Como fazer a revolução?

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Vivemos um ciclo intenso de protestos de rua, com mais de dois anos (em 2012, a polícia referenciou mais de 3000 protestos), acompanhado por um ciclo de poder político particularmente inócuo a esses mesmos protestos. Não há forma de escapar a uma reflexão profunda sobre esta dinâmica de impotência histórica.

Já não há revoluções hoje em dia? Como fazer a revolução?

As manifestações constituem no presente momentos do conflito social cuja importância releva sobretudo do seu carácter público e multitudinário. São estes eventos que tornam visíveis com outra amplitude os sinais de descontentamento, em alguns casos revolta, face ao programa de miséria generalizada que a austeridade apresenta como inevitável. Porém, e apesar da importância que possam ter enquanto lugar de encontro ou de catarse colectiva, ou mesmo de ataque, as manifestações não têm oferecido muito mais para além desse lugar. De facto, a recusa das políticas de austeridade que confina a sua expressão à organização ou participação em manifestações acaba por se ver condenada a reproduzir o jogo estéril da representação política de uma oposição ao regime, no lugar de idiota mais ou menos útil, cuja presença e gestualidade são passíveis de apropriações e distorções de todo o tipo.

O panfleto das Edições Antipáticas, já com umas semanas e postado em baixo, procura fazer uma história dessa rua. Mais do que o detalhe historiográfico e exaustivo dos protestos, o texto vai construindo uma posição política, a partir da área anti-autoritária e anti-capitalista, traçando importantes linhas de atrito com a esquerda institucional “governativa”, de um lado, e com o anarquismo mais identitário e “exilado” da realidade, por outro. Mas é ainda, sejamos francos, a história de uma impotência, ou pelo menos impasse. Talvez seja também a história de uma «secessão» desejada, para usar essa bela palavra do texto.

Produzir essa «secessão», quebrando deste modo o círculo de impotência e frustração em que nos encontramos, implica trazer para o dia-a-dia da vida as “vontades” e as “necessidades” que se levam para as manifestações, dando-lhes uma expressão concreta e real. Ao carácter fortemente simbólico e mediado daquelas deve contrapor-se a potência da organização autónoma de espaços de vida e luta que se constituem como poder. Economias de pão e afectos, de subtracção e confrontação. Um poder que é contra-poder, desde logo, pela negação e recusa de quaisquer lideranças ou direcções nas formas e nos métodos de organização. E contra-poder ainda pela criação de estruturas e mecanismos que permitam responder às necessidades e desejos colectivos que surgem a cada dia nas nossas vidas.

Os últimos anos foram palco de uma série de experiências de utilização de espaços em diferentes cenários e locais. Do RDA69, Severa e Casa Viva à Escola da Fontinha e a São Lázaro, passando por todas as associações que entretanto surgiram com os seus espaços, foram vários os sítios que passaram a proporcionar momentos de encontro e ligação entre grupos e indivíduos com diferentes ideias e sensibilidades. Não obstante todas as distâncias e contradições que possamos encontrar entre essas experiências, há pelo menos dois aspectos que as relacionam: por um lado, a vontade de construir dinâmicas de sociabilidade fora de uma lógica mercantilista e empresarial, por outro, o reconhecimento de que tais dinâmicas dependem em grande medida da apropriação de espaços e território.

Perante um intensificar da degradação das condições sociais e do conflito político torna-se urgente pensar de que modo estas experiências poderão dar o salto qualitativo necessário para se constituírem como bases materiais suficientemente consistentes e solidárias para fazer frente à reconfiguração do modelo de organização social e política que está em curso e abrir caminhos ainda não descobertos.

Não se trata obviamente de opor ao protesto de rua a cantina popular, como a linha revolucionária justa, mas de entender a riqueza e potencial dos fluxos que se estabelecem nos espaços de luta e entre estes e a luta na rua. Trata-se de entender que a recusa do QSLT e de todas as outras instâncias de organização e gestão de protestos, enquanto cadeias de transmissão do jogo político dos partidos e do regime, nos coloca perante a necessidade de imaginar/criar os lugares de irradiação de força, inteligência, sensibilidade e poder contra a austeridade e a organização capitalista das nossas vidas.

