Pop life

Bem sei, embora não me importe que o repitam, que há limites aos paralelismos que podemos estabelecer entre o que nos acontece na nossa vida, digamos, pessoal e os eventos e opções que se produzem numa esfera, digamos, pública. Bem assim, não me passa despercebido que está um bocado gasto isto de pegar num qualquer fragmento da cultura pop e esticá-lo apenas para o fazer servir os nossos inconfessáveis desígnios de ser, à vez, engraçadinhos e extremamente pertinentes. Mas, que vos posso dizer?, ainda não encontrei esse limite nem maneira de resistir a essa tentação. Mais. Confesso que já não há música, teledisco, manchete de revista, pedaço de filme ou tema de anúncio que não me pareça evocar, de forma absolutamente incontornável, a situação que vivemos, o nosso tempo histórico, o enredo do drama em curso, enfim, esta latrina.

Não quero ir muito longe. Atente-se neste teledisco e pense-se nas medidas ontem anunciadas pelo Ministro das Finanças. Agora imagine-se os eleitores do PSD e do CDS a escutar, no recato do lar ou na azáfama do seu local de trabalho (os eleitores do PSD e do CDS são, como se sabe, as pessoas que verdadeiramente trabalham e mantêm este país de pé), a sentirem-se traídos, abandonados, enganados. Tudo o que eles queriam era um governo que estivesse lá quando fosse necessário e que, tendo recebido tudo, não se coibisse de dar outro tanto. Quando Vítor Gaspar diz que os «portugueses são o melhor povo do mundo», os «portugueses» desconfiam, sentem já ter ouvido isto antes e não ter gostado do que se seguiu. Mais concretamente, os «portugueses» que votaram neste governo pedem-lhe, embaraçados, que seja mais comedido nas suas declarações de amor, que se limite a prometer-lhes o essencial. Mais respeito e menos vozinhas doces.  E fazem (juro) estes gestos coreografados entre o amor e o linchamento, que é próprio dos seus sentimentos marciais, da sua inflexível simplicidade. Alguns poderão considerar casual (ou até, se tiverem má-vontade, um pouco questionável)  o facto de as spice girls terem composto (?) em 1996 aquela que viria a ser a banda sonora do desencanto da base social de apoio às medidas de austeridade. Mas eu insisto que, no que diz respeito à cultura pop, não há coincidências, apenas verdades subterrâneas que emergem periodicamente à superfície (como os submarinos, aliás). Vítor Gaspar acaba de proceder a um detournement que revela o verdadeiro leitmotif (ufa!) daquelas miúdas inglesas. Os eternos temas da traição e do desencanto fundem-se aqui numa desolação futurista que não é senão uma imagem do deserto do real.  Em frente a uma superfície espelhada, um grupo de radicais violentas desafia a autoridade. Estamos em Portugal, Outubro de 2012, Ano I depois da Troika.

Algo de muito semelhante acontece entre o enredo sugerido por Justin Timberlake e a lenta e progressiva deterioração da relação no seio da coligação governamental. Também aqui a traição ocupa o centro de tudo, mas ela não é simplesmente a falta à palavra dada, a desilusão por não ver cumpridas as promessas outrora feitas. Para os distraídos, Passos é Justin Timberlake, que acolheu Portas (Scarlett Johanson) no seu círculo de confiança, tornou-o apresentável aos seus amigos mais cépticos e estava pronto a estabelecer um compromisso mais duradouro, a pensar no futuro. E agora não lhe perdoa ao vê-lo a brincar por aí, vivendo uma mentira, rindo-se nas suas costas sem se dar conta que, no fundo, é de si próprio que se ri. Portas julga-se acima de qualquer problema e pronto para novas aventuras, foge para a frente, evita ser confrontado com os seus actos, simulando uma despreocupação que sabe ser encenada. E agora adivinha-se que Passos não irá cair sozinho, esgotando os trunfos que lhe restam para arrastar Portas na sua queda. O que poderá ficar deste amor intenso senão um chão juncado de cadáveres? Talvez nunca como aqui tenha sido tão ostensiva a dimensão trágica da governabilidade e dos imperativos do sentido de estado: «O que vai à volta volta de novo à volta». Ou, como por cá se diz, deixa-os pousar.

