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antisemitas, racistas, a mesma luta

Curioso como as coisas se repetem ao sabor do vento e das conveniências.

Jean-Luc Mélenchon, o presidente do Partido da Esquerda francês, antigo candidato da frente eleitoral de esquerda às presidenciais e conhecido pelas suas afirmações contundentes, foi esta semana massacrado nos media franceses sob acusação de antisemitismo a respeito do ministro francês da economia.

Em resumo, foi isto: O senhor Mélenchon disse numa tribuna do congresso do seu partido: “Moscovici (o ministro francês da economia que votou o confisco dos depósitos aos cipriotas) já não pensa em francês mas na língua da finança internacional”. Como o senhor Moscovici é judeu e como, evidentemente, todos sem excepção estamos embebidos no antisemitismo cultural acerca da raça judaica e do seu amor ao dinheiro que não tem pátria, eis que se torna explícito o antisemitismo de Mélenchon, imediatamente identificado e amplificado pela AFP (a LUSA francesa), condenado por dois fazedores de opinião de serviço e devidamente amplificado pela esmagadora maioria dos órgãos de mass media e pelas redes sociais. Quando vem o contraditório, já não há volta a dar.

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Confuso? Inverosímil? Comédia? Farsa?

Faz lembrar aquelas palavras de um famoso discurso de um certo secretário geral de uma certa central sindical portuguesa que rezavam assim, testemunhando, evidentemente, um racismo embebido e tão amplamente condenado: “Daqui a pouco vêm aí outra vez os três reis magos, um do Banco Central Europeu, outro da Comissão Europeia e o mais escurinho, o do FMI, e já se fala em mais medidas de austeridade”. Afinal, também acontece em França. E cheira-me que vamos ter próximos capítulos. Quem será a vítima?

colaboracionismo

Shit Chess

face à revolução neoliberal em curso, o que dizem e fazem os políticos membros do partido socialista português? o colaboracionismo do social-liberalismo europeu com o neoliberalismo espelha-se na miséria política do PS português face ao FMI e à União Europeia. Qual o projeto do partido socialista português para o futuro do País? Afinal, qual é a estratégia política do PS português?

  • a favor da austeridade, contra o memorando, sem renegociação da dívida
  • contra a austeridade, pelo memorando, pela renegociação da dívida
  • a favor da austeridade, contra o memorando, pela renegociação da dívida
  • contra a austeridade, pelo memorando, sem renegociação da dívida
  • a favor da austeridade, pelo memorando, pela renegociação da dívida
  • a favor da austeridade, pelo memorando, sem renegociação da dívida
  • contra a austeridade, contra o memorando, sem renegociação da dívida
  • contra a austeridade, contra o memorando, pela renegociação da dívida
  • nenhuma das anteriores
  • todas as anteriores

O fenómeno que explica a sobrevivência destas amibas políticas nunca deixará de me intrigar.

comunista

Os militantes do partido comunista francês andam por estes dias a preparar um congresso. Vivem agora o dias de saber o que fazer com a dinâmica que criaram na esquerda radical com a Frente de Esquerda. O terreno é favorável, a crise vai-se instalando, o PSF está no poder e vai sofrer rapidamente o desgaste das políticas social-liberais. O PCF recuperou a iniciativa política, que lhe está a proporcionar um relançamento orgânico, pelo que se percebe cá de longe. Estas coisas alimentam-se.

Por cá, como sabemos, a iniciativa à esquerda tarda em descolar e o reforço orgânico das componentes da esquerda radical é uma miragem. E com isto ficamos nós, comunistas, na falta de voluntarismo pessoal que nos redima a consciência perante as nossas responsabilidades históricas, ficamos nós, dizia eu, um bocado desalentados com o aparente vazio de estratégia das nossas lideranças políticas para fazer frente à revolução neoliberal em curso.

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Por isso é estimulante ver o Partido Comunista Francês com o desplante de convidar os jornalistas para sepultarem o funeral do partido. Por outras palavras, o PCF convocou uma conferência de imprensa para informar os jornalistas que ia enterrar o seu próprio enterro na ocasião em que o seu Sec-Geral dava as boas vindas a umas centenas de novos militantes. Sinto aqui o espírito de Kornakkis.

óóóó—óóóóóó óóó—óóóóóóó óóóóóóóó. (O vento lá fora.)

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A montagem mal feita.

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A realidade.

