Giorgios Kornakkis (1917-2012)

Faleceu ontem, numa  rua de  sentido único em Berlim, o filósofo marxista Giorgios Kornakkis, com 95 anos de idade. Kornakkis, um dos nomes esquecidos do movimento operário revolucionário internacional, destacou-se desde jovem pela sua militância comunista na Grécia, onde trabalhava na marinha mercante. Combatente internacionalista em Espanha,  rompeu com o Komintern pouco antes do levantamento insurrecional de Barcelona, em Maio de 1937, integrando então o grupos Amigos de Durruti, que levava a cabo uma denúncia sistemática do estalinismo e da orientação contra-revolucionária assumida pela cúpula da CNT/FAI.

Nesta fotografia, é o segundo à direita na fila de cima

Gravemente ferido na frente de Aragão, abandonaria a Catalunha pouco antes da conquista de Barcelona pelas tropas franquistas, exilando-se em França. Evadido do campo de concentração onde fora colocado pelo governo francês, mergulhou nos meios marginais parisienses, dedicando-se às expropriações revolucionárias e ao banditismo social, para integrar um dos primeiros grupos clandestinos de resistência após a invasão alemã. Circulando num meio composto sobretudo por exilados políticos antifascistas e antigos combatentes da guerra civil espanhola, Kornakkis viria a formar com outros camaradas seus a Internacional Comunista Combatente, levando a cabo actos de sabotagem contra o esforço de guerra alemão e represálias na sequência de actos repressivos por parte dos ocupantes.

Permaneceu em Paris após a libertação, levando a cabo um amplo trabalho de crítica comunista ao capitalismo de Estado vigente na Rússia, bem como um combate sistemático às orientações do Partido Comunista da União Soviética. Viria a tornar-se um dos principais propagandistas das ideias e concepções organizativas do comunismo de conselhos. A partir de finais da década de 50, começaria a desenvolver um conjunto de estudos de crítica da economia política, entrando em contacto com diversas correntes e organizações, desde a Internacional Situacionista aos Quaderni Rossi. Terá então influenciado profundamente Guy Debord, a quem recomendou a leitura de História e Consciência de classe, obra maldita escrita por Lukács durante a sua juventude. A ruptura entre os dois decorreu de um mal-esclarecido triângulo amoroso que tinha como vértice Michèle Bernstein, esposa de Debord e amante de Kornakkis, culminando num duelo de navalhas do qual o primeiro saiu bastante mal-tratado.  Viriam a reconciliar-se provisoriamente durante o Maio de 68, integrando ambos o Conselho pela Manutenção das Ocupações e combatendo ombro com ombro nas barricadas do Quartier-Latin.

Kornakkis dedicou-se a partir da década de 70 ao estudo das transformações produtivas decorrentes da crise do capitalismo mundial e do alastramento da conflituosidade operária. Dando origem a conceitos como «caos metropolitano», «bloqueio selvagem do capital circulante», «catástrofe organizada»  ou «produção de destruição», Kornakkis optou contudo por permanecer na sombra, recusando convites para leccionar em diversas universidades  e furtando-se a qualquer aparição mediática. Os seus interlocutores permaneceram sempre os revoltosos e subversivos de todo o mundo.

Concentrando-se sobretudo sobre a denominada «revolução dos contentores» e os seus impactos sobre o transporte de mercadorias à escala global, antecipando as transformações produtivas e as alterações na divisão mundial do trabalho que esta implicaria, Kornakkis havia recentemente publicado  um curto mas vigoroso ensaio sugestivamente intitulado «Não haverá paz sobre as ondas do mar», em que sublinhava a centralidade do transporte marítimo no interior do ciclo produtivo pós-fordista e a vulnerabilidade da acumulação flexível face a movimentos conflituais  de trabalhadores organizados à escala internacional. Kornakkis arriscou mesmo profetizar que um novo ciclo de lutas sociais e convulsões à escala planetária poderia ser inaugurado no momento em que um sector-chave, como o trabalho portuário, rejeitasse em bloco a precariedade e se unisse em torno da contratação colectiva. Referiu então a elevada probabilidade de o conjunto da esquerda institucional e sindical reagir com desconfiança e distanciamento face ao regresso de velhas formas violentas da luta de classes combinadas com novidades históricas ao nível da subjectividade do proletariado moderno, assinalada por uma simultânea massificação e fragmentação a nível quotidiano.  «Será porventura a última ocasião histórica em que um dirigente sindical se sentirá em condições de denunciar a violência no contexto da luta de classes, sem recear ser imediatamente pintado de merda», escreveu nos seus momentos finais de lucidez.

O corpo de Kornakkis foi cremado e as suas cinzas espalhadas no mar, segundo o seu pedido. Aos seus familiares e amigos, o Spectrum endereça as mais sentidas condolências. A luta continua.

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6 thoughts on “Giorgios Kornakkis (1917-2012)

  1. Giorgios Kornakkis, ou o elo perdido do marxismo ocidental

    Destacado militante do movimento operário revolucionário internacional, o filósofo Giorgios Kornakkis, recentemente falecido, fica de facto indelevelmente associado ao comunismo de conselhos, de que foi um dos principais teóricos. O epíteto por que será devidamente recordado, contudo, não faz a devida justiça ao papel histórico que desempenhou na fecundação mútua de uma tradição política marxista (e anarquista) de tendência operaísta, em que inicialmente se formou, e um certo comunismo de cátedra que ganhou expressão na Europa Ocidental e Central a partir da década de 1920, em oposição expressa ao marxismo oficial da União Soviética e onde se destacaram figuras como Gyorgy Lukacs e Karl Korsch. É sem dúvida uma tal dialéctica, de que a sua obra oferece a mais perfeita síntese e o seu atribulado itinerário político a mais perfeita ilustração, que alimenta o carácter profundamente inovador do seu marxismo – diversos comentadores têm-no apontado. Mas é ainda uma tal dialéctica, e o papel decisivo que Kornakkis ocupa no seu desenvolvimento (e resolução), que permite verdadeiramente compreender a a constituição alargada de um campo marxista «autónomo» que acolherá o antagonismo radical do movimento operário, por um lado, e a filosofia crítica do designado «marxismo ocidental», de que aquele comunismo de cátedra e a Escola de Frankfurt são percursores e cuja constituição alargada, aliás (e alastramento a França, por exemplo), não pode ela própria ser compreendida sem referência a Kornakkis. [continua…]

  2. Obrigado, camarada Castor, pelo teu inestimável contributo. Fica evidente, a partir da tua exposição, a forma como o pensamento de Kornakkis simultaneamente ilumina o século que passou e antecipa aquele que se está a passar. Não por acaso denominado, muito justamente, o «século kornakkiano».

  3. Pingback: Não morreu, mas podia ter existido – Aventar

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