Debate «Chavs»: a demonização da classe trabalhadora

«Chavs»: a demonização da classe trabalhadora
Com a participação de Owen Jones
Local: Livraria Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar, 89, Lisboa – http://livrariapodoslivros.blogspot.com/, localização aqui)
Data: Dia 25 de Novembro, das 18h às 20h
Organização: UNIPOP e livraria Pó dos Livros
Entrada livre.
A partir de uma exaustiva investigação pelos subúrbios londrinos e de um conjunto de entrevistas, o livro Chavs: The Demonization of the Working Class, publicado recentemente pelo jornalista do The Guardian Owen Jones, procura documentar os mitos e as realidades da vida da classe trabalhadora na Grã-Bretanha contemporânea. Crescentemente, uma imagem estereotipada dos trabalhadores mais pobres, sintetizada na designação chavs («chungas», «mitras», «gandulos»), esconde e justifica a degradação e o desespero de muitas comunidades de trabalhadores, tornadas cada vez mais precárias pelas alterações económicas e sociais dos últimos anos. Jones traça um retrato cru da forma como o ódio e o preconceito de classe contra os trabalhadores foram ganhando caminho por entre o aprofundamento das desigualdades e explica como, ao longo de três décadas, a classe trabalhadora foi passando de «sal da Terra» a «escumalha da Terra». Propomos um debate com o autor em torno do livro, procurando ao mesmo tempo reflectir sobre se o paradigma que ele descreve é ou não generalizável a outras realidades para lá da Grã-Bretanha.
Artigo de Owen Jones publicado no número de Setembro de 2011 do Le Monde diplomatique – edição portuguesa: http://pt.mondediplo.com/spip.php?article841.
Owen Jones é jornalista do The Guardian e publicou recentemente o livro Chavs: The Demonization of the Working Class (Verso Books, Londres, 2011).

Debate ‘A teoria está na moda?’ | 13 Out. | Bartô | 22h

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A teoria está na moda?
Bartô (bar do Chapitô) # quinta-feira, 13 de Outubro # 22h # entrada livre

(ver localização aqui)
organização: UNIPOP, revista imprópria e Zona Franca
com a participação de:
Ana Drago
Bruno Peixe Dias
Nuno Nabais
Com a queda do Muro de Berlim e a crescente hegemonia neoliberal, muitos julgaram que a figura do intelectual comprometido com a transformação radical do mundo era coisa do passado. O «fim da história» de Francis Fukuyama e o «choque de civilizações» de Samuel Huntington serviam não só como diagnóstico de uma época mas também como marcos visíveis de uma esfera pública que tomava como horizonte inultrapassável das sociedades humanas a economia de mercado e a democracia parlamentar.
Na última década, contudo, começaram a ganhar visibilidade uma série de teóricos, dificilmente enquadráveis numa tendência doutrinal única, mas que partilham, no entanto, a recusa do capitalismo como fim da história e uma exigência igualitária que não se satisfaz com os arranjos institucionais de hoje. Nomes como Antonio Negri, Zygmunt Bauman, Slavoj Žižek, Jacques Rancière, Alain Badiou, Judith Butler, Giorgio Agamben, Daniel Bensaïd, John Holloway ou Boaventura Sousa Santos, entre outros, começaram a ser lidos e debatidos para lá dos círculos académicos e de activismo radical, aos quais até então as suas ideias estiveram em parte circunscritas.
Longe de se tratar apenas de uma questão de presença mediática e de edição livreira, as teorias destes autores têm sido objecto de diversas apropriações políticas, em contexto de lutas concretas, nomeadamente em tomadas de posição e manifestos produzidos nos tempos mais recentes, em Madrid, Londres ou Atenas, mas também no quadro de processos reformistas e revolucionários como os que têm caracterizado a história recente de países como o Brasil ou a Bolívia. Estaremos perante a emergência de uma nova figura de intelectual? Tratar-se-á apenas de uma moda, ligada às exigências de um mercado editorial cada vez mais dependente da novidade? Que articulações é que se desenham entre estes teóricos, as suas ideias, e os novos movimentos sociais e políticos? Ao interrogar esta nova visibilidade do intelectual radical de esquerda, este debate procura abordar estas e outras questões.

