De uma extrema violência

Quero expressar aqui a minha solidariedade incondicional para com o camarada Zé Guilherme e os restantes detidos ontem à noite em Bruxelas. De tudo isto resultará, espero eu, um cuidado adicional nos comentários relativos a futuras detenções ou incidentes relacionados com a repressão policial. Importa sobretudo que cada vez mais gente esteja cada vez mais alertada para a facilidade com que as autoridades encenam e mistificam a sua actuação, embrulhando-a num tom alarmista e em manipulações grosseiras. Desta vez foi um ex-deputado do Bloco de Esquerda, pelo que toda a gente, a começar por Mário Crespo, foi extremamente cautelosa no tratamento da informação. Mas não é difícil recordar a forma como outras detenções e actos repressivos foram facilmente difundidos pela comunicação social na sua versão policial, sem que houvesse a preocupação de assegurar um mínimo de jornalismo.

Finalmente, vê-se nesta reportagem uma manifestante chamada Cláudia a classificar o incidente como «de uma extrema violência». Como é sabido, em Portugal tem havido espancamentos, cargas policiais sobre jornalistas e idosos, disparo de balas de borracha, utilização de mace, sequestros de manifestantes durante horas, detenções arbitrárias, agressões e intimidações diversas. Nada disso torna menos legítimo o sentimento da Cláudia e de quem foi detido em Bruxelas. Mas talvez seja importante perceber que aquilo que se vê na televisão ou se lê nos jornais, descrito como um acto rotineiro ou uma actuação policial no limiar da proporcionalidade, é efectivamente vivido pelos envolvidos, por quem lá está ou simplesmente observa, como algo «de uma extrema violência». Já a 22 de Março, o que me pareceu uma carga policial igual a tantas outras mereceu um destaque inédito e um coro de protestos alargado, porque calhou estarem dois jornalistas lá no meio. Agora a identidade dos detidos voltou a pesar no tratamento noticioso, no qual o carácter fofinho de quem se manifestava nunca foi minimamente posto em causa. Parece-me desejável que igual cuidado e atenção e distanciamento relativamente à actuação policial se volte a verificar quando os detidos ou agredidos forem moradores do Bairro da Bela Vista ou manifestantes anónimos ou gente de uma associação localizada na zona dos Anjos, todos eles presumivelmente merecedores de epítetos simpáticos como «violentos», «perigosos», «radicais» ou tudo isso ao mesmo tempo. E agora, fico à espera que o Correio da Manhã informe os seus leitores que algumas pessoas com ligações ao RDA 69 foram ontem detidas na Bélgica.

8 thoughts on “De uma extrema violência

  1. se fossem anarquistas tinham levado na boca no local e na esquadra, eram acusados, ficavam detidos até julgamento, e não havia entrevistas na sic notícias

  2. se os belgas fossem minimamente inteligentes, não vos teriam prendido; fizeram-vos um favor; vocês adoram, admitam; ah fomos presos, querem-nos calar, ah, que medo; parecem aqueles cartões amarelos que os jogadores provocam para ser suspensos num jogo mais conveniente; mas em política fica muito mais ridículo principalmente porque o povo percebe perfeitamente…

  3. Para quando a publicação aqui no spectrum de uma antologia dos comentários do Paulo? Eu – tal como muitas outras pessoas – só já venho ao spectrum para ler as análises do Paulo, já nem leio os posts.

  4. Eu é que sou o fã#1 do Paulo!! proponho duelo para resolver esta querela! dia 15 às 18h em frente a S. Bento!

  5. se os dois sobrevivermos podemos depois ler essa antologia agarradinhos! Unidade precisa-se!

  6. Comigo passa-se o contrário, já evito abrir as caixas de comentários para não ter de ler o paulo. Infelizmente.

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