A violência ilustrada II

Tudo em S. Bento é desfavorável a uma invasão. Como se não bastasse a ampla vantagem do corpo de intervenção sobre os manifestantes (o seu treino e preparação física, a sua vontade de malhar e o seu prazer em bater, o seu equipamento defensivo e ofensivo, a sua organização e coesão), a disposição do espaço também lhes dá uma ajudinha. Estão numa posição vantajosa acima da praça, conseguem ver tudo melhor do que os manifestantes e perceber os seus movimentos com alguma antecipação. Junte-se a isto as poucas saídas existentes: barrando à direita e à esquerda (o que se faz facilmente com um dispositivo policial numeroso) só se pode fugir pelas escadas ou pela rampa. Já tinha acontecido noutras ocasiões e podia voltar a acontecer – uma carga policial decidida e em força, que tivesse esse propósito, isolaria e cercaria sem dificuldades uma boa parte dos manifestantes presentes no largo e permitiria ao corpo de intervenção espancar muita gente. Por sinal, precisamente a mais lenta e menos habituada ou preparada para uma situação de confronto: idosos, pessoas com dificuldade de locomoção, adultos acompanhados de crianças, gente que nunca viu uma carga policial.

Acresce a tudo isto que se tornou previsível e quase ritualizado ir para ali, derrubar barreiras e ficar à espera que algo aconteça, com menor ou maior agressividade contra a polícia de permeio. Do ponto de vista táctico, como nos dirá qualquer manual sobre o tema, a previsibilidade do que irá fazer um adversário/inimigo é uma vantagem decisiva. Desta vez essa vantagem estava toda do lado das forças da ordem.

Não pretendo aqui ser demasiado severo para com os e as que estiveram na primeira linha da manifestação a atirar pedras e outras coisas contra a polícia. Acho que a situação em que vivemos justifica todas as raivas e todas as ilegalidades, compreendo quem sente que sair à rua e gritar palavras de ordem é manifestamente insuficiente (voltarei a este assunto). Mas pensar estrategicamente num contexto como aquele em que vivemos é não apenas desejável como absolutamente imperativo. Tudo o que dê vantagens à polícia e ao governo (bem como aos diversos aspirantes a substituí-los para fazer mais ou menos a mesma coisa) paga-se caro. E neste momento estamos a pagá-lo.

Não tendo estado lá, hesito em cagar sentenças. Mas ainda assim, penso que não é inútil enunciar algumas preocupações e princípios fundamentais. Quem pretende fazer subir o nível do conflito (lutas de classes e outros jogos de plataformas, certo?) dificilmente poderá ignorar a importância de não se deixar isolar, de não se deixar encaixar no retrato robô da criminalização policial, de ter, em suma, a preocupação de não ser considerado uma ameaça ou um perigo pelos outros manifestantes. É um jogo difícil e que não está isento de riscos, ninguém está em condições de dar lições a esse nível ou isento da possibilidade de cometer erros. Mas para os corrigir é preciso ter as ideias minimamente claras do que se quer e não quer. Quem esteve hora e meia de cara tapada a lançar pedras sabia (tinha de saber) que uma carga policial era bastante provável. Penso que não chega ser simplesmente o mais rápido a fugir dessa carga e deixar para trás uma data de gente a levar na boca. Isto não é uma acusação, mas uma preocupação. Eu tenho tanto medo como outra pessoa qualquer de ficar cercado a levar bastonadas ou ser levado para um calabouço de Monsanto. E por isso mesmo faço as minhas avaliações e escolhas à luz desse medo, de maneira a que isso não aconteça, nem a mim nem a outros. Descontando o papel de bófias de cara tapada lá no meio a dar os piores conselhos e a fazer a figura dos mais exaltados de todos, parece-me que a atitude correcta em qualquer situação deste género é procurar antecipar as várias possibilidades e escolher as que dificultem uma acção repressiva. Massificar a ilegalidade é a melhor maneira de combater a sua criminalização. E a melhor maneira de massificar a ilegalidade é fazer com que ela se torne uma escolha normal, pragmática, consciente e até razoável. Com riscos, mas em que eles são partilhados por todos e todos se defendem uns aos outros. Falo da segurança que só pode advir de confiar em quem está ao nosso lado. Foi essa segurança que ganhou forma a 15 de Setembro e a 15 de Outubro e que se perdeu agora quando dava ainda os primeiros passos. A iniciativa voltou a passar para o lado escuro da força e veremos as consequências disso nas próximas mobilizações.

3 thoughts on “A violência ilustrada II

  1. Eu acho que o texto estava a correr bem (“ser demasiado severo para com os e as que estiveram na primeira linha”) mas depois deitou tudo a perder quando não especificou os dois géneros em frases como: “uma ameaça ou um perigo pelos outros manifestantes” (onde estão as manifestantes fêmea?) ou “nem a mim nem a outros” (então e as outras?!) ou “e todos se defendem uns aos outros” que devia ter um “todos ou todas”. Que desperdício de talento…

  2. Paulo, é fazeres copy paste para um documento word, introduzires as alterações que te parecem convenientes e deixares aqui na caixa de comentários (suponho que não temos intimidade suficiente para trocarmos e-mails). Eu substituirei imediatamente o que escrevi pelo que tu escreveres. Beijos para ti. fofo.

  3. mais do mesmo blá blá blá e ainda trocam beijos que paneleiragem destes sebosos ! looooolllll

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