O inimigo interior

Não é novidade para ninguém que há já alguns anos que a luta contra a construção de uma linha férrea de alta velocidade, a ligar França e Itália através do Piemonte, tem sido um dos epicentros das mobilizações ambientalistas e anticapitalistas na Europa. Menos conhecida será a rivalidade crescente entre diferentes grupos que participam nessa luta, alimentada de resto por pequenas questiúnculas locais e polémicas um pouco mais sérias a nível internacional.
Alguns companheiros «antiautoritários» franceses acharam bem partilhar em público as suas reflexões em torno da experiência de participação no movimento em Agosto deste ano, acusando os «autónomos marxistas-leninistas» do CSO Askatasuna (Turim) de dirigirem o movimento de forma autoritária e desonesta. Está aqui, para quem lê em francês.

Um camarada do dito centro social respondeu, em francês e em italiano. Alguns dos temas da discussão acabam por trazer ao de cima muitos dos problemas relacionados com a coordenação e cooperação entre grupos com diferentes experiências e métodos de acção, para além de acabarem por ilustrar a facilidade com que problemas de ordem prática (desde a tradução simultânea nas assembleias à ementa das refeições colectivas) se transformam em pretexto para acusações completamente gratuitas e afirmações identitárias sem fim à vista. Enquanto não chega o resto, aqui fica um excerto traduzido do texto de resposta escrito em Turim:

O movimento No TAV sempre assumiu formas colectivas, não é novidade para ninguém; e não é necessário dar-se conta disso apenas quando estas formas são agradáveis ou divertidas, ou individualmente partilhadas. Cada um é livre de não reconhecer o âmbito colectivo enquanto lugar de decisão, na base das suas próprias ideias, mas não pode impor essa posição, e as suas próprias ideias, a um movimento popular que, ao longo de anos, escolheu a forma assembleária como a mais apropriada para permitir a todas as realidades encontrar-se e produzir uma iniciativa comum. As ideologias não são para aqui chamadas, por uma questão de respeito e de método. O movimento fez esta escolha de forma autodeterminada, já há muitos anos, e não pode submeter-se a nenhuma autoridade externa, nem sequer a vossa; não bastar definirem-se enquanto “antiautoritários” para passarem a ser considerados respeitadores da autonomia e da liberdade dos processos de luta… é necessário demonstrá-lo com factos.

Considero patético que tenham insultado os No Tav que vos convidaram a respeitar as decisões da assembleia definindo-os como “polícias”. Isso, bem longe de demonstrar que vocês são “antiautoritários”, mostra que não são capazes de respeitar os outros e que não sabem calibrar, já não digo sequer a discussão, mas as próprias ofensas. Em vez de chamarem polícias aos No Tav, seria melhor, da vossa parte, evitar fornecerem aos polícias (os verdadeiros, italianos e franceses) informações detalhadas acerca de supostas decisões tomadas pelos camaradas (cuja identificação vocês tornam possível graças à indicação  do nosso espaço ocupado) em matéria de práticas ilegais, relativamente à jornada de 31 de Agosto e da sua suposta “organização”. Sobretudo num contexto como o do vale, caracterizado por uma utilização descomplexada da repressão carcerária e da militarização do território.

2 thoughts on “O inimigo interior

  1. Entretanto, ninguém se insurgiu contra a construçäo da AE 32 tendo de um lado a SS tendo de um lado a SS25 e do outro lado, paralela, a SS24. Pois claro, com o popó e os camiöes näo há poluiçäo. Só com o malvado comboio eléctrico! AFFANCULO!

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