Do medo…

Ratos

“À porta de um tribunal, perguntaram a duas trabalhadoras, testemunhas num processo acompanhado pelos media: – “As senhoras têm medo?”- A resposta veio pronta: “Medo?…” – “Mas medo de quê?…”Ali estavam no plano de câmara 2 mulheres de rosto cansado, talvez um pouco inchadas e precocemente envelhecidas, talvez com o cabelo oxigenado, talvez com as camisolas apertadas e as cores trocadas. Mas a pergunta absurda. De que coisa terá medo alguém que cresceu na beira da estrada com o rabo sentado em cima de uma pedra, à chuva ou sob calor intenso, que caminhou até ao primeiro pinheiro e levantou a saia, e viu abrirem-se centenas de braguilhas de indivíduos desconhecidos, recebeu trocos em notas ou moedas por um serviço previamente acordado, se limpou, respirou fundo e chocalhou as pernas ainda assim, e foi sentar-se, de novo, à beira da pedra? De que coisa terá medo alguém que se desenvencilhou por uma coisa que lhe podia dar de comer, o seu sexo, e que por causa disso não teve tempo em construir um discurso sobre a sua intimidade, esqueceu-se ou não teve tempo, ou talvez tenha chegado um dia em que, mesmo que já tivesse amado, abrir as pernas com o rabo em cima de um monte de caruma, a um homem que lhe haveria de dirigir-se da maneira que quisesse, com a pressa de se vir, era uma resposta ao problema da compra da papa, ou do vinho, que também amolece e ajuda a adormecer, e permite esquecer que alguém nos deixou. A humilhação permite que percamos o medo. De que podem ter medo as pessoas a quem os dentes foram caindo e a quem já olharam de todas as maneiras, de cima para baixo e de baixo para cima?
De que tem medo uma mulher a quem nunca consideraram outra coisa que a aceitação, estás a armar-te em fina? De que terá medo alguém que pede esmola na rua? Medo do frio e da fome, talvez.
Há agora, em Portugal, mais mulheres na beira da estrada, outras a caírem-lhe os dentes. Tu, se tens fome. não tens medo de nada. Tu atacas. Tiras o papel higiénico do restaurante onde entraste à socapa e levas o rolo para casa. Chegas a casa e limpas tudo com o mesmo pano: onde antes tinhas os cheiros e perfumes ambientadores. A sopa passa a ser grande porque as colheres são postas lentamente no meio da tigela e é preciso que durem. Deixámos de olhar para o rosto à noite, ou no outro dia que nasce porque está carregado de humilhação, cada vez o medo parece que desvanece mais, cada vez a reacção é mais curta, o pano rasga-se nas mãos, os dedos queimam mas não doem. Estão pessoas a dormir na rua, algumas há anos, outras há poucas semanas, ou dias. Dormem ou dormiam muitas pessoas na Avenida Almirante Reis, abrigados do frio. No outro dia subi a rua e vi que alguns moradores de prédios colocaram uns ferros ou gaiolas de ferro branco para impedir que os sem-abrigo pernoitassem nas sacadas. Para mim, estas são personas non gratas. A higienização da dor ao nosso lado, a única coisa que retribui são pessoas como nós cada vez mais na beira do fio da linha entre a dor e a ausência de medo.”

Obrigado, I.

4 thoughts on “Do medo…

  1. Por acaso eu sei que onde moram os meninos e as meninas, que escrevem estes textos patéticos e com um Português miserável, os pobres não se chegam perto porque têm medo da polícia. Lá está, medo.

  2. Eu diria que o medo não se quebrou, diria sim , que o medo se congelou !
    O medo, é um sentimento de alerta, de sobreaviso mas, neste país onde as pessoas são bombardeadas ,não há lugar a medo , há lugar apenas à sensação de uma dor dormente , que as vai aniquilando.

  3. boas! não venho aqui para dar música, ainda que possa parecer… isto porque leio os conteúdos, que na generalidade me agradam. porém, é facto, deixo “algo” que vou fazendo com a melhor das intenções (ainda que fuja ao contexto dos textos)… ainda sssim, desejo nunca ser ser alvo das piores interpretações : ) Abraço

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