À esquerda da crise

20111219171431881.jpg
a crise que vivemos é uma crise económica e financeira, mas também é uma crise política. O neoliberalismo tomou, desde os anos 80, conta das nossas sociedades: as forças políticas de esquerda ou se renderam a ele ou não foram capazes de o combater. Ironia da história, o neoliberalismo rebentou com a economia mundial e quem paga a factura são os trabalhadores. Como se caracterizam estes tempos a que chamamos crise? Existe uma alternativa de esquerda às troikas deste mundo? Vá ao Chapitô, beba muitos copos e descubra.
debate com:
João Vasconcelos http://www.activismodesofa.net/
Nuno Ramos de Almeida http://5dias.net/
Ricardo Noronha http://unipoppers.blogspot.com/
moderado por:
Zé Nuno Matos http://unipoppers.blogspot.com/
Bartô, o bar do Chapitô, Costa do Castelo, 1 dia 28 /12 às 22h

Anúncios

A ciência contra o pensamento único. Alternativas à crise

Perante a situação crítica que afecta as condições de produção de ciência em Portugal e conscientes de que partilhamos problemas generalizados aos restantes trabalhadores, um grupo de estudantes e investigadores do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL) convida todos os interessados a um debate aberto em torno do quadro de crise que nos é imposto e de como propor eficazmente à sociedade formas alternativas de lidar com os problemas actuais. O fórum terá lugar na Sala Polivalente do ICS/UL, pelas 14 horas do próximo dia 22 de Novembro.
A convocação de uma greve geral por parte da CGTP-IN e da UGT para o próximo dia 24 de Novembro constitui uma oportunidade de intervenção crítica. Conscientes da partilha de problemas generalizados aos restantes trabalhadores e de particulares dificuldades e responsabilidades perante a sociedade, nós, investigadores e estudantes do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa decidimos participar nesta ocasião, dando resposta a uma necessidade amplamente sentida entre os cientistas sociais. Neste sentido, no próximo dia 22 de Novembro convidamos todos os interessados a fazer uma reflexão e debate aberto em torno do quadro de crise que nos é imposto e de como propor eficazmente à sociedade formas alternativas de lidar com os problemas actuais.
A crise, provocada por um domínio crescente dos mercados financeiros sobre as mais diversas esferas sociais e políticas, reproduz-se sistematicamente ao apresentar soluções, tidas como inevitáveis, que a experiência recente demonstra que contribuem apenas para agravar o problema. Do programa de medidas definido pela Troika às políticas de contenção orçamental propostas pelo actual governo, a austeridade tornou-se no único caminho viável. Uma via que, contudo, não deixa de assumir os mais assimétricos contornos, concentrando o ónus do sacrifício nos mais desprotegidos.
À semelhança de outras relevantes áreas sociais, a investigação científica e o ensino são também vítimas de tal lógica. O anúncio de cortes orçamentais já programados para o próximo ano vem, neste sentido, agravar as condições de trabalho de todas as pessoas envolvidas na criação e produção de ciência, já por si afectadas pela precarização e erosão progressiva de direitos. Uma dinâmica que, a expandir-se, representa uma forte ameaça às condições de produção do conhecimento científico e à sua própria autonomia, numa altura em que é ainda mais necessária a sua capacidade de propor alternativas aos lugares-comuns e preconceitos dominantes.
Por considerarmos necessária a criação de formas de debate que permitam pensar a crise e a política de uma forma aberta e não limitada pela ideologia do inevitável, convidamos à discussão, a partir das 14 horas do dia 22 de Novembro de 2011, na Sala Polivalente do ICS/UL, dos seguintes temas:
1 – O ensino superior e a investigação científica, as condições de quem neles trabalha (investigadores, docentes, estudantes e funcionários) e as limitações à produção de conhecimento;
2 – Responder à crise: alternativas e formas de intervenção.

the revolution will be televised

Um participante dos distúrbios e saques ocorridos em Londres respondeu a algumas perguntas para um programa televisivo. Quando perguntado se ele conseguia ter a consciência tranquila para dormir à noite depois do que fizera, respondeu de pronto: “não preciso mais dormir agora que tenho uma televisão de plasma para assistir”.
Retirado daqui.