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Outra, aparentemente, real.

Tava a pensar dar um salto a Sortelha antes da passagem de ano numa voltinha que vou dar a duas ou três Aldeias Históricas mas depois de ver isto já não sei se vou…

(obrigado ao anónimo que colocou a sua cultura estética ao serviço do povo e descortinou uma falsificação na primeira fotografia, o que muda tudo)

o herói do ano 2000

Talvez querendo surfar a onda desta condenação e furtar-se à má imprensa em tempo de eleições autárquicas, o vereador da mobilidade da Câmara de Lisboa antecipou o projeto de proibir a circulação de carros matriculados até 31 de dezembro de 1999 entre o marquês de pombal e a baixa da cidade. Isto parece ser um caso interessante de como uma boa ideia se transforma numa má política, ou de como uma má política dá cabo de uma boa ideia.

À partida qualquer pessoa concordará que é boa ideia. Proibir a circulação de automóveis no centro das cidades é uma das medidas em cima da mesa para reduzir a poluição e a dependência de combustíveis fósseis, no longo prazo. A comissão europeia, por exemplo, anda com ideias. A esses benefícios, juntem-se a diminuição do ruído, a mutualização dos benefícios com a valorização dos transportes públicos, as oportunidades para remodelação urbana etc.

O vereador da mobilidade de Lisboa consegue estragar a boa ideia transformando-a em bandeira de uma política inexistente. E isto tem alguns problemas. Em primeiro lugar, não foi dito quantos automóveis são anteriores a 2000. Não se sabe quantas pessoas serão afetadas e qual a redução esperada de partículas.

Depois, olhando para aquela zona, desde as restrições à circulação no terreiro do paço-ribeira das naus que a única iniciativa camarária nesta área foi a interdição de circulação de automóveis matriculados até 1992, sob pretexto de reduzir a poluição atmosférica, e as alterações aparentemente positivas à circulação no marquês. Olhando para o resto de Lisboa, quem se lembra de alguma medida para reduzir a circulação automóvel e promover a mobilidade sustentável em Lisboa, além das citadas, em 5 anos e tal de mandatos camarários (não vale falar das ciclovias, que são feitas para passear mas não para utilizar e de coisas que não saíram do papel)?

Depois ainda, quem quer reduzir o tráfego introduz barreiras físicas/horárias ao automóvel, reduz espaços de estacionamento, reabilita o espaço público para a mobilidade pedonal e de outros meios suaves, dá condições de circulação ao transporte público etc, de forma integrada e planeada nas zonas críticas da cidade. E, no meio disto tudo, talvez apenas depois, faz o que o vereador quer fazer agora de forma desgarrada. Mas como reduzir consequentemente o tráfego quando temos o centro da cidade qual queijo suíço cheio de parques de estacionamento que é preciso rentabilizar?

Depois ainda, é incompreensível que quem quer apenas reduzir a poluição não faça qualquer distinção entre veículos a gasolina e a gasóleo – considerado recentemente pela OMS como um produto cancerígeno, – penalizando estes últimos. Claro que não cabe à CML legislar, mas também não lhe deviam caber vanguardismos absurdos desenquadrados da lei (que incentiva à aquisição de veículos diesel). Se fosse como devia ser e o diesel fosse penalizado, tínhamos de olhar para os autocarros da carris e estava o caldo entornado, com uma empresa pública hoje cheia de dívidas que desbaratou uma frota de elétricos preciosa, fechando 100 quilómetros de circuitos para apostar tudo em autocarros a diesel.

Finalmente, a questão da igualdade, ao discriminar entre proprietários de automóveis antigos e recentes, introduzindo do mesmo passo um incentivo à substituição de automóveis velhos por novos. Até faz lembrar o programa sócrates de subsídio à indústria automóvel com estímulo às importações provenientes da alemanha, frança e japão, também conhecido como programa de incentivo ao abate de automóveis antigos. Pensamos sempre no proprietário individual, e aí há um problema, mas quantos negócios dependem da utilização de viaturas anteriores ao ano 2000? É no (quase) pico da recessão económica que esta gente vai trocar de carro? Ou então passam todos a dar a volta, ajudando a entupir outras vias nas imediações.

uma história sobre o bloco que vai fazendo a história do bloco

Ligeiramente defraudado por Jéan Luc Mélenchon e Alex Tsipras (dois terços do cartaz) se terem baldado ao comício de abertura do congresso do bloco de esquerda, lá fiquei até ao fim para ouvir o Louçã, até porque depois ia beber uns copos com alguma malta que por ali andava.

