antisemitas, racistas, a mesma luta

Curioso como as coisas se repetem ao sabor do vento e das conveniências.

Jean-Luc Mélenchon, o presidente do Partido da Esquerda francês, antigo candidato da frente eleitoral de esquerda às presidenciais e conhecido pelas suas afirmações contundentes, foi esta semana massacrado nos media franceses sob acusação de antisemitismo a respeito do ministro francês da economia.

Em resumo, foi isto: O senhor Mélenchon disse numa tribuna do congresso do seu partido: “Moscovici (o ministro francês da economia que votou o confisco dos depósitos aos cipriotas) já não pensa em francês mas na língua da finança internacional”. Como o senhor Moscovici é judeu e como, evidentemente, todos sem excepção estamos embebidos no antisemitismo cultural acerca da raça judaica e do seu amor ao dinheiro que não tem pátria, eis que se torna explícito o antisemitismo de Mélenchon, imediatamente identificado e amplificado pela AFP (a LUSA francesa), condenado por dois fazedores de opinião de serviço e devidamente amplificado pela esmagadora maioria dos órgãos de mass media e pelas redes sociais. Quando vem o contraditório, já não há volta a dar.

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Confuso? Inverosímil? Comédia? Farsa?

Faz lembrar aquelas palavras de um famoso discurso de um certo secretário geral de uma certa central sindical portuguesa que rezavam assim, testemunhando, evidentemente, um racismo embebido e tão amplamente condenado: “Daqui a pouco vêm aí outra vez os três reis magos, um do Banco Central Europeu, outro da Comissão Europeia e o mais escurinho, o do FMI, e já se fala em mais medidas de austeridade”. Afinal, também acontece em França. E cheira-me que vamos ter próximos capítulos. Quem será a vítima?

9 thoughts on “antisemitas, racistas, a mesma luta

  1. Mas se o Mélenchon disser a mesma coisa do Gaspar (e aplica-se perfeitamente, já que tb aprovou o confisco) já não é antisemitismo, porque o Gaspar não é judeu?
    Que raio de comparação.

  2. Exactamente, Helena. Para descredibilizar Melenchon usaram esse subterfúgio. Aliás, tentam usar todos os subterfúgios possíveis, mas este é de bradar aos céus.
    É como alguém dizer que Schläube é um facínora total, e ser acusado de… descriminaçäo contra deficientes!

    Melenchon cada vez mete mais medo ao sistema, especialmente porque Hollande está a ser um flop, e os eleitores de Esquerda näo se väo virar para a Le Pen.
    Que se lixe! Pode ser que se a comunicaçäo social do sistema pintar o Melenchon como “antisemita” ele apanhe alguns votos de centristas descontentes que estavam a pensar votar Le Pen… :D

  3. Peço desculpa mas não vejo qualquer semelhança entre as duas coisas. O Mélenchon não falou em judaismo e a relação entre o que ele disse e o judaismo apenas sera feita por quem acha que ela existe, ou por quem acha que devemos pensar que ela existe, ou por quem acha que devemos temer que ela exista, etc.. O Arménio Carlos referiu-se ao membro da troika pela côr da pele, como se isso fosse uma maneira perfeitamente banal e inocua de designar alguém.

    Haveria analogia possivel se o Mélenchon se tivesse referido ao judeuzinho Moscovici. O que não é o caso.

    Desculpem mas quem não vê a diferença tem um problema… Sério.

