Juntos

É sintomático que a «tensão» nas ruas tenha subido de tom no momento em que a composição social das manifestações começou a ganhar novas formas. Os activistas e militantes do costume começam a encontrar-se com estivadores, pessoal de claques, jovens dos subúrbios, moradores de ghettos, desempregados fodidos. Partilho a preocupação que muitos sentem com a repetida emergência de palavras de ordem nacionalistas e do hino nacional nestas manifestações, mas é preciso sublinhar que a esquerda movimentista não faz melhor quando clama pela perda da soberania nacional e apresenta soluções nacionais para a crise.

Parece-me ainda cedo para avaliar o impacto e alcance das últimas manifestações. Uma coisa é certa, a comunicação e solidariedade e acção colectiva entre pessoas que mal se conhecem é uma realidade no momento de escolha da ilegalidade de massas contra a austeridade e a repressão policial. Ontem, estava muita gente de cara tapada (e ao contrário do que sustentou em tempos, com toda a solenidade, o Daniel Oliveira, muitas mulheres estavam na primeira linha de cara tapada) e muita mais ao seu lado. No relvado lateral, uma vez derrubadas as barreiras, vi reformados e senhoras de idade ao lado de pessoal de passa montanhas que lançava petardos. Dois polícias à paisana foram identificados, cercados e forçados a refugiar-se atrás da barreira policial. É preciso recordar que são precisamente estes que prendem pessoal quando as manifestações estão a acabar ou quando apanham alguém mais isolado por ter ido beber água ou mijar. E também importa não esquecer que isto aconteceu e poderá voltar a acontecer. Se os manifestantes fossem a massa selvática e inconsciente que é retratada pelos media – se fossem «radicais violentos» – não teriam tido dificuldades em linchá-los. Demonstraram bastante inteligência e sangue frio ao obrigá-los a correr.

Não deixa de ser irónico que venha de um meio habitualmente conotado com a alienação das massas e a sua despolitização este novo ímpeto à contestação nas ruas. É como se um feitiço se virasse contra o feiticeiro.  Os estádios de futebol tornaram-se há muito – num contexto de isolamento e fragmentação da vida social – dos poucos espaços de agregação e socialização dos jovens da classe trabalhadora e dos grupos subalternos. A experiência das claques – nomeadamente nas suas deslocações – familiariza os seus membros com os métodos do controlo e da repressão policial, bem como com as estratégias colectivas para lhe fazer frente. Ontem, em S. Bento, estava toda a gente junta, mas a iniciativa coube claramente a um conjunto de pessoas que sabia uma coisa ou outra acerca do confronto violento com a polícia e se preparou para ele. Se tivessem sido apenas manifestantes de esquerda com um punhado de anarquistas lá pelo meio teria sido porventura mais fácil para a polícia pôr um fim a tudo aquilo. Assim, esta confluência entre estivadores, hooligans (isto não é um insulto e, à falta de melhor, vocês sabem bem do que é que eu estou a falar), pessoal mais militante e manifestantes que já estão fartos de passeatas e discursos simpáticos, resultou num momento que poderá vir a dar o tom para o futuro.

A polícia carregou quando se esperava que carregasse, não antes. E fê-lo com todas as cautelas que a situação impunha. Não correu à desfilada a bater em tudo o que mexe. Não perseguiu pessoal durante horas pelas ruas. Ficou ali, quietinha, a defender o perímetro. Naturalmente que lançou a mão a quem conseguiu (a vida é feita de aprendizagens, quando eles carregam não serve de nada levantar os braços e ficar quietinho), mas convenhamos que o saldo não lhe foi propriamente positivo, se o compararmos com manifestações anteriores. Quando eles têm medo e são obrigados a defender-se, quando perdem a iniciativa, todos ficamos mais seguros. E por último, não é menos importante que se reflicta colectivamente acerca da repressão policial e se procure identificar alguns meios para lhe fazer frente. O panfleto ontem distribuído, Vamos juntos, voltamos juntos, foi um excelente ponto de partida. Esta merda está muito longe de ter acabado. Encontramos-nos nas barricadas.

