O sequestro

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Ponte 25 de Abril

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Estão cerca de duzentas pessoas cercadas por um quadrado do Corpo de Intervenção junto ao Viaduto Duarte Pacheco, depois de terem cortado a A5 e quando se encaminhavam para o acesso à Ponte 25 de Abril. Ainda não se sabe se vão ser levados para uma esquadra e detidos ou se serão apenas identificados e revistados. Este post será actualizado quando houve mais informações.

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Grupos radicais perigosos com ligações ao estrangeiro que cultivam os seus próprios pepinos e beringelas

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De uma testemunha no local:

A policia entrou hoje na Horta do Monte bem antes das 7h da manhã e agrediu pessoas, deteve outras e destruiu toda a horta. Construiu uma vedação em arame. Fechou a circulação ao trânsito. O caos foi instalado. As pessoas que ali chegaram pelas 7h para fazerem yoga e meditação foram surpreendidas por este cenário e tentaram dialogar com os responsaveis. Enquanto alguns activistas tiravam fotos do sucedido, a técnica da CML tentou impedi-los e um policia começou as agressões, seguindo-se depois a confusão. Várias pessoas foram agredidas e o nosso amigo Armand Munoz, quando tentava impedir e apelar à calma foi empurrado e bateu com a cabeça no chão. Partiu a cabeça, está em S.José, mas está bem, vai ser cozido.
A Cloé tirava fotos quando a técnica da CML se lhe dirigiu para a impedir de o fazer, tendo ela fugido, nessa altura foi agredida com 2 bastonadas por um policia municipal, o seu companheiro Mali tentou evitar a agressão e foi também empurrado e partiu aparentemente a máquina de fotografar. O Armand fez o mesmo e acabou no chão. Outras pessoas foram empurradas, levaram bastonadas. Agora o cenário é desolador.
O chefe da policia municipal no local era o oficial B. Soares mas havia vários policiais não identificados, dois deles tendo sido os autores das agressões. Estava também um carrinha com policias da PSP, uma ambulânica do INEM onde foi transportado o ferido, e vários veículos camarários dos jardineiros e trabalhadores de obras – que me manifestaram enorme desconforto nesta tarefa. E estavam 4 técnicos da CML.

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Todas ao MINISTÉRIO

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Neste momento, a PSP encontra-se no MINISTÉRIO tentando despejar os ocupantes e retirar o equipamento sem mandato ou ordem judicial. Encontra-se também no local uma carrinha do corpo de intervenção. Pede-se a todas as pessoas disponíveis que se mobilizem para o local. Campo dos Mártires da Pátria, nº1
Todas ao MINISTÉRIO

“Todas ao Ministério” é o repto lançado por um grupo de ativistas que ontem, dia 25 de Abril, ocuparam o Palácio Silva Amado, um edifício que durante o Estado Novo albergou o Ministério da Educação e que se encontra devoluto há vários anos. Ainda que a ocupação tenha ocorrido durante as comemorações do 25 de abril, cerca de 20 pessoas já tinham invadido o imóvel, localizado no Campo Mártires da Pátria, dois dias antes, tendo arregaçado as mangas para limpar o amontoado de detritos que nos últimos anos se acumulou no edifício datado do séc. XVIII. O grupo prossegue com o trabalho de limpeza para transformar o espaço num local de cultura e debates cívicos.

Ao JN, alguns elementos do grupo garantiram que este é um movimento cívico heterogéneo, que com esta ocupação pretende lançar um alerta para o número de casas devolutas na cidade. Combater a especulação imobiliária e lutar por uma cidade com pessoas são alguns dos objetivos destes ativistas. “É por demais óbvio o fosso que separa a proteção concedida aos grandes proprietários e investidores imobiliários, os principais responsáveis pelos milhares de casas abandonas na cidade de Lisboa, e quem se vê confrontado com o aumento do valor de empréstimos e rendas”, pode ler-se no manifesto do grupo. Até ao dia 1 de maio, estão previstas várias atividades de caráter cívico, como workshops de “subvertising” (publicidade e subversão) e debates sobre a cidade, política e movimentos sociais. Ao início da tarde desta sexta-feira, a PSP foi ao local e procedeu à identificação dos ocupantes, mas na ausência de queixa por parte dos proprietários do imóvel não procedeu ao despejo. As atividades no Palácio começam esta sexta-feira, com o debate “Abril e Abrileiros”.

