A outra face não

O sectarismo é uma tentação demasiado irresistível quando falo do Daniel Oliveira para poder resistir. Este e o Rui Tavares tentaram transformar um debate sobre a(s) revolta(s) na Grécia numa extensão da discussão sobre a violência no combate político. A leviandade dos argumentos – travando o debate como se fosse na tribuna pública do “Eixo do mal” – disfarçada pela convicção esforçada não esconde as banalidades transformadas em grandes verdades políticas. O conceito de violência de Daniel Oliveira baseia-se na capacidade/possibilidade de impor medo, escamoteando qualquer utilização da violência em contextos de resistência ou de confrontação com um inimigo que utiliza as mais sofisticadas tecnologias repressivas. Provavelmente porque Oliveira vê a Política como um jogo onde adversários disputam o Poder e não como uma transversalidade da realidade em que a disposição do Poder implica confrontação (violenta ou pacífica) no sentido de diminuir a efectividade e/ou destruir os aparelhos de repressão. A resposta parece emergir de uma qualquer nebulosa criativa, de práticas que Daniel Oliveira nunca explica quando de forma maniqueísta diferencia violência e criatividade e, também, inteligência e violência. As banalidades não são menos inócuas quando repetidas convictamente. As práticas marginais ao Estado de Direito parecem ser a besta negra de Daniel Oliveira, talvez porque, ao contrário dos que lutam na Grécia, em Oaxaca ou no Nepal, não vê construção política e disposição do Poder para além do Estado. Parece ser sempre um problema de governamentalidade.

Também foi acidente

“Muitos de nós sentiram no corpo as cassetetadas da polícia (…) sentiram as balas passarem bem perto, muitos pensando que seriam de madeira ou apenas de pólvora seca. Não eram…provam-no os buracos das paredes e das janelas – prova-o sobretudo a gravidade do estado de saúde de um nosso colega atingido a tiro, a quem já teve de ser retirado o baço e o rim esquerdo. (…) Mas quem busca a defesa da polícia? A quem é que ela defende? Não defende concerteza os operários e camponeses quando querem aumentar os seus salários e melhorar o seu nível de vida. Não defende concerteza os estudantes quando querem que a universidade se abra a todos os jovens do país, e não apenas aos filhos dos ricos” (“A Verdade”, estudantes reunidos em assembleia magna na Universidade de Coimbra 15-5-1970)

“O rochedo de Sísifo, mais uma vez, rolou pela encosta abaixo.”JM Branco

O José Mário Branco demitiu-se do Mudar de vida. As razões que levanta (dirigismo, sectarismo, espirito de directório…) rementem para as práticas dos dois partidos da esquerda parlamentar; o espelho crítico não é o instrumento preferido da organização política dos partidos: existem os que assumem a displina interna como elemento unificador (e de dominação) que na sua lógica celular mantém os militantes filialmente dependentes do seu querido líder e do seu comité de sábios; para além destes, existem os que criticam o estalinismo dos outros e que me fazem sempre pensar neste video.

E o Louçã não me faz lembrar a minha avó.

Isto teve foi um Regime Comunista

Numa reportagem no DN sobre a morte de um padre salazarista, o cónego Melo, famoso por ser anticomunista e próximo do MDLP (ligado ao atentado contra o padre Max), uma iluminária do jornalismo introduz o tema da seguinte forma “Figura controversa da sociedade portuguesa, admirador de Salazar e feroz opositor do regime comunista no período pós-25 de Abril…”

A jornalista, Joana de Belém, estica a reprodução do discurso contra-revolucionário até a um ponto que nem os responsáveis do 25 de Novembro e da “normalização democrática” ousaram fazer. Mais adiante no artigo retoma a argumentação habitual assente num dos mitos basilares do discurso sobre processo revolucionário português : “…o PCP, que à data tentava implantar o comunismo em Portugal.”

Não sei se a incoerência entre a existência de um Regime Comunista e a mera tentativa de implementação resulta da ignorância e da inanidade do jornalismo ou se do reaccionarismo orgânico dos meios de comunicação. No final de contas um e outro são variáveis equivalentes da cloaca que são os grandes grupos de comunicação.

