Tout a failli, vive le communisme!

Na sua coluna desta semana Nuno Ramos de Almeida afirma em boa voz a ideia que se tem sublinhado inúmeros momentos recentes: este governo tem de cair pela rua. A reemergência desta enquanto fórum e enquanto novo rio rasgado por afectos políticos inesperados veio sugerir duas ideias: A primeira é que perante o exercício do poder especialmente perverso do governo em funções a rua é a última carta de um povo acossado, aquela que não está limitada ou formatada pelas contingências e vicissitudes dos outros poderes. A segunda é que a rua pode actuar enquanto processo constituinte que sirva a uma reconfiguração da esquerda, renovando-a e reforçando-a, servindo simultaneamente enquanto argamassa que permita a união das esquerdas e enquanto diluente que suavize as suas densidades incompatíveis.

É nas inúmeras variantes desta nota que se têm processado os múltiplos encontros que deram então uma forma a essa rua – e que traduzem um pensamento interessante: que é necessário repensar as formas de poder nas quais nos investimos e revemos e que é necessário que essas formas novas destituíam as presentes.

Ora onde a questão se torna mais complexa é precisamente nas questões seguintes: que formas pode sugerir essa rua, tanto prévias como posteriores a ela, e de que falamos quando falamos da união das esquerdas. Esta problemática torna-se ainda mais urgente quando se tem evitado discutir a primeira em função da segunda, assumindo essa união um pendor alquímico e salvífico ante a barbárie neoliberal. A união das esquerdas passaria pela formalização de uma grande instituição que albergasse no seu seio as diferentes tendências emancipatórias num programa comum e razoável. Essa força permitiria constituir-se enquanto poder formal que tomaria posse das instituições de estado, injectando-as de liberdade e democracia, traçando um continuo estrutural da assembleia de bairro à assembleia da república. Na verdade poucas estruturas seriam mais kafkianas do que a que procurasse integrar numa mesma formalidade o voluntarismo dos activistas com a ortodoxia dos militantes à volta com dezenas de identidades ideológicas. Imagine-se a experiência recente do BE, some-se o PCP, uns pozinhos de extrema-esquerda e ala esquerda do PS e multiplique-se pelos aparatos de estado. O resultado não é um amanhã que canta, é um Titanic vermelho a afundar com todos à porrada e uns quantos a grândolar as ondas que se abatem no navio. Por outro lado a rua que é convocada para abrir espaço a este projecto procurando manter-se num regime de governabilidade abre caminho a outra questão: ao sugerir-se enquanto hipótese de discurso, ou seja, ao perder a sua autonomia, inscreve-se num argumentário que mais depressa se prestará a justificar pactos de regime entre as diversas tendências do poder do que a qualquer escancarar de portas à esquerda que vem.

Não se trata aqui de contrapor à “união das esquerdas” um vago sonho molhado de fúria popular indistinta ou de menosprezar as riquíssimas experiências aí implicadas, mas a de começar a sugerir outras linhas de reflexão: uma relativa à validade do conceito de “esquerda” enquanto comunidade especializada e separada, do colectivo anarco-nãoseiquê ao grande partido da classe trabalhadora, que se procura constituir enquanto instrumento de poder e uma outra relativa a como esse campo foi perdendo a sua materialidade. Generalizando grosseiramente este surge como o traço comum: se uma parte maioritária da reflexão e prática de esquerda se foi construindo tendo em conta a sua constituição enquanto estado, por vias democráticas ou revolucionárias, uma outra, minoritária, foi-se afirmando de modo identitário, procurando acima de tudo assegurar a sua reprodução social e o seu papel essencialmente decorativo. Ambas se pautam no entanto pela mesma questão, a de propor uma procura e um gregarismo essencialmente ideológicos que se vieram a revelar francamente incapazes nos últimos tempos. Que, por exemplo, as assembleias de bairro saídas das acampadas no estado espanhol se estejam agora a constituir enquanto cooperativas mutualistas atesta bem essa necessidade: organizar, organizar, organizar sim, mas à volta de algo imediato, prático, tangível.

Isto para dizer que, nesta humilde opinião, o governo só cairá pela rua quando ela se apresentar inequivocamente enquanto ingovernabilidade e que a rua só ganhará esse poder quando se assumir enquanto materialidade colectiva e não enquanto espaço de reivindicação.

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9 thoughts on “Tout a failli, vive le communisme!