O inevitável é inviável: Manifesto dos 74 nascidos depois de 74

Somos cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974. Crescemos com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos desse momento histórico. Soubemos resistir ao derrotismo cínico, mesmo quando os factos pareciam querer lutar contra nós: quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusava uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, e a concedia a torturadores da PIDE/DGS; quando um governo decidia comemorar Abril como uma «evolução», colocando o «R» no caixote de lixo da História; quando víamos figuras políticas e militares tomar a revolução do 25 de Abril como um património seu. Soubemos permanecer alinhados com a sabedoria da esperança, porque sem ela a democracia não tem alma nem futuro.
O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover uma erosão preocupante da herança material e simbólica construída em torno do 25 de Abril. Não o afirmamos por saudosismo bacoco ou por populismo de circunstância. Se não é de agora o ataque a algumas conquistas que fizeram de nós um país mais justo, mais livre e menos desigual, a ofensiva que se prepara – com a cobertura do Fundo Monetário Internacional e a acção diligente do «grande centro» ideológico – pode significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível. Entendemos, por isso, que é altura de erguermos a nossa voz. Amanhã pode ser tarde.
O primeiro eixo dessa ofensiva ocorre no campo do trabalho. A regressão dos direitos laborais tem caminhado a par com uma crescente precarização que invade todos os planos da vida: o emprego e o rendimento são incertos, tal como incerto se torna o local onde se reside, a possibilidade de constituir família, o futuro profissional. Como o sabem todos aqueles e aquelas que experienciam esta situação, a precariedade não rima com liberdade. Esta só existe se estiverem garantidas perspectivas mínimas de segurança laboral, um rendimento adequado, habitação condigna e a possibilidade de se acederem a dispositivos culturais e educativos. O desemprego, os falsos recibos verdes, o uso continuado e abusivo de contratos a prazo e as empresas de trabalho temporário são hoje as faces deste tempo em que o trabalho sem direitos se tornou a norma. Recentes declarações de agentes políticos e económicos já mostraram que a redução dos direitos e a retracção salarial é a rota pretendida. Em sentido inverso, estamos dispostos a lutar por um novo pacto social que trave este regresso a vínculos laborais típicos do século XIX.
O segundo eixo dessa ofensiva centra-se no enfraquecimento e desmantelamento do Estado social. A saúde e a educação são as duas grandes fatias do bolo público que o apetite privado busca capturar. Infelizmente, algum caminho já foi trilhado, ainda que na penumbra. Sabemos que não há igualdade de oportunidades sem uma rede pública estruturada e acessível de saúde e educação. Estamos convencidos de que não há democracia sem igualdade de oportunidades. Preocupa-nos, por isso, o desinvestimento no SNS, a inexistência de uma rede de creches acessível, os problemas que enfrenta a escola pública e as desistências de frequência do ensino superior por motivos económicos. Num país com fortes bolsas de pobreza e com endémicas desigualdades, corroer direitos sociais constitucionalmente consagrados é perverter a nossa coluna vertebral democrática, e o caldo perfeito para o populismo xenófobo. Com isso, não podemos pactuar. No nosso ponto de vista, esta é a linha de fronteira que separa uma sociedade preocupada com o equilíbrio e a justiça e uma sociedade baseada numa diferença substantiva entre as elites e a restante população.
Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada.
Por isso dizemos: queremos contribuir para melhorar o país, mas recusamos ser parte de uma engrenagem de destruição de direitos e de erosão da esperança. Se nos roubarem Abril, dar-vos-emos Maio!
Alexandre de Sousa Carvalho – Relações Internacionais, investigador; Alexandre Isaac – antropólogo, dirigente associativo; Alfredo Campos – sociólogo, bolseiro de investigação; Ana Fernandes Ngom – animadora sociocultural; André Avelãs – artista; André Rosado Janeco – bolseiro de doutoramento; António Cambreiro – estudante; Artur Moniz Carreiro – desempregado; Bruno Cabral – realizador; Bruno Rocha – administrativo; Bruno Sena Martins – antropólogo; Carla Silva – médica, sindicalista; Catarina F. Rocha – estudante; Catarina Fernandes – animadora sociocultural, estagiária; Catarina Guerreiro – estudante; Catarina Lobo – estudante; Celina da Piedade – música; Chullage – sociólogo, músico; Cláudia Diogo – livreira; Cláudia Fernandes – desempregada; Cristina Andrade – psicóloga; Daniel Sousa – guitarrista, professor; Duarte Nuno – analista de sistemas; Ester Cortegano – tradutora; Fernando Ramalho – músico; Francisca Bagulho – produtora cultural; Francisco Costa – linguista; Gui Castro Felga – arquitecta; Helena Romão – música, musicóloga; Joana Albuquerque – estudante; Joana Ferreira – lojista; João Labrincha – Relações Internacionais, desempregado; Joana Manuel – actriz; João Pacheco – jornalista; João Ricardo Vasconcelos – politólogo, gestor de projectos; João Rodrigues – economista; José Luís Peixoto – escritor; José Neves – historiador, professor universitário; José Reis Santos – historiador; Lídia Fernandes – desempregada; Lúcia Marques – curadora, crítica de arte; Luís Bernardo – estudante de doutoramento; Maria Veloso – técnica administrativa; Mariana Avelãs – tradutora; Mariana Canotilho – assistente universitária; Mariana Vieira – estudante de doutoramento; Marta Lança – jornalista, editora; Marta Rebelo – jurista, assistente universitária; Miguel Cardina – historiador; Miguel Simplício David – engenheiro civil; Nuno Duarte – artista; Nuno Leal – estudante; Nuno Teles – economista; Paula Carvalho – aprendiz de costureira; Paula Gil – Relações Internacionais, estagiária; Pedro Miguel Santos – jornalista; Ricardo Araújo Pereira – humorista; Ricardo Lopes Lindim Ramos – engenheiro civil; Ricardo Noronha – historiador; Ricardo Sequeiros Coelho – bolseiro de investigação; Rita Correia – artesã; Rita Silva – animadora; Salomé Coelho – investigadora em Estudos Feministas, dirigente associativa; Sara Figueiredo Costa – jornalista; Sara Vidal – música; Sérgio Castro – engenheiro informático; Sérgio Pereira – militar; Tiago Augusto Baptista – médico, sindicalista; Tiago Brandão Rodrigues – bioquímico; Tiago Gillot – engenheiro agrónomo, encarregado de armazém; Tiago Ivo Cruz – programador cultural; Tiago Mota Saraiva – arquitecto; Tiago Ribeiro – sociólogo; Úrsula Martins – estudante

