FUCK YEAH TEXTOS

Dois textos importantes para uma análise mais profunda de tudo o que se anda a passar:
– O primeiro chama-se Para que a insurreição tenha êxito, temos primeiro de nos destruir a nós próprios e vem assinado por Alex Trocchi (em homenagem ao situationista/junkie/beatnik Alexander Trocchi, um escritor escocês radicado em Nova Iorque que passava os seus dias a viver num barco, a escrever pequenas novelas existencialistas e a pensar a insurreição invisível de um milhão de mentes). Alex Trocchi parte dos últimos quatro anos na Grécia para analisar as questões da identidade “anarquista”, ou de qualquer outra “contracultural” ou “alternativa”, e do seu carácter essencialmente contra-revolucionário. Mas muito mais interessante do que a enésima denúncia do que é que vai mal com a cena o texto presta-se a iniciar um debate sobre como é que um movimento pode construir infraestruturas de confronto com o estado e ao mesmo tempo negar-se a si próprio, ou seja, evitar uma especialização militante ou identitária que recrie no seu seio os momentos de reprodução das lógicas do capitalismo. Ainda que parta de um momento ligado às problemáticas de um movimento “anarquista”, grande parte do que Alex Trocchi aqui discute aplica-se de um modo bastante mais interessante às questões que podemos pôr às diversas iniciativas que no último ano têm acontecido por cá, dos 15Os às primaveras globais, das Fontinhas aos São Lázaros.
O texto vai ser lançado e discutido na feira do livro anarquista no próximo fim de semana.
(A tradução portuguesa é editada pelas Edições Versus Capitalismus e o texto está formatado para impressão, para os que preferirem o original em inglês está aqui)

Se o próprio acto de identificação é contra-revolucionário, o primeiro acto de conteúdo insurrecional deverá ser a deserção de uma identidade anarquista sub-cultural e de uma ideologia do “insurrecionário” enquanto forma de separação da população em geral. A pergunta insurrecionária deverá transformar-se de “Como aumentar a intensidade do ataque?” para “Como poderá aumentar o número de pessoas envolvidas no ataque?”. Como a primeira manobra da guerra social é isolar os indivíduos pró-revolucionários para evitar que formem redes que possam espalhar práticas insurrecionárias entre a população em geral, os insurrecionários devem procurar multiplicar as sua relações sociais. Já que a imagem de “ser anarquista” limita os tipos e espécies de relações que se podem ter, os insurrecionários devem procurar ter relações que se entrecruzem com o terreno de uma sociedade guetizada em identidades. Para dar resposta no contexto da guerra social, a insurreição deve criar e aumentar as relações sociais em que se baseia.
O segundo texto, OCCUPY OAKLAND IS DEAD. LONG LIVE THE OAKLAND COMMUNE, discute a superação do modelo Occupy na cidade. Oakland tem surgido diversas vezes enquanto o local em que o movimento occupy se revelou mais aguérrido e capaz, organizando várias greves gerais e parando umas quantas vezes os portos da cidade. De novo partindo de um contexto bastante diferente do nosso as questões aqui postas são as mais centrais ao que agora se passa: como ultrapassar a lógicas dos picos de mobilização, como transformar a presença nas ruas em algo mais concreto, como começar a conquistar terreno.

