Can white people say “nigger”?

Não coro quando oiço alguém a dizer “preto” e não acompanho uma série de policiamento politicamente correcto da linguagem relativa a géneros fenotipicos e/ou sexuais. Considerando que a linguagem é algo de fundamental na estruturação do pensamento parece-me no entanto complexa essa relação, e que portanto não será necessariamente por uma reformulação de terminologias que se poderá combater as descriminações que traduzem. Também não acho que o “deslize” de Arménio Carlos, secundado por João Soares, traduza um secreto projecto político xenófobo ou que na sua intimidade Arménio seja um supremacista branco.
O “escurinho” de Arménio parece-me no entanto bastante grave, precisamente porque traduz o racismo latente da sociedade portuguesa e não as suas expressões mais exageradas e marginais. O mesmo racismo paternalista que censura o Mário Machado enquanto absolve o polícia que executa crianças na Amadora, o mesmo racismo paternalista que afirmava a presença portuguesa em África distinta das outras pela sua miscegenação com os locais ao mesmo tempo em que o colonialismo vingava em toda a sua brutalidade e que nos confins do império os generais caçavam pretos para divertir os amigos e lhes enfiavam as cabeças em estacas. O mesmo racismo que faz com que uma comunidade enorme tenha pouca, ou nenhuma, representação nas esferas de poder formal e informal. A questão aqui não é Arménio atentar na cor de alguém numa comparação sem piada, mas sim o facto de o fazer remetendo directamente para uma especificidade da dominação colonial que é criminosa e asquerosa.  “Preto” enquanto insulto traduz um racismo abjecto e imediato. “Escurinho” traduz uma experiência histórica, um paternalismo assassino, um racismo que por ser continuamente negado e varrido se torna aceite e invisível.
No mínimo preocupante é também ver como pessoas que há menos de um ano acusavam os estivadores de ser o Einsatzkommando de Leixões por cantarem o hino nacional achem agora isto normal e uma tempestade num copo de água. Que um cerrar de fileiras perante uma clivagem política signifique o abandono de qualquer juízo crítico é, logo à partida, uma enorme derrota.

Berlusconi e Arménio: Inimigos na política, amigos no humor

Portugal não deu apenas outros mundos ao mundo, arranjou também modos simpáticos de nomear os pretinhos

35 thoughts on “Can white people say “nigger”?

  1. Vocês são os mesmos que ficaram todas histéricas quando a Manuela Ferreira Leite falou em ‘ucranianos’?!?! Dois pesos, duas medidas. Racistas de merda é o que vocês são.

  2. Muito bom texto, PP. O mais grave neste país é ter, da extrema esquerda à extrema direita, malta com muitas teias de aranha na cabeça.

  3. PP, acho que tudo isto acerta ao lado do que é essencial, vindo na linha das intervenções que apenas criam mais ruído.
    já se percebeu que ao Arménio Carlos lhe saem por vezes formulações que não quadram an langue de bois do politiqueiro. Um certo escárnio, pouco indicado para quem devia saber gerir o dizer uma coisa mas significar o seu contrário.
    neste caso, como no caso das suas afirmações sobre a polícia nas escadas da assembleia numa manifestação recente, o que está em causa é, para quem tiver os instrumentos de análise e para quem os quiser usar sem buscar o efeito fácil de destruição pública da imagem da CGTP, o que está em causa é a deslegitimição do sec-geral da CGTP e a menorização da luta (no meio do barulho, onde já vai a manifestação dos professores?).
    A coisa faz-se assim: um ou outro jornalista a soldo dos interesses que governam o país redige uma nota em que ao Arménio Carlos é imputado que “chamou” escurinho ao gajo do FMI (no caso corrente foi no Correio da Manhã). Repare-se – “chamou”, ou seja, insultou, ou seja, é um racista ignóbil. Mas, se formos ler o que o Arménio carlos disse, veremos que o “escurinho” vem no quadro de uma comparação entre a troika e os 3 reis magos, em que um dos reis magos se distingue, como é evidente, por ser o mais escuro. É factual.
    E pimba, lá vem a blogoesfera direitosa amplificar o assunto, as redes sociais também servem para ajudar ao barulho, a máquina está lançada. A “polémica” instalada no reino da mediacracia. Facilmente o movimento se amplifica pelo pessoal que “acha muito mal”, porque no fundo, ninguém gosta de ficar como racista na fotografia. E vêm como é obvio os exaltados das franjas da esquerda ajudar à festa (rupturas e afins), assim como os escandalizados do costume defensores a outrance dos “direitos humanos”.
    Mas a questão fundamental aqui é outra. É a exploração mediática de uma frase de um gajo que está, quer se queira quer não, no centro da luta contra a austeridade, com o objetivo de destruir essa luta.
    Tudo isto vem reforçar uma caraterística dos tempos que vivemos: um grande desnorte estratégico e tático do campo diversificado da luta contra a austeridade.

