Nos bastidores de « La Vie d’Adèle »

kechiche

Por detrás desta imagem glamorosa, onde duas mulheres bonitas dão um beijo a um homem (imagem bem sexista que nos habituámos a ver na entrega de prémios nos Tours de bicicleta), há uma outra menos feliz. As condições de trabalho que Kechiche impôs à equipa técnica do filme parecem ter sido menos glamorosas : Jornadas de trabalho intermináveis, planificação da rodagem mudada à ultima da hora, pagamentos dos técnicos muito a baixo dos mínimos salariais previstos no código de trabalho dos intermittents du spectacle, abuso de utilização de estagiários, etc, etc… Mesmo se globalmente as rodagens costumam ser antros de incertezas, a lista do desprezo demonstrado por Kechiche em relação aos técnicos que participaram neste filme é longa, e muitos abandonaram aliás a aventura a meio. Estas denuncias não se reduzem a este ultimo filme, outras histórias já tinha ouvido, nomeadamente da boca de portugueses que foram chamados para trabalhar nos filmes dele (imagino porque estes aceitariam de ser menos pagos que os outros). Os primeiros filmes de Kechiche, lembro por exemplo o Esquive (filme fenomenal que mete em cena jovens dos subúrbios), foram produzidos com muito poucos meios. Hoje, para a Vie d’adèle, Kechiche beneficiou  de 4 milhões de euros, o que faz deste filme não uma grandíssima produção, mas com condições relativamente aceitáveis no meio do cinema. Se nada justifica o desrespeito das condições de trabalho, Kechiche já não tem autoridade para argumentar os seus abusos através dos limites orçamentais. Comer ostras e beber Champagne pode ser necessário para solidificar a confiança entre os actores e o realizador, fazê-lo em frente dos técnicos sem que estes possam usufruir do momento é menos delicado. 

Um filme é por excelência um trabalho colectivo. A excelência de um filme passa portanto pelo respeito de toda a equipa que participou na sua realização. É sempre bonito ouvir-se em Cannes um discurso de homenagem aos jovens tunisinos que fizeram uma revolução… Sabe sempre bem ver-se bons filmes, imagino que a Vie d’Adèle entra na categoria dos “bons filmes”… Mas mais do que palavras ou filmes individuais que soam bem, prefiro filmes que transpirem a imagem de uma verdadeira realização colectiva. Vou ver este filme, mas sem duvida com uma sensação de estar a comer ostras estragadas.

3 thoughts on “Nos bastidores de « La Vie d’Adèle »

  1. A última coisa que estava à espera de encontrar aqui é um discurso moralista sobre menage à trois… por momentos, pensei que fosse a crónica do João César das Neves.

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