E nem sempre por suicídio

Este meio, o dos empreendedores de demolições, mais claramente que os seus antecessores das duas ou três precedentes gerações, tinha-se por essa altura associado de muito perto às classes perigosas. Ao viver com elas, uma pessoa leva em grande parte a mesma vida. E disso, obviamente, ficaram vestígios duradouros. Mais de metade das pessoas que ao longo dos anos fui conhecendo de perto, tinham estado, uma ou várias vezes, nas cadeias de diversos países; muitas, sem dúvida, por motivos políticos, mas ainda assim a maioria por delitos ou crimes de direito comum. Conheci, por conseguinte, sobretudo os rebeldes e os pobres. Vi em meu redor em grande número indivíduos que morriam jovens, e nem sempre por suicídio, de resto frequente. Nesta peculiar matéria da morte violenta, noto aqui, sem poder adiantar uma explicação plenamente racional do fenómeno, que o número dos meus amigos mortos a tiro constitui uma percentagem grandemente inusitada, não se tratando de operações militares, bem entendido.
Em permanência ali se encontravam indivíduos que só pela negativa podiam ser definidos, pela simples razão de não terem qualquer ofício, de não se ocuparem com estudos nenhuns e de não praticarem qualquer arte. Muitos eram oriundos das guerras recentes, vindos de vários exércitos que entre si haviam disputado o continente: o alemão, o francês, o russo, o exército dos Estados Unidos, os dois exércitos espanhóis, e ainda outros. As restantes pessoas, cinco ou seis anos mais novas, tinham chegado directamente ali porque a ideia de família começará a dissolver-se, como todas as outras. Nenhuma doutrina antes perfilhada moderava a conduta fosse de quem fosse; nem vinha propor às suas existências qualquer objectivo ilusório. Diversas práticas de um instante mostravam-se continuamente prontas a expor, à luz da evidência, a calma defesa da sua razão de ser. O niilismo é categórico para moralizar, mal o aflore a ideia de se justificar: um assaltava os bancos glorificando-se por não roubar os pobres, um outro nunca matara ninguém quando não estava enfurecido. Apesar de toda esta eloquência disponível, eram de um momento para o outro as mais imprevisíveis pessoas, e por vezes bastante perigosas.

2 thoughts on “E nem sempre por suicídio

  1. bem se vê que os meninos do spectrum andam atarefados com as comprinhas de natal, a calcorrear colombos, fenaques e zaras

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