mesa-redonda DOS MOTINS ÀS REVOLUÇÕES, E VICE-VERSA

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Casa da Achada # sábado, 19 de fevereiro # 15h # entrada livre
organização UNIPOP e revista imprópria
(ver localização aqui)
com a participação de:
Miguel Cardoso
Pedro Rita
José Soeiro
Manuel Loff
Paulo Granjo
Ricardo Noronha

A partir dos mais diversos pontos, de Roma a Tunes, do Cairo a Oakland, de Londres a Beirute, de Buenos Aires a Atenas, de Maputo a Sana, um conjunto muito significativo de lutas, manifestações, greves, ocupações tem vindo a ter lugar. Um elemento comum, além da assinalável capacidade de mobilização, parece ser o facto de muitas destas acções assumirem, formal e substancialmente, o questionamento não só da ordem estabelecida, mas também do padrão normalizado da luta política legal e confinada aos limites do poder de Estado. Num contexto de crise do capitalismo global, a ordem pública é confrontada com uma desordem comum que toma as ruas como o seu espaço, resgatando palavras como «revolução», «revolta», «motim». O debate que propõe a UNIPOP passa por procurar identificar que outros pontos de contacto têm estes diversos focos de luta, bem como quais são os seus limites, e perceber em que medida é que um certo efeito de arrastamento pode ou não ter como consequência a constituição de uma resposta emancipadora à crise do capitalismo global, ou seja, que articulação têm estes movimentos com o paradigma da «revolução» e de que modo o reconfiguram.

Desde que vi um porco a andar de bicicleta já acredito em tudo ou o dia em que Trotsky perdoou Estaline

Este comunicado da Ruptura/FER é no mínimo insólito. Depois de apresentarem as suas razões para desaconselhar o voto em quase todos os candidatos presidenciais (sobretudo em Alegre), sugerem o voto em branco ou no… «candidato do PCP».
Passando por cima de uma análise mais elaborada sobre o que levará a secção portuguesa da IV Internacional a aconselhar o voto num candidato do PCP (eventualmente o facto fala por si, nem é preciso elaborar nada…), há dois aspectos a assinalar nesta indicação de voto de escolha múltipla. Em primeiro lugar, o voto em branco ou o voto em Francisco Lopes têm consequências políticas e eleitorais absolutamente opostas e contraditórias. O voto em branco contribui, de facto e independentemente do que se possa pensar sobre o assunto, para a vitória de Cavaco (a não ser, evidentemente, que a opção na cabeça do eleitor se ponha entre Cavaco ou a abstenção). Pelo contrário, o voto em Francisco Lopes contribui para uma potencial (embora pouco previsível) segunda volta. Se a segunda volta, como parece óbvio, for entre Cavaco e Alegre, então quem seguir esta indicação de voto poderá estar, em última análise, a contribuir para a vitória de Alegre nas eleições.
O outro aspecto interessante é a indicação de voto em branco em vez da abstenção pura e simples. Geralmente, a justificação que se utiliza para o voto em branco é qualquer coisa do género «o acto eleitoral é importante, eu quero participar nele, mas não me revejo em nenhuma das candidaturas», em contraponto com a simples abstenção, que indicia um distanciamento (por opção, por inércia ou por «despolitização») do acto eleitoral. Ora, a Ruptura/FER parece valorizar este acto eleitoral ainda que lhe falte, como diz o comunicado, uma «candidatura anticapitalista». Será impressão minha, ou há aqui uma adesão inconfessada à democracia burguesa?