O milagre chileno

O Chile vive hoje o segundo dia de greve geral. Um protesto de trabalhadores e estudantes contra os programas de austeridade promovidos pelo governo pós-pinochetista. Segundo várias fontes de informação, entre as quais o Público, a greve tem sido marcada por confrontos entre grevistas, manifestantes e autoridades policiais, bem como – e aqui chegamos ao busílis da questão – pela pilhagem de várias lojas.
Ou seja, o que nos últimos dias foi apresentado como sendo incompatível, como pertencendo à ordem do impossível, parece aqui coincidir. Claro que podemos sempre concluir que tal coincidência é puramente aleatória. Mais do que isso, oportunista, reflectindo o mero aproveitamento não consciente, alienado, badalhoco e interessado de um bando de meliantes. Mas lá está, já se avançou um bocadinho. O milagre da coincidência aconteceu: greve com pilhagens, operariado consciente e organizado na cama com lumpen hiperconsumista.
Assim como assim, vou estar atento aos jornais. Não vá um militante sindical qualquer molhar o bico e gamar um LCD.

Arte, Política, Mercadoria

banksy.JPG
Em meados da primeira década do milénio, os muros de Londres começam a ser preenchidos por estranhos desenhos. Apontando armas às mais diversas excreções do sistema económica capitalista, do controlo social realizado por bófias e câmaras da videovigilância, à relação directa entre fome, miséria e o poder económico de empresas multinacionais, o seu autor nunca chegou a revelar a sua identidade, utilizando a simples designação de Banksy. Mais tarde, o seu nome será notabilizado pelas suas intervenções em museus, onde deposita os seus quadros entre as peças das maiores figuras da história de arte mundial, ou no muro que divide os territórios palestinianos, em denúncia da ocupação zionista. Um dia, o artista de rua recebe um mail. Neste, um jovem pede-lhe que deixe de pintar no seu bairro, pois a sua arte tende a atrair a presença de jovens criadores, oriundos de classes privilegiadas, e com estes, o aumento das rendas.
Partindo do filme «Banksy-Exit Through the Gift Shop», o RDA69 propõe debater o lugar da arte e da cultura na sociedade contemporânea. Estará a arte de rua, ou qualquer outra forma de crítica, condenada à forma de mercadoria, limitando-se a alimentar museus e livrarias? Ou será possível, mesmo nas piores condições, minar a coisa por dentro, subvertendo os usos dos objectos e virando-os contra o próprio criador.
17.00. filme
19.00. conversa com Miguel Castro Caldas (escritor), Gonçalo Pena (artista plástico) e João Cachopo (investigador)
20.30. janta

O destino dos amarelos


No dia em que a UGT aprova, em sede de concertação social, a redução do montante da indemnização por despedimento sem justa causa (de 30 para 20 dias por cada ano de trabalho) e um novo sistema de repartição dos seus custos (em que parte é descontado do salário do trabalhador), a sua ex-líder e actual ministra do trabalho Helena André demonstra, materialmente, as repercussões de tais medidas.
Retirado daqui.

Não pagamos!

Não+pagamos.gif
A crise que atravessa o mundo não é um desastre natural nem um acidente de percurso. Faz parte, como outras que a precederam, dos próprios mecanismos do sistema capitalista em que vivemos. Quando os negócios perdem rentabilidade e os investimentos deixam de gerar os lucros necessários, a crise torna-se um pretexto para baixar salários, privatizar bens ou serviços essenciais (água, energia, saúde, educação), reduzir direitos e conceder mais privilégios aos privilegiados.
Depois de vários governos terem injectado fundos públicos (pagos pelo contribuinte) no sistema financeiro – para cobrir os prejuízos provocados pela especulação no sector imobiliário – o problema da dívida pública ganhou uma importância decisiva. Esse mesmo sistema financeiro cobra agora juros cada vez mais elevados aos Estados, pelos empréstimos de que estes necessitam para relançar as respectivas economias e assegurar o seu funcionamento. Os «mercados» procuram compensar as suas perdas através da dívida pública e os governos agem por sua conta, impondo políticas de austeridade e fazendo os trabalhadores pagar a crise.
A luta contra o pagamento da dívida é um dos elementos essenciais da resistência às imposições da alta finança mundial. Recusamos-nos a pagar para manter o capitalismo agarrado à máquina. Por todo o lado se formam grupos, movimentos e organizações para juntar esforços nesse sentido, superando o isolamento nacional e colocando a questão no plano internacional. É tempo de começar a fazê-lo, também aqui.
A sessão pública de apresentação/lançamento do Comité contra o pagamento da dívida pública, inserida nas Jornadas Anticapitalistas, irá realizar-se na próxima 3ª Feira, 1 de Março, na Casa da Achada, a partir das 18h30.

