième tour social” e no combate concreto as politicas de austeridade em França ! A politica não se reduz as urnas !

  2. Que entusiasmo ! O que me parece importante, além do programa, que nao pode ser levado a cabo numa sociedade como a nossa, é que o F. de G; conseguiu mobilizar jovens e jovens, que “resistem” e que acreditam e sonham que é possivel construir alternativas para mudar esta sociedade terrivelmente injusta.
    Obrigada, Inês.

  3. Excelente. Subscrevo à 100% … ou quasi.
    Mesmo assim a analise resta ancora classica. O fantasma de um actor-agente colectivo da insurreição e da mudança permanece um factor explicativo. E o determinismo é também presente.
    O povo de 13 millons (46% dos eleitores inscritos) que não são todos pela mudança e por uma nova repartição da riqueza, são dotados duma força superior que vai chambular tudo.
    …. mas faz prazer … a mim também!

  4. qual será o problema do humanismo universalista? o problema é votar nesta matilha da esquerda do capital.

  5. «Mas os dois grandes feitos do Front de Gauche, do meu ponto de vista, sintetizam-se em duas grandes palavras: União e Ideias. Ter conseguido unir uma diversidade de forças, tornando-se cada uma delas mais fortes e com uma capacidade de dialogo mais ampla, é tornar colorido um espaço que nos habituamos a ver cinzento»
    É isso mesmo, Shift.
    Obrigado pelo post. Faz mais.

  6. O reformismo nao muda grande coisa… para quem quiser radicalizar a luta que travamos ha muito tempo, nao deve votar Mélénchon… mas que o homem é simpatico e que construiu uma boa personagem carismatica, la isso é verdade. Até eu podia cair na armadilha e votar se fosse francês.

  7. Boa Shift!!!!
    Estou de acordo, em geral, com a tua informação e analise do que corre aqui, por terras de França.
    Deixo aqui o meu desacordo a dois comentarios que li, de Hugo e outro de Pedro.: -Um movimento que se mete em marcha e com a força que o Front de Gauche demonstra, é porque tem raizes que não são so do seu representante, é porque tem bases na sociedade…comparar Mélenchon com Miterrand é um anacronismo, é fazer um cocktail historico inconsequente. Então comparar estes dois com o poeta Alegre direi que é surreal. Estas amalgamas nao sao boas amigas de uma critica inteligente. Ainda bem que o Pedro nao cai em armadilhas… mas aconselho-o a ler o programa do F.G… as revoluções não se fazem com varinhas magicas..diz-te alguem que ja passou por varias experiencias e que continua a querer viver muitas e muitas outras…

  8. Pois é cara amiga, a urna como campa das nossas ilusoes so pode dar este resultado… a Marine Le Pen reduzida a um “saco de veneno” mostra bem, como nao é com grandes discursos e comicios do tamanho de hoje e de amanha, que o fascismo se combate. Entrar no jogo espectacular controlado pela burguesia chamado “Campanha Eleitoral” é aceitar que nao se quer nenhuma revoluçao, mas a integraçao no sistema.
    Melenchon entrou em força, bem formado, cara limpa e barbeada, representou como um actor profissional em nome da ecologia, do comunismo e do social, mas a sinceridade e a humildade ainda ultrapassa o teatro dos grandes oradores, Melenchon nao conseguiu superar a sinceridade da fascista Marine Le Pen e esteve sempre longe de o conseguir.
    Por muita esperança que o Partido Comunista Francês tivesse de voltar a ter um lugar forte na politica, por muita esperança que alguns “bobos” de esquerda tivessem na lufada de ar fresco politica do Parti de Gauche (ao ponto de se meterem a consumir a informaçao dos jornais do metro, France 2, TF1, e todos os médias que a esquerda critica em geral) deixaram-se levar pelo sensacionalismo e culto de uma personalidade carismatica que disso nao passava face ao proletariado espalhado por esta França fora, que longe das grandes cidades, teme os imigrantes, teme os roubos, teme a insegurança e a precaridade, teme a Uniao Europeia, teme ao ponto de desesperar ao lado das lagrimas de Marine Le Pen.