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Mais Papel Para a Fogueira

Podemos falar e escrever sobre a morte que emana da crise nas receitas da economia, nos lucros dos patrões, nos bancos e no consumo mas nada se compara à vida que resiste nas manifestações de rua, que entra pelas ocupações de edifícios abandonados, que se desbloqueia nas greves das fábricas e nos portos, que se planta nas hortas urbanas e que se incendeia nas fogueiras em S.Bento. É aqui que nasce também um jornal de informação crítica para ler, partilhar, oferecer ou largar nos transportes públicos, nas escolas, nas feiras, nas manifestações, na cidade ou no campo. Um projecto de comunicação que nasce em tempos de crise.

Haverá apresentações públicas deste novo jornal numa qualquer localidade próxima de si (http://www.jornalcritico.info/).

Oportunidades perdidas

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A escolha pelo PCP de Francisco Lopes como o “seu” candidato à Presidência da República veio, pela minha parte, resolver a dúvida que tinha quanto a deslocar-me às urnas para exercer o meu direito de voto nas próximas eleições presidenciais. Não vou votar mas muito mais importante do que isso, é o facto, já salientado por alguns, de entender que o PCP perdeu uma boa oportunidade de promover uma candidatura que pudesse congregar vontades à esquerda. Depois do erro do BE, que apoiou um candidato que não responde, de forma alguma e apesar de toda a retórica louçaniana, aos anseios de quem quer um mundo diferente, o PCP optou por um candidato de quem espero um discurso anticapitalista mas que jamais poderá federar os diversos quadrantes que se movem nessa área política e que, obviamente, ultrapassam o Partido e a sua influência. Não acredito na transformação social que pretendo através dos limitados instrumentos da democracia representativa mas de uma perspectiva táctica interessava-me que a “esquerda institucional” tivesse a lucidez de perceber que um movimento aglutinador nas eleições que aí vêm poderia servir para lançar as bases de qualquer coisa mais consistente e desligada do jogo eleitoral, com um potencial revolucionário que nenhuma candidatura, partido ou movimento até agora fez surgir.

Ah sim!?

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A PSP está em elevado grau de alerta e prevê retaliações violentas contra os seus agentes, na sequência da morte do rapper MC Snake, na passada segunda-feira.
A revolta de grupos de bairros problemáticos está prevista para este fim-de-semana e todos os agentes são aconselhados a usar coletes à prova de bala.
Num relatório a que a TVI teve acesso, a polícia admite esperar represálias. «A aliança de grupos desavindos, em defesa de uma posição anti-polícia» […] «um sentimento de revolta que poderá provocar reacções protagonizadas por jovens oriundos de bairros problemáticos.»
A PSP admite ainda que: «Podemos estar perante uma onda de acções/retaliação violentas contra elementos da PSP» […] «emboscadas a agentes, apedrejamento de viaturas, incendiar viaturas e corte de artérias.»

Dois pesos, duas medidas

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Soube-se hoje que o Comité de Competição da Federação Espanhola de Futebol não vai punir o CR9 pelo facto de, após marcar um golo ao Vilarreal, este jogador ter levantado a camisola e mostrado uma t-shirt com a palavra Madeira. Em 2009, na altura em que o exército de Israel tentava o genocídio dos palestinianos em Gaza, Frédéric Kanouté, jogador maliano do Sevilha, teve um gesto semelhante nos festejos de um golo seu contra o Deportivo da Corunha, levantando a camisola e mostrando uma t-shirt com a palavra Palestina. Só que no seu caso o Comité de Competição da Federação Espanhola de Futebol entendeu que devia haver punição. Podemos sempre pensar que a diferença nas decisões deste Comité se deveu ao facto de o Cristiano Ronaldo ser o mais caro e mais mediático jogador de futebol do mundo, de um colosso em Espanha como é o Real Madrid, ao passo que o Kanouté, sendo um belíssimo jogador, não tem o mesmo protagonismo nem joga num grande europeu. Mas, porque o Kanouté e o Sevilha também são importantes em Espanha e na Europa e não andamos cá desde ontem, podemos considerar a hipótese de haver outra justificação. É que num caso, o do CR9, apelava-se à solidariedade para com as vítimas e as desgraças de cheias na Madeira, uma ilha do território português politica, económica e militarmente irrelevante no que à Europa e ao Mundo concerne. Já no caso do Kanouté, denunciava-se o massacre conduzido por Israel, uma grande potência económica e militar do Ocidente, contra um povo pobre, enclausurado numa parcela de terreno minúscula, que mantém há mais de meio século uma luta de vida ou morte pelo que considera ser o seu território. E pode muito bem ter sido a relevância política do seu acto, que, interrompendo o espectáculo de massas que é o futebol, nos veio interpelar, dando conta do que estava a acontecer na Palestina e de que forma, perante o conflito, ele se posicionava, a justificar a punição.