  4. Olha nem a propsito.- com o que ate escrevi- acabei de ler isto e concordoquase em pleno. ogama

  5. Renegade, se bem entendi, não se deve dizer que a afirmação do Arménio Carlos é racista porque é um «facto» que há 2000 anos três reis seguiram uma estrela até uma mangedoura onde uma virgem deu à luz um ser divino? É isso? Ou apenas porque não convém, por razões tácticas, e então mais vale ficar caladinho para não dar armas à reacção?
    Repara que, uma vez que a troika não traz ouro incenso e mirra, a única razão para a comparação é mesmo o facto de serem 3 e um ser preto. E por isso, o Arménio Carlos só se lembrou de fazer a comparação porque um deles é preto. E por isso, é uma comparação racista. E quem a desvaloriza, como tu, para lá caminha.

  6. Tudo bem, era apenas uma comparação com os reis magos. não tendo atentando tempo suficiente nas ditas personagens para opinar sobre a sua função arquetipica parece-me que os ditos reis vieram ofertar ouro, incenso e mirra ao neo-nato jesus. Talvez eu seja tacanho mas escapa-me o paralelo com a situação presente. Do mesmo modo desafio-te a na tua vida pública começares a utilizar “escurinho” em vez de negro, africano, preto ou o que quer que digas.

    Relativamente ao resto, deve-me ter escapado o memorando 227

  7. Claro rick, junta-te ao coro. O Correio da Manhã e os mediacratas da direita servem-te de bandeja o assassínio público de carater do sec-geral do maior sindicato português, e tu achas que assim é que deve ser porque é necessário educar o homem e o povo português na santa doutrina dos direitos humanos, e chamas razao tatica (para desvalorizar o argumento) a uma contextualização disso no combate politico que se esta a travar. Eu não dou para este peditório.

  8. O que me escapa aqui é que o renegade, e outros, considerem que realmente o único que impede a CGTP de liderar as massas rumo à victória final sobre a troika e a direita é o facto de ainda existirem alguns velhos do restelo que insistem em problematizar a utilização de termos racistas pelo seu secretário geral. No fundo no fundo, o grande problema da esquerda institucional resume-se unicamente ao cinismo e necessidade de protagonismos de uns quantos radicais, muletas da direita, e não a escolhas políticas, ideológicas e partidárias problematizaveis. A CGTP parte umas cabeças? ninharias. O Arménio chama escurinho a um preto? shiiu estejam calados.

    Já agora, continuo sem perceber a analogia com os reis magos

  9. Já agora, adorava saber o que diriam os camaradas em frança acaso algo semelhante se passasse lá

  10. Toda a gente sabe que o renegade sempre fez o jogo da direita. Ah merda isto é um argumento vazio, mediocre e apenas insultuoso. Ah merda é o tipo de argumento que o renegade usa aqui. Ah merda.

  11. renegade:
    tu dizes que “É a exploração mediática de uma frase de um gajo que está, quer se queira quer não, no centro da luta contra a austeridade, com o objetivo de destruir essa luta.”

    1. é óbvio que as declarações públicas de alguém como o secretário geral da cgtp hão-de ser escrutinadas até um ponto que podemos considerar idiota mas que toda a gente sabe que é assim. que o arménio se tenha esquecido disso ou não tenha respeitado o guião é culpa dele e só dele.
    2. usar o termo “escurinho” é mesmo uma má ideia. pior que um racista assumido é um racista que acha que não o é.
    3. dizer que a cgtp está “no centro da luta contra a austeridade” é complicado. com a cgtp não há centro nem periferia. há só a cgtp. e cada vez mais incapaz de potenciar ou transformar o que quer que seja ou de estabelecer pontes com quem não pertença ao seu aparelho. já para não falar da sua tendência para contribuir para a criminalização de quem, também contestando a austeridade, fuja ao seu controlo.

    p.s. já agora: erro táctico foi entregar à direcção da cgtp o monopólio da contestação social nos últimos 20 anos. ou ter deixado passar ao longo do tempo, em nome da “unidade”, toda a filha-da-putice com que os “camaradas-dirigentes” nos têm brindado.

