Unipopcorn


E vai que a malta que nos habituou à universidade popular do pensamento crítico contemporâneo, da estética e poder, da ideia de comum, demais negrismos e outros testes de subversão filosófico-política fez um blogue.
E já percorreram, em tempo recorde, a paixão de cristo da blogosfera de esquerda: confiar desconfiadamente no Rossio; malhar no Renato Teixeira e em todos os putativos líderes anti-liderança dos movimentos da multidão; elogiar a eloquência de Monty Phyton e as lyrics do Barata Moura; esgrimir rosa-luxemburguês…
A cruz está montada e os pregos cravados. A partir daqui é só prazeres e ressuscitações. Bem-vindos!

O abre-latas


É como a tal anedota: um engenheiro, um químico e um economista numa ilha deserta, com uma lata de comida sem abertura fácil. O engenheiro monta uma teoria sobre multiplicação da força para abrir a lata; o químico monta uma teoria sobre fricção de moléculas pelo calor e o economista diz: -«Imaginemos que tínhamos aqui um abre-latas…».
Estou eu aqui desde as 11h00 a ler um livrinho seminal sobre teoria económica da democracia (lol), agora não interessa porquê, quando, na página 272, aparece uma singela nota de rodapé com letra miudinha que diz assim:
«This exceedingly complicated method of deciding how to vote seems bear little resemblance to how men act in the real world. However (…) the entire process is necessarily implicit in the behavior of any rational voter, even if casual observation fails to confirm this fact.»
Foda-se, que perda de tempo!

I do not wish to alarm you…


O excelso presidente da república, que, aí há uns tempos, interrompeu as suas férias e as de todos nós para, de uma forma muito anunciada e especulada, falar desse assunto tão sério como o estatuto dos Açores, acabou de anunciar a aceitação do pedido de demissão do governo no… site oficial da presidência.

Marcuse: se fosse mais bonito e não estivesse morto fazia-lhe um broche – contributo para a discussão sobre a abstenção no Cavaco


«The transition to socialism is not now on the agenda; the conter-revolution is dominant. Under these circumstances, a struggle against the worst tendencies becomes the focal point. Capitalism exposes itself daily in deeds and facts that could serve the ends of organized protest and political education; the preparation of new wars and interventions, political assassinations and attempted assassinations, brutal violations of civil rights, racism, intensified exploitation of the work force. The struggle will ordinarily emerge first in bourgeois-democratic forms (the election and support of liberal politicians, the distribution of suppressed information, the protest against environmental pollution, boycotts, etc.) Demands and actions that have legitimately condemned in other situatios as reformist, economistic, bourgeois-liberal politics can have a positive importance right now; late capitalism boasts a diminished threshold. The expansion of the potential forces of revolution corresponds to the totalization of the revolutionary potential itself.»
Esta conversa de um “purismo revolucionário” contra um “reformismo aburguesado” acompanha a humanidade desde que fez alguma coisa pela sua consciência e mobilização politica, não será por isso surpreendente que 36 anos depois desta palestra de Marcuse, andemos aqui muito humildemente a discutir a mesmíssima coisa (ainda assim, porque é que continua a surpreender-me?!). Sou sensível a tentar descortinar o que um voto no Alegre, no Nobre ou no Defensor de Moura pode significar para a revolução. Nada, absolutamente nada. Por outro lado, um caminho que nunca é percorrido pelos defensores da “mobilização abstencionista”, teremos de ser sensíveis ao que pode significar para a revolução a vitória do Cavaco Silva. Muito, mesmo muito. E não no bom sentido. Falo de revolução como condição em potência, claro. And so what? A revolução foi alguma vez outra coisa? Se me sinto menos revolucionária por votar? Não. Se acho que a mobilização abstencionista pró-revolucionária é de expressão burguesa? Não compro essa guerra. Combatam-na vocês!

Jerking off on political science – Vénus, Olympia e Kitschelt

Olympia de Manet, uma reinterpretação da Vénus de Ticiano mas com puta, gato e falta de perspectiva
«Quatro condições determinam as oportunidades e constrangimentos na formação de partidos de esquerda-libertária:
– (1) Estados Providência inclusivos aumentam os recursos financeiros e disposições de motivação para grupos importantes reorientarem a sua atenção política da economia para as questões políticas pós-industriais;
– (2) Corporativismo laboral forte e (3) participação da esquerda no governo constrangem a prossecução de exigências pós-industriais através de canais políticos institucionalizados, pelo que, em consequência, favorecem a probabilidade do desenvolvimento de novos veículos políticos para a expressão daquelas exigências
– (4) A probabilidade de formação de partidos de esquerda-libertária aumenta mais quando conflitos fortemente visíveis acerca de questões políticas pós-industriais mobilizam movimentos sociais e polarizam a sociedade.»