  1. Mas o que o NRA te irá responder (permitam-me a história ficcional) é que esse processo, de base e material e antagonista, de que falas e sobre o qual ele concordará na sua importância digamos a 90%, vale pouco em termos políticos e históricos. Ou seja, o que o NRA (continuo no ficcional perdoem-me a má educação) e já agora o Tiago Mota Saraiva acham, para dar outros nomes ao que me parece ser um posicionamento político consistente e presente tanto na rua como nas cúpulas, é que esses processos de organização material da insurgência, ainda que em redes bem desenvolvidas, têm pouca capacidade na hora de enfrentar realmente o capitalismo, seja em termos discursivos, organizacionais, militares e outros. É a metáfora do caranguejo de duas pinças allendista: a pinça grande é o movimento popular, a pinça pequena são as instituições e os governos revolucionários. É preciso uma grande estrutura, democrática e moral, quê de folgo aos processos revolucionários em curso, acham eles.

    Ora eu, também na minha humilde opinião claro, não vejo como é que isto possa ser mais do que um chavismo-lulista de organização nacional do capitalismo, com uma base social. Mas também não vejo, PP, como é que essas cooperativas mutualistas poderão tornar este país ingovernável. Os anarquistas gregos não tornaram o país ingovernável, nem a autonomia italiana o fez nos seventies. Humm.

  2. Cara Maria,

    Não se trata de propor qualquer tipo de anarco-colectivismo mais ou menos inspirado que por artes de magia faça desaparecer o estado e o capital, mas parece-me óbvio que ao longo da história a capacidade ofensiva sempre esteve ligada à funcionalidade das infraestruturas que a sustentam, dos comités de defesa da CNT às redes metropolitanas de Paris Saint Denis. Que anos 20 o proletariado de bcn tenha investido tudo na criação desses comités de defesa fez com que anos depois tenham conseguido sustentar um esforço de guerra durante bastante tempo, e não me move aqui qq tipo de nostalgia pelas formas, modelos ou teorizações do anarco-sindicalismo ou qualquer tipo de positividade do género. Parece-me claro que quanto maior o estranhamento maior o apetrechamento.

    Já sobre Itália calha bem que as Edições Antipáticas tem no prelo um livro sobre a época que comenta onde poderá esclarecer essas dúvidas. Se um estado dividido entre o compromisso histórico e a estratégia da tensão a braços com dez anos de greves selvagens e movimentos tão fortes quanto radicais, com os massacres da operação gládio em cima e a mafia em baixo não lhe soa a uma situação periclitante então não sei o que será

  3. Organização não-partidária

    Já vimos que é possível

    Muitas pessoas, cada vez mais, estão desiludidas com a representação partidária. A abstenção tem aumentado e é superior à percentagem de votantes. Será que precisamos de ser representadas? Porque não representarmo-nos a nós próprias?
    Desde o recente empréstimo do FMI a Portugal, surgiram os chamados ‘movimentos sociais’, supostamente apartidários, mas não o sendo, pois o dedo de partidos está frequentemente por trás destes movimentos, e impede que os mesmos se radicalizem, ficando limitados ao jogo do que é bem aceite pelos média, e dependentes das agendas políticas/partidárias. Pelo mundo fora surgiram também recentemente os movimentos ‘Occupy’, mas no final da década de noventa já tinha havido Seattle.
    No entanto, estes movimentos, com as suas diferenças entre si, e para quem tal ainda não era claro antes, mostraram, talvez mais visivelmente na sua versão ‘de massas’, que é possível haver organização e acção independentes de partidos, apesar de a organização apartidária ser práctica corrente de vários movimentos desde há muito. É possível organizarmo-nos fora de partidos, de forma horizontal, sem hierarquias, as tarefas devem ser rotativas para não ficarem viciadas e não permitir a criação de ‘especialistas’, o que no sistema representativo partidário conduz aos abusos e corrupção a que estamos habituadas.
    Representarmo-nos a nós próprias permite participação directa na tomada de decisões, e pôr em práctica a autogestão, que implica cooperação. É necessário colaborarmos umas com as outras, para chegarmos a fins comuns, e para isso temos que reconhecer a importância do apoio-mútuo, estar atentas a apoiar os/as companheiros/as de luta, para recebermos apoio também. Quando a via burocrática não resulta, o que acontece frequentemente, a luta ou protesto em causa requer a tomada de acção práctica, chamada ‘acção-directa’.