This is what we began to call The Oakland Commune; that dense network of new found affinity and rebelliousness that sliced through seemingly impenetrable social barriers like never before. Our “war machine and our care machine” as one comrade put it. No cops, no politicians, plenty of “autonomous actions”; the Commune materialized for one month in liberated Oscar Grant Plaza at the corner of 14th & Broadway. Here we fed each other, lived together and began to learn how to actually care for one another while launching unmediated assaults on our enemies: local government, the downtown business elite and transnational capital. These attacks culminated with the General Strike of November 2 and subsequent West Coast Port Blockade.
The task ahead of us in Oakland and beyond is to search out and nurture new means of finding each other. We are quickly reaching the point where the dead weight of Occupy threatens to drag down the Commune into the dust bin of history. We need to breathe new life into our network of rebellious relationships that does not rely on the Occupy Oakland general assembly or the array of movement protagonists who have emerged to represent the struggle. This is by no means an argument against assemblies or for a retreat back into the small countercultural ghettos that keep us isolated and irrelevant. On the contrary, we need more public assemblies that take different forms and experiment with themes, styles of decision making (or lack there of) and levels of affinity. We need new ways to reclaim space and regularize a contagious rebel spirit rooted in our specific urban contexts while breaking a losing cycle of attempted occupations followed by state repression that the movement has now fallen into. Most of all, we need desperately to stay connected with comrades old and new and not let these relationships completely decompose. This will determine the health of the Commune and ultimately its ability to effectively wage war on our enemies in the struggles to come.

9 thoughts on “FUCK YEAH TEXTOS

  1. muito bom. Essas são as discussões que temos que iniciar todos já!
    Juntava a estes dois textos de referência uma série de outros, mas para já para já o livro que será editedo em breve (espera-se…) “Fragmentos para uma antropologia anarquista”. Onde se discute bastante a natureza das formas de luta que têm surgido no último ano e a sua relação com os anarquistas.
    Temos por aí pano para mangas. Tudo o resto que se lê para aí nestes blogues é conversa da treta, para perdermos tempo…

  2. muito bom. Essas são as discussões que temos que iniciar todos já!
    Juntava a estes dois textos de referência uma série de outros, mas para já para já o livro que será editedo em breve (espera-se…) “Fragmentos para uma antropologia anarquista”. Onde se discute bastante a natureza das formas de luta que têm surgido no último ano e a sua relação com os anarquistas.
    Temos por aí pano para mangas. Tudo o resto que se lê para aí nestes blogues é conversa da treta, para perdermos tempo…

  3. Estou farto de ler textos de camones que dizem, menos ou mais, o que têm sido as “conclusões” fortes deste último ano e meio. Tomadas colectivamente, individualmente, em luta. Seja na assembleia de SL94 ou na Fontinha, no rda69 ou na Severa, por ai nas diferentes comunas em movimento.
    Ok, é fixe ler coisas. Mais importante é escrever, aqui sobre o que está a nossa volta, sabendo que existe o Cairo e Oakland e Salónica e .. Mas irrita-me um pouco o estilo “news from the theoric front” quando há um frente teórica importante, prática e colectiva, há minha volta. Escrever caralho.

  4. É isso aí pá, Escreve caralho!…
    mas uma coisa é certa, a nossa história recente e passada mostrou já muitas vezes que não há textos iluminados nem fundadores escritos a partir do nada. Sem conversas, muitas, sem porrada séria e boa entre nós, luta na lama e horas de discussão não sairão senão os peidos a que nos têm habituado os teóricos de serviço… bannannas, coulpados. espécie de neo-leninistas desvinculados de um pensamento que se alimente do quotidiano e das ansiedades e desejos de quem anda por aí.
    Mas bravo, maria, gosto de ver esse peito inchado pronto a lançar-se à tarefa…

  5. Felizmente que entre os bannannas e os coulpados há sempre os fieis depositários do Tao revolucionário e os provedores nada leninistas dos “autênticos” sujeitos históricos, ou de outro modo, quem nem fode nem sai de cima. Maria, aprecio o teu proteccionismo teórico, estamos todos à tua espera.

  6. Se é para iniciar um debate sério sobre o problema das identidades, ideologias e afins, que não nos esqueçamos das diferenças entre identidade, ideologia e princípios, e de como a falta de princípios está tão ligada a uma das novas ideologias que convém não deixar de fora do debate e que tantas paixões desperta, o cidadanismo.

  7. Rate of profit é taxa de lucro e não percentagem de lucros. Nessa passagem faz-se uma clara referência a um conceito da teoria marxista da crise.

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