  9. Um texto que deve ser aplaudido porque traduz o sentimento generalizado de que esta campanha do Front de Gauche foi pelas ideias que semeou naturalmente através de um candidato que protagonizou em absoluto os ideais mais nobres da esquerda e da revoluçâo francesa e sem preconceitos afirmou o Partido Comunista no seu programa de rutura, o que nos tempos que correm nâo é de somenos. E porque se trata de uma jovem lusa filha de um estimado camarada, um grande ab raço de parabéns. Màrio Ribeiro

  10. céptico (pré-AO), essa tua conversa vai dar onde? começa por fas e acaba em cismo.

  11. Nossa querida Li compf4s esta frase: Conhecer vem doipes de pensar e antes de agir (sic).Fiquei encafifado! Mas, penso semelhante Como posso pensar, refletir, meditar, considerar ou ter em mente alguma coisa que desconhee7o? Para mim, conhecimento e9 a resultante de um processo que comee7ou com a constatae7e3o ou percepe7e3o de algo, um elemento conhecido ou desconhecido, seja natural ou social, por meio de sinais ou eventos manifestados. Essa primeira percepe7e3o, ou contato, me informa um dado novo ou velho no ambiente, ou mesmo contexto. Neste primeiro momento je1 mobilizo a mente para saber se je1 tenho pre9vio conhecimento ou ne3o, se e9 relevante ou ne3o, se e9 ameae7ador ou ne3o. Ou seja, je1 comecei a pensar Nesta fase filtrante construo a informae7e3o a respeito do objeto em ane1lise. Ou seja, penso, reflito, analiso e considero a respeito para inserir tais ae7f5es mentais ou racionais em meu acervo cognitivo. E, doipes, ne3o tomar conhecimento, porque ne3o me significa culturalmente. Ou seja, penso que ne3o devo conhecer. Embora tudo isso possa acontecer em mile9simos de segundos ou levar muito mais tempo.Voltando ao encafifamento: a que ae7e3o Li se refere que vem doipes de conhecer ou pensar? Ora, desconsiderar o dado a partir da primeira constatae7e3o ou percepe7e3o je1 uma ae7e3o a respeito do mesmo objeto. Ne3o considerar como informae7e3o e9 uma ae7e3o aprioredstica ao pensar. Afinal, quantos se deram mal porque agiram sem conhecer ou por desconhecer.O indivedduo comee7a a agir desde o inedcio da constatae7e3o ou percepe7e3o do objeto a considerar.A ae7e3o este1 tudo, porque portada por uma energia, num determinado local e num certo tempo. c9 holedstico, sisteamico e epistemolf3gicamente explice1vel. Assim me parece. muitos deles agiram sem pensar. A. Herculano

  12. O problema e9 qnduao encontramos pessoas que ne3o querem abrir os olhos.c9 triste e ne3o e9 uma exclusividade brasileira mas, as pessoas team preguie7a de pensar. Ne3o querem ler, analisar, interpretar Aproveitando a sua analogia, essas pessoas preferem viver na Matrix, mesmo com aquela desconfiane7a de que existe muito mais ale9m, se acomodam eu seus micro universos e este3o satisfeitas.c0s vezes me sinto desestimulado a escrever no meu blog sobre bonsai, porque as pessoas ne3o leaem. Em um determinado post, por exemplo, eu dei recomendae7f5es sobre como deve ser a freqfceancia da rega em um bonsai de jabuticabeira, e um indivedduo comentou perguntando Quando devo regar minha jabuticabeira? . A sorte dele e9 que e9 um blog sobre bonsai, ente3o a pacieancia e9 a virtude mais valorizada Mas qual a motivae7e3o de escrever se existem dezenas de comente1rios iguais e0 esse?As pessoas se acostumaram com a facilidade na internet, em receber tudo mastigado, pronto para imprimir, grampear e entregar ao professor. A velocidade e a quantidade de informae7f5es acabou mimando os usue1rios, a maioria que vea de fora acha que tudo este1 pronto e acessedvel na internet, se encontram algo que precisa de um pouco mais de raciocednio, desistem antes mesmo de comee7ar.E uma ferramenta que poderia servir para disseminar o conhecimento, acaba segregando ainda mais. Os que gostam de pensar continuam se destacando e guiando o cometa Enquanto o pessoal acomodado vai sf3 na onda, depois que o caminho je1 foi percorrido.Como estimular as pessoas a usarem um pouco mais o ce9rebro?

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