Fanny – fragmentos de um discurso amoroso

Razões várias levaram-me a passar ao lado de grande parte da segunda edição da Casa dos Segredos, uma estimulante iniciativa com que a TVI abrilhantou o serão de inúmeros portugueses durante o Outono/Inverno de 2011. Tendo acordado tarde para o fenómeno, fui ainda a tempo de me deixar cativar por algumas das mais carismáticas personagens da cultura de massas contemporânea, mistos de arquétipo e alegoria de qualquer coisa que neste preciso momento se furta a uma definição, mas que arrisco considerar decisiva para decifrar esse grande enigma que é a paz social em Portugal.

Não tenciono falar aqui do glorioso episódio de pretenso sexo oral sob o édredon, que tanta tinta fez correr, de Sagres a Vila Nova de Cerveira. Registei contudo que o mais insólito do assunto parecia ser, a julgar pela frequência com que isso era sublinhado na imprensa de referência,  o facto de o sujeito passivo felacial ser um “pasteleiro”, como se o assunto tivesse qualquer coisa que ver com massa folhada e creme de ovos. Tratou-se, em todo o caso, de uma inestimável contribuição para devolver aos pasteleiros e outras categorias profissionais subalternas o estatuto de actores históricos que é seu de pleno direito.

 Fascinou-me muitíssimo mais a percepção mal (ou nada) dissimulada pelos protagonistas (chamemos-lhes assim) relativamente à sua imagem, às oportunidades que o programa lhes proporcionaria, às suas ambiciosas carreiras (televisivas, empresariais, musicais, etc.) e à sábia gestão estratégica dos mecanismos de selecção a cargo do «público». Pareciam todos, do mais boçal à mais bimbalhona, saídos de um curso de marketing televisivo. O programa foi uma espécie de viveiro de talentos artísticos, culturais, mediáticos, profissionais e outros, um dos mais poderosos mecanismos de mobilidade social ascendente promovido pela televisão portuguesa em democracia (exactamente). Mas poucas coisas me tinham preparado para a fulgurante aparição de uma das mais polémicas e controversas (isto parece redundante, mas está muito longe disso) concorrentes, cujas paixões e iras deixaram em suspenso «os portugueses».
Fanny (sim, eu sei) começou por juntar a sua voz à de Marante, essa espécie de contra-baixo vocal que para sempre cativou os ouvidos e os corações de tudo e todos com temas como «Meu querido mês de Agosto»* ou «A bela portuguesa». Note-se que nesta altura ainda a rapariga não tinha feito do seu corpo a pujante máquina estética que viria a ser, quando recorreu às mais avançadas práticas cirúrgicas para se passar a sentir, e cito, «uma brasa». Mas já então resistia ao pedante elitismo de Manuel Luís Goucha, permanecendo inalterável e igual à rapariga bem disposta e simples que sempre foi, chegada da Suíça para encantar os teleespectadores lá em casa. Fanny não se deixou intimidar e acompanhou com brilho, ao vivo e sem pleibéque, um dos temas maiores da discografia dos Diapasão, dedicado, de resto, a um elemento recorrente da cultura portuguesa. A sua voz de desenho animado infantil fundiu-se à poderosa caixa toráxica de Marante com estilo, brilho e elegância.
Ali mesmo, anunciou a sua recente colaboração com o FredFox, um jovem produtor e MC, numa música que podemos ouvir, «na internet».  