mesa-redonda O ESPECTRO DA ANARQUIA

Casa da Achada # sábado, 8 de Janeiro # 15h # entrada livre

organização UNIPOP
(ver localização aqui)
com a participação de:
António Cunha
# membro do colectivo Casa Viva #
António Pedro Dores
# sociólogo e prof. no ISCTE #
José Carvalho Ferreira
# economista e prof. no ISEG #
José Neves
# historiador e prof. na FCSH #
Miguel Madeira
# economista #
Miguel Serras Pereira
# tradutor #
Ricardo Noronha
# doutorando em História #
O recurso a etiquetas ideológicas é uma prática recorrente, quer por parte de correntes de pensamento e movimentos sociais e políticos quer por parte dos poderes instituídos. Se para os primeiros uma lógica de fixação identitária parece impô-lo, para o segundo trata-se de uma técnica de definição de um inimigo, interno ou externo, identificável, de um processo de naturalização do recurso à violência autorizada. «Comunismo», «terrorismo», «antiglobalização», «anarquismo» têm sido algumas dessas etiquetas. Mais recentemente, o «anarquismo» – ou mais sofisticadamente as «ideias anarquistas» – instalou-se no espaço mediático a propósito de um conjunto de movimentações sociais contra os poderes instituídos. Detenções, condenações judiciais, cordões policiais em manifestações, a coberto da defesa da democracia contra as «ideias anarquistas», têm, na verdade, sustentado a criminalização de todas as lutas que procuram situar-se para lá da intervenção política e social institucionalizada. Partindo do reconhecimento de que por detrás da designação «anarquismo» se esconde uma enorme pluralidade teórica e prática, a UNIPOP propõe uma discussão acerca do percurso histórico das «ideias anarquistas» em Portugal, bem como uma abordagem cruzada de algumas das tradições teóricas que se colocam sob essa etiqueta.

E o povo, pá?

Carvalho da Silva disse hoje no seu discurso na manifestação em Lisboa que «Vamos ampliar e diversificar a luta social em Portugal» e que «Não excluímos nenhuma forma de luta». Mas houve uns camaradas que não o ouviram. Estavam ocupados a impedir que alguns trabalhadores participassem na manifestação.

Calou-se a voz do lobo


Morreu o António Sérgio. Agora vai ser mais difícil ouvir rádio. Porquê? O próprio explicava há dois anos atrás: «Uma das funções da rádio é espalhar magia: nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. E esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: ouve isto, que não te maça, não te assusta, não te provoca, não te faz comprar discos».

E que tal aderirmos todos ao PTP?

Jorge Bateira, nos Ladrões de Bicicletas, propõe a criação de um novo partido de esquerda em meados de 2010. Resultado lógico, diz Jorge Bateira, da «pressão das elites de esquerda para que o País encontre uma solução governativa à altura dos desafios dos próximos anos», face à incapacidade das actuais forças de esquerda se entenderem. Este partido seria composto por «toda a gente da “esquerda socialista” disposta a fazer algumas rupturas (mais ou menos dolorosas) com o seu percurso político passado». E o que deveriam fazer os militantes e dirigentes desse partido? «Vão ter de praticar destruição criadora: a de superarem a antinomia “gerir o capitalismo” versus “derrubar o capitalismo”. Trata-se de ir assumindo responsabilidades no governo do capitalismo e, ao mesmo tempo, irem introduzindo elementos de subversão. Fazer o exercício da governação participada e transformadora. Claro que é reformismo, e os frutos das reformas nem sempre se vêm logo. Contudo, será um reformismo tão bem sucedido quanto mais for capaz de ir tornando o nosso capitalismo irreconhecível (e inaceitável) aos olhos dos financeiros.» Nem mais!

Sobre a governabilidade


Aconselho a leitura de um interessante post de Jorge Bateira no Ladrões de Bicicletas. Tem o enorme mérito de introduzir clareza e seriedade no debate. Dizer claramente o que se quer, sem subterfúgios e sem os espartilhos impostos pelo espectáculo eleitoral ou pelos tacticismos partidários, pelo menos torna possível o debate. Discordo radicalmente do que escreve Jorge Bateira, mas ao lê-lo não fico com aquela sensação, tão típica dos períodos de campanha eleitoral, congressos partidários, debates da nação, etc., de que me tomam por parvo. Não quero, aliás, deixar de dizer que essa postura de clareza e seriedade é característica do blogue em causa.
Discordo fundamentalmente da tentativa de encontrar uma espécie de «terceira via» entre uma postura revolucionária e uma opção pela gestão do capitalismo. Se, em geral, essa oposição até faz algum sentido, quando a aplicamos à esquerda partidária (ou seja, a esquerda organizada em torno do objectivo da governabilidade, cujo espaço natural de existência é a política do Estado), ela perde toda a adesão à realidade. Simplesmente porque na esquerda partidária não existe qualquer «postura revolucionária». Toda a esquerda partidária tem na criação de condições de governabilidade o alfa e o ómega da sua actuação. É certo que, por exemplo no caso português, os partidos à esquerda do PS têm dificultado bastante a construção de uma qualquer solução de convergência que permitisse a constituição de um governo com um cunho fortemente de esquerda. Mas isso é verdadeiramente o que essas forças imaginam como o melhor caminho para criarem condições para o seu acesso à governabilidade. Bem ou mal, apostam tudo numa táctica de crescimento próprio que lhes permita aceder a uma posição de força relativa mais favorável em relação às outras forças.
Fui durante 10 anos militante do PCP e são incontáveis as vezes que ouvi algo do género: «O PCP não teria qualquer dificuldade em participar num governo do PS, desde que houvesse uma significativa alteração da correlação de forças favorável ao PCP. Veja-se o exemplo da coligação na Câmara de Lisboa: foi possível porque naquela altura o PCP tinha o dobro da força do PS». É interessante fazer o exercício de comparar este discurso interno com o discurso público que diz que «estamos disponíveis para qualquer solução desde que haja uma ruptura com a política de direita». E é interessante porque é óbvia a contradição entre a autenticidade da estratégia e a falácia da táctica. Como é bom de ver, não há nada de revolucionário (nem de «transformador», para adoptar o termo de Jorge Bateira) nisto.
O problema maior, do meu ponto de vista, é que o principal erro, quer das esquerdas quer de Jorge Bateira, é a suposição de que o acesso à «governabilidade», ou seja, aos mecanismos de poder decorrentes da representatividade, é a chave da transformação social. Ora, a questão é que se é verdade que «os mercados foram criados ao longo da história através de uma intervenção activa do poder político central», também não é menos verdade que o Estado moderno é também ele um conjunto de instrumentos de reprodução da sociedade mercantil. E também não é menos verdade que o capitalismo é muito mais do que o mercado e o Estado, embora os inclua. O capitalismo é essencialmente uma forma de viver. Uma forma total que transforma todos em agentes da mercadoria. E o pior de tudo é que nas actuais condições históricas de bloqueio estrutural do capitalismo (bloqueio dos mecanismos de valorização do valor e de expansão ampliada do capital), essa forma de viver assume uma dimensão quase esquizofrénica: a alternativa absurda com que estamos quotidianamente confrontados é o tédio insuportável da sobrevivência (trabalhar, trabalhar, produzir, produzir) ou o desespero de não conseguir sobreviver (procurar trabalhar, trabalhar, produzir, produzir). Nessa medida, discordo com Jorge Bateira quando escreve que «As lições do chamado “socialismo real” foram aprendidas». Do meu ponto de vista, foram mal aprendidas porque parece ainda não estar claro que a construção de uma forma de viver pós-capitalista vai muito para lá da alteração das relações de propriedade ou da configuração do poder do Estado. O capitalismo, a forma de viver capitalista, convive bem com várias formas de Estado e com várias formas de organização económica. Nesta perspectiva, e mais ainda no actual contexto histórico, a política do Estado não pode ser outra coisa que não pura gestão de uma mesma forma de viver. Creio que o que historicamente está em jogo é a possibilidade (ou não) de ruptura radical com essa forma de viver.