Pela não extradição de Cesar Battisti

CESAR-BATTISTI.jpg
1. Os abaixo-assinados, cidadãos portugueses ou residentes em Portugal, tomaram conhecimento de que:
Cesare Battisti, cidadão italiano nascido nos anos 50, foi preso em Itália em finais dos anos 70, julgado e condenado a 12 anos e seis meses de cadeia, mas que, em 1981, antes de a sentença transitar em julgado, se evadiu, refugiando-se primeiro no México, e depois, entre 1991 e 2004, em França. Durante esse tempo, a República Italiana julgou de novo Battisti, agora por quatro crimes de homicídio já referidos no primeiro processo, mas dos quais não tinha sido acusado, condenando-o a prisão perpétua, com seis meses de isolamento diurno. Neste segundo julgamento foi julgado in absentia, portanto sem qualquer participação no julgamento.
Em 2004, Battisti refugiou-se no Brasil, onde foi preso preventivamente em 2007, aguardando um pedido de extradição da Itália. Em 2008, enquanto o processo corria, Battisti pediu o estatuto de refugiado político que lhe foi atribuído pelo então ministro da Justiça.
O presidente Lula da Silva, na véspera do termo do seu mandato, entendeu que havia razões legais para não proceder à extradição de Cesare Battisti, confirmando o seu estatuto de refugiado.
2. Os abaixo-assinados consideram que:
Um refugiado político não pode ser extraditado.
Ao Supremo Tribunal Federal brasileiro [STF] compete apenas verificar da regularidade do pedido de extradição e da possibilidade de essa extradição se operar, com base em um tratado celebrado entre a Itália e o Brasil, mas que a extradição é um acto da competência do presidente da República, o qual dispõe ainda de alguma descricionaridade política de apreciação depois de verificada a regularidade.
A discussão, pelo STF do Brasil, do pedido da República Italiana para anulação da concessão do estatuto de refugiado político a Cesare Battisti pelo governo brasileiro, configura uma tentativa de cariz jurídico-político, de subverter o Estado de Direito e de, por uma decisão judicial, impor e forçar a extradição de Cesare Battisti contra os actos politico-administrativos lícitos, legais e conformes à ordem jurídica brasileira praticados pelo ministério da Justiça e pelo presidente da República do Brasil. Tentativa tanto mais gravosa quanto uma decisão do STF não é susceptível de recurso e, a partir do momento em que é tomada, substitui a própria lei, na medida em que não há ninguém que possa impor ao STF o cumprimento da lei ou vigiar a regularidade desta decisão.
O STF brasileiro incumpre e subverte assim a ordem jurídica do Estado de Direito.
3. Por tudo o que atrás fica dito, os abaixo-assinados instam a recém-eleita presidenta da República Federativa do Brasil, Dilma Roussef, a que faça cumprir a decisão do seu predecessor de não extraditar Cesare Battisti, confirmando o seu estatuto de refugiado político e devolvendo-o de imediato à liberdade.
Os signatários
Assinar a petição

A MOBILIZAÇÃO GLOBAL seguido de O ESTADO-GUERRA: Conversa com Rui Pereira

debate arder2 copie.jpg
“Aquilo que deve fazer-se para sabotar a realidade é muito simples: há que recusar-se ser uma microempresa. Há que converter-se num interruptor de mobilização global. Interromper a mobilização que nos porta e incendiar a noite. Incendiar a noite não acaba com a noite. Acaba, sim, com o medo da noite.”
in Santiago López-Petit, “A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra”, Porto, Deriva, 2010 (Trad. Rui Pereira)
Conversa com Rui Pereira (tradutor) no RDA 69 (Regueirão dos Anjos nº69). Dia 5 de Fevereiro, a partir das 17h.

Liberdade para Cesare Battisti!