E como estamos precisamente na internet, aqui está ela, a canção que incendiou corações e vontades durante todo o inverno/primavera de 2012. Para os mais desatentos, que, talvez por desconhecimento, possam pôr em causa a conveniência desta parceria, fiquem apenas a saber que o FredFox é um desses jovens portugueses que não se resignaram nem aceitaram ficar na sua zona de conforto, tendo partido à conquista do mundo armado apenas com o seu talento, esforço e ambição, como fica ampla e cabalmente demonstrado em momentos como este. Em «Ai, ai», Fanny explana aquele que será um dos temas recorrentes no seu imaginário poético, a saber, o calor. Neste caso, o calor que tem para dar. Trata-se de uma canção de amor, como o leitor não terá dificuldades em perceber, na qual sobressai o clima intenso que rola entre os dois. O Fred, esse tortuoso dom Juan da batida, não tem qualquer problema em dizer ao que vem, conjugando em poucos versos o que mais lhe agrada na Fanny, por ordem de preferência: o «bum bum» dela deixa-o crazy, ela dá bem para ele porque é famosa e, finalmente, tem cara de safada. Pouca gente é tão honesta e frontal num primeiro encontro e foram certamente as suas palavras doces que cativaram esta rapariga simples (nunca é demais repeti-lo), farta de ser enganada por rapazes bonitos mas estróinas. Por outro lado, para além de valorizar a índole sincera do seu novo parceiro, Fanny parece igualmente cativada pelo seu porte físico. Pois não nos diz ela, logo no terceiro verso e muito antes de ele lhe abrir o coração, que está a ferver ao ponto de nem querer dançar? Acresce a isto um outro tema recorrente em Fanny, o dos lábios, que ora se provam ora se seguem, num incessante movimento que nos remete para a imagética da pista de dança e dos inúmeros jogos de sedução que ela abriga no seu seio. Finalmente e apesar (nunca é demais repeti-lo) de Fanny saber bem o que significa ser usada e abandonada como um farrapo velho, fica de pé a possibilidade de um reencontro, que faça desta mais do que uma noite de sexo casual entre tantas outras. Embora seja uma mulher moderna, incapaz de ficar a aguardar um telefonema no dia seguinte, Fanny sabe que os momentos especiais são aqueles que ficam e deseja voltar a vê-lo. E o que é que tornou a noite tão especial, perguntarão vocês? É difícil penetrar assim na intimidade de dois corpos que se encontram e, no seu encontro, se cumprem. Mas é possível supor que foi a maneira como Fred desbloqueou o impasse inicial na pista de dança que lhe reservou um lugar especial nas recordações de Fanny. Não só domina o inglês técnico, o que é sugerido pelo uso da expressão romântica «baby», como resolve logo o problema ontológico relacionado com o início e o fim de cada coisa, sussurando-lhe (como sugere a onomatopeia «chuu»): “vieste com amigas mas sais comigo daqui”.
E agora, o tema que tem dominado as mais variadas pistas de dança durante este Verão. Ainda que não nos seja dado a saber o que aconteceu com FredFox, parece lícito concluir que é uma história resolvida. Fanny partiu para outro. Na verdade, Fanny iniciou uma nova fase, da sua vida como da sua carreira, em que já não está preocupada com este ou aquele rapaz, porque sabe perfeitamente que não faltam peixes no mar e a vida passa num piscar de olhos. Sem se desviar um centímetro do imaginário de libidinosa sensualidade que lhe está associado, percebe-se aqui a vontade de dar o salto, passar a outra divisão, alimentar outras ambições. A produção melhorou. A vida melhorou. E o parceiro melhorou imenso (não desfazendo). Fanny permanece a mesma, mas algo nela mudou. Está mais solta e mais madura, sabe o que quer e não tem medo de o dizer, alto e em bom som. É possível argumentar ser esta uma música muito pouco original. Mas isso não é tão engraçado como proceder relativamente a ela como a qualquer outro objecto cultural do nosso tempo. A hermenêutica é aqui bem empregue. Vejamos. Emancipada, Fanny não deixa por isso de ser uma rapariga chegada à família e, nomeadamente, ao pai, que sempre a apoiou. Nos primeiros segundos deste videoclip, podemos vê-la partir ao encontro do amor no descapotável paterno, ansiosa por chegar e arrasar, confirmando no espelho retrovisor a sua brasice, antecipando já o que serão as próximas horas de vida louca. Canuco (Zumby?) chega e a terra treme. A língua é o castelhano, sem