Posta de pescada

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Apanhando a espuma do debate em curso no 5 dias, gostava de dizer uma ou outra coisa. Nunca fui militante do PCP mas enquanto votei (a última vez foi na eleição autárquica intercalar em Lisboa, em 2007) fi-lo sempre nesse partido. Por esse motivo, no círculo de pessoas com quem me dava e que conheciam o meu voto, era frequentemente confrontado com críticas à minha escolha pelo facto de apoiar uma organização e um programa cuja tradição estão manchados pelos horrores do estalinismo. Em minha defesa, chamava à colação o contexto histórico do século XX, a necessidade de salvar as conquistas da revolução e de a aprofundar, enfim, argumentos que, de certa forma, acabam por desembocar na velha dicotomia meios e fins. Tinha tendência na altura, como ainda hoje, provavelmente, a achar que os fins justificam os meios e que circunstâncias históricas concretas e temporalmente restritas podem até exigir medidas contraditórias com os fins prosseguidos. Note-se que com esta afirmação não pretendo justificar ou branquear o que aconteceu na USSR, em especial em termos de hegemonia estatal, participação política e liberdade de expressão, mas ela permite-me, creio, trazer a discussão para um outro plano. Haverá forma de destruir o capitalismo e construir o comunismo sem passar por um período em que os direitos, liberdades e garantias individuais e colectivos terão de ser limitados, em que a violência terá de constituir parte fundamental da acção política? Julgo que não. Foi com violência que o capitalismo se impôs e é com violência que se mantém e desenvolve. Acho, por isso, que só com violência ele poderá ser derrubado e só através dela se poderá construir o mundo novo. Que a experiência soviética não é solução todos estamos de acordo. Mas, do lado da barricada anti-capitalista, a recusa liminar e completa do valor e contributo dessa experiência, uma das mais importantes experiências revolucionárias e emancipatórias que marcam a história do homem não obstante todos os vícios e corrupções que encerrou, parece-me corresponder a um sentimento de superioridade moral de quem assume essa posição e que só é possível a quem não tem e nunca teve as mãos na massa. E disso não gosto.

Jesus!

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Não sei se já repararam nestas bandeirinhas penduradas nas janelas e nas varandas. Surgiram este ano e entraram logo na moda. É uma imagem do menino Jesus num fundo vermelho. Bem bonito, sim senhor. Segundo percebi, é uma resposta dos cristãos a um Natal demasiado pagão. Queixam-se eles de que já não se comemora o nascimento do menino, nem se lembra convenientemente a Maria, o José, o burrinho e a vaquinha.
Ora, em primeiro lugar, a bandeirinha da moda só tem o pequeno Jesus. Não há cá nem Maria nem José, muito menos o burrinho e a vaquinha. Mantém-se um one man show, mas agora em vez de um pai temos um filho. Depois, tanta coisa com o menino, quando se sabe – é um facto histórico consensualmente aceite – que o Jesuzinho não nasceu no dia 25 de Dezembro, data que, marcando o solstício de inverno, era, desde muito antes do menino nascer, assinalada por festividades populares, pagãs, que a Igreja, numa tentativa de impor o seu domínio, tentou cristianizar ao fixar o dia do nascimento do Jesus por essa altura. É, pois, bem irónico, no mínimo, que os cristãos venham agora queixar-se da paganização do Natal, quando foram eles quem começou com a contrafacção. Por fim, um último apontamento, que é mais uma interrogação. Se o Pai Natal é vermelho por causa da Coca-Cola, será que o vermelho da bandeira do menino se deve ao facto de o Jesus ter crescido e ser agora treinador do Benfica?

E que tal este pirete?

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Há uns tempos atrás, discutiu-se numa caixa de comentários de um post aqui do Spectrum qual a melhor forma de fazer piretes.
Do Irão, chega-nos agora registo de um concurso de piretes organizado pela televisão pública iraniana, num programa chamado “Irão no coração”. A concorrente da imagem não agradou particularmente ao júri, constituído, neste dia especial, pelo Presidente Mahmoud Ahmadinejad e dois dos seus seguranças. Repare-se na expressão de Ahmadinejad, como quem diz “Não é bem assim… Tenta desta maneira…”

