o herói do ano 2000

Talvez querendo surfar a onda desta condenação e furtar-se à má imprensa em tempo de eleições autárquicas, o vereador da mobilidade da Câmara de Lisboa antecipou o projeto de proibir a circulação de carros matriculados até 31 de dezembro de 1999 entre o marquês de pombal e a baixa da cidade. Isto parece ser um caso interessante de como uma boa ideia se transforma numa má política, ou de como uma má política dá cabo de uma boa ideia.

À partida qualquer pessoa concordará que é boa ideia. Proibir a circulação de automóveis no centro das cidades é uma das medidas em cima da mesa para reduzir a poluição e a dependência de combustíveis fósseis, no longo prazo. A comissão europeia, por exemplo, anda com ideias. A esses benefícios, juntem-se a diminuição do ruído, a mutualização dos benefícios com a valorização dos transportes públicos, as oportunidades para remodelação urbana etc.

O vereador da mobilidade de Lisboa consegue estragar a boa ideia transformando-a em bandeira de uma política inexistente. E isto tem alguns problemas. Em primeiro lugar, não foi dito quantos automóveis são anteriores a 2000. Não se sabe quantas pessoas serão afetadas e qual a redução esperada de partículas.

Depois, olhando para aquela zona, desde as restrições à circulação no terreiro do paço-ribeira das naus que a única iniciativa camarária nesta área foi a interdição de circulação de automóveis matriculados até 1992, sob pretexto de reduzir a poluição atmosférica, e as alterações aparentemente positivas à circulação no marquês. Olhando para o resto de Lisboa, quem se lembra de alguma medida para reduzir a circulação automóvel e promover a mobilidade sustentável em Lisboa, além das citadas, em 5 anos e tal de mandatos camarários (não vale falar das ciclovias, que são feitas para passear mas não para utilizar e de coisas que não saíram do papel)?

Depois ainda, quem quer reduzir o tráfego introduz barreiras físicas/horárias ao automóvel, reduz espaços de estacionamento, reabilita o espaço público para a mobilidade pedonal e de outros meios suaves, dá condições de circulação ao transporte público etc, de forma integrada e planeada nas zonas críticas da cidade. E, no meio disto tudo, talvez apenas depois, faz o que o vereador quer fazer agora de forma desgarrada. Mas como reduzir consequentemente o tráfego quando temos o centro da cidade qual queijo suíço cheio de parques de estacionamento que é preciso rentabilizar?

Depois ainda, é incompreensível que quem quer apenas reduzir a poluição não faça qualquer distinção entre veículos a gasolina e a gasóleo – considerado recentemente pela OMS como um produto cancerígeno, – penalizando estes últimos. Claro que não cabe à CML legislar, mas também não lhe deviam caber vanguardismos absurdos desenquadrados da lei (que incentiva à aquisição de veículos diesel). Se fosse como devia ser e o diesel fosse penalizado, tínhamos de olhar para os autocarros da carris e estava o caldo entornado, com uma empresa pública hoje cheia de dívidas que desbaratou uma frota de elétricos preciosa, fechando 100 quilómetros de circuitos para apostar tudo em autocarros a diesel.

Finalmente, a questão da igualdade, ao discriminar entre proprietários de automóveis antigos e recentes, introduzindo do mesmo passo um incentivo à substituição de automóveis velhos por novos. Até faz lembrar o programa sócrates de subsídio à indústria automóvel com estímulo às importações provenientes da alemanha, frança e japão, também conhecido como programa de incentivo ao abate de automóveis antigos. Pensamos sempre no proprietário individual, e aí há um problema, mas quantos negócios dependem da utilização de viaturas anteriores ao ano 2000? É no (quase) pico da recessão económica que esta gente vai trocar de carro? Ou então passam todos a dar a volta, ajudando a entupir outras vias nas imediações.