O Palácio Silva Amado é propriedade de um particular e desde 2008 que tem licenciamento para ser transformado num condomínio privado com 32 habitações.

Grupo ocupa antigo edifício do Ministério da Educação

«Problemáticos»

Ruben está neste momento a ser velado dentro de um caixão branco fechado. À sua volta há jovens como ele que não entendem o que é morrer com 18 anos às mãos da brutalidade policial. Ruben dentro do caixão está tão revoltado como os jovens que incendeiam as ruas e lhes queima a alma. Ruben é o quinto jovem que morre na bela vista por intervenção policial. “Mais valia construirem aqui cemitérios” disse uma moradora hoje da Bela Vista ao Correio da Manhã. O que essa moradora não sabe é que os bairros sociais como a Bela Vista são cemitérios de pessoas vivas dadas como mortas para a saúde, educação, habitação; feitas “presas” de caçadores fardados de azul.
Bairros play-ground de violência policial.Ruben tinha sido detido no dia anterior pela polícia dessa esquadra que o perseguiu no dia em que o fez morrer. Ruben foi detido e identificado. Era bem conhecido pela polícia. No dia seguinte andava de mota sem capacete e dizem os polícias passou um sinal vermelho epor isso seguiram-no disparando balas de borracha DIZEM.
E assim ruben, em velocidade fugindo ruas afora, entrou numa rua sem saída, subiu o passeio e, “fugindo ou apanhado por uma bala atirada para o ar”, dirá a sentença do tribunal despistou-se, caiu sobre caixa de eletricidade, morreu e viu-se a sua morte num pequeno filme no youtube. 18 anos de vida findaram numa perseguição policial com balas.
Robinho, como é conhecido, abriu mais um inquérito na inspeção-geral da administração interna que se vai esforçar por se proteger assim como os polícias agora se esforçam por proteger a esquadra da avenida da Bela Vista. Esta esquadra tem 46 agentes e nenhum morador deste bairro se sente seguro por lá tê-los. Têm morto jovens estes agentes, 5 jovens nos últimos anos. Ruben deixa agora de brilhar nos olhos da sua mãe que recupera de um cancro. O decreto-lei nº 457/99 diz no artigo 2º diz que o recurso à arma de fogo pelo agente policial ”so é permitido em caso de absoluta necessidade, como medida extrema”.
Acrescenta-se a medida extrema provocada com a necessidade de matar “jovens problemáticos” de “bairros problemáticos”. A justiça vai perdoar dizendo que não se provou a culpa da morte. Os jovens vão incendiando as ruas mostrando que têm a injustiça nas mortes que carregam. Ruben é mais um nome da revolta pela brutalidade policial que a comunicação social não diz. 3 anos será a pena máxima caso se comprove que houve uso indevido da  arma pelos agentes.
Quantos anos leva a deixar de sentir a falta de um amigo?Quantos anos levará a mãe de Ruben a voltar a sorrir? Quantos anos mais serão precisos para proteger os jovens dos bairros sociais dos polícias problemáticos? Quando se explodirão as esquadras que existem nos bairros?
A Plataforma Gueto sente mais esta revolta!

 

Quando olhamos para bairros como a Bela Vista, a primeira pergunta a fazer devia ser sobre como é que nestas circunstâncias, alimentadas pela desesperança, e especialmente perante uma morte pela qual nunca será feita justiça, igual a tantas outras, as pessoas que aí habitam não decidem simplesmente partir tudo? Como é que é possível que a “inconsequência” dos seus habitantes se fique por atirar umas pedras à polícia, queimar uns caixotes do lixo ou destruir um autocarro [ônibus]? Perante o que seria compreensível, tudo isso parece pouco. Nem por isso deixam de ser tratados como “bárbaros”, “selvagens”, “desordeiros” e “incorrigíveis” por aqueles que os desprezam e por aqueles que perpetuam a sua condição e dela parecem beneficiar. O Rúben parece ser culpado do sítio onde cresceu. A maior acusação que lhe é feita chama-se “Bela Vista” ou “bairro problemático”, condição que se abate sobre ele como uma fatalidade. As diferentes vitórias que a comunicação social e parte da opinião pública brandem no rescaldo do sucedido são exemplos particularmente esclarecedores do desprezo a que populações de bairros como o da Bela Vista estão votadas.

