Youths in shorts and flip flops throwing rocks at cops

1- A 15 de setembro do ano 2012 da graça do nosso senhor largas centenas de milhar de pessoas encheram as avenidas novas na maior manifestação desde o PREC. Chegada a Praça de Espanha largos milhares decidiram rumar à assembleia. E aparentemente entre esse momento e a madrugada do dia seguinte nada aconteceu, ou, segundo o correio da manhã, e o Daniel Oliveira, nada aconteceu para lá de umas ligeiras escaramuças entre a polícia e pequenos grupos de radicais perigosos, ou nas palavras do comentador da SIC, “os idiotas do costume”.

2 – Na verdade durante várias horas Lisboa centro viveu os confrontos mais acesos dos últimos anos. Várias dezenas de pessoas procuravam furar a barreira policial que protegia o parlamento, outras tantas apedrejavam a polícia, outros tantos milhares enchiam a praça, gritavam em uníssono com a linha da frente, aplaudiam quando algum polícia era atingido por um petardo ou uma garrafa. Largos milhares que enchiam a praça de uma ponta à outra. Durante várias horas. Nada portanto. “Os idiotas do costume”.

3 – O ambiente vivido nessa noite, e no fim da vigília desta sexta também, deve mais a qualquer seis da manhã no miradouro de santa luzia em dia de santos do que à ginjinha às seis tarde depois da manifestação do 25 de Abril. A multidão era composta essencialmente não por diversas facções da esquerda mas por jovens. jovens de camisa à risca e sapatos de vela, jovens dos bairros chungas das periferias, jovens dos bairros populares do centro da cidade, jovens que fumam ganzas na praceta algures entre Alvalade e Telheiras, jovens que segredavam a mãe não saber que por lá andavam, jovens que fazem parte de claques de futebol, jovens gostam mais de ir ao lux que às tascas, jovens que viram o matrix e querem fazer história. Esqueçam-se as imagens de um black bloc na praça syntagma a mandar cocktails molotov ou numa qualquer reunião internacional, imagine-se antes uma noite de fim de semana no bairro alto em que se decide lutar contra a polícia.

4 – Aparentemente a polícia portou-se bem. Claro, porque face a uma multidão raivosa nas ruas no meio de uma crise internacional, num pais que nos últimos anos têm vindo a remodelar todas as suas forças de resposta a distúrbios, o comportamento da polícia é deixado aos apetites de cada um dos agentes. O agente da EIR treinado para lidar com motins no fundo é um miúdo do jardim escola que segundo quanto açucar tinha a sobremesa e se tem ou não um fraquinho pela professora se porta pior ou melhor. A polícia não carregou porque não recebeu ordem, ou antes, porque recebeu ordem para não carregar senão em último recurso. A polícia não carregou porque não podia, porque o governo teria imensas dificuldades em lidar com as imagens de violência que se seguiriam e porque o governo teria imensa dificuldade em controlar a situação que se seguiria a essa carga. Arriscaria transformar uma gigantesca manifestação num gigantesco motim que nada garante que conseguiria controlar sem recurso a força extrema. Não carregou ainda porque começa a ter medo da sua própria polícia, porque haveria sempre o risco de esta eventualmente se recusar a cumprir as ordens já que começa também a perceber que é nela que reside a última barreira entre o governo e grande parte da população, e porque sabe que está a um passo de ser considerada o braço armado da troika, porque não se importa de espancar pretos mas terá eventualmente alguns problemas em espancar velhinhos. Um passo que teria sido dado caso tivesse carregado sobre a multidão naquele dia. Desde a greve geral que o policiamento das manifestações deixou de ser feito pelos borregos do costume para se tornar em algo bastante mais profissional. Foi ver um dos agentes das escadarias que imediatamente depois de dar uma bastonada em alguém foi imediatamente chamado à razão pelo seu superior, o mesmo que organizou as coisas esta sexta.

