As Zonas Autónomas Latentes

O texto anarquista mais influente e conhecido das últimas décadas, até à edição em 2009 da “Insurreição Que Vem” do Comité Invisível, será o “Zonas Autónomas Temporárias” de Hakim Bey. O texto percorre inúmeras situações colectivas efémeras, das cidades piratas à Fiume do futurista Annunzio, sugerindo-as enquanto exemplo de uma verdadeira liberdade percorrida por fluxos e desejos selvagens, códigos de honra heterodoxos, um negociamento constante de hierarquias e um óbvio ponto final que asseguraria que as multidões em devir insurrecional nunca se aburguesariam ou institucionalizariam. Hakim Bey é o pseudónimo de Peter Lamborn Wilson, académico norte-americano do ramo das religiões comparadas, orientalista convertido e convicto, que após deambular entre os festivos sixties e umas derivas neo-tradicionalistas descobriu Debord e os Situacionistas. A perenidade de uma série de experiências deixava de ser um problema para ser uma vantagem táctica, ou seja, o esgotamento anímico de um colectivo, de uma comuna, de uma insurreição ou de uma revolução deveria ser reconhecido e celebrado porque só assim seria prevenida a sua eventual decadência e derrota. Esse nomadismo dos desejos e das formas de vida nunca seria apanhado nas armadilhas mortais do sedentarismo, do activismo, da política formal. O sujeito revolucionário não era então o operário consciente ou o cidadão informado mas sim uma galerias de rebeldes e malfeitores: piratas, artistas, cowboys, índios, “apaches” do fin-de-siécle francês, patifes iletrados, espécimes exóticos das caraíbas, etc etc etc. Na verdade Hakim Bey foi mais inspirado pela pré-história da internet do que pelo império Comanche e projectava mais a sua utopia rizomática nas redes cibernéticas do que no festim bêbado de mil e um sacanas sem pai nem mãe. O conceito ganhou popularidade e foi adoptado por inúmeras dinâmicas mais ou menos interessantes durante os anos 90, da cultura das raves ilegais e da música electrónica às cenas okupas que proliferavam na Europa.

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Não obstante o tom jocoso aqui apresentado Bey apresentava um quadro pertinente. Encurralado ante o “fim da história”, o presente contínuo do capitalismo, e os sucessivos falhanços do movimento operário organizado e desorganizado, parecia que o único acto subversivo possível seria aquele que dispensasse qualquer programa e estrutura e se constituísse numa irrupção ontológica do acto insurrecional. Por outro lado é também interessante a colocação do projecto utópico não numa sociedade hiperfuncional populada por seres hipersocializados, no fundo o projecto de grande parte da esquerda, mas sim na própria dissolução do sujeito revolucionário num cocktail marado de personagens marginais. Ante o império triunfante apenas o devir bárbaro faria sentido.

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Ora onde a questão se torna bicuda é no processo através do qual um se constitui bárbaro. Pressupor-se-ia que o mero abandono do sistema, das suas regras, dos seus mecanismos de reprodução bastariam para afirmar essa secessão, e que questionando as últimas amarras da crença na sociedade todo um novo mundo estaria além da grande muralha. e invece no. Na verdade, e nas suas várias reformulações, é esta a questão de toda a actividade política especializada: como constituir um campo de acção e de reprodução própria que não seja baseado nesse hercúleo voluntarismo. Como tornar a insurreição natural. A questão que Bey procura resolver prescindindo de modo fatalista da resposta é precisamente esta: o projecto de mobilização política é minado pela insustentabilidade da sua vertente voluntarista e não necessariamente pelas suas insuficiências estruturais. A ideia de que ao esforço reprodutivo do capital é preciso fazer corresponder quantitativamente um número semelhantes de horas de esforço reprodutivo militante na direcção contrária, numa dialéctica encenada nos espaços de mediação e de pertença, assenta num simulacro de participação que vários processos têm vindo a por em causa.

Tornou-se claro que aos olhos do império todos somos marginais a partir do momento em que nos definimos para lá de meras rodas dentadas. Todos, dos professores às putas, dos desempregados aos reformados, dos “profissionais da desordem” aos indignados, somos uma ameaça potencial ao divino projecto económico a partir do momento em que procuramos salvaguardar uma especificidade alheia aos desígnios da incessante e kafkiana reprodução social do capital. A facilidade e despudor com que, um pouco por toda a parte, o poder assumiu a sua excepcionalidade relativamente às suas próprias leis mostra que a linha da marginalidade à polis não está nas fronteiras da sociedade responsável, mas exactamente entre o poder, multiforme e tentacular, e tudo o resto. É precisamente a partir desta consciência que o mundo tem pegado fogo. O que ontem ocorreu na Turquia não surge, apenas, do devir militante/activista/guerrilheiro dos Turcos mas precisamente da activação das suas zonas autónomas latentes e difusas: dos partidos às claques, do movimento LGBTQ aos curdos. A evidente secessão colectiva que junta a enorme lista de variantes ideológicas e identitárias assume-se a partir não de uma condição de povo consciente mas precisamente a partir da afirmação, não ideológica mas material, de uma alteridade total ao estado e ao poder. O medo só mudará de lado quando este vinculo com o/este estado for quebrado e quando nessa ruptura se encontre o modo de reconstruir os vínculos que nos interessam, sem vanguardas nem refúgios. A linha da frente está agora em todo o lado.

