Só quem quer ser puxado

Ora, os mitos nacionalistas têm uma face dupla, tanto servem para identificar o nós como o outro, e entre estes mitos tem ressurgido ultimamente o da culpabilidade alemã. Em resumo trata-se de dizer que, se os alemães foram culpados do nazismo e do genocídio dos judeus, não espanta que sejam agora culpados das medidas de recessão económica impostas aos países da periferia meridional da zona euro. Mesmo alguém como o prof. Boaventura Sousa Santos, que pelo menos deveria ter alguns conhecimentos históricos, ousou escrever em meados do ano passado que «podemos ser preguiçosos, podemos não saber como nos governar, mas não matámos 6 milhões de judeus e ciganos. Tenho pena de o dizer, mas tenho de o dizer. O nacionalismo puxa o nacionalismo» (veja aqui). Mas o nacionalismo, prof. Boaventura, puxa só quem quer ser puxado.

João Bernardo, O mito da culpabilidade alemã

Anúncios

6 thoughts on “Só quem quer ser puxado

  1. Mas há uma dúvida que persiste: como destruir o nacionalismo crescente em “Portugal”, se a “Alemanha”, enquanto mito criado por elites, inscreveu uma identidade política no corpo do que trabalhava voluntaria ou involuntariamente para o regime nazi? Não havia “Alemanha”? Não há “Alemanha”? Essa família no desenho é infelizmente a materialização desse processo ideológico, quer se queira quer não. Isto é fodido porque se concretiza materialmente a ideia de “Alemanha” ou de “Portugal” (e, claro está, sustentada por Boaventura Sousa Santos entre tantos outros nas universidades e escolas). Ora “Aquela” família está, enquanto não derrotarmos o capitalismo, contra a “minha” família. Há no texto que referes e no desenho um pressuposto de que dominas a tua identidade ou que simplesmente te podes ausentar de qualquer identidade. Não creio que isso seja possível quando vives sob o capitalismo.

    Pena é que a esquerda instituída contribua para a perpetuação do capitalismo por via desta política baseada na identidade nacional que parece inquebrável e dando legitimidade aos campos de extermínio espalhados por esse mundo, esquecendo aqueles que nos campos perdem todos os rótulos e que noutra situação poderiam destruir o capitalismo.

  2. sim, é tudo muito bonito, mas não são os turcos que nos andam a lixar. são os alemães – que tb são uns porcos para os turcos

  3. A mim quem me anda a lixar são sobretudo os portugueses. Tenho-me dado muito bem com os alemães com quem me cruzo. Já a família Espírito Santo ou o Ulrich (alemão ou português?)…

  4. a ‘esquerda’ já se conciliou com discursos identitários há muito. não é preciso ir muito longe, só saltar para o monte ao lado. Recuar para as lutas de independencia africanas. Ou cruzar o oceano (O JB conhece bem essa viagem).
    Cada lugar é um, e Portugal não é nenhum destes. No caso parecem as esquerdas preocupadas em cooptar para o seu campo um discurso nacionalista que vai surgindo nas ruas. Por um lado, não é mais do que marketing, por outro o bicho está aí e a crescer. o que é que se faz com ele?

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s