CME – Cultura

A Câmara Municipal de Évora pretende criar uma empresa municipal que se responsabilize pela gestão dos espaços culturais da cidade. A política do presidente – José Ernesto Oliveira, um convertido socialista – pressupõe a viabilidade económica (e comercial) dos eventos programados como o factor determinante para a sua realização.

Entretanto surgiu uma plataforma de contestação a esta pretensão, que no dia 9 de abril pode tornar-se efectiva, criando uma petição para além das acções locais que tem convocado.
“Confrontados com a proposta da criação de uma empresa municipal para a gestão e programação de equipamentos Municipais tão distintos como o Teatro Garcia de Resende, a Arena d’Évora, o Palácio D. Manuel, o Convento dos Remédios, as Igrejas de S. Sebastião e S. Vicente, vimos manifestar a nossa preocupação pelo conceito economicista que reduz a cultura a um mero negócio presente no estudo de viabilidade económica que sustenta essa intenção do executivo camarário. E a Cultura não é um negócio! “

Não há só um Grémio

O o que está a acontecer no Grémio remete para o que poderá vir a acontecer com a Sociedade Harmonia Eborense. A S.H.E. tem sede na Praça do Giraldo e ocupa um dos principais edificios da cidade, paga a renda à mesma família de proprietários desde 1902 e não fez obras não autorizadas. A Associação é um dos principais centros de actividade cultural da cidade, alguns dos que lerem este post já estiveram na Harmonia a ver um concerto ou numa festa, já tocaram ou representaram numa das suas salas. A associação não tem uma vocação comercial, preocupa-se em subsistir com a exploração de um bar e em manter as actividades que programa.

a Harmonia fica no primeiro portão à esquerda)
No mês de Outubro a ASAE fechou o bar e agora, por intervenção da S.R.U. Évora Viva, os seus associados correm o risco de ser escorraçados da sede que a colectividade ocupa (perdoem, arrenda) desde 1902. A razão é a reabilitação urbana e o argumento – ou a verdadeira razão – é a incapacidade da S.HE. de rentabilizar o edificio de forma a poder fazer as obras necessárias para salvaguardar a fachada turistica da Praça do Giraldo. As S.R.U.s – que têm na autarquia o elemento mais activo – ao funcionarem numa lógica de negócio com privados remetem a reabilitação para uma condição indissociável da reconversão comercial das práticas sócio-económicas do centro das cidades. Entretanto os proprietários pediram a alteração do direito de utilização do edificio para nele se poder construir uma pousada. É o início de um processo que parece ter um fim previsto.

FIKE – Cinema na Província

FIKE – Festival Internacional de Curtas Metragens de Évora
“O mês de Novembro é marcado pelo regresso do FIKE 2007 – Festival Internacional de Curtas Metragens de Évora. O Auditório da Universidade de Évora será o centro do Festival, que promete ser o maior e o mais participado de sempre. De 16 a 24 Novembro, 101 filmes dos 5 continentes competirão pelos Prémios de Ficção, Animação e Documentário.”


(imagem do filme “My Kaboul”)

Para um activista (re)conhecido

O que irritará tanto Daniel Oliveira em Hugo Chavez? Só por desinformação ou enviesamento propositado se pode compreender que o famoso colunista (e activista) arremeta com tal despropósito contra o presidente venezuelano. Dizer que Chavez prefere o insulto à discussão política é querer inutilizar o debate em torno do processo venezuelano. Aliás, é tomar o caminho da demagogia e da crítica superficial. Chavez e os governos do Equador, Bolívia e Nicarágua trazem uma nova perspectiva crítica do neoliberalismo enraízada no próprio Estado. Os processos são discutíveis, as ideias e os resultados são discutíveis. Mas será que Daniel Oliveira perdeu mais de 10 minutos a ouvir Hugo Chavez?

Millenium BCP – Uma solução

Para que o Jardim Gonçalves, o Paulo Teixeira Pinto e a camarilha Opus Dei não tenham tantas dores de cabeça deixo aqui uma sugestão.

