Barbuda Rising

O Pessoal da Severa escreveu um texto a explicar as razões do seu encerramento:
  


Viver é perigoso.

(O Fascismo, antes de ser um regime político, é um modo de relacionamento entre as pessoas e o espaço público. É a predisposição (racional ou não) de uma comunidade a regular as suas práticas individuais e colectivas segundo uma Ordem. É o processo quotidiano de inter-coacção, vigilância e medo pelo qual as condutas desviantes, a espontaneidade, as singularidades e idiossincrasias, o humor, a divergência ou a rebeldia se vêm obrigadas a optar entre justificar-se – assumindo uma discursividade institucional e fundindo-se com a unicidade da Ordem – ou desaparecer, anular-se, deixar de existir. ) 

(A Ordem é um sistema moral e estético, responsável pela integração vertical da multiplicidade de existências, de seres e lugares, do bem e do mal, do belo e do feio, do limpo e do sujo, do crime e do pecado, que materializa, elege e glorifica na vida de uma comunidade um modo, por oposição a todos os outros modos. A Ordem é a expressão material – observável tanto na gestualidade de um encontro entre dois amantes como na disposição do asfalto, nas paredes de uma rua como nas mesas de uma esplanada, na circulação automóvel como no tom de uma gargalhada – da ideologia que permite que uma parte reservada dessa comunidade mantenha o Poder sobre o seu todo.) 

Há dois anos atrás, um grupo de pessoas encontrou-se numa ânsia de ter chão onde encontrar soluços desta Ordem, outras crispações e outras formas de organização, chimfrim de escape à caricatura de existência a que nos votam os regulamentos.

Descobrimos no centro de Lisboa um espaço no Largo da Severa onde construir uma ilha, que decidimos alugar, inicialmente com os nossos bolsos sem sabermos ainda bem o que iria ser. Mas reuniram-se as vontades suficientes para que de um amontoado gigante de entulho fossem surgindo umas paredes caiadas, um tecto manhoso, umas lâmpadas que deram luz, uma torneira na cozinha, uma sanita presa ao chão. Começámos por chamar àquilo o Atneu Do Grande Nada. Mas como não podíamos ignorar a história deslumbrante da puta fadista que deu o nome ao Largo, acabamos por dar ao espaço o nome da tasca que pertenceu à sua mãe, a dA Barbuda. 

Ao longo de dois anos, aliadas a todas as outras pessoas que foram aparecendo e frequentando o local, procurou-se fazer ali um pequeno laboratório de experimentação para a autonomia e a liberdade, à semelhança de outros que existem por aí afora. A dA Barbuda tornou-se lugar de encontro, de copos, de planos megalómanos, de comida barata e quase sempre boa, de engrendamentos do impossivel, espaço aberto a quem quisesse lá estar e fazer. 

Nestes tempos que vivemos de agressão sem resposta, o regime tem mostrado especial empenho em apagar todos os possíveis focos de perturbação da Ordem. Sobretudo se eles ocorrerem no centro da cidade. Assim foi com o despejo desesperado e injustificado à luz de qualquer lógica da casa de S. Lázaro, ou com a teimosia e prepotência dos repetidos despejos da Es.Col.A da Fontinha. O mesmo passa-se nos espaço públicos: a proibição da realização de arraiais nos novos lugares requalificados, vizinhos dos novos condomínios; ou a expulsão dos skaters da Praça da Figueira para a promoção de pistas de gelo naturais.
Assim é repetidamente com os processos judiciais que tantos de nós têm às costas por participar em manifestações públicas, sem que isso seja uma questão para nenhum dos arautos da legalidade. O requinte javardo e sem pudor com que essa repressão se tem exercido adquire contornos delirantes na notícia publicada antes do acontecimento do despejo da Biblioteca Popular do Porto ou na telenovela siciliana que implicou a suspensão das actividades dA Barbuda. 

É porque começam a surgir na internet versões diversas sobre o que se passou na Mouraria, que decidimos compilar e publicar os acontecimentos a que assistimos e os dados a que tivemos acesso, na tentativa de escrever a nossa visão da história. 