Vénus de Urbino de Ticiano, o original com deusa, cão e perspectiva
«(…) a formação de preferências políticas torna-se mais difícil de apreciar quando vamos para além do trabalho e dos “estilos de produção” e examinamos a fenomenologia das experiências de consumo ou – por empréstimo a Bordieu – o “habitus” de consumo que afecta as disposições políticas. Uma maneira de trazer os estilos de consumo para a política é argumentar que a dependência dos cidadãos de estruturas públicas (transportes, cuidados de saúde, habitação) é decisiva para o seu posicionamento na dimensão socialismo-capitalismo. (…) Uma maneira diferente de construir o efeito independente dos estilos de consumo foca-se na experiência das pessoas quanto a natureza externa e interna na procura de satisfação de escolhas de consumo. A estruturação física das actividades socio-económicas no espaço origina uma “politica do espaço”, quando os indivíduos se confrontam com ingerências aos seus estilos de consumo, por exemplo por planeamento urbanístico e de uso de terrenos, localização de complexos industriais e poluição. De uma forma semelhante, a intervenção política burocrática pode conflituar com a natureza íntima do cidadão, com as identidades pessoais e colectivas voluntárias, despoletando uma “politica da identidade social”. Os movimentos feminista e de minorias culturais ilustram ambos a política da identidade social que insiste na autonomia individual e grupal na expressão de estilo de vida e sentido de distinção.»
Herbert Kitschelt

Se eu fosse para as manifestações tentar foder não me importaria

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Manic Miner já mencionou o facto, mas aqui ficam algumas fotografias sobre as correntes de segurança para impedir que os perigosos sei-lá-o-quê da concentração anti-capitalista pudessem livremente entrar na manifestação convocada pela CGTP. Uma primeira linha de gorilas de óculos escuros, mascando nervosamente pastilha elástica e que eu pensava inocentemente que fossem polícias paisanas. É claro que estranhei que se deixassem fotografar sem problema e não reagissem à oferta de pastéis de nata porque “coitados dos camaradas, em pé há tantas horas”. Há gente que se esquece que há malta que já viu muito e que já fez igualmente muito e que a esquerda neste pais é um bidé. Os gorilas eram, na realidade, seguranças da festa do avante, camaradas-gorilas portanto.
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Atrás dos camaradas-gorilas, uma segunda linha de defesa: os camaradas-organizadores. Novos, velhos, altos, baixos, gajos e gajas, loiros e morenos mas todos igualitariamente feios. Camaradas que voluntariamente aceitaram este dirty job de ficarem em silêncio, de costas para toda a manifestação e de peito para os não-sei-o quê anti-capitalistas, preparados para barrar qualquer movimento organizado de integração na manifestação mas um bocado mal preparados para a indisciplina individual dos auto-organizados. Recrutados, com certeza, entre a equipa vencedora de futebol humano do STAL, andavam 2 metros para cima, outros tantos para baixo, consoante os sei-lá-o-quê anti-capitalistas se moviam no passeio.
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Acompanharam os auto-organizados até poderem, enquanto desfilaram nos passeios. E isto é o que sei nas 3 horas em que lá estive, porque depois um auto-organizado lançou um grito de ordem que ele lá tinha auto-organizado e que era “Guerra, guerra, guerra social contra a máfia sindical”, e os outros auto-organizados lá se auto-organizaram para gritá-lo também e eu, com respeito total pela liberdade da auto-organização, auto-organizei-me imediatamente dali para fora.
Uma hora e meia depois, aconteceu a carga policial nas Portas de Santo Antão. Sobre essa já correu muita tinta e outra tanta correrá.

This veil is women’s liberation

Esta tese em Estudos Feministas (a primeira em Portugal), ou o que dela me é dado saber pela notícia, deu-me que pensar.