Mais contras que prós

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Cheguei ontem a casa tarde e só pude ver o final daquele programa asqueroso apresentado por uma não menos asquerosa jornalista. Sobre o assunto em discussão, queria deixar duas notas.
1.ª O casamento é uma coisa que me diz muito pouco. Vejo-o, enquanto instituto integrado na mui nobre instituição família, mais como uma forma de manutenção e preservação de um dado património dentro da esfera particular de um grupo do que qualquer outra coisa. Não acho que o casamento – na verdade, um contrato bilateral com efeitos pessoais e patrimoniais para ambas as partes – tenha muito que ver com afectos ou sentimentos.
2.ª Não obstante, ao ouvir aquela gente ressabiada e bulorenta, que está sempre contra tudo o que esteja relacionado com mais liberdade individual, com mais liberdade de decisão sobre a vida de cada um, sinto-me compelido a intervir nesta luta, obviamente ao lado dos que defendem o alargamento do casamento a pessoas do mesmo sexo. Nem que seja só pelo valor simbólico que tal alteração legislativa sempre comportará.
P.S. Admiro e respeito o civismo das pessoas que foram ao programa defender a não realização do referendo. Confesso que seria incapaz de me manter sereno ao ouvir as baboseiras moralistas e conservadoras dos que lá foram, defendendo o referendo, demonstrar a sua homofobia e tacanhez. Não demoraria muito a partir para o insulto ou para qualquer acto menos dignificante. E o pior de tudo é que acho que o faria com gosto.
ADENDA: Queria apenas acrescentar que é, para mim, clara a inconstitucionalidade da discriminação do conceito de casamento do Código Civil. É também este um motivo óbvio para defender a alteração da lei no sentido da consagração do direito de pessoas do mesmo sexo se casarem.

Fuck you, Blazevic!

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Para além de querer ver os jogos da selecção no Mundial (é uma seca ver uma competição destas sem o nosso clube), há, pelo menos, mais uma razão para torcer pela tuga. Miroslav Blazevic, o treinador da Bósnia, país com o qual até tenho tendência a simpatizar, já que é o único da Europa com maioria muçulmana, candidatou-se em 2005 à presidência da Croácia como independente, com um programa político de direita nacionalista.

La forteresse/The fortress

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Fui ontem ao Doc Lisboa ver o La forteresse/The fortress (Fernand Melgar, Suíça, 2007, 100 minutos). É um documentário sobre um centro de detenção suíço, na localidade de Vallorbe. Muitos homens sozinhos, menos mulheres, algumas famílias ainda ocupam uma espécie de prisão com capacidade para cerca de duzentas pessoas. Africanos, europeus de leste, asiáticos, ciganos, são muitas e muito diferentes as origens e nacionalidades que ali se encontram. Em comum, a tentativa de fugir a um passado de violência, repressão e miséria. No centro, de paredes nuas e cinzentas, trata-se da atribuição do estatuto de refugiado e, consequentemente, da autorização de residência no país. De um lado, os detidos, sujeitos a um processo de entrevistas e outras avaliações, em que se vêem forçados a reviver o seu passado e as experiências traumáticas por que passaram. Do outro, os funcionários do centro, alguns deles também estrangeiros, a quem cabe fazer relatórios e tomar decisões. A fronteira está sempre presente.
Não há narrador e acho que isso torna mais real a experiência de quem vê o filme. Gostei bastante.

Notícias da Grécia

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Houve, no fim de semana que passou, eleições legislativas na Grécia. Foi o primeiro acto eleitoral após os acontecimentos de Dezembro de 2008. O PASOK (“esquerda moderna”) ganhou com uma maioria absoluta, tendo a Nova Democracia, partido da direita conservadora do anterior governo liderado por Costas Karamanlis, ficado em segundo lugar. O EEK (pc grego) e o Synaspismos (mais ou menos correspondente ao be grego) obtiveram resultados interessantes que, contudo, ficaram ensombrados pela maioria absoluta conquistada pelo PASOK.
O Spectrum esteve lá e recolheu depoimentos de líderes destacados do EEK e do Synaspismos, que em uníssono declararam: A derrota da direita é uma grande vitória do povo grego, que demonstrou uma vontade de mudança à esquerda. Só é pena que o PASOK tenha alcançado uma maioria absoluta mas isso podemos agradecer aos anarquistas. Com o seu comportamento irresponsável, violento e inconsequente, contribuiram para criar a convicção de que era necessário um governo forte e estável, levando o povo a entregar ao PASOK uma maioria absoluta. Como sempre aconteceu ao longo dos tempos, a sua acção serviu os interesses da direita e do capital.