Os Acontecimentos a que assistimos 

Cavaco Silva visita o resultado de um investimento de 13 milhões de euros, financiados pelo QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional), que arrancou no terreno há cerca de um ano e pretende mudar um dos cinco bairros-berço do Fado. O programa de reabilitação inclui ainda várias intervenções de carácter social e económico junto da população, dinamizadas por associações locais. 

Tudo começou com o rumor da visita do Presidente da República à Mouraria. De um dia para o outro as obras de requalificação, que ao abrigo do QREN revolveram o bairro ao longo dos últimos meses, foram atabalhoadamente apressadas para que o Presidente e a sua comitiva de ilustres, polícias e jornalistas pudessem desfrutar de toda a beleza e encanto de um bairro típico requalificado e enobrecido. 

Uma brigada de higiene pública municipal passa a pente fino todas as fachadas e portas, tornando homogéneo, bege e limpo tudo o que até aí mereceu atenção por ser heterogéneo, diverso e sujo. Sem pedir autorização nem aos proprietários das casas nem aos seus habitantes, trataram de apagar os indícios de dissidência, pensamento e crítica, ou simples declarações de amor, como graffitis ou o mural na parede dA Barbuda, onde se havia exposto precisamente um texto sobre o ordenamento das cidades, relativo à Paris da Comuna de 1871. 


No dia seguinte, quando alguém se preparava para refazer o mural destruído, é chamado um funcionário da junta, que habita o bairro, que com invulgar agressividade tentou impedir a sua reescrita. Alguns vizinhos partilhavam do fervor ordeiro do funcionário e pediram-nos que esperássemos que a visita do Cavaco passasse para repôr o mural. Decidimos por isso guardar os pincéis e esperar. 

Encenaram-se as lavadeiras vestidas a rigor para uma aldeia da roupa branca, ensaiaram-se os fados cantados à janela e um delírio vibrante instalou-se em torno do momento em que o Bairro, agora nomeado Berço do Fado, se vê finalmente reconhecido, validado. Na rua, os vizinhos vivem a esquizofrenia normal entre o constante mal dizer do estado das coisas, da classe politica e do Cavaco, entre a revolta contra o roubo das nossas vidas e a excitação do momento, as bandeirolas, os santos, a roupa nova engomada. 

Na manhã seguinte, dia da visita, sai uma noticia no Jornal de Notícias com o título “Cavaco corre o risco de ser beijado à força na Mouraria” que citando as declarações de Maria João Bernardino Correia, presidente da Junta de Freguesia do Socorro, dá conta da particular preocupação da segurança do Presidente devido à existência de um grupo de anarquistas no Largo da Severa, que tinham na parede frases anarquistas contra tudo: o Fado, a moral ou os bons costumes. Ainda segundo a senhora: “Esta é a primeira visita de um presidente da República, que vem associar-se à enorme revolução que se levou e que está a levar a cabo na Mouraria. Não acho digno que se manche este trabalho”. Como desde há algum tempo as visitas turísticas oficiais e informais se detinham em frente à nossa porta e anunciavam em surdina aos turistas: aqui são os anarquistas, sentiamos com algum espanto crescer a tensão e a atenção. E colar-se a nós um desses epítetos ideológicos que normalmente não sentimos necessidade de nomear. 

Na Barbuda algumas pessoas, que acharam que a resposta a essa incursão presidencial não podia ser o silêncio, aguardaram a passagem do Cavaco, de porta aberta para o Largo. Por respeito ao empenho e orgulho dos vizinhos do bairro, esperaram que se acabasse de cantar o fado para projectar o som do Discurso da Apoteose a Salazar no Terreiro do Paço, em que o ditador, lembra que “está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.”.



O discurso dura 1 minuto e meio e, passada a comitiva, entra o hit de verão “Ai se eu te pego”. A intervenção gerou apenas algum desconforto da parte de alguns vereadores de esquerda da câmara como o “Zé que fazia falta”, que tendo sido o primeiro a identificar a voz do defunto ditador, se apressou a gritar Viva a Mouraria! e a bater palmas na tentativa de abafar o som. 

Nesse mesmo dia tivemos ainda a oportunidade de perceber que os controleiros de serviço, que diariamente vigiam as entradas do bairro, estavam todos nos seus postos como de costume, mas agora com fitinhas da EGEAC ao pescoço. Percebemos que tinham a seu cargo a guarda do material de som e que, no meio da agitação, zelavam para que nada de mal pudesse acontecer durante a visita, em permanente articulação com os organizadores do evento.