Ganhar forças para consolidar

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Se alguém ainda não tinha percebido o que aconteceu a 2 de Março, Francisco Louçã veio agora explicar no Facebook. Manifestámos-nos para que a esquerda nos possa representar. O último a sair que apague a luz.

[Vasco Pulido Valente] pensa que, se invectivar os seus inimigos de estimação, a realidade colapsa perante ele. Não percebeu nada. Não percebeu que o 2 de Março exige uma representação da recusa da troika e da dívida. Não percebeu que a esquerda não desistiu para o centro. Não percebeu que as vítimas da austeridade são os que querem ser o Rio Grândola.

E depois outro. E a seguir mais outro. Novamente outro. Outro ainda.

Mafalda

No sábado passado, por todo o País, o povo saiu à rua em massa, numa inequívoca manifestação de protesto e de exigência urgente do fim do Governo e da política das troikas, de exigência de uma política inspirada em Abril. Com efeito, foi Abril, uma vez mais, que esteve na rua, com as suas referências essenciais: os seus valores, os seus ideais, as suas canções, as suas palavras de ordem – e como que a relembrar que a nossa luta é uma luta contínua, de todos os dias, que o dia que se segue a cada luta é sempre outro dia de luta.

«Editorial», Avante!, 7 de Março de 2013

Sobram-me os afectos

É bastante provável que isto venha a ser o derradeiro argumento para vetar a participação do pessoal do Spectrum na próxima grande plataforma unitária que falará em nome do povo e exigirá eleições antecipadas para estabilizar esta desestabilizaçãozinha filha da puta. Ainda assim, e porque já tanto se escreveu sobre as posições do Daniel Oliveira neste estaminé, parece fazer sentido dar a conhecer a sua carta de demissão do Bloco de Esquerda. Estaria a mentir descaradamente se não confessasse o sorriso que me vem aos lábios quando leio a referência à tentativa de «criar organizações “unitárias” que lhe obedeçam». A parte do “mini-aparelho a replicar o pior da cultura burocrática dos partidos, domina as lógicas internas e dá pouco espaço ao debate franco e sereno das divergências” também me faz lembrar muitos episódios. Ao Daniel, com toda a franqueza que ele merece, aproveito apenas para lhe relembrar isto, sem dor, sem rancor e sem remorsos. Ainda nos havemos de encontrar muitas vezes por aí (até, quem sabe, num quarto escuro).

Caros camaradas,
como é por vós sabido, não apoiei a atual liderança do Bloco de Esquerda. Opus-me ao modelo de direção, que considerei e continuo a considerar que fragiliza o partido, e não aprovei a sua moção política. Tal não me impediu de defender, e de o ter feito publicamente, que via nos seus protagonistas, e particularmente em João Semedo, motivos de esperança no futuro do partido. Esperava que fossem dados alguns sinais no combate ao sectarismo que, nos últimos anos, foi tomando o Bloco de Esquerda. O sectarismo interno, que enfraqueceu o partido e o seu debate democrático, e o sectarismo externo, que tem impedido o Bloco de ser, como sempre quis ser, um factor de convergência e reconfiguração da esquerda portuguesa.

Infelizmente, em poucos meses, os sinais dados foram exatamente os opostos. E vão muito para lá do que já estava expresso na moção política aprovada em convenção.

Internamente, avançou-se com a criação de uma corrente maioritária ligada à moção que venceu a última convenção. A criação desta corrente – que já esteve em cima da mesa no passado e que em boa hora tinha sido esquecida – é apresentada como uma forma de garantir a “descorrentização” do Bloco que eu, como muitos camaradas, tenho defendido. Ela faz, no entanto, exatamente o oposto.