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18 thoughts on “As Zonas Autónomas Latentes

  1. Percebo a crítica a fazer a uma militância ultra-voluntarista. No entanto, estas “zonas autónomas latentes e difusas: dos partidos às claques, do movimento LGBTQ aos curdos” não serão elas fruto de uma certa militância? E a edificação de uma cidade num parque, não implicará tal obra a delineação de objetivos e tarefas?

  2. talvez tenha sido pouco claro: quando digo voluntarismo não me refiro à capacidade de fazer coisas organizadas, mas sim aos discursos e prácticas politícas cuja função é essencialmente a de assegurar uma reprodução ideológica, ou seja, meramente derivativas e decorativas. mas não é uma divisão simples não

  3. boas,
    tenho uma tradução para português desse Zonas Autonomas Temporárias feita há 2 anos mas que não conseguiu encontrar na altura pessoas interessadas na sua publicação.
    serve este para vos perguntar se estariam interessados em lançar essa tradução gratuitamente através das edições anti-hepáticas, ou lá como se chamam (sei que tem a ver com cerveja).
    respondam pra esta caixa que eu venho ca espreitar e mando a coisa pra email que me indiquem.
    abraços,

  4. Acho que há uma edição em português antiga – mas podes fazer um pdf e por no scribd…

  5. hboas,

    sou um bocadito preguiçoso e até gostava de dar uma “ajuda” à malta das edições antipatafísicas, por isso preferia enviar-vos o ficheiro (está em word mas posso mandar pdf sem stress).
    mas entretanto vou ver isso do scrib e se der depois mando link!

  6. esse texto foi editado em 99 pelas edições discórdia, com o nome “zona autónoma provisória”. Está disponivel aqui: http://discordia.no.sapo.pt/zap.html

    É um excelente texto, de um excelente autor, que entretanto se desacreditou com muito do que lá descreve.

    saudações discordianas

  7. Hakim Bey expôs o seu conceito de “anarquia ontológica”, inspirando-se em grande parte no anarquismo individualista, em Nietzsche e Charles Fourier.

  8. meu, tasse bem! so o coloquei aqui para os outros poderem julgar por si próprios.
    como se diz no post, foi um texto influente na àrea libertária e não faz mal a ninguém conhecê-lo, nem que seja para partilharem das criticas que entretanto lhe foram feitas.
    não concordando com tudo, tenho que admitir que gosto bastante dalgumas das formulações lá escritas.
    abraços,

  9. desculpem mais este,
    mas é só para dizer que o texto que enviei inclui mais textos que apenas o da Zona Autonoma Temporaria traduzido pelas edições discordia. Inclui também “Caos:o anarquismo ontologico em linhas largas”, os “Comunicados da Associação pelo Anarquismo Ontologico” e os Apendices “A: Linguistica do Caos”, “B: Hedonismo Aplicado” e “C: Citações Extra”.
    É a versão que se pode encontrar aqui (embora a tradução tenha sido de outro lado):
    http://hermetic.com/bey/taz_cont.html

    inté!

  10. bookchin acerca dos situacionistas: se eles alegam ter inventado a teoria do espectáculo, eles foram o espectáculo da teoria

  11. inventado a teoria do espectáculo?
    mas isso é como ter inventado o caminho marítimo pra India!

  12. pois! mas os situas eram gajos para isso pá! índia e além! o japa foi amigo dele e diz que o daborda era um gajo muita livre e não sei quê! escreveu um livro todo só sobre ele! compra compra! eles eram um espectáculo!!! o daborda fazia filmes contra os filmes e tudo

  13. oh zuogmi, e alguns não fizeram ditaduras para acabar com as ditaduras? vai m’á loja, meu!

  14. Futurista Annunzio ou nacionalista e proto-fascista Annunzio? Não bastava o pedófilo e reaccionário Hakim Bey mascarar a aventura nacionalista ainda temos que aturar com os seguidores portugueses. Eu bem sei que os futuristas eram fascistas mas a forma de escrever não é inocente,

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