e ainda as pedras…

Um dos melhores textos até agora produzidos sobre a questão, lembrando quase tudo o que é essencial sobre o calhau: o falso pacifismo, o monopólio da violencia pelo estado e outros avisos à navegação. então, com a devida permissão do autor:

Já todos atirámos uma pedra
Por José Neves, publicado em 22 Nov 2012

A violência ergueu e derrubou regimes, proibiu e permitiu greves, levantou e eliminou barreiras de todo o tipo, do Muro de Berlim às cercas dos latifúndios alentejanos

Na campanha que antecedeu as últimas eleições legislativas, acusado de perturbar a ordem num comício do PS, um apoiante de Passos Coelho foi detido pela polícia, parece que paisano. Na ocasião, o actual primeiro-ministro afirmou: “Não é normal que as pessoas que se querem manifestar sejam tratadas de forma violenta.”

Na semana que passou o discurso de Passos Coelho foi outro. A mudança do tom não surpreende. Recorda o que Miguel Portas, num dia não muito longínquo, afirmou a respeito de Passos Coelho: tem a espinha dorsal de um caracol.

Mas se as razões do primeiro-ministro podem ser deduzidas da sua anatomia, é verdade que existem questões relativas aos usos políticos da violência que são mais complexas.

Durante a última semana, nos media, não faltou quem condenasse os lançadores de pedras, invocando-se, sobretudo, dois tipos de motivos.

Uma parte dos comentadores declarou que a violência seria sempre reprovável. Não vejo como possamos aceitar esta tese. Em política podemos escolher entre tipos de violência, não podemos escolher entre violência e não-violência. A esmagadora maioria dos comentadores que criticam os lançadores de pedras condenam a violência em si mesma, mas não recusa a existência de forças policiais, isto é, o monopólio estatal da violência. Isto para não referir que, em assuntos de relações internacionais, não raras vezes opta pela violência de um Estado contra outro. Ou seja, se a crítica a quem atira pedras à polícia é legítima, fraudulento é vestir essa crítica como pacifista. A argumentação moralista peca ou por excesso de ingenuidade ou por excesso de hipocrisia.

Outra parte dos comentadores que condenaram quem atirou pedras à polícia declarou que a violência não leva a nada. Este argumento pragmatista é igualmente inválido. A violência ergueu e derrubou regimes, proibiu e permitiu greves, levantou e eliminou barreiras de todo o tipo, do Muro de Berlim às cercas dos latifúndios alentejanos. É verdade – e é importante recordá-lo sempre – que a violência por si só nada resolve, mas é discutível que por si só alguma coisa resolva o que quer que seja.

Em suma, ao debatermos questões relativas à violência política não podemos abdicar nem de argumentos de ordem moral nem de argumentos de ordem pragmática, mas não devemos reduzir a discussão política ou a uma questão moral ou a uma questão pragmática. Na verdade, devemos entender a política como um lugar onde ambas as questões inapelavelmente se interpelam. Recusemos a exigência pacifista segundo a qual quem luta por um mundo sem guerra tem de agir de forma absolutamente pacífica. E recusemos a afirmação militarista segundo a qual a guerra possa simplesmente ser um meio para a paz. Fazemos política obedecendo a certos fins, que são determinados pelas nossas convicções morais, e recorrendo a certos meios, que são definidos pelas nossas decisões táctico-estratégicas. Os fins e os meios não têm de coincidir em absoluto, como exigem os pacifistas, nem podem ser simplesmente opostos, como admitem os militaristas. Devem antes exercer uma vigilância recíproca.

Que prática política de combate à troika e ao governo na actual situação poderá respeitar este princípio geral? É complicado dizer. Deixarei algumas notas a esse respeito numa próxima crónica. Nestas últimas linhas quero simplesmente solidarizar-me com todos os que foram detidos na última manifestação, incluindo o sindicalista sexagenário acusado de ter atirado pedras à polícia.

Em tempos idos, o Herman José inventou um concurso intitulado “Este homem é um Gandhi?” e que consistia numa simples prova: um concorrente chegava e era sujeito a inúmeras sevícias e provocações; se ainda assim não se revoltasse, estava encontrado mais um vencedor. A troika e o actual governo andam há meses a fazer–nos jogar este jogo. As coisas pareciam estar a correr bem até à semana passada, dia da greve geral, quando os primeiros concorrentes se revoltaram violentamente. Não eram o Gandhi. Quem for que lhes atire a primeira pedra. Historiador. Escreve quinzenalmente à quinta-feira

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