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MOB

refodê-los

A perseguição policial ao espaço MOB, gerido pelos Precários Inflexíveis e pela Crew Hassan, conheceu ontem à noite mais um episódio preocupante. Segundo as informações que circulam, a polícia terá forçado a sua entrada arrombando a porta (que se encontrava fechada) e obrigado as pessoas que reuniam lá dentro a sair, tendo mesmo identificado um dos dirigentes da associação e ameaçado os restantes.

Não é preciso partilhar os pontos de vista dos Precários Inflexíveis ou apreciar as actividades ali realizadas para assumir neste momento uma posição clara de solidariedade com os visados e repúdio por esta perseguição, claramente orientada pelos empresários que controlam porções crescentes da noite lisboeta e levada a cabo com a colaboração da CML. Num momento em que este tipo de espaços conhece um crescimento significativo e oferece amplas possibilidades de sociabilidade, encontro, partilha, debate, criação artística e e fruição cultural – mesmo se com uma dimensão comercial variável de lugar para lugar -, a reacção a tudo aquilo que mexe e escapa à lógica do lucro e da mercantilização do lazer revela o programa em curso para Lisboa: trabalho, transportes, televisão e um entretenimento estratificado conforme o poder de compra.

A tudo isso é preciso responder com firmeza, astúcia e muita vontade de refode-los.

Há chauvinismo entre o povo?

 

Sim, há e nada mais reaccionário do que pretender ocultá-lo, sobretudo na época actual. Contudo, aparecem anti-salazaristas a pretender convencer-nos de que o povo português não está infectado por ideias imperialistas e repudia unanimemente a exploração colonial. Seria caso para nos maravilharmos com o milagre de um dos povos com maior tradição imperialista na história estar imunizado contra o chauvinismo. O chauvinismo imperialista existe porque os interesses colonialistas da burguesia não podem deixar de se projectar ideologicamente a toda a sociedade. […]

Ao longo dos séculos, formou-se e sedimentou uma ideologia imperialista que se recebe na escola, na imprensa, na vida diária, que penetra por toda a parte sem sequer ser notada. A cada passo se podem ouvir a pessoas progressistas conceitos imperialistas. E o facto de Portugal ser um país dependente do imperialismo estrangeiro ainda mais contribuiu naturalmente para exacerbar esse chauvinismo imperialista, como uma forma de compensação para as humilhações sofridas. É certo que o facto de o povo não ter que afrontar no seu próprio território a concorrência de mão de obra colonial e de os trabalhadores coloniais serem praticamente desconhecidos (ao contrário do que sucede, por exemplo, em França), não deu lugar a manifestações agudas de racismo nos séculos recentes.  Qual era contudo a base da complacência com que era aceite o africano em Portugal? Ela nada tinha de emancipação do espírito chauvinista; ela era pelo contrário a complacência que se tem pelos animais de trabalho: um certo afecto misturado de desprezo e repulsa física que se escondia polidamente para não os magoar (“coitadinhos, não têm culpa de ser pretos”) e uma certa má vontade também contra a sua “indolência”.

É verdade que há entre o povo uma resistência geral contra a política colonial do governo, contra os seus slogans dum chauvinismo histérico e grotesco, contra a perspectiva de uma guerra sem fim. Mas o que ainda não se provou é que por trás dessa oposição ao governo não esteja latente um chauvinismo de expressão diferente, que se torna igualmente necessário combater.

Francisco Martins Rodrigues, “Os comunistas e a questão colonial”, Revolução Popular, nº6 (Dezembro 1965)

O caçador de comunistas

Merece atenção muito especial a forma como foi montado e se desenrolou o golpe do dia 27 de Agosto; na medida em que o seu conhecimento pormenorizado aclara de vez os intuitos obscuros que determinaram a extinção da 5ª Divisão. O oficial designado para chefiar a operação foi o Major de Infantaria graduado em Coronel, Jaime Neves.

Não foi por acaso – V. Exª o sabe pois sancionou a respectiva nomeação – que a missão de destruir um dos sólidos pilares da Revolução Portuguesa coube a este herói de massacres, bebedeiras e prostitutas, cujo perfil de colonialista cruel, de militarista sem princípios nem cultura, pesa sobre o povo português como um pesadelo e uma ameaça permanente à sua liberdade. Naturalmente, anticomunista patológico, pronto a todas as investidas criminosas desde que açulado para a caçada ao «vermelho». Da sua noção de democracia conhece V.Exª o suficiente, pois esteve perto da assembleia de Tancos, no princípio de Setembro, na qual o graduado Jaime Neves entrou armado e assim ostensivamente se manteve, enquanto à porta, ao alcance de voz, os seus guarda-costas guarneciam bazucas e metralhadoras pesadas apontadas para o interior.