Ouviu-se a Alda Sousa, a alemã do Die Linke, uma francesa do Parti de Gauche, a Marisa Matias, o Tsipras do Syrisa em vídeo, o Caio Lara da Izquierda Unida e o Louçã para fechar.

Como não podia deixar de ser, o comício ficou marcado por muita pancada nos inimigos do momento (Merkel, Passos e tutti quanti) e muita pancadinha nas costas entre partidos da esquerda socialista (alguém lembrou que durante todo o comício – e 7 oradores – só por uma vez se ouviu a palavra socialismo, e nem uma vez a palavra comunismo).

Curioso curioso foi no fim dos discursos, e após tanta demonstração de camaradagem e espírito de luta, toda a gente se levantar e desmobilizar sem mais. Uns quantos maduros ainda trautearam qualquer coisa parecida com a Internacional, mas rapidamente se calaram.

(alguém perguntou que partidos são estes que se reunem num evento de massas para afirmar a solidariedade internacionalista/operária e se esquecem do grande e único hino do movimento operário usado há mais de cem anos para celebrar a sua luta e unidade)

(alguém respondeu que a organização do comício tinha abordado o assunto e tinha decidido não passar a Internacional por não terem chegado a acordo sobre qual das versões usar – isto falando da letra, claro, porque a música é sempre a mesma. Para quem não sabe, as letras são diferentes porque cada grupelho – comunistas, socialistas e anarquistas, todos de vários matizes – tem a sua própria letra para a Internacional, normalmente por razões identitárias do seu grupo em algum momento da história do movimento operário, resumindo-se as diferenças a algumas vírgulas e meia dúzia de palavras nas três quadras normalmente cantadas em eventos públicos)

(parece que ninguém se lembrou que podiam passar apenas a música, e cada um cantasse o que quisesse…e foi assim, fazendo tábua raza da memória, que o primeiro comício internacional da esquerda europeia em Portugal acabou ao som do António Variações na versão Humanos – Muda de Vida, cuja letra, da autoria do próprio, será sem dúvida muito mais consensual e apropriada do que a da Internacional)

A “Oposição” no governo e em greve no parlamento

A polícia grega disparou gás lacrimogéneo e canhões de água para dispersar os milhares de manifestantes que, esta quarta-feira, se concentraram em frente ao Parlamento, em Atenas, onde decorria a votação do novo pacote de austeridade.

A violência eclodiu quando um grupo de manifestantes tentou passar a barreira de segurança policial para entrar no Parlamento, onde o primeiro-ministro Antonis Samaras deverá fazer passar o novo pacote de medidas de austeridade, apesar dos esforços do líder da Oposição que integra a coligação governamental.

Entretanto, os trabalhos parlamentares foram interrompidos com a entrada em greve dos trabalhadores do Parlamento e dos legisladores da Oposição.

Diz-nos a Wikipedia que “A Oposição” na Grécia é normalmente o segundo partido mais votado para o parlamento grego, sendo neste caso Tsipras o atual líder da “Oposição”.

Não há como não nos sentirmos interpelados por esta atuação do Syriza no governo, no parlamento e fora dele, quiçá mesmo atirados para uma espiral de questionamento – Tática revolucionária? Oportunismo? Situacionismo de novo tipo avant la lettre?

Uma coisa é certa: perante estas e outras originalidades da situação grega, não restam dúvidas que Giorgios Kornakkis faz falta, faz muita muita falta.

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Hoje ouvi de um grupo de funcionários públicos que trabalha comigo a justificação que os propagandistas de serviço lhes deram para não aderirem à greve: que não há alternativa a isto e o melhor é não fazer ondas. Acreditam piamente que o diabo é a Grécia. Ganham todos acima da tabela. Têm todos situações laborais ultra-seguras. O conceito de luta corporativa diz-lhes muito, sobretudo para atirar pedras a outros. O conceito de luta de classes não lhes diz nada. Não sabem para que serve o conflito social, não sabem o que é relação de forças. Acreditam que “temos” uma culpa colectiva no que está a acontecer. Votam, votaram, uns aqui e outros ali, mas 4 meses depois dão tanta importância ao voto como o governo. Valorizam a democracia representativa nos seus procedimentos, e acredito que até arriscassem a vida por ela. Não têm nenhuma intervenção política ou associativa. São incapazes de um gesto de revolta que não seja dar uma no cravo e outra na ferradura à mesa do restaurante. Nenhum fará greve, assim como 98% dos trabalhadores do instituto.
Dão tudo de mão beijada a quem me/nos/vos leva os direitos e o dinheiro e nem sequer percebem a responsabilidade em que incorrem. Benditos os pobres de espírito, porque deles é o nosso reino.