27 thoughts on “Juntos

  1. devo confessar que é um dos elogios mais bonitos que já li à criminalidade em geral e aos bandos de skinheads em particular; só acho que é um pouco desleixado para com todas aquelas pessoas que se esgatafunham a trabalhar e nem lhes passa pela cabeça apedrejar polícias ou roubar o próximo

  2. concordo com grande parte do que dizes discordando apenas do último parágrafo, principalmente quando dizes: “…Não correu à desfilada a bater em tudo o que mexe. Não perseguiu pessoal durante horas pelas ruas. Ficou ali, quietinha, a defender o perímetro.”
    já junto a são bento voltaram os problemas de manifs anteriores, o pessoal não estava muito junto nem atento, havia paisanas por todo o lado (2 que sacam do extensível e dão num gajo tinham estado a atirar garrafas 1m antes) e quando o CI carregou foi ‘mesmo à bruta’.
    particularmente pela rua adjacente já que as câmaras de TV só estavam na calçada. perseguiram-nos pela rua acima e que eu visse apanharam a 5 (eu inclusive).
    por fim, passaram a mensagem que lhes convém na perspectiva que hoje em todos os media era dito com enorme “rigor” que a manif se saldou com “11 feridos, 10 dos quais polícias!?”.
    mas sem dúvida que ontem houve uma dinâmica nova interessante.
    de qualquer forma…encontramo-nos nas barricadas!

  3. também gosto do pessoal a fotografar os polícias com blackberries e outros brinquedos baratinhos; no video, só vos vejo a insultar e a agredir polícias (gratuitamente diga-se); o gajo que está a falar é perfeitamente ridículo: diz que os polícias lhe estão a bater, mas, para sua infelicidade, não estão; penso que o gajo que está a falar queria conhecer os polícias bem mais de perto, se é que me faço entender… a sua única função ali é procurar ser agredido pela polícia; vão pedir porrada à polícia e depois fazem de donzelas ofendidas porque o polícia diz veham venham, achou o cassetete bom e grosso, e queria experimentar (quem tem cu, diz ele…)

  4. eu acho que há ali pessoal que gosta de levar tau tau… aos gritinhos ‘vocês também são portugueses’, é simplesmente hilariante; paneleirada pegada

  5. Eu acho que o paulo se devia calar, é tão chato e aborrecido. O spectrum ficava muito melhor sem ele.

  6. olhe que não telmo, olhe que não!
    Só uma cena, Ricky: ainda que a solução não passe por respostas de autarcia, não deixa de ser verdade que há uma enorme perda de soberania nacional – e que a perda efectiva dessa soberania (moeda, autonomia orçamental, etc.) constitui um problema sério e um dos factores da crise. Mas pronto: continuem lá a defender o €uro, a identidade europeia e o caralho

  7. e já agora: Podes crer que sou uma beca racista: odeio aqueles loirinhos nazis dos alemães e dos holandeses. Estes últimos então, Foda-se! ainda conseguem ser mais nazis que os originais… Experimentem mandar o paulo a um (dos vários) campings que esses gajos possuem no alentejo e vão ver como esse boneco é tratado

  8. isso também não seria mau de todo. Paulo: não queres ir passar um fim de semana ao alentejo?

  9. 10 comentários, três do Paulo. lol. Oh, Paulo…Paulo, com essa conversa fiada de cus e paneleirada deixas-me loco! Não reprimas essas fixações anais e homossexuais, vem comigo para a cama para apagarmos esse fogo, filmamos tudo no meu blackberry para nunca mais nos esquecermos de quando eras jovem e possante e nos amámos . Depois vamos os dois juntos para as barricadas atirar pedras aos polícias grandes e musculados e suspirar pelos seus grandes e grossos cassetetes.

  10. vemo-nos nas barricadas… não esqueçam, aquels que avançam de cara tapada, que outrs estão atrás de si. juntos (confesso q p mim o paulo tb já passou de ridículo a chato…) teja

  11. paisanos no meio das manifes não podem demorar tanto tempo a correr, é garrafada, pedrada, e o que estiver à mão, neles, com cuidado, distância, pontaria; filmá-los, fotografá-los, divulgar-lhes os focinhos pela internet; paisanos não podem espancar impunemente com a tanta gente a ver!

  12. e os ingleses, claro. também não curto. Os ingleses são outros atrasados mentais. tenho a certeza que o Paulo é daqueles gajos que torce bué pla seleção inglesa nos europeus e Mundiais… Deves tar sempre do lado lado dos alemães num Agentina-alemanha. né paulo? Diz lá a verdade…

  13. Algumas achegas ao texto, que me parece um interessante exercício.

    Primeiro parágrafo: É certo que há um potencial de articulação entre vários grupos sociais ou profissionais. Esse potencial é grande e ao mesmo tempo incipente. No cerco também me pareceu ver alguns movimentos “espontâneos” que terão erodido a acção de outros, por exemplo cenas dos estivadores que terão desfeito um pouco o cerco humano ao parlamento. Parece-me que é necessário vontade e esforço para os vários grupos participarem organizados e utilizarem tácticas efectivas para atingir objectivos pré-definidos. Isto sem prejuízo de qualquer pessoa ou grupo numa manif poder fazer o que lhe der na real gana.