A força que levou a cabo a «gloriosa» missão de assaltar e saquear a 5ª Divisão foi organizada pelo actual comandante do Batalhão de Comandos. Todavia, em virtude de os militares aquartelados na Amadora suspeitarem desde sempre do fascista camuflado que lhes está imposto como comandante, foi julgado mais conveniente aguardar efectivos prestes a regressar de Angola. Tendo aterrado no Aeroporto da Portela às duas da madrugada do próprio dia 27 de Agosto foram esses soldados-comandos imediatamente transportados para a sede do batalhão na Amadora, onde Jaime Neves em pessoa os submeteu ao tratamento psicológico preconizado nos manuais da guerra colonial. Incluíu aliciamento pelo suborno (promessa de mais cinco dias de licença além dos que tinham direito); incitamento à violência e ao saque; apelo à irracionalidade e ao ódio: «Vocês vão daqui a pouco realizar uma missão igual às que faziam em Luanda; em lugar de irem caçar os comunistas do MPLA, vamos hoje caçar os comunistas da 5ª Divisão.»

Carta Aberta dos oficiais da extinta 5ª Divisão ao Presidente Costa Gomes, 27 de Outubro de 1975

Camaradas

astérixÉ conhecida e até proverbial a minha propensão para escrever coisas que deixam meio mundo com vontade de me espatifar a cabeça. O que vou escrever requer por isso alguma cautela e moderação semântica, de maneira a contornar essa propensão. Como é bom de ver, quase todos os meus amigos são de esquerda e boa parte deles escreve neste blog. Os meus amigos de esquerda passaram os últimos 7/8 anos a encarar tudo o que se movia fora de partidos políticos e com um horizonte que ultrassasse o cidadanismo movimentista como uma brincadeira sem consequências. Nunca foram hostis (bom, quase nunca) e sempre acharam alguma piada às cenas «meio anarcas» que se iam fazendo, mas nunca as levaram minimamente a sério.
Uma casa ocupada? Um bocado desarrumada, mas boa para ir a umas festas.
Uma manifestação não comunicada ao governo civil? Um gesto de saudável irreverência, mas que não passa de uma teimosia juvenil.
Um texto critico das relações de poder inerentes à militância e ao activismo? Têm a mania que vão inventar algo diferente.
Uma crítica ao reformismo, ao tacticismo ou à passividade sindical? Lá estão eles a fazer o jogo da direita.

Para que não se pense que estou a ser injusto, um amigo meu de esquerda ligou-me no dia 25 de Abril de 2007, após saber que tinha havido uma carga policial no Chiado. Parecia divertido com a situação e perguntou-me meio no gozo se tinha levado alguma bastonada. Outro amigo meu de esquerda já me garantiu que eu no fundo no fundo até curto de cargas policiais e não pareceu ficar muito convencido quando tentei fazer-lhe ver que não há nada de particularmente divertido em ver dezenas de homens encorpados, bem treinados e ainda melhor equipados, avançar na nossa direcção a espancar tudo o que apanham pela frente.Nos últimos dois anos as coisas pareceram começar a mudar.

Mais e mais gente foi confrontada com a violência policial e sentiu na própria pele o que ela implica, percebeu o profundo contraste entre vê-la na televisão ou no computador e estar presente quando ela ocorre. Mais e mais gente testemunhou e experimentou as infinitas possibilidades que se abrem quando se ocupa um edifício devoluto. Mais e mais gente compreendeu que é possível organizar grandes manifestações sem um aparelho partidário ou sindical por trás, incluindo num dia de greve geral. Mais e mais gente percebeu, ao fim e ao cabo, que isto do capitalismo e do Estado não é tão natural como a sua sede, que são possíveis e imagináveis outras formas de vida, que há mais coisas pelas quais lutar do que uma «democracia avançada» ou uma «modernização de esquerda» ou mais uma reunião para a preparação da reunião para a preparação da reunião para a preparação da reunião que há-de preparar a revolução.