De como faria sentido dizer «é a economia, estúpido», mas não se diz só naquela de não baixar o nível e também porque depois ainda nos acusam de favorecer a direita, e tal…

Um dos soundbytes da campanha eleitoral de Miguel Portas que ouvi este fim-de-semana dizia algo do género: «O desemprego é a factura da ganância de quem jogou as nossas vidas no casino da especulação financeira». Admito que as palavras não sejam exactas, mas vi isto na televisão e não encontro nenhuma reprodução na Internet. Peço desde já desculpa aos provedores da deontologia blogosférica, pensando, em todo o caso, que aquelas palavras, se não forem exactas, não andarão muito longe disso.
Percebo a necessidade das boas tiradas de campanha, mas um olhar um pouco mais cuidado sobre os indicadores da economia mundial das últimas décadas mostra-nos que o que abriu caminho à «ganância dos especuladores financeiros» foi justamente a falência estrepitosa daquilo a que agora está na moda chamar a «economia real», a que as boas almas querem regressar. E que o que, apesar de tudo, conseguiu manter algum lampejo de normalidade nos últimos 30 anos foi justamente a simulação neoliberal, às custas obviamente do consumo acelerado do futuro através da ficção do crédito. O desemprego há muito que deixou de ser um fenómeno conjuntural cuja solução dependeria da regulação do bom Estado e das boas políticas públicas sobre as forças maléficas da «economia de casino». O mesmo sistema que precisa desesperadamente de trabalho (porque só ele cria valor) criou todas as condições para o tornar supérfluo e para tornar descartáveis milhões de vidas. É a sociedade que se baseia nos fetiches da mercadoria, do valor e do trabalho que é já incapaz de funcionar sobre os seus próprios fundamentos.
A oportunidade que a actual situação nos oferece é irmã gémea da hipótese de aprofundamento da barbárie. Mas enquanto se fica pela condenação moralista dos «especuladores ganaciosos» e pela vã esperança num regresso ao passado reluzente do Estado de bem-estar, relegando para um qualquer amanhã distante a elaboração de uma vigorosa crítica do capitalismo como tal, resta o espectáculo cada vez mais vazio da disputa eleitoral. Enfim, siga a dança…
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O Estado e a violência

Aconselho a leitura deste interessante artigo de Anselm Jappe (autor de As Aventutas da Mercadoria. Por Uma Nova Crítica do Valor e de uma biografia de Guy Debord, ambos editados pela Antígona). É sobre a violência do Estado e a utilização de métodos de luta violentos e tem o mérito de tentar discutir o problema sem cair no maniqueísmo habitual do «caras tapadas/caras destapadas» ou do «violência/pacifismo». Quem começar a ler o texto e achar que já imagina como vai acabar deveria fazer um esforço por lê-lo até ao fim, as conclusões são em certa medida surpreendentes. O original do artigo, que saiu em França na revista Lignes, infelizmente não está online. Temos que nos contentar com esta tradução francamente má para português do Brasil.
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A seguir à crise… o capitalismo?