o golfe, instrumento de luta contra o subdesenvolvimento

O Estádio Universitário de Lisboa está em risco de fechar parcialmente em setembro por não haver dinheiro para manutenções de alguns equipamentos. Descontando o facto de esta ameaça ser provavelmente uma guerrinha da direcção do Estádio com a tutela para se arranjarem os cobres que faltam, não passa despercebido a quem por lá passe o monumental elefante verde que nos últimos anos se tem vindo a construir: nada menos que um campo de golfe, a ocupar uma área de 7 hectares. O autor do projecto? Um tal de João Roquette (onde é que eu já ouvi este apelido?) – Presidente do Estádio Universitário de Lisboa. Algo me diz que este rasgo de visão (muito raro em Portugal) do sr. Roquette tem tudo a ver com o que ele próprio faz e acha que os outros devem fazer e menos a ver com um planeamento integrado da prática desportiva em meio universitário dirigido a quem estuda nas universidades e à comunidade.
O golfe, cujo valor académico foi recentemente reconhecido pela Universidade do Algarve:
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Sim, golfe, esse desporto de massas, com milhares de praticantes entusiastas nas camadas jovens em todo o país, conhecido pela sua acessibilidade económica e sustentabilidade, um desporto em que em boa hora o Estado decidiu investir. Que isto se passe ao mesmo tempo que são cortadas bolsas de estudo a torto e a direito e que o próprio Estádio Universitário ameace fechar equipamentos e actividades parece não incomodar ninguém. Talvez fosse a pensar nas centenas de futuros praticantes de golfe formados na academia de golfe do Estádio Universitário de Lisboa que alguém decidiu manter-lhe o IVA em 6%.

Eles ganharam

Ensinam-nos que a salvação está no dinheiro, na posição, no estatuto, está na promessa e no próprio facto e movimento da ascensão. Mas não. A realidade mostra-nos que este poder raramente move montanhas e quase nunca move indivíduos. Contra todas as promessas, contra todas as evidentes possibilidades, o falhanço é o dado mais óbvio e mais negado. Que não haja dúvidas: o falhanço é tua responsabilidade. E todos somos culpados de alguma coisa. A culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias. A culpa é tua e só tua se chegaste aos 35 anos e não cumpriste os sonhos que te plantaram na cabeça, emprego, filhos, família, chegar ao meio do mês sem pensar em dinheiro, ir de férias, a promessa da classe média já ali ao virar da esquina e um futuro radioso na expectativa da juventude eterna. Era tão bom não era?
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E então surge a cultura da culpa que nos diz que, além de sermos todos culpados, nós os falhados, não podemos ser culpados sozinhos. A culpa aguenta-se sempre melhor se for partilhada. Para quê? Para ser expurgada em conjunto, uma expiação solidária? Para a negarmos? Não! Para transferir a própria culpa. Na ideologia do insucesso, os outros são sempre mais culpados que eu. Pois se não fizemos nada por isso, tinhamos tudo o que era preciso, mas outros filhos da puta atravessaram-se. Se um é culpado por ser precário, o outro é muito mais culpado por ter um emprego à moda antiga, com direitos, com privilégios. Se eu sou culpado por não receber o que mereço, o outro é muito mais culpado por receber o que sem dúvida não merece. E por aí fora.
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O que é preciso é abrir oportunidades para o sucesso. Dinamizar a economia, empreender. Sermos os nossos patrões. Investirmos no nosso futuro. Sermos melhores. Melhores que os outros. Os falhados. O que é preciso é indignarmo-nos, muito, e pedirmos que olhem para nós, que nos arranjem um emprego, que damos conta do recado e isto vai ser um sossego. O que precisamos é de oportunidades. E melhores políticos. Precisamos de gente séria e competente a governar. Sim, indignemo-nos. Muito.
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Eles ganharam e conseguiram fazer-nos esquecer.