Encontrámos-nos e esse encontro sugeriu diversas coisas que diversas pessoas se atarefavam a silenciar. Que temos força quando nos juntamos. Que temos inteligência quando nos juntamos. Que temos o poder quando nos juntamos. É frágil e precário e certamente é insuficiente, mas é o que há. E o que ha é muito mais do que nos ofereceram anos e anos de militância e activismo no PCP, no Bloco de Esquerda, na ATTAC, no movimento estudantil ou no congresso das alternativas. Está aqui, pode ser sentido, ouvido, saboreado e até apalpado, porque está vivo e move-se. Seguramente que a nossa desmedida ambição não nos permite sentirmo-nos minimamente satisfeitos com isso e muito menos celebrá-lo. Há tanta coisa que há para fazer. Mas importa assinalar aqui o contraste entre o que temos feito e aquilo que a esquerda nos apresenta como horizonte e estratégia. O tempo em que todas manifestações tinham como objectivo exigir um governo melhor acabou e é agora claro o contraste entre as marchas das bandeirinhas e os momentos imprevisíveis em que a contestação sai às ruas e os manifestantes fazem a sua própria história. Basta ver o alarme e sobressalto que elas provocam para perceber que a distinção estabelecida por Jerónimo de Sousa  – entre a luta organizada e a luta inorgânica – é não apenas equivocada como completamente disparatada. O que está em causa são precisamente formas distintas de organizar a luta e o governo e as forças vivas da reacção têm deixado bem claro qual é que lhes provoca mais inquietação.

As derrotas concretas da classe trabalhadora não são as reduções do seu salário real ou do subsídio de desemprego. Esse é o preço a pagar pela derrota muito mais substancial de ter Arménio Carlos a falar em seu nome e João Torrado a colaborar com a PSP para que «tudo corra bem» nas manifestações. O desespero e a angústia são instrumentos poderosos ao serviço da reacção, mas não são forças da natureza contra os quais nada haja a fazer. Naturalmente que quem for à procura de soluções e meios de os combater junto das cúpulas desta ou daquela organização não encontrará senão mais motivos para ficar desesperado e angustiado. Não será precisamente isso o que nos trouxe até aqui, a expectativa perfeitamente infundada de que alguém (extremamente inteligente, extremamente competente, extremamente clarividente, extremamente extremamente) nos pode dirigir para fora deste buraco chamado austeridade, se seguirmos todas as suas instruções e ouvirmos todos os seus conselhos?

A revolta, o descontentamento e a raiva que estão aí às carradas pedem mais de nós (todos) do que ir a um plenário partidário/sindical dizer umas verdades ou do que ficar confortavelmente à espera que os dirigentes se entendam para formar finalmente um governo de esquerda. Em 2012 vi a história a materializar-se à minha volta, a debater acaloradamente, a derrubar grades e a redigir comunicados, a fazer escolhas e a tomar decisões, a lançar pedras e a rebentar petardos, a pintar paredes e a queimar caixotes do lixo. Não espero outra coisa de 2013, agora que o fim do mundo acabou. E seria bastante importante que vocês se juntassem à pandilha. Camaradas.