Lancemos agora a nossa atenção para os esforços de convergência à esquerda. É sabido que se reuniram esta semana os dirigentes de dois partidos que partilham a sua oposição ao acordo com a Troika e ao programa do governo. Dela saíram duas moções de censura, ambas chumbadas. A unidade de esquerda, a alternativa de esquerda, o governo da esquerda, tudo isso teria de resultar nalguma coisa e resultou: em duas moções de esquerda. Tal como na canção , também estas eminências pardas ouviram as notícias e sentem que a sua vida vai mudar, mas não têm a certeza de estar preparadas para assumir as suas responsabilidades. Até lá, continuam de braços bem abertos mas hesitam em fechá-los num abraço mútuo. É preciso não ser injusto com os esforços sinceros para debater os respectivos pontos de vista, identificar as convergência e as divergência, no sentido de encontrar e materializar uma solução política comum. Até porque, se continuarem a manter esta disponibilidade para o diálogo, pode ser que em 2030 o Bloco de Esquerda e o PCP estejam preparados para apresentar a mesma moção de censura a um governo que, segundo ambos, está a «roubar e destruir o país». E o fruto desta união há tanto tempo desejada também poderá ser, como na canção, uma bela criança capaz de pegar na sua própria vida e tomá-la nas suas mãos. E nesse momento os braços poderão finalmente fechar-se.

Partilhando os sinceros desejos enunciados pelos creed, certos e determinados sectores da esquerda (não se confunda o leitor, são precisamente aqueles que se encontram mais perto do centro) avançam decididamente na construção das confluências e convergências que irão desaguar no grande lago da governação. Reúnem-se a partir de amanhã num congresso que é todo ele alternativas e democracia e de onde, prevê-se sem grandes dificuldades, sairá um novo partido político ou uma declaração de intenções bastante inócua. É uma iniciativa absolutamente aberta a todas e todos que não têm um minuto a perder. Destina-se a promover o encontro de quem mal se conhece e encerra uma promessa de felicidade capaz de ir ao encontro dos seus desejos. É tudo bom e bonito, como num sábado à noite. Bué pessoal vai-se orientar enquanto debate soluções e exibe o seu movimento de ancas.

Chegamos ao o movimento. Ainda melhor, às cúpulas do movimento, que não se dão bem nem a tiro de pistola. São como a canção dos Onda Choc, mas com a primeira frase invertida: a Catarina não gosta do João que não gosta da Inês que não gosta do Miguel e assim sucessivamente, de tal forma que cada reunião tem de respeitar infinitas formalidades, cada convocatória se arrisca a redundar em trocas de acusações relativamente a um episódio passado, cada formulação num texto comum se transforma num campo de batalha, um terreno minado que ninguém pode utilizar, redundando em confusão e choro. Os discursos são extremamente parecidos, o tom é semelhante e, em grande medida, anda tudo ao mesmo, mas ninguém confia em ninguém. Pois é! Lá na escola há amores desencontrados e ficamos muitas vezes sem saber o que fazer.

Finalmente, o pessoal. O pessoal é esta componente específica do movimento que fica a olhar meio de lado, com um pé dentro e um pé fora, sorriso irónico nos lábios, olhar ora divertido ora desconsolado, dedicando-se à poesia e ao hedonismo, entre um artigo no Diário de Notícias e uma capa no Correio da Manhã. «Radicais violentos», mas apenas dentro do quarto escuro. Claro que o pessoal está preocupado, indignado, revoltado, mobilizado, empenhado e até mesmo profundamente envolvido na vasta contestação às medidas de autoridade e ao coiso. Mas o pessoal não quer deixar de ser o pessoal para passar a ser esta ou aquela categoria, etiqueta ou carimbo e, por isso mesmo, o pessoal não dá a cara nem veste a camisola. O pessoal está tão irritado que parece tranquilo. Sabe que é demasiado cedo e que, de certa forma, também já é demasiado tarde. Por isso mesmo, está na hora certa. Vamos fazer este momento durar.

8 thoughts on “Pop life

  1. fodasse,essa do pessoal bateu bem no intimo, mesmo.
    paulo que nervos! fazes sempre a corridinha do comentario mais merdas. xiça.

  2. Shift, não sei se sabes, mas há limites aos paralelismos que podemos estabelecer entre o que nos acontece na nossa vida, digamos, pessoal e os eventos e opções que se produzem numa esfera, digamos, pública.

  3. Desculpa. A realidade melindra-me, mas sim, isso nao tem relevancia quase nenhuma. Rua sim e já.

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