Durante o resto da visita, várias pessoas puderam testemunhar que os vendedores de droga do bairro estavam coordenados com a polícia e a segurança do Presidente para evitar qualquer ímpeto contestatário por parte da população. Um jovem com uma T-shirt com a bandeira da Turquia foi ameaçado e impedido de apupar o presidente. Uma manifestação organizada pelas Juntas locais do PCP contra a extinção das Freguesias foi silenciada. Um morador que habita junto do Largo da Severa foi, nessa tarde, espancado por ter apupado o Cavaco e manifestado o seu desprezo pela visita. 

Um miliciano contratado impõe-se aos manifestantes das Juntas de Freguesia
Cortesia do site da Presidência da República

No site oficial da Presidência da República podemos ver N., um dos responsáveis pelo negócio de droga, vestido com uma t-shirt rosa da Mouraria, dentro do cordão de segurança feito pela PSP para garantir uma distância entre os populares e a família presidencial. N. é a única pessoa que visivelmente não faz parte do oficial aparato de segurança a quem é permitido aproximar-se a poucos centímetros do Presidente. Em vários vídeos e fotos pode ver-se N. a articular-se com agentes à paisana da Polícia Municipal e de outras forças da Ordem. Várias pessoas (entre elas o responsável pelo programa AiMouraria) puderam testemunhar que a polícia apontou a N. um elemento da Barbuda, que fazia a cobertura do evento, como um alvo a abater. 

cortesia do site da Presidência da República

Nessa mesma noite houve festa no bairro. Tudo decorreu com normalidade. Numa barraca de cervejas N. autocongratula-se pelo serviço prestado e, à frente de quem queria ouvir, disse que um chefe da polícia o veio felicitar pelo trabalho prestado naquele dia e convidá-lo para um almoço durante essa semana. 

Na tarde seguinte, nA Barbuda preparávamo-nos para iniciar um debate sobre Ocupação, o primeiro de um ciclo de acontecimentos de uma programação Anti-Plano, que visava reflectir sobre o programa urbanístico do Martim Moniz, Mouraria e Intendente. Cerca de 7 ou 8 pessoas, entre elas uma miúda de 8 anos, conversavam nos bancos novos à porta da Barbuda, quando passou uma mulher, familiar de N., que murmura: “Já falta pouco para se porem a andar daqui”. Poucos minutos depois surge N. com uma fúria incontrolável à procura do responsável por se ter posto música brasileira a seguir à passagem do Presidente. Perante a recusa das pessoas presentes em dar um nome, N. assobiou e logo desceram mais uns 10 gorilas prontos a espancar os presentes. Tentou-se conversar, mas qualquer pretexto como um olhar ou uma respiração demasiado próxima era aproveitado para uma escalada de violência. Uma das pessoas presentes para o debate acabou por apanhar umas sapatadas e foi perseguida em fuga até ao Martim Moniz. Um dos moradores entretanto chegados grita a N. que “deixasse passar os Santos e que depois nos punha a andar”. N. cedeu perante esse argumento e recolheu os seus gorilas, deixando a ameaça de que no final dos Santos teríamos que nos ir embora, bem como várias ameaças à integridade física dirigidas pessoalmente a algumas de nós. 

Aconteceu a noite de Santo António, com uma programação reduzida devido ao tom das ameaças e do conflito, e foi de festa tranquila. Antes de decidir abrir nos Santos, tentámos falar com N. sem sucesso. Reunimos também com o responsável do projecto Ai Mouraria, no sentido de lhes dizer que nos era possível desenhar relações claras entre o projecto, a visita do Cavaco e o que aconteceu.

