Camaradas

astérixÉ conhecida e até proverbial a minha propensão para escrever coisas que deixam meio mundo com vontade de me espatifar a cabeça. O que vou escrever requer por isso alguma cautela e moderação semântica, de maneira a contornar essa propensão. Como é bom de ver, quase todos os meus amigos são de esquerda e boa parte deles escreve neste blog. Os meus amigos de esquerda passaram os últimos 7/8 anos a encarar tudo o que se movia fora de partidos políticos e com um horizonte que ultrassasse o cidadanismo movimentista como uma brincadeira sem consequências. Nunca foram hostis (bom, quase nunca) e sempre acharam alguma piada às cenas «meio anarcas» que se iam fazendo, mas nunca as levaram minimamente a sério.
Uma casa ocupada? Um bocado desarrumada, mas boa para ir a umas festas.
Uma manifestação não comunicada ao governo civil? Um gesto de saudável irreverência, mas que não passa de uma teimosia juvenil.
Um texto critico das relações de poder inerentes à militância e ao activismo? Têm a mania que vão inventar algo diferente.
Uma crítica ao reformismo, ao tacticismo ou à passividade sindical? Lá estão eles a fazer o jogo da direita.

Para que não se pense que estou a ser injusto, um amigo meu de esquerda ligou-me no dia 25 de Abril de 2007, após saber que tinha havido uma carga policial no Chiado. Parecia divertido com a situação e perguntou-me meio no gozo se tinha levado alguma bastonada. Outro amigo meu de esquerda já me garantiu que eu no fundo no fundo até curto de cargas policiais e não pareceu ficar muito convencido quando tentei fazer-lhe ver que não há nada de particularmente divertido em ver dezenas de homens encorpados, bem treinados e ainda melhor equipados, avançar na nossa direcção a espancar tudo o que apanham pela frente.Nos últimos dois anos as coisas pareceram começar a mudar.

Mais e mais gente foi confrontada com a violência policial e sentiu na própria pele o que ela implica, percebeu o profundo contraste entre vê-la na televisão ou no computador e estar presente quando ela ocorre. Mais e mais gente testemunhou e experimentou as infinitas possibilidades que se abrem quando se ocupa um edifício devoluto. Mais e mais gente compreendeu que é possível organizar grandes manifestações sem um aparelho partidário ou sindical por trás, incluindo num dia de greve geral. Mais e mais gente percebeu, ao fim e ao cabo, que isto do capitalismo e do Estado não é tão natural como a sua sede, que são possíveis e imagináveis outras formas de vida, que há mais coisas pelas quais lutar do que uma «democracia avançada» ou uma «modernização de esquerda» ou mais uma reunião para a preparação da reunião para a preparação da reunião para a preparação da reunião que há-de preparar a revolução.

Encontrámos-nos e esse encontro sugeriu diversas coisas que diversas pessoas se atarefavam a silenciar. Que temos força quando nos juntamos. Que temos inteligência quando nos juntamos. Que temos o poder quando nos juntamos. É frágil e precário e certamente é insuficiente, mas é o que há. E o que ha é muito mais do que nos ofereceram anos e anos de militância e activismo no PCP, no Bloco de Esquerda, na ATTAC, no movimento estudantil ou no congresso das alternativas. Está aqui, pode ser sentido, ouvido, saboreado e até apalpado, porque está vivo e move-se. Seguramente que a nossa desmedida ambição não nos permite sentirmo-nos minimamente satisfeitos com isso e muito menos celebrá-lo. Há tanta coisa que há para fazer. Mas importa assinalar aqui o contraste entre o que temos feito e aquilo que a esquerda nos apresenta como horizonte e estratégia. O tempo em que todas manifestações tinham como objectivo exigir um governo melhor acabou e é agora claro o contraste entre as marchas das bandeirinhas e os momentos imprevisíveis em que a contestação sai às ruas e os manifestantes fazem a sua própria história. Basta ver o alarme e sobressalto que elas provocam para perceber que a distinção estabelecida por Jerónimo de Sousa  – entre a luta organizada e a luta inorgânica – é não apenas equivocada como completamente disparatada. O que está em causa são precisamente formas distintas de organizar a luta e o governo e as forças vivas da reacção têm deixado bem claro qual é que lhes provoca mais inquietação.