“ Nationalisation of the banks has only to be decreed and it would be carried out by the directors and the employees themselves.[…] Of course, it would be the managers and the higher bank officials who would offer resistance, who would try to deceive the state, delay matters, and so on, for these gentlemen would lose their highly remunerative posts and the opportunity of performing highly profitable fraudulent operations. That is the heart of the matter. […] It would be enough, for example, to organise the poorer employees separately, and to reward them for detecting fraud and delay on the part of the rich, for nationalisation of the banks to be effected as smoothly and rapidly as can be.”
Lenin,“The Impending Catastrophe and how to Combat It – Nationalisation of the banks” in Revolution at the Gates (Edited by Slavoj Žižek)

À volta dos balcãs – Mostar

Quem ouve falar de Mostar ouve falar da ponte velha. O turismo da cidade, bem como o seu espaço urbano, desenvolve-se em torno da ponte que em 1993 foi destruída durante uma ofensiva conjunta do JNA e das milícias servo-bósnias. A ponte, repleta de turistas, impressiona muito menos que os cemitérios que cresceram espontaneamente em muitos parques e jardins da cidade. Não é preciso estar muito atento para reparar na constância das datas inscritas nas lápides tumulares. Nos anos de 1992 e 1993 a guerra fez uma colheita sangrenta. Os nomes dos mortos dizem-nos quem eram, a maioria eram bosniaks – bósnios muçulmanos – que morreram em combate ou como vitímas ausentes da guerra total que arrasou a Herzegovina. A batalha de Mostar marcou para sempre a paisagem da cidade; os edifícios destruídos e as marcas de metralha e de tiros de canhão dão uma estranha ambiência à cidade. O centro perfeito e arrumado contrasta com a envolvência urbana que permanece emersa em escombros e estuque fresco.

(Gabrijel Jurkić)
Os panfletos turísticos da cidade convidam-nos a visitar mais de 20 locais. Segundo um palavroso folheto que me veio parar às mãos havia um interessante “Cemitério Memorial dos Partizans” que merecia ser visitado, a fotografia era convidativa, mostrando um contraste cuidado entre a relva verde vivo e as lápides brancas e polidas. Chegar ao local é uma desolação. O lixo vê-se mais do que a relva, os cacos de garrafas de cerveja misturam-se com os maços de tabaco vazios e os restos das lápides despedaçadas. O memorial é um caos de lixo em que a memória ficou algures em 1990. A metáfora perfeita do desmembramento mórbido da Jugoslávia.

(Mostar Reunion Band)

À volta dos Balcãs – Belgrado

Comecei na muito cumpridora Eslovénia. Tudo funciona e os cada vez mais numerosos bandos de turistas que passam por Ljubljana agradecem o rigor germânico da cidade. Os preços subiram abruptamente desde a minha última passagem pela cidade no inverno de 2006; há quem diga que a entrada em vigor do euro em Janeiro de 2007 teve alguma coisa a ver com isso. Não custa acreditar.

As dez horas de comboio que fazem a ligação entre Ljubljana e Belgrado perdem o desconforto quando entramos no perímetro da capital sérvia. Os bairros de lata que se erguem lado a lado com edifícios modernos, construídos depois dos bombardeamentos de 1999, dão uma noção de caos urbanístico e social. A maioria dos habitantes destes subúrbios degradados são ciganos, albaneses e búlgaros. É nesta periferia de casas improvisadas que mais percebemos a situação de estrangulamento económico em que vivem os sérvios.

Quando se avança para o centro da cidade começa a perder-se a noção da pobreza. Primeiro são os bairros organizados e esquemáticos construídos durante o Socialismo e depois as ruas ancestrais da Belgrado dos impérios. Os salões de beleza e as padarias são os letreiros mais visíveis nas ruas da cidade que confluem para uma grande avenida central. Alguém que chegasse directamente à avenida principal (de que não vou tentar reproduzir o nome em cirílico) julgar-se-ia numa qualquer parte do mundo, indefinida e indeterminada, tal a profusão de marcas da globalização. A cidade, barulhenta e buliçosa, sublima-se quando nos enredamos nas ruas estreitas de empedrado que se afastam do centro. Os carros – muitos yugos e wolkswagens dos anos 80 – ocupam quase todos os espaços e é difícil não temer ser esmagado por um dos inúmero veículos que percorrem a cidade a uma velocidade vociferante.