No fim de semana seguinte ao Santo António, no final de um concerto de kuduro, e depois da Marcha da Mouraria passar pelo Largo da Severa sem qualquer incidente, surge N. acompanhado pela filha de 4 anos, já a cuspir ameaças a um rapaz que estava no Largo, por estar com os pés em cima de um dos bancos ali recentemente instalados. Poucos minutos depois, o mesmo N. volta a cruzar o Largo com mais gritos e ameaças e, quando uma rapariga que se encontrava na Barbuda tenta apelar à calma, N., completamente alterado, responde com agressões e insultos, os gorilas vêm mais uma vez, são muitos, muitos mais, a galopar pela Mouraria abaixo com saliva na boca e desejo de espancar. Juntam-se velhas, juntam-se velhos, a aldeia da roupa branca junta-se à porta, apanham-se pedras, cacos, cadeiras, garrafas – a multidão sedenta talvez de matar. Proprietárias de café a gritar “Vamos queimar esta merda toda!”, “O Largo é Nosso!” e a cara de quem quer ver gente carbonizada e os olhos a brilhar – o espaço para a nova: típica, tradicional, cheia de turistas; casa de fado, finalmente liberto.

Aqueles que procuravam perceber o que se estava a passar ou simplesmente pediam calma eram alvo de uma fúria absurda e cobarde, tendo em conta a desproporção de forças e a ausência de qualquer gesto de resposta daqueles que estavam a ser agredidos.

As pessoas que se encontravam dentro do espaço ou que aí se refugiaram fecharam as portas para se protegerem. Perante tudo isto, a polícia foi chamada a intervir, tendo entrado no Largo da Severa e formado barreira em frente da fachada da Barbuda, escoltando a saída de adultos e crianças que se encontravam fechados no espaço e também do material que se decidiu retirar, tendo em conta as ameaças de partir tudo feitas por algumas pessoas do bairro. Não só estas ameaças passaram sem qualquer recriminação por parte dos agentes policiais como foi ainda dito às pessoas que se encontravam a retirar o material da Barbuda que se apressassem já que esses agentes não poderiam garantir a segurança das pessoas por muito mais tempo.

É importante referir que durante os dois anos que a Barbuda esteve aberta até aos dias que antecederam a visita do Cavaco nunca aconteceu nada que pudesse prever um gesto deste tipo.

O que nos motiva nesta denúncia não é contribuir para a criminalização de quem vive do tráfico de droga mas expor um mapa de conivências, de relações formais e simbólicas, entre os poderes institucionais e os poderes informais que sequestram o bairro.

As pessoas que agora nos expulsam são muito provavelmente algumas das pessoas que o processo de “limpeza da cidade“ irá por sua vez expulsar. São os carrascos, vítimas de uma súbita empolação do seu património simbólico e o bairro que pensam defender já não lhes pertence. Depois de anos de abandono uma repentina injecção de capital promove tiques de novo riquismo, acentua uma mentalidade xenófoba que vê no Outro um possível saqueador das novas pedras da calçada.

O Ai Mouraria , enquanto projecto de política pública usa ambiguidades semânticas para atingir os seus fins, e afinal: diversidade, cultura, arte, sustentabilidade e participação são os engodos necessários para uma renovação urbana do espaço público e para a promoção do mercado imobiliário.

O projecto faz o favor de tratar a diversidade ali existente através do comercio étnico com visitas pagas (com mediação que aprofunda a ignorância de todos) que nos levam a restaurantes, casas de massagens, lojas alimentares; ao mesmo tempo que expulsa esses empreendedores do Martim Moniz substituindo-os por agentes importados dos locais mais trendy da cidade, que inventam uma espaço de restauração como o do “Colombo” mas das “nações”, a cargo da NCS, a empresa que tem o exclusivo das ideias “criativas” da cidade: LX Factory, Cais do Sodré e Outjazz Fest.

Bem sabemos que nem todos estamos condenados a conviver, mas este projecto em vigor, à parte da promoção comercial que só a alguns interessa, não faz nada que promova a convivialidade entre as várias comunidades minoritárias da Mouraria.

É até curioso como no meio do discurso da promoção da diversidade e do multiculturalismo, os projectos estruturais do projecto sejam a Casa de Fado da Severa, a Escola de Fado, a expulsão dos comerciantes locais do Martim Moniz e a promoção imobiliária através de slogans como “Uma casa com vista para o fado”. A construção deste imaginário só tem agudizado a bazófia do pequeno grupo que nos atacou da já marginalizada e também minoritária população portuguesa do bairro.

O discurso e acções do projecto e dos seus parceiros institucionais (como o da já referida presidente da Junta de Freguesia do Socorro) enaltecem esse fanatismo pelo resguarda de algo que já não existe e que se pretende artificialmente imposto, de forma única e totalitária, sobre o lema do orgulho ancestral sobre o “que é ser da Mouraria”.