    Grupos de afinidade

    A organização referida resulta em grupos pequenos, porque num grupo numeroso a participação de todos os elementos dificilmente é acompanhada por todas. Pode ser utilizada na preparação de protestos e no funcionamento de movimentos sociais, mas também na gestão e discussão de questões prácticas do dia-a-dia, a nível de bairro, de rua, aldeia, vila, em qualquer contexto, de trabalho, lazer, ou outro. A organização em pequenos grupos facilita a comunicação, dentro dos mesmos, e com outros grupos. Há que rejeitar a organização ‘de massas’ – para lhes ‘darmos o arroz’. Não se trata de rejeitar protestos com participação numerosa, mas não os ter como objectivo principal, pois um trabalho regular daqueles grupos, articulados entre si, pode conduzir a resultados mais interessantes do que apenas manifestações de multidões. Mais importante que manifestações é a nossa organização no dia-a-dia, são necessárias redes de comunicação coesas, abertas ao público, ou fechadas, ou sob anonimato, que permitam troca de informação atempada, acerca do que aconteceu ou vai acontecer.
    Claro, as diferenças partidárias, ideológicas, os sectarsimos, as intrigas, as cúpulas, frequentemente não permitem essa articulação, quanto a isso cada um/a tem que encontrar as suas afinidades, o que pode não ser fácil com a grande apetência que existe para mexericos.
    No período a seguir ao 25 de Abril as associações de moradores puseram em práctica estes princípios de organização comunitária, depois entrou-se no individualismo em que estamos agora, o condomínio entregue a empresas privadas, e no geral muito pouca participação na decisão dos assuntos comuns do local onde se vive. No entanto, assembleias populares têm ressurgido, por exemplo no Porto, em Lisboa, Évora e Coimbra. Ainda funcionam as sociedades/associações culturais e recreativas de bairro ou localidade criadas no período do 25 de Abril, onde se podem realizar discussões acerca de problemas locais, mas são sobretudo locais de convívio e actividades culturais (ensino de música, teatro, línguas, desporto). Existem hoje muitas associações, com um papel social e interventivo, abordando diversos assuntos, sendo que algumas poderão ter uma organização horizontal na práctica, apesar dos estatutos associativos exigirem organização vertical, e apesar de algumas estarem ligadas às autarquias locais, as quais são representantes de partidos e respectivos programas políticos.
    Tais espaços, ou outros que existam, que se criem, ocupados ou alugados, podem ser recuperados e reutilizados, para debater questões urgentes que afectam a vida das habitantes. Locais assim já existem, serão poucos ou a participação é que é diminuta? O difícil pode ser fazer um maior número de pessoas participar na discussão de questões que as afectam directamente, retirá-las do individualismo apático tão característico dos dias de hoje – mas nos tempos que hoje vivemos, a cada dia que passa a participação é mais premente – participar significa não deixar que nos roubem o pouco que nos resta. Não podemos ficar à espera da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia.

    Não haver uma ideologia dominante

    Com os princípios de organização referidos, ideias e ideologias diferentes continuarão a coexistir, e é desejável que continuem, pois não se pretende uma ideologia dominante. Tal frequentemente conduz a regimes totalitários, que parece ser para onde agora caminhamos em Portugal com as várias medidas económicas, políticas e (a)sociais levadas a cabo pelo actual governo, o qual tem mandado executar acções repressivas a vários níveis, como resposta aos protestos que se multiplicam, com o intuito de incutir medo em quem se manifesta contra as suas medidas opressivas, verificando-se uma escalada da violência policial nas ruas, esquadras e prisões.
    Anticapitalismo, antifascismo, e antiautoritarismo, são princípios basilares da forma de organização que aqui se aborda.
    Neste tipo de organização, continuam a existir algumas com maior aptidão para se exprimir e apetência para liderança, outras menos interventivas, isso é sempre assim, mas é essencial todas terem palavra, e sermos capazes de ir além das aparências, pois há sempre quem goste de manipular, à procura de benefício próprio. Líderes não são imprescindíveis, podemos organizar-nos sem ter alguém a comandar. É essencial manter independência em relação a partidos políticos, os quais obviamente não vão desaparecer tão cedo, nem todas as pessoas que deles fazem parte deixarão de fazer, com as quais podemos concordar ou não, e colaborar ou não.
    Este tipo de organização pode também ajudar a diminuir atitudes e comportamentos autoritários, frequentes mesmo entre as que se consideram antiautoritárias; há sempre quem goste de mandar; o autoritarismo provoca repulsa, até de ideias que poderiam ser bastante frutuosas quando apresentadas de outra forma; ninguém é dona da solução suprema.
    É uma forma de organização que, poderá argumentar-se, seja mais frágil, mais facilmente manipulável e infiltrada por quem a quiser desacreditar, por um lado, por outro lado numa organização que funcione em grupos pequenos, é mais fácil abordar e travar tais tentativas de manipulação. Valoriza-se a espontaneidade em detrimento de burocracia. A organização apartidária não é uma fórmula perfeita e instantânea que resolve tudo, é uma via de organização popular de base que pode permitir uma participação, discussão, e responsabilização, directas, numa altura em que a corrupção e a injustiça social atingem níveis intoleráveis e em rápido processo de piorar ainda mais. Esta pode ser uma forma de asfixiar o capitalismo, pelo menos no modo como nos relacionamos entre nós, que nos quisermos organizar assim, e contribuir para atenuar a importância dominante do poder representativo, as divisões dentro das nações, e até as fronteiras entre nações, através do contacto entre grupos de afinidade de diferentes países.