7 thoughts on “o herói do ano 2000

  1. Se for como a proibiçäo de veículos anteriores a 1992, que à altura eram 5 ou 10% do total…

    Realmente olhar para a extensäo da rede de eléctricos e ver ao que está reduzida… é de ir às lágrimas! Mas que quereis, o tuga abomina carris e veículos eléctricos…

  2. Ah, pois, a ironia maior está no nome, Carris, a “Companhia de Carris de Ferro de Lisboa”…
    que por onde anda menos é em carris…

  3. «Olhando para o resto de Lisboa, quem se lembra de alguma medida para reduzir a circulação automóvel e promover a mobilidade sustentável em Lisboa»

    Lamento… pode ser muito insuficiente, mas só de memória: a Av. da Liberdade passou a ser uma faixa para cada lado (eram 3). A rua do Ouro, 1 (eram 2, a outra passou só a BUS) com a possibilidade de parar que antes não havia. Os preços do estacionamento aumentaram no centro, criando-se as 3 zonas de tarifário. Foram criadas mais faixas BUS e foi aumentado o tempo dos semáforos verdes para peões. A 24 de Julho ficou com menos uma faixa a partir do museu de arte antiga. No terreiro do paço eram 3 faixas para cada lado e agora é uma. A duque dávila ficou com menos 2 faixas e com menos uma placa central que era para estacionamento desordenado. A rede de ciclovias pode não ser a melhor, mas daí a dizer que elas não contam porque ninguém as usa vai uma graaaaaaande distancia. E os estacionamentos para bicletas por toda a cidade? Será que o exponencial aumento do número de bicicletas foi só uma coisa que aconteceu ou será que houve alguma promoção por parte da CML? E apesar de faltar fazer muita coisa, pelo menos o novo PDM vai reduzir a hierarquia de uma série de vias na cidade.

    Em relação à questão da proibição dos carros a gasóleo a confusão é total. Queria que se proibisse os autocarros da carris porque são mais poluentes ao mesmo tempo que reclama a promoção da mobilidade sustentável? E como se afirma preocupado com os “negócios que dependem de viaturas anteriores a 2000”, saberá que esses carros são a gasóleo, o combustível que acha que, por outro lado, devia ser mais restringido para esta medida ser realmente boa no seu ponto de vista. Afinal o que defende?

    Finalmente a objecção de que isso vai “entupir as vias nas imediações “ou que vai “induzir a substituição de carros” é típica de alguém que já só consegue pensar com o pó-pó. Porque raio de razão a consequência não será precisamente que as pessoas que tem carros mais antigos pensem 2 vezes antes de ir para baixa de carro e optem pelo transporte público ou pela bicicleta?

  4. caro alves,
    tem razão em coisas que diz e que eu não tinha referido, porque são factos (duque de ávila, o aumento da tarificação do estacionamento e reforço do controlo por parte da emel). Mas esses factos acrescentam pouco ao que eu já tinha dito. Os estacionamentos para bicicletas por toda a cidade? Não estou a ver do que está a falar. Estará a falar das áreas para motociclos?
    Uma boa notícia que me deu é o novo PDM. Cá estarei para ver e aplaudir o que for bem feito.

    Quanto ao resto, o exponencial aumento das bicicletas a circular, que é observável a olho nu, desculpe lá mas parece-me obvio que resulta diretamente de tres coisas conjugadas: aumento dos preços dos transportes públicos e redução da sua qualidade de serviço, aumento do custo dos combustíveis, redução brutal do rendimento disponível das famílias, com transferência também ou sobretudo do transporte público para outros meios. Residualmente terá algo a ver com a CML (mas mesmo muito residualmente). Estranho até que a CML não intervenha mais decidimente nesta questão, aproveitando esta oportunidade histórica para criar uma cultura favorável ao uso da bicicleta em meio urbano.

    Amigo, eu não quero que se proiba nada a gasóleo. Não é essa a questão. A decisão sobre o gasóleo, a existir, tem de ser tomada pelo governo, a nível nacional e de forma progressiva, dando por exemplo tempo ao negócio do taxi e outros para se adaptar. Fui buscar o gasóleo apenas para ilustrar o vanguardismo desta medida da CML. Tal como a referência aos eléctricos/autocarros da Carris apenas visava ilustrar como as políticas de transportes são mediocres. Repare, não é uma questão de dinheiro. É uma questão de modelo institucional, de prioridades políticas, de planificação, ou seja, de política pública deficiente ou de falta dela. Isto até é um lugar comum. E é nesse contexto que a CML se move. Avanço um argumento de algibeira – ninguém vem do estrangeiro observar boas práticas de políticas de transportes na área metropolitana de Lisboa. Ou vem? Mas há outros sectores em que até veem.