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O capitalismo rebenta pelas costuras. A explosão das bolhas neoliberais põe a nu as contradições mais bárbaras do capital e mostra que a sua estratégia de fuga e dissimulação entrou num beco sem saída. Não vale sequer a pena invocar a depressão económica, o aumento do desemprego, a hipervigilância do poder instituído, o estado de excepção. Bastará, tão-só, a invocação do quotidiano de todos nós. Perante a situação, a generalidade da esquerda, há demasiado tempo integrada no sistema e tantas vezes o seu elemento modernizador, ensaia um regresso à confortável ilusão keynesiana do capitalismo bom regulado pelo Estado, por oposição ao capitalismo mau dos mercados desregulados. Conhecemos demasiado bem esse discurso e o que nas suas consequências práticas há de mais defensivo, desagregador e frustrante. O debate que se impõe é o que procure responder à pergunta: como enfrentar a crise sem reforçar o capitalismo? Irá, seguramente, por aí uma nova estratégia transformadora que encare a crise como uma oportunidade contra a barbárie.

O que vemos e o que esperamos


Texto de apoio à insurreição grega traduzido para português pelo resistir.info. O original em inglês, publicado pelo site de notícias da Monthly Review, pode ser lido aqui.
Queremos antes de mais nada dizer um sim colectivo ao levantamento na Grécia. Somos artistas, escritores e professores conectados neste momento por amigos e compromissos comuns. Estamos globalmente dispersos e estamos a observar, com esperança, de longe. Mas alguns de nós estão em Atenas e têm estado nas ruas, sentiram a fúria e o gás lacrimogéneo, e vislumbraram o espectro do outro mundo que é possível. Não clamamos por nenhum direito especial a falar e a sermos ouvidos. Ainda assim, temos algo a dizer. Pois isto é também um momento global para falar e partilhar, para ter esperança e pensa em conjunto…
Ninguém pode duvidar que o movimento de protesto e ocupação que se espraiou por toda a Grécia desde o assassinato pela polícia de Alexis Grigoropoulos em Atenas, a 6 de Dezembro, é um levantamento social cujas causas são mais profundas do que o obsceno evento que o desencadeou. A fúria é real e é justificada. As ruas cheias, as greves e manifestações, as escolas, universidades, municipalidades e estações de televisão ocupadas refutaram as primitivas tentativas oficiais de descartar a explosão social como o trabalho de um pequeno número de “jovens” em Exarchia, Atenas ou outros lugares na Grécia.
O que falta ver é se o movimento que agora emerge tornar-se-á uma força política efectiva – e, se o conseguir, se será contido dentro de um horizonte liberal-reformista ou objectivará uma transformação social e política mais radical. Se o movimento tomar o caminho liberal-reformista, então o máximo que pode ser esperado será a substituição de um partido corrupto no poder pelo seu corrupto competidor, acompanhado por umas poucas concessões simbólicas embrulhadas na retórica vazia da democracia. Isto certamente seria a cortina de fumo para uma onda reaccionária de novos poderes repressivos mascarados como medidas de segurança. Só exigências radicalmente democráticas e emancipatórias, claramente articuladas e resolutamente combatidas, poderiam impedir este resultado e abrir espaço para uma ruptura num sistema global destrutivo de dominação e exploração. Como nos alinhamos entre aqueles que experimentam este sistema como a negação violenta do espírito e potencial humanos, só podemos saudar uma tal ruptura como uma reafirmação da humanidade em face de uma política repressiva de medo.
Ao observar os acontecimentos na Grécia e o discurso oficial e dos media corporativos que se desenvolvem em resposta a eles, notamos a emergência do que começa a parece como um novo consenso da elite. A “perturbação violenta” na Grécia, dizem-nos com frequência crescente, é a revolta da “geração 700-Euro” – isto é, de jovens educados excessivamente com poucas perspectivas de uma posição decente e de rendimento. A solução, segundo este conto, é revitalizar a sociedade grega através de mais ajustamentos estruturais para tornar a economia mais dinâmica e eficiente. Uma vez que todos estejam convencidos de que serão bem vindos e integrados na realidade do consumidor e premiados com poder de compra proporcional ao seu investimento educacional, então as condições desta “revolta” terão sido eliminadas. Em suma, tudo estará bem e toda a gente feliz, uma vez que alguns ajustamentos tenham tornado o capitalismo na Grécia menos desperdiçador dos seus recursos humanos.
Já vimos esta estratégia antes, em resposta aos levantamentos nos subúrbios de Paris e em torno das “reformas” CPE [1] em França vários anos atrás. Na verdade, desde a década de 1960 isto tem sido a estratégia perene e preferida pelo poder para todos os levantamentos que se mostram relutantes em desaparecer de imediato. As suas funções são claras como cristal: canalizar o movimento neutralizando-o numa direcção liberal-reformista e provocar divisões por meio de iscos e promessas. Aqueles que não morderem o isco são isolados e podem seguramente ser alvo da repressão.
Esperamos que os que estão nas ruas e todos aqueles que com eles simpatizam e os apoiam fora da Grécia perceberão esta estratégia e a denunciarão. Estamos certos de que há muito mais em jogo, e muito mais a ser imaginado, esperado e combatido do que está a ser oferecido pela pílula sonífera neoliberal. E eperamos que, no espaço aberto pela fúria real e pela coragem do povo que deixou a passividade e a desesperança para trás, este movimento social organizar-se-á numa força política durável capaz de desdenhar tais seduções recuperativas.