Battisti.jpg
Activista na Itália dos anos setenta. Preso em 1979 e condenado a doze anos de prisão, conseguiu fugir em 1981 e refugiou-se em França e depois no México, onde iniciou a sua actividade de escritor. Em 1982 foi denunciado por um arrependido — ou seja, alguém que em troca de denúncias beneficiava de uma redução da pena — por crimes que não cometeu. Julgado à revelia na Itália em 1988, foi condenado à prisão perpétua com privação da luz solar. Durante a presidência de François Mitterrand regressou a França, onde os tribunais recusaram a sua extradição para Itália. Em França Cesare Battisti continuou a actividade de escritor. A sua situação mudou durante a presidência de Jacques Chirac e, na eminência de ser extraditado para Itália, Battisti conseguiu fugir. Foi preso no Brasil em 18 de Março de 2007. O ministro da Justiça concedeu-lhe asilo político, mas o Supremo Tribunal Federal opôs-se e manteve Battisti na prisão. No último dia do seu mandato, o presidente Lula decretou que Battisti não seria extraditado, mas o Supremo Tribunal Federal continua a manter Battisti preso.
Várias pessoas que no Brasil têm estado activas na defesa de Cesare Battisti temem que o Supremo Tribunal Federal opere um verdadeiro golpe de Estado judicial, ponha Cesare Battisti num avião e o envie para Itália. Há também os optimistas que desde há dois anos dizem que Cesare Battisti será libertado amanhã, se não mesmo hoje.
Mas o que sabemos é que, enquanto Cesare não for libertado, está preso.
Mais informação: Passa Palavra (sessão de transmissão do debate em directo)

Abstenção, o voto útil

chumbawamba.jpg
Não tenho quaisquer problemas em votar num partido ou no candidato. O dinheiro, esse equivalente geral que tenta reduzir tudo e todos a meras mercadorias, é mais poderoso que Alegre ou Cavaco. E, no entanto, vivendo neste mundo, não tenho opção senão sujar as mãos com o vil metal. Tampouco vejo em Alegre e Cavaco uma equivalência a todos os níveis. O que não me impede de ver em Alegre uma personagem de difícil previsibilidade. Se, por um lado, concordo com as achegas avançadas pelo Saboteur, por outro, o seu legado inscreve-se na história do PS. Não a de outra força política.
Dia 23, não depositarei o meu voto numa urna. Ao contrário do Paradise Café, a minha posição não deriva da “necessidade imperativa de não ajudar a credibilizar esta corja”, mas sim de uma necessidade de desenvolver uma estratégia política que não parta desta “corja”, mesmo que tal ponto de partida seja enformado por um profundo antagonismo. O “Que todos se vão! Não queremos nenhum”, palavra de ordem das manifestações argentinas de 2001, deve, deste ponto de vista, ser encarado como um “Saiam da frente. Que vocês estão à frente do nosso caminho”, um caminho construído por um desenrolar de acontecimentos – de ocupações de fábricas às assembleias de bairros” – que espelhavam uma nova forma de se fazer política. Não um olhar para a “política” feita pelos outros.
Assim, a abstenção de dia 23 não se pode limitar a um não fazer, a um ficar em casa, mas sim a um sair de casa, para então se fazer as coisas por nós próprios.
A crítica que adivinho a este post poderá ser algo do género de: “Concordo. Isso é tudo muito bonito. Mas com uma presidência e um governo PSD teremos uma nova constituição, com todos os perigos associados: fim do serviço nacional de saúde, liberalização dos despedimentos, etc”. É verdade, esse perigo existe. Porém, a ideia da ineficácia de uma política horizontal, não assente numa lógica representativa, é completamente falsa. E basta olhar um pouco para a história do nosso pais para perceber isso. Melhor, basta olhar um pouco para a Europa e verificar que os países que têm um melhor nível de vida são, muitas vezes, os países que têm uma maior conflituosidade social. Por cá, continuemos a depositar as nossas esperanças em Alegre, no Bloco e no PS. Para a seguir, nos contentarmos com essa importante conquista que é o aumento do salário mínimo para os 500 euros…em meados do próximo ano.

Apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo…

mentiroso.jpg
“A reportagem é um género jornalístico que se caracteriza pela liberdade narrativa e pelo espaço concedido à subjectividade de quem relata, mas continua a ser uma peça de informação, que deve assentar, como ditam as regras deste jornal, “no terreno preferencial dos factos e da sua observação directa”. A esta luz, a referência, afirmada no texto como uma certeza, a planos e intenções que não se concretizaram, atribuídas genericamente a anónimos, e sem apoio em factos ou declarações que as corroborassem (dos próprios ou de uma parte contrária), é questionável e penso que deveria ter sido evitada” (José Queiróz, Provedor do Público, sobre a reportagem de Paulo Moura em torno da manifestação contra a cimeira da NATO).
Retirado daqui.