    Terceiro parágrafo: As claques podem estar a adquirir experiência ao lidar com as caixas policias, mas não vi essa experiência no local. Pareceu-me que o pessoal está ainda muito tenrinho. Quando se estava a começar a bloquear uma das saídas, a do lado esquerdo (houve carros de alta cilindrada a quererem sair, o primeiro passou abençoado com biqueirada e escarros, os outros fizeram marcha-atrás), a páginas tantas quem estava nessa saída viu parte da polícia a dirigir-se de novo para a escadaria e decidiu ir “ajudar”, deslocando-se também para lá. Ora isto só serve para afunilar e concentar a bófia. Perdeu-se uma situação em que o CI estava disperso e enfraquecido. Com uma preparação mínima, ter-se-ia começado uma acção de desestabilização na ponta esquerda, o que teria sido o melhor para apoiar quem lutava nas escadas e relvado adjacente.

    Quarto parágrafo: Parece-me que a actuação da polícia, que aparentemente perdeu um pouco de ousadia, pode dever-se bem a outros factores, como por exemplo ordens de cima para agir de maneira mais comedida. As condições económicas assim o permitem. Em relação ao texto “Vamos juntos, voltamos juntos”, apenas tenho a dizer que é inspirador e dou os parabéns a quem/quems o escreveu.

    Transversalmente a tudo isto, resta perguntar: para quê? Porque o texto me parece remeter, no sabor que deixa na boca, para o equilíbrio de forças entre manifestantes e bófia, para a maior capacidade que manifestantes podem ter em derruir as linhas policiais, para a maior facilidade que parece surgir em perturbar a paz social. Ora isto em si, pensando algumas jogadas à frente para fazer cheque o rei, sugere-me apenas uma escalada de parte a parte. A bófia vai começar a infiltrar-nos cada vez mais, os robocops vão ser cada vez maiores, os carros da bófia também (devem ter aumentado para o dobro nos últimos 10 anos, desde o ligeiro de turismo para o furgão mercedes) e no final onde é que isto vai parar?
    No outro travo que fica do texto, do primeiro parágrafo, parece entrever-se algo mais radioso. A necessidade de organização entre os vários grupos, com o objectivo de lutar mais eficazmente nas manifs, acaba por gerar um conhecimento mútuo que permite secundarizar as manifs e partir para formas de acção directa e auto-gestão que vão directamente ao âmago do que se pretende.

    Um abraço, encontram-nos nas barricadas e não só.

  14. Bom dia, Paulo.

    Eu sou um dos muitos que está nas barricadas e que por “acaso” se mata a trabalhar. Trabalho por turnos todos os dias e ganho uma autentica miséria, tenho que ajudar os meus Pais desempregados e por acaso não tenho um Blackberry.

    A diferença entre ti e eu é que eu não tenho orgulho em ser escravo e o facto de me ver neste momento despido dos meus direitos e sem futuro faz-me ter uma raiva tremenda dos idiotas que se escondem atrás de escudos ,capacetes e cães, que infiltram manifestações, perseguem, prendem, batem em nome de um sistema politico e económico que já não serve a ninguém nem sequer a eles. Ao se colocarem entre nós e o objecto da nossa raiva obviamente que se tornam também eles um alvo. Se queres manifestações em que a única coisa que fazes é andar com uma bifana na boca e gritar palavras de ordem junta-te à CGTP.

    Abraço,

    Toni das Couves.

  15. Obrigado ao pessoal que partilhou mais informações. Este texto são uns apontamentos que me ocorreram com a informação de que dispunha, não tinha a pretensão de ser um relato rigoroso do que se passou. Lamento que tenham sido detidos mais companheiros (desconhecia) e farei o que puder para os ajudar. De resto, tão importante como saber quando e como começar um estrilho é saber quando e como bazar dele sofrendo o mínimo de danos possíveis. Acho que isto é mais uma luta de atrito do que um cenário para o martírio.
    Quanto à cena táctica do pessoal que passou da esquerda para o centro e etc, não me parece óbvio que isso tenha sido negativo. Ou seja, o constante movimento tornou mais difícil cercar e isolar quem quer que fosse, ao contrário do que aconteceu noutras manifs. E isso bastou para que a bófia perdesse a iniciativa.
    Quanto ao Paulo: um pouco mais de imaginação por favor. Já nos habituaste a bem melhor do que simplesmente copiar das caixas de comentários do Correio da Manhã.