    Quanto a ultima frase, percebo o que quer dizer. Mas esquece-se convenientemente do argumento da igualdade. É que proibir carros antigos (de 1999!) de circular é uma medida classista. É assim como de repente dizer – “agora só se admite o consumo de garrafas de vinho acima de 10 € por garrafa. Quem não tem dinheiro, bebe água.”
    Acha bem?
    E repare, estou a dizer isto tudo posicionando-me como um defensor da mobilidade sustentável
    de que aliás não sou especialista.

  5. Caro Renegade,

    O que se proíbe é a circulação de veículos com base em determinada norma EURO de emissões, e não com base na idade. E efectivamente os veículos mais antigos são mais poluentes, como pode constatar aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/European_emission_standards. Se demonstrar (via registo de emissões no documento único automóvel, p.ex.) que o seu veículos, mesmo anterior a determinada norma EURO, cumpre efectivamente os requisitos poderá aceder à Zona de Emissões Reduzidas.

    Por outro lado, esta não é uma medida vanguardista da cidade de Lisboa: as Zonas de Emissões Reduzidas são uma medida que existe em muitas cidades europeias, como pode ver aqui: http://lowemissionzones.eu/ Não são medidas tomadas a nível nacional, são tomadas caso a caso nas cidades com problemas de qualidade do ar.

    Por fim, recordo que esta medida faz parte do Plano de Melhoria da Qualidade do Ar da LVT, publicado em 2006 e cujo respectivo Programa de Execução foi publicado em Diário da república em 2008. Pode ver os respectivos documentos aqui: http://www.ccdr-lvt.pt/pt/qualidade-do-ar/1265.htm. Portanto, desde 2008 que o sector dos táxis sabe desta medida (aliás, fez parte do Grupo de Trabalho responsável pela definição da mesma). Pelo que teve desde 2008 (!) para se adaptar e nada fez. E sabemos que os táxis, na Av. Liberdade, mesmo sendo “apenas” 17% do tráfego em circulação, são responsáveis por 34% das emissões de partículas. Por isso, deles não tenho pena nenhuma.

    Cumprimentos, cordiais,

  6. Infelizmente António Costa, os técnicos que estudaram estas medidas, são tão cínicos como o Governo, Incompetentes que fazem aprovar medidas e leis desnecessárias e tiram as conclusões erradas, sorridentes como todos os tolos. Antes da crise o parque automóvel melhorou, os carros eram vendidos a crédito, e os carros anteriores a 1996, foram desapareceram, ficando apenas os mais bem conservados, as inspecções ajudam a necessidade de manter os carros em melhores condições,
    Muita gente ainda conserva os carros mais robustos e ofereceu aos filhos aos netos, etc.
    Concluo que estas medidas são mais uma vez para desfavorecer os que vivem com mais necessidades, que sobrevivem neste mundo de egoístas.
    É mais uma vez uma medida que visa gastar dinheiro, endividar, as pessoas e o País, “Servindo” apenas os Interesses dos mais ricos e aumentar as Importações. Enfim engordar mais os Bancos donos de quase a maioria dos concessionários automóveis, e Portugal que não fabrica nada, fica a ver passar o dinheiro. A medida é injusta desnecessária e só para parolo ver. O mau serviço de transportes os eléctricos e as linhas arrancadas, as faixas de rodagem roubadas aos automóveis para bicicletas, causando engarrafamentos maiores e mais tempo de deslocação, blocos de cimento no meio das avenidas em Benfica e Telheiras, mostram que a preocupação é gastar dinheiro. do publico dinheiro dos impostos, As bicicletas podem andar nos passeios, gastar dinheiro para uma minoria para andarem a passear ao Domingo e ao Sábado as rodas da sua bicicleta de 5000,00€, parece-me ridículo. Enfim cada um tem o Presidente da Câmara que merece. Eduardo Serra

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