Contam-se estórias (serão os case studies?!) sobre a mulher que esconde o marido na cozinha e enfrenta os soldados, outra que vigia a sua casa enquanto decorrem reuniões da resistência nas quais participa o filho, ou a condenada por servir de pombo correio entre a OLP e o filho. Há sempre um marido ou um filho. Há sempre a organização política, o organizado politicamente e a mulher de intermeio. A consciência política estará lá, certamente. A familiar está de certeza – transpira em cada exemplo dado. A consciência de género e, em consequência, o feminismo, só a bondade pode reconhecê-la. Só posso crer que a tese vá mais longe que isto.

Uma vaca e um touro

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Voltei a lembrar-me porque é que Diácono Remédios é uma personagem tão genial. Ninguém conseguiu agarrar tão bem como o Herman a mente sórdida do beato para quem o amor e o sexo lembram imediatamente zoofilia com animais de grande porte, pedofilia com o cardeal Cerejeira e uma menina de colégio de soquete e tudo, necrofilia e incesto com o cadáver da avó. Este vídeo representa bem o ambiente diaconiano da manif de ontem. Gosto, em especial, da alusão à naturalidade do touro e da vaca como ilustração do casamento heterossexual com o beneplácito de Deus.

no país onde os homens são só até ao joelho/e o joelho que bom está tão barato


Todos os dias sou atacada pela nostalgia daqueles tempos em que o sol brilhava, ainda dava para ir à praia e a esquerda à esquerda do PS atingia um pouco mais de 20%. Foram fugazes estes meses, de uma esquerda só até ao joelho, sem vontade nem esforço para ser pelo menos até à ilharga, enquanto que os outros sempre o foram até ao pescoço, mesmo que não significassem mais que uma falangeta de mindinho.
Sinto saudades desses tempos em que o Alberto João Jardim podia incitar ao “governo de salvação nacional” do PSD, CDS, BE e PCP e que toda a gente risse, «no riso admirável de quem sabe e gosta/ter lavados e muitos dentes brancos à mostra», mas não neste esgar tímido de quem acha ridículo mas não tem três exemplos parlamentares recentes para demonstrar a ridicularidade de ter estes G4 na salvação nacional.
Tenho saudades desses tempos em que as lutas eram criteriosamente escolhidas, não sujeitas ao jogo da bipolaridade mas, ainda assim, criteriosas porque, convenhamos, assim como assim ainda não é indiferente para mim ter o Sócrates ou o Rangel ou Passos Coelho, não tanto pelo Sócrates ou pelo Rangel ou Passos Coelho mas porque este desequilíbrio de poder com maioria de esquerda e golden shares são já só uma miragem do passado.

É preciso fazer coisas


Há uns dias, um amigo de longa data, iniciou pela enésima vez a sua conversa preferida em relação a toda a população de esquerda que não pertença a um partido político: é preciso fazer coisas porque isso é melhor do que não fazer nada. Entendendo-se “coisas” como actividades políticas organizadas e militantes e “nada” como a não filiação num partido político.
Questão prévia: eu não odeio partidos e acalento a secreta e ridícula esperança de um dia voltar a militar num partido comunista digno desse nome. Eu apenas odeio o BE e o PCP – não sei se por esta ordem ou por ordem alfabética – (e os outros, votados ao mais profundo desprezo, não estão sequer num patamar que justifique a sua referência aqui).

Pensa esse amigo que tomadas de posição políticas sem actuação partidária são intrinsecamente cobardes. Corresponderia, assim, o exercício de uma liberdade intelectual a uma falta de coragem material e, neste enquadramento, a solidariedade institucional e o centralismo democrático, que subjazem às cambalhotas argumentativas que estão por detrás de uma defesa pública de posições políticas contrárias às opiniões pessoais de cada um, como um mal menor para fazer “coisas”. Para além disso dar estas cambalhotas é divertido, é uma espécie do jogo do lobisomem em ambiente real. No limite é qualquer coisa como um grupo de debate: interessa a retórica da liberdade mais do que a liberdade ela mesma.
De facto, eu não tenho feito “coisas”. Há bastante tempo que faço coisas diferentes dessas “coisas”. Tenho alguma nostalgia das “coisas”, mas nenhuma de cambalhotas argumentativas. Tolero ouvi-las depois de dois copos de vinho e, mesmo assim, caem-me na fraqueza.