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Um sapatinho para Mr. Bush

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No dia 23 de Dezembro, às 18 horas, leva um sapato e deixa-o na embaixada norte-americana exigindo a libertação imediata de al-Zaidi e o fim da guerra contra o Iraque.
Muntadhar al-Zaidi, o jornalista iraquiano que no dia 14 de Dezembro atirou os sapatos ao ainda presidente dos EUA George W. Bush, continua preso e, segundo um advogado iraquiano citado pelo canal de TV France 24, poderia ser condenado a pelo menos dois anos de prisão pelo seu acto. Segundo relato do seu irmão Durgham à BBC, Muntadhar al-Zaidi teria sido torturado e em consequência disso teria uma mão e várias costelas partidas, um derrame interno e um olho ferido.
A Al-Baghdadia TV, para a qual trabalha al-Zaidi, lançou, segundo a BBC, um comunicado em que diz: «A televisão Al-Baghdadia exige às autoridades do Iraque que libertem imediatamente o seu colaborador Muntadhar al-Zaidi, de acordo com a democracia e liberdade de expressão que as autoridades norte-americanas prometeram ao povo iraquiano (…). Quaisquer medidas contra Muntadhar serão consideradas como actos de um regime ditatorial.»
Nós, cidadãos portugueses, vimos nestas vésperas de Natal depositar os nossos sapatos junto à embaixada dos EUA em Lisboa, apelando a que os Estados Unidos da América dêem imediatamente ordens aos seus capatazes iraquianos, o «governo» de Nouri al-Maliki, para que libertem al-Zaidi, símbolo da coragem dos iraquianos que se rebelam contra a ocupação criminosa do seu país pelas forças para lá enviadas pelo mesmo George W. Bush.
Se um homem que atirou (e falhou) dois sapatos ao senhor Bush devesse ser condenado, a quantos anos de prisão deveria ser condenado o senhor Bush, que ordenou a invasão e ocupação do país de al-Zaidi, causando milhares de mortos?
Fazemos votos para que o Novo Ano inspire o povo norte-americano a romper com o passado tenebroso que representou a Administração Bush e que as tropas norte-americanas saiam do Iraque para casa, não para serem transferidas para o Afeganistão.
No dia 23 de Dezembro, às 18 horas, leva um sapato e deixa-o na embaixada norte-americana (Avenida das Forças Armadas, 1600 Lisboa) com a tua mensagem de Natal para os EUA exigindo a libertação imediata de al-Zaidi e o fim da guerra contra o Iraque.
Subscritores (até agora):
Colectivo revista Rubra (revistarubra@gmail.com)
Monthly Review – edição portuguesa (www.zionedicoes.org)
Revista Shift – (www.zionedicoes.org)
Comité Palestina (palestinavence@gmail.com)
Política Operária (dinopress@sapo.pt)
Colectivo Mumia Abu-Jamal (http://cma-j.blogspot.com)
Plataforma Gueto – Olhos Ouvidos e Vozes (que inclui as organizações Nos Ki Nasi Homi Ki Ta Mori Homi, Khapaz, Laços de Rua, Encontros)
Projecto Casa Viva
Colectivo Socialismo Revolucionário
Mudar de Vida (www.jornalmudardevida.net)
Revista Vírus (www.esquerda.net/virus)
Tribunal Iraque (www.tribunaliraque.info)
José Mário Branco
João Bernardo
João Delgado
Isabel Faria

