Que sa foda style

Desde quinta que várias ruas de Madrid e de outras cidades do estado espanhol são palco de massivas manifestações espontâneas que têm cortado ruas e resistido a uma fortíssima repressão policial, tudo porque foram anunciadas várias medidas de austeridades, todas menos severas das que por aqui foram já aplicadas. De golpe cabe a surpresa e a questão: qual é a excepcionalidade portuguesa que faz com que por aqui tudo seja tão estupidamente panhonha, mole e conformado? A resposta imediata, a que circula pela boca de toda a gente, do comentador da SICN ao mais feral anarquista, é também a pior e a que se torna imediatamente estéril e parte do problema: “somos um povo de merda, é uma questão cultural/histórica”. Todo um programa de fatalismo preguiçoso e hipócrita, extremamente conservador, que rapidamente resolve a questão reforçando o panorama que a convoca.

O 15m Madrileño tem as suas raizes na movida dos anos 80

Sendo obviamente ridículo procurar aqui em breves linhas responder e resolver essa problemática, mas sendo também óbvio que neste momento o ridículo será o menor dos nossos problemas, há observações claras a serem feitas: alguém acredita que o torna possível uma reacção deste calibre seja realmente um património comum de hispanidade rebelde que telepaticamente convoca todos os súbditos de Juan Carlos a convergir em força na plaza del sol?

Compare-se por um momento outras situações: No estado espanhol vários mineiros que estão há semanas em confrontos com a polícia são recebidos em madrid enquanto heróis por manifestações dos sindicatos. Em portugal numa greve geral sucedem umas ligeiras escaramuças entre manifestantes e polícia: a cúpula sindical afirma rapidamente censurar todo o tipo de vandalismo. Em directo para a TVI um líder sindical, a encabeçar uma manifestação que mais parece uma marcha fúnebre, diz que é uma pena terem acontecido confrontos porque dá mau aspecto ao movimento sindical lá para “fora”. Conseguem ainda espancar um outro manifestante por acharem que era “anarquista”. Esclarecido o equívoco o agredido tem poucos problemas em compreender que foi tudo apenas um mal-entendido, e o celeuma termina com um cházinho na sede. Dos seus bunkers ideológicos aos seus manifestos é notório como a esquerda institucional está rapidamente a deixar de ser uma anedota para se tornar apenas numa sucessão de punch-lines.

ganda mau aspecto

O que parece tornar possível uma maior resistência no estado espanhol são três coisas: Primeiro que as redes criadas pelos organismos de militância parecem ultrapassar a sua institucionalidade: dá ideia que a espontaneidade das manifestações surge porque existem ligações formais e informais entre os manifestantes que neste momento prescindem das instituições formais que eventualmente as terão criado. Segundo porque as dinâmicas de contestação e organização que compõem o reportório dos movimentos sociais são aproveitadas e adaptadas sem que isso signifique uma multiplicação do mesmos: não há uma explosão ou um crescimento das identidades anarquistas, okupas, autónomas ou esquerdistas mas sim um repescar das suas experiências de contestação e auto-organização das últimas duas décadas. Terceiro porque realmente o pessoal no estado espanhol parece não partilhar a mesma ânsia de respeitabilidade e decoro que cá: veja-se a caderneta que vai do “senta, senta, senta” ao “mau aspecto lá fora”, passando pelo intenso esforço do movimento em ser sempre apresentado nos media enquanto o mais expedito grupo de escuteiros de sempre. Parece estar a mudar, mas durante tempos bastava alguém dar um peido numa manifestação para que surgissem mil pessoas a segredar: “olha, nós somos pacíficos ok?”.

puro que sa foda style no Bangladesh

De novo esta semana: milhares de médicos reunidos em manifestação decidem terminar com a fabulosa acção de lançar balões amarelos ao céu para mostrar que são muitos. Outros tantos professores apostam em passar a semana vestidos de negro em luto pela educação pública. Coelho seguramente que não perdeu o sono entre os balões e os hábitos, já os ministros que tiveram de sair escoltados do parlamento espanhol não terão tido um sono tão descansado. Quiçá não fosse má ideia recuperar à classe política-empresarial o espírito “que sa foda” de que fala o Valete. O alegado triste fado da soturnidade lusitana é uma banhada e uma desculpa, é puro espectáculo vintage, é um cancro e um cadáver na boca. Quiçá não seja demais repetir o Vaneigem que disse que o desepero termina quando as tácticas começam.

Que sa foda

Será porventura necessário encerrar o debate esquerda extra-parlamentar versus esquerda institucional na sua vertente ideologia, identitária e tribal e procurar abri-lo numa vertente táctica e política. A esperança reside no entanto num outro factor: goste-se mais ou menos a internet, os blogues e o facebook alteraram as dinâmicas de contágio táctico e discursivo. Os Rossios, os 15 de Outubro, as ocupações que neste último ano foram constituindo um proto-movimento não nascem de uma contaminação vertical que parta de uma ou duas vanguardas ideológicas mais ou menos assumidas enquanto tal mas sim de uma contaminação mais horizontal veiculada em primeira mão por estes meios, ainda que depois, e ainda bem, os transcendam velozmente. A elaboração de um reportório de contestação e auto-organização estará assim a acontecer independentemente dos actores já em cena, e essa é a melhor notícia dos últimos tempos: felizmente que a eventual vanguarda do movimento não será um partido, um sindicato ou um “movimento”, mas sim um fantasma que insiste em assombrar as ruas do mundo inteiro.

8 thoughts on “Que sa foda style

  1. Boa posta. Descreves bem o que se passa cá neste “cantinho à beira-mar plantado”.
    Realmente o que falta são uns que sa foda mais fisicos. é desesperante a nossa amargura-ligeireza faduncha. só dá mesmo para viver o que sa foda intensamente.
    Aqui á uns tempos fui a Setubal á manif antifa e achei verdadeiramente “interessante” verificar inloco que o que mais ocupou as pessoas foi a divisão-indecisão do partimos-a-boca-aos-gajos-versus-os-nazis-também-têm-direito-á-vida-e-viva-o-pacifismo-versus-vamos-pegar-fogo-ao-mundo.
    ficou ali tão bem vincado que faltou uma elite e ou vanguarda que nos guiá-se a conduzisse pela luta. os fachos nas são variadas formas trasvestidas devem fartar-se de rir. ou então… se calhar como bem dizes apenas têm um soninho ligeiro todos os dias sem nada que os apoquente.

  2. ok. então “O alegado triste fado da soturnidade lusitana é uma banhada e uma desculpa, é puro espectáculo vintage, é um cancro e um cadáver na boca”. Ok. É tudo culpa da merda da institucionalização dos protestos. É uma mania de verticalidade lusa. Mas porqe é que os tugas têm essa mania, essa tara, essa merda edipiana da verticalidade, da instituição? Porque é que ainda andamos de balões nas manifs (e “dantes” nem balões, nem gaitas, nem apitos havia)?
    Não são os franceses que são cartesianos, Decartes é que era fracês, já dizia o outro,. E este outro diz: não são os portugueses que são salazarentos, Salazar é que era português.
    Eu não sei porque é que somos pichas moles e conas secas. Mas não é uma fatalidade (nisto o PP tem razão).
    Mas, a coisa em Espanha não se resume a: “O 15m Madrileño tem as suas raizes na movida dos anos 80”. Há mais. Há séculos de lutas autonómicas e independentismos, de resistência contra o centralismo, de coisas como as associações de “vecinos”, etc É isso, sobretudo que falta cá. Agora vou almoçar sózinho.

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