As derrotas concretas da classe trabalhadora não são as reduções do seu salário real ou do subsídio de desemprego. Esse é o preço a pagar pela derrota muito mais substancial de ter Arménio Carlos a falar em seu nome e João Torrado a colaborar com a PSP para que «tudo corra bem» nas manifestações. O desespero e a angústia são instrumentos poderosos ao serviço da reacção, mas não são forças da natureza contra os quais nada haja a fazer. Naturalmente que quem for à procura de soluções e meios de os combater junto das cúpulas desta ou daquela organização não encontrará senão mais motivos para ficar desesperado e angustiado. Não será precisamente isso o que nos trouxe até aqui, a expectativa perfeitamente infundada de que alguém (extremamente inteligente, extremamente competente, extremamente clarividente, extremamente extremamente) nos pode dirigir para fora deste buraco chamado austeridade, se seguirmos todas as suas instruções e ouvirmos todos os seus conselhos?

A revolta, o descontentamento e a raiva que estão aí às carradas pedem mais de nós (todos) do que ir a um plenário partidário/sindical dizer umas verdades ou do que ficar confortavelmente à espera que os dirigentes se entendam para formar finalmente um governo de esquerda. Em 2012 vi a história a materializar-se à minha volta, a debater acaloradamente, a derrubar grades e a redigir comunicados, a fazer escolhas e a tomar decisões, a lançar pedras e a rebentar petardos, a pintar paredes e a queimar caixotes do lixo. Não espero outra coisa de 2013, agora que o fim do mundo acabou. E seria bastante importante que vocês se juntassem à pandilha. Camaradas.

14 thoughts on “Camaradas

  1. com amigos desses quem precisa de inimigos

    cuidado com os ‘camaradas’, com propensão para chibos

    há os que fazem, e há os que analisam, acham bem, acham mal, opinam; a diferença é grande, porque se não houver alguém a fazer, os analistas não têm o que analisar e opinar

    quando as coisas apertam, aí é que se vê

  2. Continuo a pensar que apelar ao boicote das eleições era (e é) um erro que retira força aos teus argumentos. Não partilho dessa atração pelo antiparlamentarismo neste contexto.
    Quanto ao resto, vamos falando.

  3. 2012 foi ainda um grande ano quando pensamos que toda uma clique tão segura da sua superioridade intelectual e maturidade política começou a pensar com que molho é que iria comer o seu sapato.

  4. Renegade, acho que é fácil detectar o disparatado pressuposto daquele teu posto. Quem publicou a Insurreição que vem não apelou a nada a não ser à leitura da insurreição que vem. O resto foram congeminações tuas. Aliás, eu votei nessas eleições, no único candidato de esquerda que tinha um discurso minimamente anticapitalista. E continuo contente com o meu voto.

  5. O simpático texto de apelo a que se juntem os camaradas perde algum efeito com essa embirração com tudo aquilo que mal ou bem também se mexe ou se quer mexer (nota-se especial atenção à ATTAC, em contraste com a sua dimensão, e com o congresso das alternativas, tendo em conta que foi um evento bastante horizontal, tão ao gosto da malta. Também perde com os comentários sectários que se seguem sobre os camaradas que fazem e os que analisam, comem sapatos e têm propensão para chibos.
    Felizmente ainda não apareceram as defesas de fuzilamento dos “panic-mongers and cowards” («foi assim que se venceu o fascismo»(!) ).

  6. Renegade, foi o teu post que fez alastrar as dores em várias direcções. Mas ainda estás a tempo (estás sempre a tempo) de concordar que foi uma generalização abusiva e até um pouco disparatada. De resto, como já terás visto, o Manuel Alegre está do lado da troika.
    Caro anónimo, é assim que está a esquerda: encontra um texto crítico e chama-lhe embirração. Embirração seria precisamente não escrever nada ou ficar por uma frase sarcástica. Neste caso temos uma referência à ATTAC numa frase escrita na primeira pessoa do plural. Poderia haver algo menos sectário do que um alargadísismo «nós»?
    Um evento bastante horizontal? Espero que 2013 não comporte tamanha ingenuidade.
    Não percebo como é que o que escrevo poderia perder validade devido aos comentários de outras pessoas. Era mesmo isso que querias dizer?

  7. o palácio em que o presidente vive só por si e à partida é suficiente para não votar, e representativo do resto

  8. Ao longo do texto fui ficando com a certeza de que algo de muito importante acontecera e me passara ao lado, algo promissor, entusiasmante, “novo”, sinal de mudança … Ora bolas. Afinal, tanto foguete por uns caixotes do lixo a arder e umas pedritas a voar. Pffff. Ganda corte, meu.

    P.lopes

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