A violência ilustrada III

Mas se tudo isto me parece importante, quero aproveitar para dizer aqui que a condenação de quem lançou pedras, o discurso do vitimismo e do pacifismo, a peregrina ideia de que tudo estaria bem se a polícia se tivesse limitado a deter os «violentos», me parece, toda ela e nas suas mais variadas nuances, profundamente equivocada. Não me refiro evidentemente a quem aproveita e aproveitará o clima resultante daquela carga policial para ressuscitar os seus serviços de ordem formais ou informais e para legitimar a sua colaboração com a mesma polícia que quebra piquetes e detém grevistas (os mesmos que condenam a violência nas manifestações e depois agridem manifestantes, como aconteceu a 22 de Março naquele mesmo largo). Falo de companheiros, camaradas e pessoas que, recusando semelhante infâmia, repetem até à exaustão que a carga policial foi desproporcionada, excessiva ou ilegítima porque se abateu sobre quem não tinha feito nada de mal.

Se alguma coisa nos revelou o último ano e meio é que as nossas opiniões, as nossas vontades, as nossas ideias, os nossos argumentos, os nossos programas e propostas, os magníficos documentos que elaboramos, as alternativas que se debatem – tudo isso, em suma, que compõe o jogo democrático feito de negociações, cedências e diálogo – foi suspenso, confiscado, anulado e arrumado no armário do «custe o que custar, não há alternativa, o melhor povo do mundo, ai aguenta aguenta». E a substituir essa esfera pública liberal (que sempre foi bastante débil, diga-se) surgiu um interminável monólogo sussurrado nas televisões e cuja função é banalizar a infinita violência da austeridade, com o seu cortejo de crianças esfomeadas, idosos alimentados a Nestum, doentes sem remédios, famílias a viver na rua, desempregados sem subsídio, assalariados empobrecidos e comerciantes arruinados. Para que tudo isso se torne aceitável, para que nos habituemos a comer em silêncio este pão que sabe a merda, aí está a PSP, o seu Corpo de Intervenção e as suas Equipas de Intervenção Rápida, o SIS à escuta e a PJ preocupada com colectividades da zona dos Anjos, jornalistas a escrever peças sobre radicais com contactos no estrangeiro e o General Leandro e Leonardo a dar à coisa um ligeiro toque chileno.

A violência não começou quando foi lançada a primeira pedra. Ela está presente no conjunto das relações sociais e relembrá-lo parece oportuno, uma vez que muito boa gente que costuma concordar com essa banalidade de base escreve e fala agora como se isso fosse um pormenor sem importância. Naturalmente que quem jogou todas as suas fichas na alternativa de esquerda e pretende fazer da rua um suporte dessa aposta tem todo o interesse em repetir até à exaustão que respeita as regras do jogo, que repudia a violência, que está dentro da lei e que se indigna de modo inequivocamente pacífico. Simplesmente, só podemos falar de pacifismo se este corresponder à escolha de uma opção entre muitas outras. Só é pacifista quem equaciona seriamente a possibilidade de recorrer à violência. Caso contrário, pacifismo é apenas uma palavra simpática para traduzir obediência, resignação e subordinação ao monopólio da violência por parte do Estado. Renunciar por princípio à violência e simultaneamente aceitar a violência alheia como legítima tem muito pouco de pacifismo.

No momento em que vivemos, em que nos repetem constantemente que não há alternativa nem nada que possamos fazer para parar aquilo a que a esquerda – com o seu talento para a hipérbole inócua – tem vindo a chamar «um assalto fiscal», «uma declaração de guerra aos trabalhadores», um «roubo organizado», «um genocídio social»» (entre outras fórmulas igualmente imaginativas), percebe-se mal como se poderá renunciar ao terreno da ilegalidade. Todos os sinais de proibido, disposições legais, serviços mínimos, desalojos de bairros inteiros ou de casas ocupadas, perseguições de imigrantes e limitações do direito de greve ou de manifestação, aí estão para nos demonstrar que, mantendo o conflito nos estreitos limites da lei, estamos condenados à derrota e à impotência. É a nossa própria existência que está à beira de ser criminalizada se implicar menos do que a obediência incondicional à lógica da valorização capitalista. Quem se coloca fora do debate acerca das formas de ilegalidade que convêm ou não convêm ao movimento arrisca-se a viver muitos anos de austeridade. As diversas pessoas que têm estranhado o silêncio ou a timidez da esquerda acerca dos factos de 14 de Novembro devem ter em conta estes dados fundamentais da situação: um milhão de pessoas nas ruas e abraços à polícia não fizeram recuar a austeridade. É tempo de pensarmos e debatermos com seriedade – todos e todas – o que é que podemos fazer para que a nossa resposta à violência deles não chegue demasiado tarde.

6 thoughts on “A violência ilustrada III

  1. “Falo de companheiros, camaradas e pessoas”: eu também penso que o grupo do meio não cabe no primeiro e no terceiro grupo. Quer dizer, eu ando a dizer isto há que tempos mas ninguém me ouviu. Os camaradas não são pessoas nem companheiros, eis a prova. Já agora, que é feito das companheiras? Esta frase está muito sexista.

  2. ‘Só é pacifista quem equaciona seriamente a possibilidade de recorrer à violência’. – a melhor frase deste texto, a registar. Um texto fora do baralho, muito bom. Excelente patamar para manter um debate.
    maria ângela pires
    masp100 @gmail.com

  3. Pingback: A violência ilustrada III. Por Ricardo Noronha, em 23 NOV 2012 | Comité de Apoio aos Grevistas

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