The Revolution that wasn’t – DOCLISBOA

Um filme que mergulha na clandestinidade do Partido Nacional Bolchevique para nos revelar a fragilidade do seu discurso político, verdadeiramente confrangedor, verdadeiramente de direita nacionalista, patriótica, saudosista, imperial. Ouvimo-lo da boca do número 2 do partido, enquanto lava um cadáver na morgue (belíssima metáfora cinematográfica), que acabará depois a aspirar tapetes de igreja por uma esmola e uma benção de um padre ortodoxo. Ouvimo-lo, também, do líder de uma distrital que se passeia alegremente com o seu fato da Coreia do Norte e posa sem pudor para a câmara e para o espelho com o semblante Kim Jong-Il meets Napoleão Bonaparte, dizendo uma espécie de oração política redonda, sempre com “pátria” e “revolução” em todas as frases. Muito triste.

Ouvido num café discreto da Avenida de Roma onde os cabelos das senhoras têm vestígios de laca de 1973


«O pai é da construção civil, não tem nada a ver com os outros Alçadas. O marido era marido de outra, da qual a Isabel Alçada era colega ali na escola do Areeiro, e a Isabel era uma mulher muito arranjada e mais nova. A outra não, era mais assim como você (juro!). E então, deixou a outra e juntou-se à Isabel, nem sei se chegaram a casar. E agora não pode apoiar o marido em casa, que tanto precisa, porque uma ministra tem muito trabalho. Não acho bem!»

White Gloves


O Bloco não é o PCP a quem carinhosamente chama de “PC” e cataloga de sectário, ortodoxo e pouco inteligente. Não. O Bloco é diferente e novo e o que é novo cresce até que alguém das suas filerias entende defender uma estratégia autárquica tão pouco brilhante, opaca e inexplicável e, brincando ao PCP dos pequeninos, pensa que os eleitores do Bloco têm a disciplina da clandestinidade beijada por amanhãs de cantam da reforma agrária. Acontece que se os eleitores menos voláteis do BE tivessem essa disciplina não seriam eleitores do BE porque estariam ou votariam (ainda) todos nos outros partidos de esquerda.
De modo que a escolha de cisão com Sá Fernandes, mal explicada e mal intencionada, do namoro escondido a Roseta, de uma candidatura separada à Câmara de Lisboa contra, sobretudo, António Costa e, em segundo lugar, contra Santana, saiu pela culatra. Dizia-se que o eleitorado não compreenderia uma aliança com o PS nas autárquicas e campanha contra o PS nas legislativas. Um paternalismo imperdoável. 8000 lisboentas eleitores do BE, não votantes de protesto anti-sócrates mas, de facto, eleitores do BE, onde eu que não sou militante/aderente orgulhosamente me incluo, votaram Costa para o executivo e BE na Assembleia. Não só provaram que é mentira que os eleitores se sintam confusos entre consequências de voto e escolha eleitoral entre legislativas e autárquicas como deram um sinal claro que, mesmo quanto a autárquicas, souberam distinguir entre diferentes órgãos.
Este não é um caso de azia tratável com Kompensan. É um caso de gastroenterite crónica que terá feito com que Fazenda se ofuscasse dos comentários aos resultados de Lisboa: o ar roliço de orgulho insuflado esvaíra-se em peidos e jazia pequeno e mirrado num canto da sede de campanha.

Votar numa escola secundária

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Tenho saudades dos tempos em que me exprimia através das Onda Choc e de canetas coloridas (apesar de, nessa altura, sermos todos muito parvos). De certa maneira, há alguma coisa que me satisfaz menos nestes tempos de expressão com cruzes em boletins de cores pastel com canetas bic atadas por um cordel (mesmo que sejamos todos menos parvos).

Votar pénis com um cravo vermelho na boca

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Este blogue existe mesmo. Tem um breve manifesto político que afirma que «o Movimento Vota Pixota é a resposta à política que nos oferecem. E a resposta é: “Não! Não sou uma cruz, não sou mais uma roda numa engrenagem, não sou um ser amorfo e sem vontade!”». Concluem, então, que são um pénis tal como desenhado por uma criança de 6 anos. É estranho mas, como fomos todos crianças de 6 anos, achamos espontaneamente graça.
Diz aqui o Saboteur que isto faz lembrar aquele romance de Saramago, em que numas eleições toda a gente decide votar pixota e gera-se uma grande crise política. É o Ensaio Sobre a Pixota.
Googlei mas não encontrei nenhum movimento a apelar no voto com desenhos de órgãos sexuais femininos.