  12. pronto paciência, já vi que não dá. siga para bingo.
    fico a aguardar com expectativa a próxima vítima do frenesim exegético. mas vejam lá esses nervos. bj a todos.

  13. Ontem uma pessoa no FB acusou-me de ser responsável pela privatização da água, realmente devo andar bastante nervoso. Aprecio no entanto a mão firme de quem 1) continua a achar que a táctica de primeiro ganha-se a guerra e depois discutem-se os detalhes é muita porreira 2) continua a ver na CGTP essa irredutível máquina de guerra do movimento operário. Ambas tem corrido muita bem.

  14. “erro táctico foi entregar à direcção da cgtp o monopólio da contestação social nos últimos 20 anos. ou ter deixado passar ao longo do tempo, em nome da “unidade”, toda a filha-da-putice com que os “camaradas-dirigentes” nos têm brindado.”

    Nem mais.

  15. Realmente como se pode ser doentiamente anti-comunista e ver na afirmação da Arménio Carlos este chorrilho de disparates! Vocês são é os idiotas úteis do professor Marcelo… Rebelo.

  16. De facto, renegade, vale tudo. Até mesmo dizer que o racismo não existe ou não interessa ou tudo não passa de um frenesi exegético. Sim, fico nervoso, quando aquele palhaço diz coisas daquelas e tu o vens defender e dizer que não é assim tão importante. Mas já vi que a ti nada te enerva há já muito tempo. Cada um toma os sedativos que mais lhe convêm.

  17. Também não percebo tanta cena. Eu também chamo preto aos pretos se não tiver nenhum à volta. Assumindo que o Arménio estava em cima de um palanque e tinha uma boa visão periférica, o gajo provavelmente sentiu-se à vontade. Mas com um serviço de ordem à sua disposição, quem não se sentiria?

  18. Já vi coisas piores. Um certo clube da capital, que até tem uma estátua de um homem africano no hall de entrada, em dias de jogo a assistência emite sons de macacos quando os jogadores adversários são de tez mais centro-africana. Assim mais para o escurinho.

  19. Em todos os estádios isso acontece, mas confesso que na luz nunca ouvi. Ainda assim, um adepto (ou um grupo de adeptos) não é o clube, Maria da Conceição.

  20. sinceramente, concordo com o renegade. ninguém está a dizer que as palavras não interessam ou que a expressão utilizada pelo AC não foi errada. mas daí a dizer que é uma razão para o homem se demitir, ou insinuar que o racismo do AC é pior que o dos “verdadeiros racistas” porque é assumido é de um ridiculo total. é como dizer que é preferível queimar o preto a chamar-lhe escurinho.
    A CGTP tem muito por onde criticar, verdade. Existe racismo em Portugal, verdade (aproveito para perguntar onde é que não existe racismo?). Devemos combater o racismo em todas as suas formas, incluindo expressões de linguagem corrente, também é verdade.
    devemos esquecer que na luta que travamos contra o racismo (e nas outras) a CGTP é muito mais um aliado do que um inimigo, não me parece a melhor ideia.
    a infame falta de unidade da esquerda por tudo e um par de botas já não é nem nunca foi um problema da luta anti-capitalista? Engraçado, ainda a semana passada ouvia dizer que era um dos maiores obstáculos…

  21. onde se lê “A CGTP tem muito por onde criticar…”
    deve ler-se “A CGTP tem muito por onde ser criticada…”

  22. e onde se lê “…porque é assumido…” deve ler-se “…porque não é assumido…”

  23. wtf:
    o racismo assumido é tão visivelmente aberrante que, necessariamente, conduz a um confronto, impõe uma definição de posicionamentos, uma clarificação. pense-se na escravatura ou no nazismo como exemplos. já o racismo que não se toma por racismo, que, consciente ou inconscientemente, nunca se mostra enquanto o que realmente é, permanece, de forma latente, perdura nos gestos, na linguagem, insinuando-se sem nunca se assumir. passa a conviver-se com ele, e a aceitá-lo porque “se calhar, nem é bem racismo”. este racismo é o que percorre termos como “escurinho”.