Os habitantes de Belgrado que conheci são muito orgulhosos da sua cidade e a rua é o espaço onde tudo se vive. O adormecimento pós-político ainda não atingiu a Sérvia. A situação económica e o Kosovo obrigam a que a política seja um tema de conversa opressivo no espaço público. A política é ostensiva e proficuamente iconográfica. A cara de Tito é omnipresente – t-shirts, grafitis, pins, cartazes; o druže Tito é inesquecível e a nostalgia da Jugoslavia impressiona; quantas vezes ouvi dizer que no tempo da Jugoslávia (e do Socialismo) o trabalho não faltava. Contudo, também a iconografia nacionalista sérvia se nos impõe. A frase “Karadzic – um herói sérvio” aparece um pouco por todo o lado, muitas vezes acompanhada pela fotografia do foragido servo-bósnio e as bandeiras -do país estão um pouco espalhadas por todo o lado.
(continua…)

Lisboa vista do Alentejo

Olho para a campanha das eleições intercalares em Lisboa e tudo me parece megalomano e sem sentido. A política foi-se, esfumou-se algures entre o Parque Mayer e o Túnel do Marquês, ficaram as discussões judicialistas e as grandes tiradas inócuas. Dos doze candidatos poucos parecem conhecer Lisboa ou saber o que significa viver na cidade. A maior parte deles faz parte daquela burguesia que nunca acompanha os lisboetas na vida quotidiana. Como se pode governar uma cidade que não se vive?

Era uma vez um Regime

“A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência
nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios
basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir
caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em
vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.”
(Preâmbulo da Constituição da República Portuguesa)

Este foi o resultado da negociação do modelo de Regime político que vigoraria em Portugal depois do entendimento entre Cunhal e Soares no 25 de Novembro de 1975. Um Regime de pretensões e sem real capacidade para cumprir os designios que se acordaram mas que nunca se pretendeu perseguir. As negociações resultaram na (inevitável) ironia de ter um preâmbulo socialista para um regime político capitalista. As revisões constitucionais vieram e o preâmbulo foi ficando. Agora chegam o livro branco, a flexigurança e outros direitos modernizados. Tudo como dantes.

Oligoropa

O Presidente da República anseia, quase sorrindo, que o futuro tratado constitucional europeu fique conhecido como “Tratado de Lisboa”. O Primeiro-Ministro macaqueia a pior demagogia nacionalista ao afirmar que não se deve discutir para não diminuir a capacidade negocial do País.

Para além disso, há uma crença pos-política na Europa. Uma ideia burocrática de uma Europa cupular, baseada em instituições não democráticas. Quem se opõe a estes modelos por convicção de que a democracia não se esgota na teoria política liberal oligárquica é apodado de anti-europeísta e outros epitetos sonantes. Ou temos a Europa do directorio ou não temos nenhuma. Parece que nos querem negar que , na mera lógica das relações internacionais, a ideia de Europa tenha sido pensada e repensada de diferentes modos, de Lenin a Goering. Infelizmente esta Europa consegue parecer-se muito mais com a de Goering.

CIA: O que toda a gente sabia

O National Security Archive organizou um arquivo informativo de 693 páginas, a ser publicado em breve, em que se descrevem as sistemáticas violações dos direitos americano e internacional por parte da CIA.

O estudo incide sobre um longo período de abusos de poder (dos anos 50 a meados dos anos 70) em que se organizaram sequestros, tentativas de assassinato(Fidel Castro, Patricio Lumumba), financiamento de estudos sobre alterações de comportamento humano, violação de correspondência, escutas abusivas, buscas ilegais, elaboração de fichas pessoais sobre cerca de 10 000 activistas contra a guerra do Vietname…
Precisaremos de esperar mais 50 anos para saber que ainda é assim?