  16. Foi um grande passo perceber que estávamos juntos na frente e procurámos furar as linhas policiais quer à esquerda, quer à direita do Parlamento, com uma velocidade furiosa e espontânea. No entanto há coisas a pensar, falta conhecer melhor o terreno para descobrir novos pontos de ruptura, e multiplicarmo-nos para todos os lados possíveis ( isto vale para o parlamento como para o banco de Portugal ou outro centro de poder ). Penso que é muito díficil manter no tempo e no espaço a ligação entre estas linhas que CRIAMOS e nem eu sei como torná-las mais organizadas e ao mesmo tempo rápidas e furiosas. Deixo o meu e-mail também para pensarmos Juntos.

    Massacraremos as revoltas lógicas.
    Às terras aromáticas e dóceis—ao serviço
    das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
    Até mais ver, onde quer que seja.
    Recrutas do próprio querer, teremos uma filosofia feroz;
    inaptos para a ciência, esgotados para o conforto;
    e que o mundo rebente.
    Este o caminho!
    Em frente! Marche!

    Rimbaud

  17. Eu apenas tenho uma cena a dizer, ainda bem que há blackberries, e i phones, e nao sei mais o que, porque assim não ha manipulação de imagem ….quanto a Bofia eles começam a perceber que a mallta esta a ficar farta e deixou de ser tolerante….quem nao quer não lhe veste a pele….ao pessoal que critica o que a malta faz ou deixa de fazer percam o medo e arranjem uma causa para lutar

  18. Sim encontramo-nos nas barricadas. “Não é suficiente ser deixado em paz por um governo que pratica a corrupção sistemática e cobra impostos para fazer mal a seu próprio povo!” Henry David Thoreau
    Para o Paulo o ignorante e outros agentes do sistema. Vem à rua se és homem, e tira o capacete e o cassetete se és bofia. Se não quiseres tirar, para a proxima vamos tambem de capacetes e barras de ferro.

  19. Para mim, acho isto um esmiuçar vazio apontando (nem cheguei a querer entender oquê) à esquerda. Eu vou às manifs para proteger a minha inocência, de um dia a dia que me subordina a humanidade, tal como os bófias a têm subordinada. Não sou melhor que eles. Mas tb não deixo que o meu racionamento de humanidade seja tão preponderante para o sistema. De qq maneira foi um orgulho lá ter estado nessa noite, mesmo com as palhaçadas costumeiras (hinos etc…) p’lo meio, houve a emergência dum grito à flôr da pele, irrompendo a náusea do conformismo aluno dos dias.

  20. “Partilho a preocupação que muitos sentem com a repetida emergência de palavras de ordem nacionalistas e do hino nacional nestas manifestações” . Eu também, mas se atentarmos no comunicado do PNR, até a extrema-direita se vê no mesmo dilema que muitos à esquerda, não têm em quem votar. Ora vejamos:
    “4 – Condenar firmemente, de igual modo, a irresponsabilidade, violência e selvajaria de grupos de extrema-esquerda, comunistas e anarquistas, portugueses e estrangeiros, que não hesitam em mostrar a sua verdadeira face – apesar de muitos a taparem cobardemente – de essência destrutiva e desordeira, que em nada contribui para resolver o que quer que seja.

    5 – Denunciar que, estes grupos, ao atacarem de forma continuada os agentes da PSP, com o lançamento de petardos, garrafas, pedras e outros objectos, que provocaram ferimentos a 10 polícias e causaram estragos consideráveis em várias viaturas da PSP e de particulares, deixando ainda um rasto de vandalismo nas ruas limítrofes, com derrube de caixotes de lixo e de ecopontos, revelam bem o seu intuito de semear o caos, prejudicando assim os Portugueses, já por demais penalizados pelo regime vigente.

    6 – Demonstrar, mais uma vez, todo o seu apoio à reposição de ordem pública que a PSP teve que efectuar na Assembleia da República e demonstrar a sua total solidariedade para com os agentes, em especial para com os que foram alvo de ferimentos.”

    O PNR prefere colar-se à polícia, ao estilo Aurora Dourada, o que até poderá ser mais perigoso até.

  21. Pingback: A Épica Jornada de 15 de Outubro, ensaio de “Cerco ao Parlamento” | cinco dias

  22. Continuam muito fraquinhos … depois choram com umas bastonadas afinal de contas vão para as manifs apenas para depois virem para a net se gabarem que fizeram isto ou aquilo á Polícia. Cambada de tristes só se perdem as que caem no chão. VÃO TRABALHAR CAMBADA DE CHULOS!

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