    A mais antiga e natural organização

    Esta será talvez a mais natural e mais antiga forma de organização popular, que requer ser mais praticada para dar frutos. Na verdade já o é, de certo modo, em associações, colectividades, e grupos de interesses mais ou menos informais. Todos os dias muitas a praticam, por vezes até sem repararmos – a partilha e a solidariedade são intrínsecas ao ser humana, embora o capitalismo nos impinja a toda a hora que temos que competir, passar por cima de quem está ao nosso lado, ver a outra como inimiga. Na realidade, por vezes somos obrigadas a sê-la em parte, mas muitas outras vezes podemos rejeitá-la, questionar, recordar que para quem tenha como prioridade a criação de uma sociedade justa, equilíbrio e harmonia são os objectivos, não o são o prestígio, a casta social, a fama, o materialismo, a fortuna, o consumismo. Profundos conhecimentos de teorias ou filosofias políticas e económicas também não são imprescindíveis, efectivamente sabemos quais são as necessidades básicas universais, não só ainda não atingidas, como a serem-nos grandemente roubadas – alimentação, habitação, saúde, educação, cultura.

    Será esta uma visão simplista? Grande parte da complicação advém da sede de poder de muitas que entram na política para enriquecer, da ganância, desde sempre associadas à política, esta sempre ligada ao poder, e ao desejo de mandar. Imagine-se o que se poupava em altos dignitários, deputados, assessores, e parasitas afins, com todas as suas mordomias, num sistema representativo onde muitas vezes existem salários acima da média, corrupção, reformas antecipadas e estilos de vida de luxo, despesismo descarado. Política deve ser contribuir para o bem comum, não o privilégio de poder acumular benefícios pessoais.

    Neste momento, os líderes do principal partido da falsa dicotomia, que agora não está no poder, apelam a que voltemos, mais uma vez, para além da náusea, a acreditar nas suas mentiras, e aguardam voltar ao poder.
    Quanto ao voto, que mandata os partidos no poder, desde sempre as imigrantes deveriam ter direito a ele, inclusive as oriundas de países exteriores à União Europeia, mas mais importante que o voto é a organização das imigrantes, a sua luta pelos seus próprios direitos, a sua capacidade reivindicativa, e a solidariedade da restante população para com elas. Senão, as imigrantes estarão sempre dependentes dos programas dos partidos lhes darem mais ou menos atenção, isto sobretudo numa altura em que a extrema-direita tem vindo a crescer na Europa.
    Imigrantes ou não, o essencial dos direitos exige-se e conquista-se além do voto, na organização das lutas no dia-a-dia.
    Os recentes protestos contra membros do governo, por estudantes e não só, já podiam e deviam ter acontecido desde há muito, sem ser necessário um partido por trás para tal acontecer. Os protestos têm que se emancipar dos partidos, senão deixamos que sempre decidam por nós.
    Mesmo com a saída de ministros, os governos mantêm-se no poder “legalmente”, até ao fim do mandato, e legalmente fazem alterações às leis, algumas irreversíveis, que destroem a vida de milhões de pessoas. Veja-se a actual situação da Hungria.

    O futuro, desde já no presente, é a organização não-partidária, exigente e autónoma.

    Orga Niza

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  4. bem, a mim parece-me que uma proposta anarco-colectivista não seria nada má… valha-nos o não ter medo das palavras, e muito menos de expandir conceitos, pela prática…

    obrigad@ pela “food for thought”,

    boa noite,

  5. por mais que goste, ler blogs de esquerda tira-me a t*sa toda. é impressão minha ou estão todos a treinar para o nobel de literatura?

  6. Pingback: O Estado e a Nação – I. A noção de Estado : Passa Palavra

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