    Boas

  4. Caro João Viegas,
    Quer-me parecer que eu tenho um problema, sério, com letra maiúscula.
    É que o Arménio Carlos não usou a cor da pele para individualizar carateristicas negativas do etíope. Usou a cor da pele do etíope para o individualizar em relação aos outros dois, no contexto de uma metáfora que não imputa uma denotação ou conotação negativa à cor da pele. Leia por favor de novo a citação.
    Diria então, pegando nas palavras de alguém, que essa relação entre o que ele disse e o racismo apenas sera feita por quem acha que ela existe, ou por quem acha que devemos pensar que ela existe, ou por quem acha que devemos temer que ela exista, etc.. E cada um terá as suas razões para achar isto ou aquilo. Ainda assim, e para provar a minha boa fé, vou consultar um ou outro amigo mais especialista destas coisas para que me expliquem aquilo que para mim é um salto lógico e linguístico incompreensível.
    De qualquer forma hei-de me lembrar para o rsto da minha vida de nunca fazer comparações entre pessoas apelando à cor da pele, assim ao género “sim, eles eram três, e um era mais escurinho, era o do fmi, tás a ver?”. Já sei do que me acusariam determinadas pessoas mais susceptíveis.
    Boas.

  5. Meu caro,

    Custa-me de facto compreender que v. continue sem ver diferença de monta.

    Designar alguém por um atributo como seja a cor da pele, a religião, ou alias o sexo, quando a distinção não se encontra minimamente justificada pelo contexto, é reduzir a pessoa ao atributo em causa, o que é a essência da discriminação e do racismo. Não foi nada disso que fez o Mélenchon, mas foi exactamente isso que fez o Arménio Carlos.

    A diferença até nem é assim tão subtil que não se veja a olho nu : num caso, a discriminação esta nas palavras expressas, no outro, não ha absolutamente nada de discriminatorio, ou sequer de alusivo, naquilo que foi dito e esta tudo na cabeça de quem interpreta.

    Que todos nos sejamos sujeitos a atitudes proto-discriminatorias e que seja talvez excessivo não deixar uma pequena margem é uma coisa. Não ter ou não querer ter consciência de quanto estas atitudes são estupidas e socialmente avassaladoras e misturar esse tipo de comportamentos (o escurinho da troika, o paralitico do conselho europeu, a mamalhuda do bloco de esquerda, etc.) com o que disse o Mélenchon é outra.

    Quanto ao resto tenho muita pena mas eu não acho nada inocuo falar no escurinho da troika, “porque afinal até é verdade que que ele o é e porque se trata de uma forma comoda de o distinguir dos outros que por acaso – atenção por mero acaso – não o são”.

    Até por uma razão fundamental : no dia em que eu achar essas atitudes normais, vou também achar natural fazer uma distinção radical entre quem tem apetência para compreender o que implicam a igualdade e a dignidade, e um mero labrego….

    Boas

    PS : E, como é obvio, esta postura nunca me ha de impedir de criticar alguém que se faz o porta-voz de interesses financeiros, so porque ele é preto, ou judeu, ou mulher, etc.. Isso é simples…

  6. Compreendo a sua argumentação e aceito que tenha razão quanto à questão de fundo. Pena que outros não tenham tanta paciência. Agradeço-lhe a sua, não deixando de lamentar a media exploitation do assunto “escurinho” para fins que nada tiveram a ver com o combate ao racismo.
    1 Abraço

  7. Caro,

    OK. Eu aceito perfeitamente que tenha havido aproveitamento, ou seja exagero, na reacção ao que disse o Arménio Carlos. A meu ver, é mais uma razão para manter vigilância quanto ao essencial, que nem sempre é tão obvio como parece : saber separar o trigo do joio.

    Acho que, de uma certa maneira, estamos a dizer a mesma coisa. O que eu penso é que o exagero e a falta de discernimento na critica – emblematicos no caso do Mélenchon (e ha outros exemplos) – acabam por fazer o jogo daqueles que se querem manter no conforto de poder ter comportamentos discriminatorios. Portanto julgo que concordo com a ideia base do seu post : a moda do politicamente correcto não pode ser apenas uma moda por mimetismo acéfalo, ela so tem sentido se formos à raiz do problema e soubermos porque é, ao certo, e em que é que achamos que devemos modificar os comportamentos.

    Boas

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