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Acabei de comprar carro, com a noção de que vou tê-lo estacionado 5 dias por semana e 250 dias por ano porque só o quero usar em fins-de-semana esporádicos e férias.
Falei com todos os amigos disponíveis para entrarem numa de partilhar o carro e não consegui que alguém aceitasse fazê-lo (e bem entendido, os custos também). Também tentei que um amigo que está há meses a estudar fora e só fará tenções de regressar daqui a uns dois anos me alugasse o seu carro para os tais fins-de-semana. Recusou e o carro está estacionado meses seguidos em frente à sua casa.
De repente parece que só há dificuldades em coisas que podiam ser muito simples. A visão proprietária não devia levar a melhor sobre a visão utilitária das coisas. Ao contrário do que nos diz a doutrinação publicitária, não somos o que temos; somos, quando muito, o que fazemos. Consumir de forma mais eficiente não devia ser tão difícil, no limite uma impossibilidade.
Com todos os custos dispensáveis que isso implica para os indivíduos e para a vida colectiva: custos com seguros e manutenção multiplicados, multiplicação de automóveis a roubar espaço nas cidades, multiplicação da vida inútil dos automóveis parados…
É pena, porque continuo a olhar para esta decisão de comprar carro como uma irracionalidade (des)necessária. A partilha de carro (“car-sharing”, na terminologia pacóvia em voga) devia ser mais comum.
O carro já o tenho, se alguém estiver interessado em partilhá-lo, apite.

lendas da cleptocracia lusitana – 1

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Eu peço desculpa por fazer aqui um link para o DN mas tem mesmo de ser.
Esta notícia é inacreditável. Um grupelho presidentes de câmara e outros cleptoautarcas (que por sinal nem ficamos a saber quem são depois de lida a notícia) abotoou-se com (pelo menos) 25 milhões de euros através de uma associação de municípios e desenvolvimento regional que não apresentou contas durante 4 anos e apesar disso foi considerada de utilidade pública pelo Governo. Não há rasto dos “projectos” que desenvolveram. Ainda se permitem falar para os jornais como se de nada fosse.
Sérios candidatos ao prémio Lendas da Cleptocracia Lusitana.

e assim acontece

Nos 15 minutos em que estive na mesa de voto vi:
um casal de meia-idade que desistiu de votar por problemas com os cadernos eleitorais;
quatro pessoas que foram dirigidas para outras mesas porque ao contrário do que pensavam não estavam inscritos ali (e pergunto-me se depois votaram mesmo);
um outro casal de velhotes que, ao ser informado que tinha de apanhar o comboio para votar e ainda andar uns 10 minutos para chegar à sua eventual mesa de voto noutra freguesia (é verídico, a tipa da CNE não soube dizer-lhes onde era a mesa deles!) virou-se para ela e disse cheio de sabedoria cansada:
– minha senhora, nós sempre votámos aqui e não mudámos nada da última eleição para esta… olhe, está muito frio para andar nessas correrias. fica para a próxima. boa tarde.
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lixo humano

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No dia seguinte à greve geral, uma notícia para ficarmos a conhecer a verdadeira fibra da malta que manda no futebol português: Árbitros portugueses dirigem jogos na Escócia: João Ferreira, da Associação de Futebol de Setúbal, e Cosme Machado, da AF de Braga, vão dirigir este fim-de-semana jogos na Escócia devido à greve de árbitros naquele país britânico. (…)
A imprensa escocesa fazia ainda referência a equipas de arbitragem da Polónia, de Israel, do Luxemburgo e de Malta como certos nos campos escoceses este fim-de-semana, sendo que as federações da Irlanda do Norte, País de Gales, França, Inglaterra, Holanda, Bélgica, Dinamarca e Islândia terão recusado enviar árbitros para a Escócia.
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carta a g.