“Um abraço e vai-te a eles”


Gosto da forma como acaba o tal e-mail: a dicotomia do amor-desamor, a metáfora com as ordens dadas a cães («Bobby, vai-te a eles!«), o uso do peso simbólico e popular do “eles” por oposição ao “nós”. Poética! Mas mais do que isto tudo, é tão bom ver os mecanismo do jornalismo moderno a funcionarem contra o jornalismo moderno e a mostrar que ele nada mais é do que uma fantochada, no sentido literal. Uma fuga/dica de informação e protecção do sigilo dessa mesma fonte é jornalismo deontológico mas quando há fuga/dica de informação sobre a fuga/dica de informação, a isso chamam-lhe os editores de jornais e jornalistas deontológicos uma infâmia perpetrada pelo SIS.
É curioso ver como o José Manuel Fernandes tentou recentrar a notícia no “como é que o e-mail foi parar ao Diário de Notícias”, tentando perverter ele mesmo as regras corporativas. Mas isso é o cão que mordeu o homem. O homem que mordeu o cão está no “como é que é possível que o tal e-mail EXISTA”.

Sexist Shit


Eu não sei o que é pior, se convidar uma menina bonita da TV para ser mandatária ou se achar, por princípio e por soberba, que tudo o que é é uma menina bonita da TV. A intelectualidade macho-alfa de esquerda morde-se por dentro para ser politicamente correcta quando tudo o que consegue com isso é ser macho-beta de esquerda. Sexismo mascarado de consciência política de relações laborais! Passou horas a olhar para o vídeo para ver o que poderia apanhar da “pobre menina rica” que não parecesse em demasia sexista. Talvez como a outra mandatária do Cavaco talvez esta tenha de vir também dizer a público «eu não tenho a cabeça oca!», que é outra forma de dizer que tem, como é sexista a forma do sexista mascarar o seu sexismo sob o manto das relações laborais aplicadas a caroços de cereja!

Jornalismo (Im)Provável


Neste poço onde encontramos o jornalismo cada vez mais fundo (tão fundo, tão fundo que é quase impossível vê-lo) alguém se lembrou de reeditar 21 minutos de telejornal para falar de amor, rissóis e casas caiadas de branco. No Teatro Maria Matos há um espectáculo que é um esboço, um homem (Tiago Rodrigues) que, na penumbra, sincroniza a sua voz com a do pivot e dá notícias diferentes da catarse da catástrofe e das curiosidades sociais com o dito “valor-notícia” que as imagens nos sugerem. Diz que é teatro. Teatro sobre jornalismo sobre teatro.
E eu, que nos últimos tempos assisti aos dois melhores espectáculos teatrais dos últimos anos – «Manuela Moura Guedes versus Marinho Pinto», na TVI, e «Romeo and Juliet» dos Nature Theater of Oklahoma, no Teatro Maria Matos, fico impressionada.

Afinal, é-me cada vez mais difícil perceber as fronteiras entre política, jornalismo e teatro. Todos concorrem para uma «(…) eficácia expressiva: a organização do espaço, o programa concebido à maneira de um cenário, o protocolo e a ordem de entradas, os códigos verbais, musicais e as formas de retórica, as convenções dirigindo o aspecto dos actores principais. A importância concebida à imagem e ao som, a capacidade de transmitir o acontecimento cerimonial em múltiplos lugares fazem intervir uma ‘retórica da retransmissão’; impõe a sua própria lógica na dramatização, na escolha do que é dado ver, jogando sobre os planos de cena e sobre a apresentação dos personagens centrais; ele faz intervir os elementos acessórios, espectaculares, propícios a uma adesão emocional» [George Balandier]. A diferença está que o teatro é o único que o faz honestamente. Viva o Teatro!

Marcha Global da Marijuana – AMANHÃ ÀS 15H NA MÃE D’ÁGUA

Alguém alguma vez pensou em proibir a prilocaína, que é um anestésico em dentistas?
Pode ter efeitos incríveis em que crianças, e os pais acham graça. Eu não posso ter uma cannábis em casa (imaginemos, como mero exemplo) e, se tivesse, mesmo maior de idade e para mocas da “real life” de outrem, a minha mãe não acharia graça nenhuma e pedir-me-ia para a esconder da D. Carlota todas as quintas-feiras, que é quando ela vai lá a casa engomar a roupa.