De uma luta feita a muitas mãos: “O governo das desigualdades, crítica da insegurança neoliberal”, de M. Lazzarato

M. Lazzarato, o governo das desigualdades - Capa_Page_2.jpg
Quando em Junho se constituiu a Plataforma das Artes reapareceu-nos uma vontade já antiga de, em conjunto, discutirmos questões que sentimos como estruturantes do nosso dia a dia: questões de emprego, de desemprego e de trabalho em geral, mas sobretudo questões de como vivemos a vida e de como nos pensamos (e vamos tendo ou não tendo de nos pensar a nós mesmos) em função dessa vida.
Questões que têm a ver, sim, com o trabalho nas artes ou no sector da cultura mas que também nos parecem ser maiores do que isso e achamos que não devem, por isso mesmo, ser reduzidas a “isso” apenas. E isto até por motivos estratégicos: bem pequenas, isoladas (e só “de gestão”!) ficam as actuais questões “das artes” e “da cultura” se não as tentarmos entender à luz mais ampla de uma deriva geral do trabalho em direcção à produção imaterial, um seu alargamento a todas as esferas da existência, o modo como é solicitado a cada trabalhador um investimento activo (em imaginação, inventividade, virtuosismo – características que antes pareciam caracterizar sobretudo o trabalho artístico e académico) na produção de si como um “empresário de si mesmo”.
E como pensar a subtil confusão entre “arte” e “cultura” com as noções vagas e aparentemente complexas de “criatividade” ou de “cidades criativas” tão em voga hoje em dia (noções essas que, mais do que nos parecerem corresponder a uma potencial de livre expressão dos indivíduos, nos parecem conter em si novas e menos transparentes tecnologias de gestão)? E como entender a aparente extrema desigualdade que atravessa o trabalho em geral (e o trabalho “cultural” em particular) de maneira a poder encontrar um terreno comum de união? E como fazê-lo sem que se esteja a contribuir para o isolamento dos artistas no seu “mundo”, separando-os ainda mais do todo da sociedade?
Foi porque todas estas questões se nos colocam, porque, de algum modo, queríamos contribuir para um debate que nos parece estar a precisar de novas palavras e de novas maneiras de colocar os problemas – um velho debate que hoje toma novas formas e que, como tal, nos pode ajudar a formar novos e mais precisos termos para lhes dar resposta – que decidimos traduzir este livro.
Traduzimo-lo voluntaria e colectivamente a muitas mãos e ainda não acabámos definitivamente de o rever, ainda não lhe fechámos definitivamente a paginação, antes decidimos divulgá-lo agora, que nos pareceu ser altura. Assim, é uma tradução de trabalho o que aqui apresentamos: tradução de trabalho de um livro escrito, ele mesmo, no decorrer de um conflito (o conflito dos intermitentes em França entre 2004 e 2005), livro instrumento do próprio conflito, tradução de trabalho de um livro de trabalho em suma. Esperemos que a sua leitura possa contribuir para o debate!
(Os tradutores)
O governo das desigualdades, crítica da insegurança neoliberal”, de M. Lazzarato

Dia 24, fechamos os livros

empty-shelves2-cushing1.jpg
«A greve geral do próximo dia 24 de Novembro é um momento privilegiado para questionar as respostas políticas, manifestamente desequilibradas, a um quadro económico de crise. Mas a greve pode assinalar também uma insatisfação mais difusa, prolongada, que atinge a relação das pessoas com o seu trabalho, mas que cada vez mais invade outras dimensões do quotidiano. A imposição de uma austeridade assimétrica, que protege os mais fortes, restringe progressivamente a autonomia pessoal e a possibilidade de escolha, corrói as capacidades de definir projectos de vida individuais e colectivos, destrói direitos que constituem a base elementar de uma sociedade minimamente justa.
É indiscutível que em Portugal se tem vindo a fazer um esforço de investimento na ciência. Todas as pessoas envolvidas na criação científica não deixam, no entanto, de ser afectadas por dinâmicas sociais mais alargadas que, atingido a maioria da população, se traduzem na erosão progressiva de direitos e na imposição de lógicas de organização de trabalho que assentam numa progressiva precariedade. Tal paradigma, sempre apresentado como uma inevitabilidade, constitui uma forte ameaça à autonomia do conhecimento científico.
Etapa de uma resposta colectiva ao futuro de inevitabilidades que nos é proposto, a greve assinala também a visível necessidade de criar formas de debate que permitam pensar modos mais eficazes de enfrentar estes problemas. Por isso, dia 24 fazemos greve.»
Assina a petição aqui.