meu querido g.
soube hoje que nunca lerás esta carta. se bem te recordas, tínhamos adiado para as férias de verão o reencontro. adiei a resposta ao teu convite, como faço muito, como sempre fiz e continuarei a fazer (porque não sou como tu).
recuperei esse convite e apeteceu-me responder-lhe. mas não vou fazê-lo para uma caixa virtual que mais ninguém lerá até ser apagada. respondo aqui, porque sim, nesta língua que não é a tua.
as férias passaram e já não iremos a argentario cumprir o destino de piratas da beleza. um dia explicaste-me quem tinha sido mansart, numa daquelas estórias com muito pouca história que gostavas de espalhar de vez em quando, como a testar os limites do crédulo deleite de quem te ouvia. mansard, na verdade, não interessa. importa mais que o tivesses feito num cubículo de umas águas furtadas enquanto ias mandando sapatadas nas centenas de baratas que partilhavam contigo o suor das noites de canícula. nessa noite bebemos, (devemos ter bebido a alguém, já não me recordo) e cantaste as canções que te eram queridas. acreditas que penso em ti sempre que as assobio, essas canções?
contigo vi os túmulos dos reis de França, contigo inventei à luz das velas a história de jean e jeanne numa noite de trovoada em que a cidade das luzes deixou de o ser. recordas-te? contigo, tive as notas mais altas do curso de italiano que nunca fiz (davas sempre oito e um sonoro bravo!, eras um professor fácil…). contigo dancei tango e fiz pasta, mergulhei no mediterrâneo e almocei na maria. dançamos nas vindimas e nas catacumbas, bebemos o café intragável da cantina e o café fresco das manhãs lúgubres da residência. dissemos mal dos governos e dos governados. não sei se alguma vez dissemos bem de alguma coisa mas, conhecendo-te como conheço, tenho de admitir que sim. e tantos outros estilhaços de vida. lembro-me de olhar para ti e ver o corto.
tudo isto não passa de uma tentativa canhestra de te dizer que és importante. que estes e outros factos são nossos, de nós que os vivemos contigo. todos sabemos que o mundo não sente a tua falta mas nós sim.
não sei como nem porquê. talvez isso seja o que menos importa agora. nenhuma explicação pode explicar o que não podia ter acontecido.
olha, meu querido g., nunca to disse mas vou aproveitar este cantinho para te confessar uma coisa: tu és para mim o espírito limpo, generoso e delicado que eu não consigo ser.
ainda quero acreditar que um dia destes nos encontramos no canal ou no jardim para tomar uma cerveja. ou para que me contes mais uma daquelas estórias hilariantes com muito pouca história. quem sabe talvez naquela praia na toscana? vai pensando nisso!
Je t’embrasse
á.

gente feliz sem carro

Ao ler um texto do Público, curiosamente dedicado aos assuntos da mobilidade em Lisboa e Porto, dei por mim irritado, quase escandalizado com a falta de “mundo”, com a falta de coragem daquela narrativa.
Trata-se de uma peça que se limita a recolher testemunhos de gente que não usa carro particular, de forma mais ou menos militante, nas suas deslocações.
A irritação nasceu de um aspecto que para muitos será lateral, mas que parece ser sintomático do pequeno mundo em que se movem os produtores de discurso e representações, supostamente em locais de excelência, como os jornais das elites, os jornais de referência.

No caso, tudo se resume à parcialidade pequeno-burguesa da selecção dos relatos: deram faladura a 1 cineasta, 1 arquitecta, 1 deputada, 1 professora (alemã!), 1 músico, 1 adjunto de direcção (da Fundação de Serralves!) e 1 escritora/professora. Ou seja, dois jornalistas a construírem um relato para o mundo social que conhecem e em que se revêm, como se essa escolha fosse evidente e indesmentível. Pode sempre argumentar-se que um trolha com a quarta classe não tem capacidade para elaborar poesia social sobre a liberdade de não ter carro em Lisboa e poder observar as árvores a crescer, ou para teorizar impressionisticamente sobre o facto de se perder no seu T2, quanto mais saber ir de carro para o trabalho. Pode dizer-se que o público daquele texto é aquele tipo de pessoas e que um desempregado, uma puta ou um empregado de balcão não lêem aquele jornal.

Talvez, mas estas coisas, que acontecem sempre e se repetem por todo o lado, são sintomas de uma expulsão do espaço mediático das pessoas que a elite não quer ver, que a elite se esforça para retirar à existência colectiva. O invisível não existe. Os pobres, as minorias, os precários, os subordinados, os outros, foram e são expropriados diariamente do discurso que os define, como já sabemos há tantos anos por tantos livros que já ninguém lê. Uma espécie de “orientalismo banal”.