Esse mesmo grupo não nos atacam só a nós. Já expulsou uma associação ecologista – o Gaia, e atacam frequentemente as outras comunidades aí existentes com recurso à violência e aproveitando a condição de imigrante em Portugal como uma fragilidade cobarde. Quem vive diariamente na Mouraria assiste aos espancamentos e destratos diários desse grupo para com os paquistaneses, bangladeshianos, chineses e africanos em geral.
Não é por acaso que em diálogos no Bairro, uma das queixas frequentes desse grupo residia na quantidade de “pretos” que “andam ali” no Da Barbuda.

Estes foram os acontecimentos que levaram a que suspendêssemos temporariamente a nossa programação, de forma a garantir a nossa segurança e a das pessoas que nos visitam. Actualmente procuramos integrar o que aconteceu na nossa reflexão sobre este Mundo e sobre os processos de transformação da cidade.

E agora?

Gostávamos de envolver o máximo número de pessoas nesta reflexão e apelar a todos os que identificam nA Barbuda um espaço de liberdade e de resistência, que procurem juntar-se à luta, para podermos pensar futuros possíveis.

A Mouraria (que no novo plano urbanístico engloba o Intendente e o Martim Moniz) está a sofrer um processo de gentrificação ou enobrecimento, processo no geral definido como uma evolução do centro histórico da cidade que deixa mais e mais pessoas sem acesso a casas de baixo custo e sem possibilidades de participação na vida pública, em bairros cada vez mais controlados pelos interesses das empresas imobiliárias e pela indústria da cultura. Este processo, que faz uso de estratégias diversas, da requalificação urbanística à criação de identidades-marca, funciona como uma espécie de digestão, que vomita um produto de arestas limadas, seguro à força, forjado numa nostalgia pós-moderna de autenticidade.

Olhando para a totalidade da cidade de Lisboa, a gentrificação parece apurar-se num paradigma que a projecta como um parque temático onde se vendem safaris urbanos, mais ou menos aventurosos, consoante os desejos do consumidor. Aponta a lugares esquecidos, com vivências não reguladas, demasiado centrais para ser aceitavel escaparem à lógica económica e social vigente, mas paradoxalmente atraentes no deserto do simulacro e a sua exigência de uma vida repleta de experiências.

Umas das perversidades deste processo, na Mouraria, é ele disfarçar-se por detrás de um discurso pro-participativo, de horizontalidade, para afinal passar-se distante de todas as pessoas que ali vivem. Disfarce que oculta um completo programa de desenvolvimento social e comunitário já traçado pelas perspectivas teóricas das instituições reguladoras e seus departamentos responsáveis. E as mudanças necessárias, urgentes, parecem agora ainda mais dificeis de perspectivar fora deste quadro de acção e sem os que trabalham o social.

Impingem-nos um organismo, fixam leit-motivs como quem espeta borboletas. Ensinam-nos a exprimir escrúpulos para mais rapidamente os sabermos simular. Sodomizam-nos à janela com a melhor das vistas p´rá capital, enfiam-nos cu acima punhos nazis, punhos soviéticos, punhos dádás, punhos etnográficos, vejam bem, e punhos que ainda doem mais!! A ver se nós não damos por que andaram aqui a tentar amornar-nos as vísceras, à espera que deste lado se fique a chafurdar no betão aliciados por sonhos minúsculos de turista.

9 thoughts on “Barbuda Rising

  1. Solidariedade com os companheiros.
    Quando li o texto que estava na parede fiquei desde logo com uma questão na cabeça. estando o espaço inserido numa comunidade e querendo trazer a questão do urbanismo e do direito das pessoas ao espaço que “é seu”, não será o referido texto demasiado “para dentro”? não estará desde logo ele mesmo distante das pessoas? as pessoas não precisarão mais de dizer que precisam de passeios para andar, de espaços verdes e de parques desportivos e ludicos para as crianças(por exemplo)?
    Fazemos de nós para nós, frequentamos nós e chamamo-nos a nós para esses espaços que no fundo não são nossos e a distância para o meio que nos envolve é abissal. sempre.
    Fico sempre com a questão do “como “azer com as pessoas” e como ser capaz de envolver a comunidade num qualquer projecto que se queira a discutir a vida de todos e especialmente do meio onde está inserido.