  24. só pra dar mais algum contexto, deixo aqui a transcrição da polémica declaração:

    “Daqui a pouco vêm aí outra vez os três reis magos, um do Banco Central Europeu, outro da Comissão Europeia e o mais escurinho, o do FMI, e já se fala em mais medidas de austeridade”, afirmou o líder sindical no sábado (in DN)

    como diz o PP a analogia é mal escolhida e faz pouco sentido.
    se era pelo numero de protagonistas podia ter escolhido os três porquinhos ou os três mosqueteiros.
    ou então, como intui muito bem o bb sem dar a devida importância, se calhar isto nem é bem racismo… é que ou acreditamos que o AC tem um projecto supremacista racial oculto ou que isto foi um erro de expressão sem um significado politico que vá pralém do “errar é humano”.
    e quem nunca meteu a pata na poça e disse algo assim que levante o braço, sff.
    parece-me que este tema está marcado por um certo ressabianço, mas também admito que é uma atitude que a CGTP tem feito por merecer…

  25. esperem lá. o filme é outro, não é o original da bíblia. ele devia estar a referir-se à “vida de brian”, dos pyton, em que os reis magos voltam a trás e exigem a devolução dos “presentes”.

  26. Não é nada disso. Os 3 Reis Magos vêm cá roubar o Ouro, o Incenso e a Mirra para os irem oferecer a algum menino predestinado mais a norte seguindo a Estrela Polar. Ou vocês acham que os Reis andam na própria pessoa a garimpar? Agora e há 2000 anos? Abastecedores de Reis Magos é que nós somos.

  27. Reparei que ha por aqui muitos notários da linguagem “politicamente correcta”. Deve dizer-se “preto”‘, “negro”? pode dizer-se “mulato” ? E “cabrito” ? e “africano”? E escurinho?

    Tambem reparei que esses “notários” que acham que o termo usado pelo Arménio é um termo racista , nao gostam da CGTP. Nao me parece que seja uma coincidência.

    O meu amigo Arlindo que nasceu em Sao Tomé e Príncipe e que é escurinho, tem o nariz largo e os maxilares grandes e que me chama “Loirinho” , disse-me aos discutir-mos este tema ontem no café que o Arménio deveria era ter usado a expressao ” house negro” e fascista ao dirigir-se ao etíope do FMI.

    Quanto aos que escreveram a passar atestados de linguagem politicamente correcta aqui vai o meu comentário – Fucky you motherfuckers the working class has no time to spend With bulshit” , assim ao estilo Malcom X.

  28. A referência idiota ao “escurinho”, é típica do racismo larvar existente na nossa sociedade, entranhados por séculos de colonialismo, escravatura, etc. A quantidade de gente que diz “monhé”, referindo-se a indianos, sem ter (?) noção de que é um termo ofensivamente repugnante… Quando eu andava na escola primária, havia uma cantilena que todos entoávamos: “Em Macau o bom chinês / limpa o cu ao português”…
    Não somos menos racistas que os outros povos, nem menos dominadores, e se calhar nem mais moles — como negreiros, traficando seres humanos, parece que nenhum povo europeu nos suplantou.
    Arménio Carlos ter dito o que disse na tribuna de uma acção da CGTP foi como se dissesse “panilas”, ou “larilas” ou “fufa” referindo-se aos homossexuais. Se no seu círculos de amigos cada um diz e porta-se como quiser, um dirigente da Inter não deve comportar-se como um tosco.
    Que ele não deva ser criticado por isso, porque tal dará armas aos defensores da austeridade, seria cómico se não fosse trágico. Foi com esses argumentos que alguma esquerda (e já não falo dos funcionários do PC) ficava desconfortável quando se aludia ao Gulag, aos hospitais psiquiátricos, ao KGB e a muitas outras maravilhas com que a União Soviética brindou o “socialismo”.

  29. Ola,

    O racismo dos Portugueses não é “latente”. E’ antes inconsciente (mas desinibido), interiorizado, e vivido com uma naturalidade que assusta… Não é que isso me choca. E’ que de cada vez que vejo as atitudes boçais que somos capazes de tomar, e que são correntes até nas ruas da capital, da-me vontade de deitar imediatamente o meu passaporte para o lixo !

    Por mim, podia ser combatido à marretada, na falta de qualquer outro método com provas dadas.

    Mas como estamos em democracia (ao que parece) o politicamente correcto serve…

    Boas

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