Sobre um debate em curso

A propósito dos debates em curso à esquerda, reproduzo aqui um texto que encontrei no site comunistas.info, com o qual não poderia estar mais de acordo.
1. A mera oposição entre reforma e revolução é uma discussão interessante, mas um pouco estéril. Trata-se de categorias de tipo diferente, e em qualquer circunstância adaptáveis ao tempo histórico concreto. Há momentos de reforma e momentos de revolução. A revolução aponta para um sentido de total e a reforma para um sentido de parcial. Esses sentidos, porém, não são necessariamente irreconciliáveis, nem o contrário. Há mesmo na história vários exemplos de «revoluções reformistas», ou seja, revoluções com um sentido parcial (p. ex. o 25 de Abril), e de «reformas revolucionárias», ou seja, reformas com um sentido total (p. ex. o SNS).
2. O problema é que os sentidos não são mais que isso mesmo, caminhos, tendências. O busílis da questão joga-se no fim da linha. É que, em última análise, não há parcialidades totais nem totalidades parciais. Para a definição de um posicionamento e de uma prática, a oposição que produz uma clara linha de divisão é entre o ponto de vista ideológico e o ponto de vista ontológico. Todos os modos de produção são definíveis ontologicamente, têm um metabolismo particular, e são compostos por um conjunto de actividades especializadas que dão a esse metabolismo particular um sentido reprodutivo lógico e ideologicamente sustentável. O sistema do capital é ontologicamente o sistema da produção fetichizada de valor (ou seja, de uma substância que torna comparáveis entre si as mercadorias produzida pela incorporação de um tipo particular de trabalho que se define pela sua quantidade, e não pela sua utilidade concreta – o trabalho abstracto, para usar a definição de Marx). As actividades especializadas específicas do sistema do capital, sempre submetidas à sua reprodução ontológica, são a política do Estado moderno, a economia e a cultura em sentido lato.
3. É no plano das actividades especializadas que se esgota o sentido da oposição esquerda-direita. Independentemente das especificidades que co-existem nos dois campos, trata-se, em sentido amplo, de um confronto entre modos diferentes de gestão da reprodução ontológica do sistema do capital, definidos em função das relações de classe que se desdobram e consolidam na produção e reprodução do sistema. Espero não ser mal interpretado: não pretendo resvalar para o populismo demagógico do «são todos iguais» ou considerar que não há diferenças substanciais entre esquerda e direita. Simplesmente, acho que essa oposição não é uma oposição ontológica.
4. O terreno da disputa ontológica é o da vida quotidiana (no sentido de Lefebvre), e não o das actividades especializadas. A ruptura ontológica é a superação da vida quotidiana concreta sob as condições do sistema do capital, e não a sua gestão mais ou menos «humana» através da mediação das actividades especializadas. Um dos principais problemas do marxismo histórico foi a confusão entre «o capital» e «os capitalistas». Essa confusão esconde o facto de serem «os capitalistas» e «os proletários» as duas classes do capital, daí decorrendo que a superação dos capitalistas implicará a superação também dos proletários. Desse equívoco resultou também que a expropriação da propriedade privada dos meios de produção (ou a sua regulação pelo Estado) e a tomada revolucionária (ou eleitoral) do poder do Estado se tenham tornado o alfa e o ómega do anti-capitalismo (mais radical ou mais social-democrata) e que a luta de classes tenha sido sempre orientada por esses objectivos. A luta de classes no contexto histórico do sistema do capital só será verdadeiramente o motor da história na medida em que coloque como objectivo a superação ontológica da sociedade de classes. Tendo em consideração as configurações concretas da vida quotidiana, só o proletariado tem o potencial de formação de consciência para o questionamento ontológico do sistema do capital, ou seja, o potencial de formulação de uma negatividade ofensiva que, a um passo, supere o velho (e portanto se supere também a si próprio) e construa o novo.
5. Julgo também que é por aí que se explica o beco sem saída em que sempre se coloca a esquerda quando passa a vida discutir os problemas tácticos. A oposição entre uma postura de oposicionismo político como mecanismo de acumulação de forças a serem utilizadas «quando for o momento» e uma postura que procura aproveitar todas as oportunidades para avançar politicamente independentemente da «relação de forças» é uma falsa oposição (parecida como a oposição entre reforma e revolução) e traduz duas posições frágeis e perdidas no emaranhado das suas ambiguidades estruturais. Não digo que essa discussão não seja útil para estabelecer posicionamentos comuns de combate contra a direita, mas ao esgotar-se aí, auto-exclui-se do terreno onde as dinâmicas da superação ontológica radical podem exprimir-se.
6. Sei que um dos argumentos contra o ponto de vista ontológico é o de que as possibilidades práticas actuais se limitam à implementação de um programa político de esquerda que alivie os trabalhadores das nefastas consequências da selvajaria capitalista. Obviamente que eu próprio ficaria muito feliz se pudesse pagar substancialmente menos nas prestações bancárias mensais, estar seguro que na velhice terei uma pensão digna, saber que vou ao hospital e tenho um atendimento de qualidade e gratuito ou que a organização social me faculta a possibilidade de estudar ao longo da vida. Esse argumento levanta-me, porém, três problemas: (1) já se colocou, verdadeiramente, a esquerda o problema das «possibilidades práticas actuais»?; (2) como seria possível concretizar esse programa, em condições de perenidade, num contexto que o capital é crescentemente incapaz de retomar o processo de valorização auto-expansiva e, portanto, de contrariar a queda tendencial da taxa de lucro?; e (3) se, porventura, fosse hoje possível concretizar um tal programa, em que medida é que isso não se traduziria (como sempre aconteceu historicamente) em mais uma fase de modernização do sistema do capital, e, nesse sentido, de agravamento das suas contradições?
7. Outro argumento utilizado costuma ser o de que se conseguirmos ocupar posições vantajosas no aparato estatal, conseguiremos avançar depois para fases de luta mais avançadas. Mesmo que tudo o que escrevei acima não passe de uma série de disparates, podemos pelo menos constatar que isso nunca aconteceu. Por outro lado, levanta-se o problema do tempo histórico disponível para fazer isso. É que, nas actuais condições da crise estrutural do sistema do capital, cada vez mais as únicas respostas que este sistema consegue dar são o agravamento brutal da exploração e a guerra. A profecia afinal cumpre-se: socialismo ou barbárie, lembram-se?