  2. Errata.
    “como “azer com as pessoas” entenda-se “como fazer com as pessoas”

  3. A malta do bairro é uma merda, pá. São tão burras que nem se apercebem que são uma cambada de fascistas.

  4. Alguma “malta” do bairro gosta da porrada, foi assim que desde cedo aprendeu que se resolvem problemas, se desanuvia ou diverte (ou tudo ao mesmo tempo). Andam à pacada e no outro dia são amigos (para citar um habitante da madragoa ou de alfama num doc. sobre as marchas que passou em junho na tv). A malta da Severa não deve abandonar o espaço, essa “malta” acaba por perceber que nem toda a gente gosta de porrada e os moradores do bairro vão acabar por admirar a persistência e admirar também o facto de um grupo de pessoas ter escolhido o seu bairro para ter um espaço onde aconteçam coisas. Claro que tudo isto merece e exige maiores reflexões mas numa primeira leitura talvez seja possível entender este comportamento de um grupo de “gorilas” de uma forma mais simples e sem os níveis de leitura ou ilacção política que disto tudo se pode retirar.

  5. Bem operation wolf, abrir portas e expor todos os incautos que decidam por lá passar ao risco de levar na boca e perigos que tais “enquanto essa malta não acaba por perceber que nem toda a gente gosta de porrada”, parece-me um caminho periogoso… estou contigo no: ceder a este tipo de ameaça é uma merda, mas não me parece que a situação seja assim tão facilmente gerível.
    Quanto ao: “os moradores do bairro vão acabar por admirar a persistência” acho que isto mais facilmente dá para a irritação, por haver “desrespeito” da vontade “popular”, e a haver espaço para o “admirar também o facto de um grupo de pessoas ter escolhido o seu bairro para ter um espaço onde aconteçam coisas” a acontecer já tinha acontecido. Agora, com as obras no largo e todo o arranjo da daBarbuda, o local é muito muito apetecível, nada como enxotar os freaks e criar lá uma casa do fado, uma extensão do centro desportivo da mouraria, ou algo que tal… não consigo mesmo vislumbar solução viável…

  6. bah, n sei se um grupo de gorilas e um dono de café configuram a “vontade popular”. E mesmo que fosse essa vontade maioritária, a rua é de todos e n é de ninguém. Filme projectado na parede do largo à noite com convites para todos os amigos pode ser uma ideia para retomar o caminho diplomártico da paz? Só esta iniciativa, com muitos amigos a aparecer, um filme tipo Douro, Faina Fluvial, mas para Lisboa. Não queria dizer A Severa do Leitão de Barros mas queria dizer algo que pudesse ser visto por uma criança da Mouraria.

  7. Que chibanço!
    Nós e Eles, mas agora Eles já é bófia+populares e o Nós inclui os paquistaneses.

    https://spectrumzx.wordpress.com/2011/11/23/debate-chavs-a-demonizacao-da-classe-trabalhadora/

    então e isto ?

    se bem percebo há 2 pessoas a quererem entrar pela mouraria

    os maus: aimouraria, camara , bófia, o espectáculo , o deserto …
    os bons: os construtores da ilha , (e os imigrantes paquistaneses são fixes também)

    quem manda lá agora, parece, prefere os primeiros
    e agora?

    pronto dito isto, acho que é de resistir , mas também é de rever se os livros que andaram a ler estão mesmo correctos.

  8. Rtype: Parece que há ainda mais maus: «Durante o resto da visita, várias pessoas puderam testemunhar que os vendedores de droga do bairro estavam coordenados com a polícia e a segurança do Presidente para evitar qualquer ímpeto contestatário por parte da população.»

    Eu acho curioso que um texto que começa de forma tão erudita (“A ordem é um sistema moral e estético”) acabe a convocar o Capitão Nascimento do ‘Tropa de Elite’ e a bardar contra “os vendedores de droga”.

  9. O pá! Isto era sacar um carro qalquer, parar na famosa esquina da calçada de são tomé e pôr a milicia janado-fascista da mouraria a dialogar com 4 ou 5 fuscas

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