Ou então só podem falar nos limites autorizados por quem manda:
porque são pobres merecem o assistencialismo, mas nunca a revolta legítima. Porque são pretos, estrangeiros e paneleiros merecem a integração e o respeito, mas nunca a igualdade. Porque são precários e subordinados merecem o discurso da melhoria das condições, mas nunca a expropriação redistributiva de poder. Porque são mulheres gordas ou velhas merecem o que a publicidade e as revistas lhes dizem que merecem mas nunca merecem a humanidade de serem orgulhosamente quem são. Porque são gente feliz sem carro são deputados e artistas mas não são desempregados, putas ou velhos.
Este tipo de produção social dominante do discurso de índole conservadora entristece-me. Sobretudo por ser tão comum entre quem se apresenta como informado e culto e até na vanguarda de ninguém sabe bem o quê mas se limita a reproduzir as grelhas dominantes.

Prémio boas práticas no serviço público

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A cinemateca portuguesa fecha em Agosto para o pessoal ir (todo) de férias.
Assim de repente, acho que este bom exemplo devia ser seguido noutros serviços públicos como a RTP e as rádios públicas Antena 1, 2 e 3. Ou porque é que não fecham a Biblioteca Nacional e os museus nacionais todos em Agosto? Provavelmente os interesses do serviço público e do próprio público ficavam melhor defendidos desse modo.

mundo difícil, vida intensa

Andava a tentar saber quanto é que representa em dinheiro o aprovado corte de 5% nos vencimentos dos titulares de cargos políticos (informação que não encontrei, o que sugere que isto foi aprovado sem que alguém fizesse as contas ou pelo menos sem que alguém fizesse a pergunta, o que é, em qualquer caso, verdadeiramente extraordinário…) e dei de caras com mais um super evento para este sábado. E agora? Pinturas no Regueirão dos Anjos ou tourada nas Caldas? Oh, mundo difícil, vida intensa…
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No próximo mês de Julho, o CDS faz 36 anos.
Este ano, vamos retomar uma tradição que o CDS teve nos seus primeiros anos, com grande sucesso. Vamos organizar a Corrida de Toiros CDS, popularmente conhecida como a Corrida CDS.
O cartaz da Corrida é excelente. Nada menos do que 6 cavaleiros. António Ribeiro Telles, Vitor Ribeiro, Pedro Salvador, Brito Paes, Duarte Pinto e Soller Garcia! Teremos também 2 Grupos de Forcados: Montemor e Caldas da Rainha. Os toiros são Vale do Sorraia.
Pedimos a todos os militantes que são aficcionados que adquiram o seu bilhete e divulguem a iniciativa. Pedimos às concelhias que estejam interessadas para promoverem a organização de grupos.
A Corrida CDS é à Portuguesa, como é próprio de um Partido especialmente sensível às questões da identidade nacional. Na verdade, a tourada faz parte da tradição e da cultura portuguesas e tem adeptos de todas as condições, em inúmeras regiões. A tourada não se esgota no mundo rural, mas é especialmente sentida no mundo rural, que o CDS defende como nenhum outro Partido.
O espectáculo tauromáquico é uma festa popular. Claro que no CDS se respeita a liberdade de opinião sobre as touradas. É por isso que nos dirigimos especialmente aos militantes que são aficcionados e apreciam uma boa corrida, em coerência com a defesa que sempre fizémos da dignificação desta expressão cultural.
Vamos encher a Praça de Toiros das Caldas da Rainha! E mostrar que o fenómeno tauromáquico é também importante do ponto de vista económico, turístico e ambiental.
Esta iniciativa, honra a nossa História e permite aos militantes e simpatizantes viver um bom momento. O programa prevê um arraial popular, antes da Corrida, e uma festa da juventude, após a Corrida.
Adira e divulgue!
Contamos com a vossa mobilização.

CDS: aproveito para sugerir uma rápida visita ao site do CDS na net. Aquilo está um regalo.