razão aparente que não o facto, incontestável, de soar melhor. Atencioso, Canuco começa por inquirir acerca dos desejos da sua parceira. E ela responde, na melhor tradição de diva, presenteando-o com um sorriso luminoso e um olhar enigmático: yo quiero vida loca. O pormenor dos óculos chegaria para tornar esta uma das melhores sequências videomusicais da cultura portuguesa recente. Note-se contudo o trabalho de câmara, que nos mostra os dois amantes ora de frente ora de lado, campo e contra-campo alternando-se ao sabor do jogo da sedução. O resto são dois corpos que desfrutam a liberdade, gozando a sua juventude irrequieta e levando até ao limite a poderosa pulsação contida na batida. Nunca um Verão pareceu tão intenso. A poesia da canção não é menos sugestiva. Se Fanny vira irredutivelmente as costas às convenções sociais e aos diversos tabus que herdou de uma cultura judaico-cristã apostada na dessexualização do corpo feminino, proclamando o culto pagão do sol, da praia e do prazer etílico, Canuco optou por uma aproximação mais calórica, espécie de versão «pasteleira» (o círculo fecha-se) do cântico dos cânticos. Chamando-lhe a sua «bomboca» e nomeando o açúcar no seu corpo (deixando em suspenso a questão de saber se dentro ou fora), ele confessa-se dependente dela, invertendo os papéis de género tradicionais enquanto pisca o olho a uma abordagem petrarquiana do amor. Fanny é aqui uma espécie de Laura desdramatizada, cuja abrupta emancipação tornou desnecessário o sofrimento do eu poético, actualizando-o e convertendo-o em máquina desejante. Provocando-lhe angústia por não estar quieta e por «dar de esperta», a aparente inacessibilidade de Fanny exige de Canuco que supere todas as provas. Por ela, ele será o rei da colmeia, o seu borracho, o dono do pedaço, capaz de lhe sussurrar ao ouvido e «dar beijo na boca», como prelúdio do resto, ou seja, do amasso. Note-se o contraste: ela não ambiciona mais do que beber até cair e andar na gandaia. Mas ele está louco de desejo e disposto a tudo (tudo) para a ter. Vida louca, mundo ao contrário: tudo isto nos fala de um novo discurso amoroso, anuncia uma nova época, antecipa a comunidade que vem. Está tudo contido naqueles movimentos de ancas e no vai e vem do busto de Fanny, incontornável metáfora dos altos e baixos da paixão e do desejo. Nunca um ritual de acasalamento se revelou tão carregado de densidade e alcance simbólico. Nunca isso foi tão irrelevante. Se a ti te gusta, a mim me encanta.
* Rick Dangerous errou. Como em devido tempo me chamou a atenção o camarada renegade na caixa de comentários, a música «Meu querido mês de Agosto» não é da autoria dos Diapasão, mas sim do artista anteriormente conhecido como Dino Meira. Cá fica a correcção.

12 thoughts on “Fanny – fragmentos de um discurso amoroso

  1. Mereceis uma estátua por isto, Rick. Quiçá na estação do Colégio Militar.

  2. Querido Ricky,
    como estou longe da nossa terra, às vezes as novidades da cultura portuguesa não chegam aqui.
    Um bem haja a ti, que me manténs informada. Não percebo porque é que o telejornal da RTP1 não passa mais destas coisas que realmente interessam.
    *
    Daniela

  3. Muito bom, gostei muito!!
    Apesar de, ao contrário da maioria e do que parece ser moda, eu até achar certa piada ao “furacão suiço” com todos os seus defeitos e qualidades, ri-me a bom rir com o texto. Muito bem escrito. Parabéns ao autor.

  4. Bonito sim senhor, alto nível!
    Atenção ao rigor heurístico, porque o tema “meu querido mes de agosto” creio ter sido escrito por Dino Meira.
    um abraço

  5. Tens inteira razão. Devia ter recorrido aos teus conhecimentos na área antes de me lançar assim a escrever sobre domínios que de todo não domino. Vou já publicar uma errata.

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