5 – O único que impediu que os confrontos se tornassem maiores foi um empate de forças naquelas escadas. A polícia não tinha margem para carregar, os manifestantes da linha da frente não tinham força para quebrar a linha policial. Foi esse impasse que manteve a tensão a ferver sem nunca chegar a explodir. Apesar dos directos no dia seguinte aquelas longas horas foram reduzidas a parcos minutos, aquela multidão foi reduzida a uns quantos extremistas. Presume-se que o Correio da Manhã assim o afirma porque assim lhe dizem para o dizer e que o Daniel o afirme também porque, enfim, já nos habitou a falar bastante, e de um modo bastante mediocre, daquilo que pouco conhece.

6 – Para a cultura política do poder, dos jornalistas, dos políticos profissionais e da intelligentsia em geral a rua continua a ser uma espécie de patamar rasteiro da política. O local onde os cidadãos esboçam a sua lista de pedidos ao pai natal. Sem cair num qualquer fetishismo um possível fresco do que naquelas ruas se passou, do que se fez, das dinâmicas em curso seria sempre mais interessante do que qualquer relatório do que se passou no conselho de estado ou do que depois diz o batalhão de comentadores dos jornais e televisões. Há, e esta afirmação será óbvia para quem tenha aí estado presente nos últimos anos, um processo constituinte que está a ser feito nas ruas. Para quem não as vive enquanto uma passeata onde são exercidos alguns direitos cívicos, uma linguagem totalmente alheia ao imaginário da maioria dos presentes, decorre um processo emancipatório do qual não se voltará tão facilmente a prescindir. As imagens de Catarina Martins a ser insultada não me dão qualquer tipo de alegria, mas sim demonstram que começa a haver pouco lugar para todo um status quo de politíca e representabilidade. E isto é uma moeda ao ar na qual pode sempre sair coroa em vez de cara.

7 – Os mais expeditos não terão problemas em afirmar que não se faz uma omelete sem partir os ovos, que quando se abre uma janela também entram moscas e que uma revolução não é um jantar de gala, isto perante as várias situações menos agradáveis que ali se viveram, de confrontos entre manifestantes e de intimidações várias. Cabe olhar para a primavera árabe, e como revoluções não mediadas e movimentos totalmente populares foram ainda assim totalmente desarmados no periodo imediatamente pós-revolucionário por não conseguirem desde o início pensar em alternativas de organização e de manutenção do poder conquistado. E convém não esquecer também que o mote “o povo unido não precisa de partido” adquire um cunho diferente quando é entoado a seguir ao hino nacional. Tomemos no entanto uns dias para celebrar a semana que passou. Começou um capitulo novo.

7 thoughts on “Youths in shorts and flip flops throwing rocks at cops

  1. São boas notícias, então: ao menos os idiotas estão a renovar-se. Não eram os do costume, eram outros, e isso é de louvar!
    Pode ser que outras coisas se renovem também!

  2. o espaço público vive das aparências e, mesmo nos protestos, ninguém quer ficar mal no boneco, mas o essencial é a contestação e a libertação, não se ‘fica bem’

    no jogo dos media, se não há algo que questione as normas, há menos hipótese de ser notícia e saber-se noutros países o que aqui se passa; ou então que haja outros protestos mais imaginativos, porque o protesto silencioso, a vigília à luz das velas, agradam ao poder

    nesse dia, ao ir para casa, senti-me leve, qual catarse terapêutica

    se nos libertarmos das aparências, do que vão dizer de mim no dia seguinte, da mentalidade bem comportada inculcada desde a escola, o protesto pode ser mais veemente e, na situação que este país vive, a maioria das pessoas do mundo verão nele a sua própria revolta

    reprimir sempre impulsos cria bloqueios não saudáveis

  3. «o mote “o povo unido não precisa de partido” adquire um cunho diferente quando é entoado a seguir ao hino nacional. » Pois adquire. Cantar o hino nacional, já diz muito. Entoar isso a seguir, diz tudo…

  4. Pingback: It was a very good year | Spectrum

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