pois

Eu até lá fui na sexta-feira. Chegou para perceber do que a casa gasta. Perdi-lhe o gosto. Desinteressei-me. Foi fácil, não paguei o bilhete de umas quantas dezenas de euro que outros milhares largaram na promotora “Música no Coração”. Música no Coração. Sim, sem dúvida, é preciso ter muita música no coração para ver alguma normalidade para cá dos limites do aceitável nas nuvens de poeira que recebiam qualquer visitante no espaço que a Câmara de Sesimbra cedeu (imagina-se que uma parte interessante do orçamento da câmara venha deste tipo de negócios, além dos negócios do imobiliário – não é o concelho de sesimbra aquele que tem previsto duplicar ou triplicar a população residente nos próximos 10 anos? – já para não falar do capital político que uma câmara tão amiga das cervejeiras e das operadoras de telemóvel festivaleiras não pode deixar de ganhar nos comerciantes do concelho). Sesimbra cedeu. E cedeu um terreno sem perguntar ao organizador se tinha garantidas as condições mínimas de habitalidade e acesso a um espaço onde só se chega de automóvel e em parcos autocarros e onde o chão é de areia terrosa e seca. Sesimbra cedeu e a música no coração chegou aos ouvidos do público que pagou dezenas de euro para ver os seus ídolos ou ouver a sua música e, em centenas ou milhares, não se sabe, nunca se saberá, nem chegou a entrar no recinto porque quando o Prince se foi embora ainda havia quilómetros de engarrafamentos de gente que ia chegar e, não se sabe, nunca se saberá, mas imagina-se, nunca chegou. No meio de tudo isto ainda houve quem certificasse o festival como ambientalmente sustentável ou emissões zero ou lá o que é. Pois.

Não paguei o bilhete mas podia ter pago. Se tivesse pago, quem me recompensava pelo serviço pago e não prestado? E também é interessante observar como o nível de exigência do público é baixo. Acha-se “normal” comer poeira às colheradas e perder-se concertos por engarrafamentos de trânsito às portas do festival. É normal passar-se dias num parque de campismo sem sombras. É normal. Faz parte da atitude de improvisação desorganizada de quem tem a música no coração. E todos gostamos de ter a música no coração, de sermos festivaleiros e reconhecidos socialmente por isso, não é? Gostamos de ser parte do grupo, mesmo que o grupo de reja pelos mínimos. No fundo, somos todos muita cuis para chegarmos ao ponto de achar que um festival só vale a pena se dispensar a obrigação de comer toneladas de poeira e com transportes minimamente organizados. Como se faz noutros sítios lá fora e até se faz cá dentro. E ai de quem afirme o contrário!
E a música? Parece que o Prince anda a comer a Ana Moura ou vice-versa. Pois.

Mandela, Soares, Savimbi e Cândida

Estava há pouco a almoçar e em imagem e som de fundo corria um programa da multi-premiada jornalista Cândida Pinto sobre Nelson Mandela. Ao que pude perceber, focando-se em Mandela, Cândida Pinto quis ouvir portugueses que com ele tivessem tido algum tipo de contacto, pelas funções que exerceram ou por terem conhecido pessoalmente a figura.

E quem foram os figurões? Nada menos que Durão Barroso, Ramalho Eanes, Cavaco Silva, Mário Soares e, calcule-se, Carlos Queirós! Também lá andava o Jorge Sampaio, já não sei porquê. Tudo gente com reconhecida militância variada a favor da causa anti-apartheid, denunciantes intrépidos do regime, apontados a dedo nos fóruns internacionais pela sua verve anti-racista e pelas campanhas de solidariedade que patrocinaram para os pretos sul-africanos e os povos da áfrica austral a quem o regime dos brancos sul-africanos apertava o garrote com a ajuda dos americanos.
Percebe-se a dificuldade de Cândida Pinto em arranjar portugueses que, antes e depois da entrega do poder na África do Sul, tivessem feito alguma coisa e pudessem testemunhar sobre a libertação de Mandela e o fim do regime. É um problema nosso, somos assim muito virados para o umbigo, um povo que não liga a esse tipo de preocupações.
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A coisa atingiu as raias do insulto quando ouvimos Mário Soares a dizer qualquer coisa sobre o carácter criminoso do apartheid e sobre a coragem de Nelson Mandela, a propósito de uma viagem realizada à A-S para “visitar o filho João Soares em convalescença na Cidade do Cabo após um acidente em Angola”. Fui só eu a lembrar-me de um certo avião caído/abatido na Jamba?…
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Fantástico Mário Soares, um dos homens da Unita em Portugal, um dos responsáveis pelo prolongamento da guerra em Angola para além do prazo de validade, um dos apoiantes de sempre de Jonas Savimbi, esse grande ponta de lança dos sul-africanos em Angola, mercenário a soldo do apartheid e do pentágono. Calcula-se que Cândida Pinto precise de gerir bem este tipo de silêncios e de dar púlpito sem contraditório a gente deste calibre para continuar a ser uma das mais premiadas jornalistas de investigação em Portugal. Outros não tiveram tanta sorte.