2 Desejos para um 1º de Maio revolucionário

DESEJO 1
FAZER O AMOR NO CAPOT DO CARRO DO TÓ MARIA, DA PASTELARIA
Porque toda a gente gosta de “poucas-vergonhas”, excepção feita a todas as vizinhas do 2º andar. Todas as revoluções dignas desse nome foram acompanhadas por “poucas-vergonhas”, aquele período em que alguém reclama que de nada vale discutir meios de produção se não discutirmos também o amor, no capot do carro do Tó Maria ou noutro sítio qualquer.
http://tv1.rtp.pt/noticias/player.swf

DESEJO 2

UMA BURGUESA COM OS OPERÁRIOS
Eu não nasci burguesa, mas isso não faz de mim outra coisa que não burguesa. A esmagadora maioria das pessoas com as quais tenho afinidades (também dignas desse nome) são, igualmente, burguesas. Algumas discutem multiculturalismo, multitudes e revolução sem fronteiras enchendo a boca de argumentários como “tenho mais similitudes com um jovem urbano parisiense do que com um jovem minhoto”, quando o que isto significa, lá no fundo, é que as jovens burguesias urbanas se reconhecem nos seus hábitos de consumo, incluindo políticos, mas, ainda assim, de consumo. Estou desejosa que isto tenha um fim exemplar.

Business Process Outsourcing – a beleza do capitalismo global


Estou aqui com a Lil (Olá pessoal!). Contava-me ela que, lá na empresa onde ela estava, ganhou um prémio. Uma espécie de empregado do mês do MacDonald´s, mas sem farda nem fotografia ridícula (mas tenho um certificado emoldurado). Chama-se Business Process Outsourcing – Certificate of Excellence que nada mais é do que medalhar uma pessoa que participa activamente na extinção do seu próprio posto de trabalho.

Sindicato Calafetado


O meu sindicato é um sindicato calafetado. Sabe bem nos invernos. Ficam lá dentro quentinhos e nem uma brisa fresca corre pelas frestas das janelas, sempre fechadas. Lá dentro a temperatura está acima do conforto, nas vidraças corre a humidade embaciada e sua-se, um suor que já foi de trabalho mas que agora é do calor humano da muralha de aço.
Cá fora os trabalhadores não alinhados fazem uma proposta alternativa de negociação de actualizações salariais: em vez das malfadadas percentagens, que muito jeito dão a carreiras de topo, queremos negociação de um valor absoluto, igual para todos e calculado, no seu mínimo negocial, pelo aumento de referência da função pública calculado no meio da tabela salarial da empresa.
Argumentos a favor: em 10 anos de aumentos salariais percentuais, o topo afastou-se da base mais 3 salários mínimos para lá dos que já os separavam; continuar com este tipo de progressão geométrica aprofunda um fosso que não é justo.
Argumentos contra, e vou citar:
– «isso é uma ideia retrógrada»;
– «não defendemos isso porque vai contra os nossos princípios»;
– «isso é facilitista»;
– «não podemos gorar as expectativas que as carreiras de topo têm no sindicato»;
– «o bife aumenta para todos» (proporcionalmente aos salários auferidos, presume-se!);
– «compreendam que quem ganha 500 gasta 500, mas quem ganha 2500 gasta 2500 porque meteu-se a comprar casas melhores e tal»;
– «isso é uma confusão negocial, melhor é começar com 3,5% e ir descendo décima à décima» (muito mais confuso é negociar euro a euro);;
– «as pessoas com mais responsabilidades devem receber mais» (e por consequência cada vez mais);
– «isso é populismo»;
– «qualquer dia voltamos mais atrás e passamos de defender que ‘a trabalho igual salário igual’» (juro!);
– «há muito tempo que o movimento sindical abandonou essa discussão porque foi visto que não era o melhor».
Depois de um histórico de plenários de resistência a votações em alternativa, vencendo pelo cansaço e por propostas «consensualizadoras, camaradas» os trabalhadores fora da cortina de aço, aqui não há volta a dar. «Para o peditório das propostas consensualizadoras já dei, quero votar em alternativa», ouve-se.
Vota-se. O grupo cada-braço-é-uma-alavanca, mobilizados e organizados para o plenário em defesa da proposta do sindicato, vence por 1 voto. UM VOTO. Sindicato satisfeito, a calafetagem está para durar, apesar do ar cada vez mais rarefeito e dos AVC que, mais cedo do que tarde, tocarão a todos. O futuro, esse está um bocado mais negro.