Tudo o que é sólido derrete-se no ar.

Portugal ter-se-á tornado nos últimos dois anos no principal organizador de acções simbólicas. Qual pastel de nata, qual caldo verde, qual benfica, a verdadeira paixão nacional, a que arregimenta familias e forma com Eusébio e Amália o triunvirato da psique nacional, é a acção simbólica. Regressemos ao início do verão, à manifestação mais bem frequentada de sempre. Olhando à volta dava para ver que o modelo era mais George Clooney que George Wright, às tantas uma menina, acompanhada por uma jornalista de esquerda, dizia perante um sonoro “RELVAS VAI PÓ CARALHO” que “ai meu deus asneiras é que não”, no falso sotaque popular vulgarizado pelo Herman que uma certa urbanidade gosta de usar quando quer ser engraçada. Chegaram depois noticias de que 1) os manifestantes tinham levado livros escolares para depositar nas escadarias. 2) Passos Coelho, relvas e o resto do PSD jantavam nas imediações, mas que ainda assim os cidadãos tinham preferido levar a cabo a acção dos livros e 3) que o organizador da manifestação, que apareceu em todos os jornais e televisões, veio outra vez a público uma semana depois pedir dinheiro para o seu filme sobre a busca do sentido da vida. Juntemos a este mimo as acções dos sacos de lixo, a outra realizadora activista que queima o seu filme, os panos brancos e as folhas de papel com ideias para melhorar este nosso portugal, os pais natais contra o aquecimento global, o dia sem compras no colombo, os médicos a lançarem balões para mostrarem que são muitos, os professores a prometer dar um dia de aulas vestido de negro para mostrar que estão de Luto, a ocupação ao início “simbólica” de São Lázaro, etc…
Parece-me que a função de uma acção simbólica será a de criar uma situação em que a) uma verdade escondida, ou intencionada, de determinado assunto é denunciada, através dos artifícios clássicos do humor e da pantomina, ou b) determinada acção é ensaiada tendo em vista a sua efectivação futura, uma ameaça da sua concretização ou a encenação um simulacro da sua motivação. Ora até aqui tudo bem, cabe até pensar que até ao momento em que se esteja realmente já numa guerra de posições com o poder estaremos sempre, de uma maneira ou de outra, no campo do simbólico, e no entanto, ainda assim, há enormes diferenças entre uma concentração num local onde uma activista foi identificada por distribuir panfletos e dar uns pulinhos coloridos não sei onde porque o governo vai “pular dali para fora” (tanto quanto sei este exemplo não aconteceu, espero não ter dado ideias a ninguém).
Parte fulcral deste activismo simbólico será precisamente o acto de nomear, preferencialmente de modo humorístico ou dramático, uma verdade escondida por detrás de toda a desinformação, ou seja, o elefante na sala que o poder finge não existir. Ora cabe aos tempos agridoces que vivemos a condição de serem, se algo, demasiado óbvios. A mais irónica e sarcástica denúncia do exercício do poder será ainda pálida perante o grau de cinismo que somos obrigados a manejar diariamente. Poder e contra-poder complementam-se aqui perfeitamente: uns ensaiam uma ilusão de democracia enquanto os outros ensaiam uma outra ilusão de democracia: uns fingem existir esse direito à cidade enquanto os outros fingem usufruir desse direito à cidade. É precisamente neste momento que esse tipo de activismo, e eventualmente todos os outros, encontram o seu ponto limite: no momento em que se tornam apenas mimetizações patéticas dos dispositivos de poder.
A questão da resistência que assume a forma da opressão não é, obviamente, exclusiva apenas a uma clique do activismo urbano contemporâneo nem é inversamente proporcional à alegada “radicalidade” dos envolvidos. Basta olhar para o outro canto do ringue para ver como as margens mais radicais do movimento não conseguiram nos últimos anos elaborar mais do que ambientes controlados onde se considera que o advento de uma qualidade emancipatoria acontecerá automaticamente pela exclusão de comportamentos e processos nocivos. Torna-se notório quanto um certo secessionismo que visa a “boa” vida repete apenas os processos de blindagem das classes abastadas: condominio privado, educação especial para os filhos, blindagem e selecção social. Perante um ataque re-organizativo do capital que aspira ao controle total das vidas procurar apenas assegurar uma salvaguarda, e pior, assegurar que os esforços se direcionem para a reprodução social das cliques anti-sistémicas, que apenas se revelaram um enorme fiasco, é assumir uma clara postura conservadora.
Seria inútil procurar mais exemplos que são por demais evidentes por si próprios, a questão que se põe é outra: Se é natural esta mimetização entre poder e contra-poder, e obviamente o seu contrário, então que o contra-poder a assuma directamente. Se o movimento tem até agora respondido, indignado, às mentiras e ilusões do poder então que passe a responder, directamente, às suas verdades. E as suas verdades não são o chico-espertismo da classe política nem a deturpação das instituições democráticas, mas sim o medo, a intimidação e a miséria que nos são forçadas pelo boca abaixo quotidianamente.

11 thoughts on “Tudo o que é sólido derrete-se no ar.

  1. Sem dúvida um dos mais belos textos contra a intervenção do estado na economia, o qual se financia através de impostos excessivos sobre a população. Obrigado.

  2. num contexto em que 80% dos impostos são para pagar funcionários públicos, a vossa proposta é que se deixe de pagar a esta gente (dado que não há dinheiro em mais lado nenhum); viva o liberalismo

  3. garantido no telejornal de domingo: fazer o maior bolo rei do guiness pa mandar o cavaco à fava (a moça dos abraços pode ser o brinde)

  4. porque é que na islândia e na irlanda, governantes foram acusados judicialmente por responsabilidade na crise, e cá não são?

  5. Rick (pouco) Dangerous, obrigado pelo argumento: com as reduções de isenções fiscais no off-shore da Madeira, o Estado já perdeu mil milhões de euros; essa medida é para evitar outro descalabro, embora a notícia pareça ter sido escrita nas masmorras do Avante porque considera que o dinheiro que era dos empresários já seria do estado antes da medida, o que é uma coisa espetacular.

  6. As masmorras do Avante! são aquele sítio escuro onde estão aprisionados milhares e milhares de corajosos empreendedores criadores de emprego, certo?
    Paulo, eu sei que a leitura não é o teu forte, mas faz um esforço, bale? Já ouviste aquela história do cão que mordeu o homem e do homem que mordeu o cão, certo? Então deixa lá a Madeira e concentra-te nesta parte: «Há meses que o PÚBLICO tenta aceder ao relatório da IGF, mas o gabinete do secretário de Estado impede esse acesso». Achas que o relatório está nas masmorras do Avante!

  7. Paulo, mas tu acreditas mesmo que 80% do orcamento de estado eh para pagar salarios? Ja fizeste as contas ou tomas como verdade tudo o que ouves de boca? Sendo os 80% falsos so pode ser a segunda. Finalmente percebi donde eh que vem este teu discurso todo…

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