E nem sempre por suicídio

Este meio, o dos empreendedores de demolições, mais claramente que os seus antecessores das duas ou três precedentes gerações, tinha-se por essa altura associado de muito perto às classes perigosas. Ao viver com elas, uma pessoa leva em grande parte a mesma vida. E disso, obviamente, ficaram vestígios duradouros. Mais de metade das pessoas que ao longo dos anos fui conhecendo de perto, tinham estado, uma ou várias vezes, nas cadeias de diversos países; muitas, sem dúvida, por motivos políticos, mas ainda assim a maioria por delitos ou crimes de direito comum. Conheci, por conseguinte, sobretudo os rebeldes e os pobres. Vi em meu redor em grande número indivíduos que morriam jovens, e nem sempre por suicídio, de resto frequente. Nesta peculiar matéria da morte violenta, noto aqui, sem poder adiantar uma explicação plenamente racional do fenómeno, que o número dos meus amigos mortos a tiro constitui uma percentagem grandemente inusitada, não se tratando de operações militares, bem entendido.
Em permanência ali se encontravam indivíduos que só pela negativa podiam ser definidos, pela simples razão de não terem qualquer ofício, de não se ocuparem com estudos nenhuns e de não praticarem qualquer arte. Muitos eram oriundos das guerras recentes, vindos de vários exércitos que entre si haviam disputado o continente: o alemão, o francês, o russo, o exército dos Estados Unidos, os dois exércitos espanhóis, e ainda outros. As restantes pessoas, cinco ou seis anos mais novas, tinham chegado directamente ali porque a ideia de família começará a dissolver-se, como todas as outras. Nenhuma doutrina antes perfilhada moderava a conduta fosse de quem fosse; nem vinha propor às suas existências qualquer objectivo ilusório. Diversas práticas de um instante mostravam-se continuamente prontas a expor, à luz da evidência, a calma defesa da sua razão de ser. O niilismo é categórico para moralizar, mal o aflore a ideia de se justificar: um assaltava os bancos glorificando-se por não roubar os pobres, um outro nunca matara ninguém quando não estava enfurecido. Apesar de toda esta eloquência disponível, eram de um momento para o outro as mais imprevisíveis pessoas, e por vezes bastante perigosas.

Remember, remember, the 6th of December

 

On December 6, 2012, four years on from the cold-blooded murder of Alexandros Grigoropoulos by police, the Athens neighbourhood of Exarcheia saw yet another round of riots and clashes between people and the police. As of 22.30 GMT+2 (Athens time) intense clashes continued at Exarcheia square, as well as at Mesollogiou and Tzavela streets, which is where Alexis was murdered. Barricades have been set up in many side-streets leading to the square. Riot police have attempted to storm the square a few times, only to be fought back by the people. In one of those occassions an undercover policeman was discovered by the people and severely beaten. There is at least one heavily injured demonstrator. So far, at last 78 people have been detained of which 9 were arrested (i.e. charged).

From the greek streets

A violência ilustrada III

Mas se tudo isto me parece importante, quero aproveitar para dizer aqui que a condenação de quem lançou pedras, o discurso do vitimismo e do pacifismo, a peregrina ideia de que tudo estaria bem se a polícia se tivesse limitado a deter os «violentos», me parece, toda ela e nas suas mais variadas nuances, profundamente equivocada. Não me refiro evidentemente a quem aproveita e aproveitará o clima resultante daquela carga policial para ressuscitar os seus serviços de ordem formais ou informais e para legitimar a sua colaboração com a mesma polícia que quebra piquetes e detém grevistas (os mesmos que condenam a violência nas manifestações e depois agridem manifestantes, como aconteceu a 22 de Março naquele mesmo largo). Falo de companheiros, camaradas e pessoas que, recusando semelhante infâmia, repetem até à exaustão que a carga policial foi desproporcionada, excessiva ou ilegítima porque se abateu sobre quem não tinha feito nada de mal.

Se alguma coisa nos revelou o último ano e meio é que as nossas opiniões, as nossas vontades, as nossas ideias, os nossos argumentos, os nossos programas e propostas, os magníficos documentos que elaboramos, as alternativas que se debatem – tudo isso, em suma, que compõe o jogo democrático feito de negociações, cedências e diálogo – foi suspenso, confiscado, anulado e arrumado no armário do «custe o que custar, não há alternativa, o melhor povo do mundo, ai aguenta aguenta». E a substituir essa esfera pública liberal (que sempre foi bastante débil, diga-se) surgiu um interminável monólogo sussurrado nas televisões e cuja função é banalizar a infinita violência da austeridade, com o seu cortejo de crianças esfomeadas, idosos alimentados a Nestum, doentes sem remédios, famílias a viver na rua, desempregados sem subsídio, assalariados empobrecidos e comerciantes arruinados. Para que tudo isso se torne aceitável, para que nos habituemos a comer em silêncio este pão que sabe a merda, aí está a PSP, o seu Corpo de Intervenção e as suas Equipas de Intervenção Rápida, o SIS à escuta e a PJ preocupada com colectividades da zona dos Anjos, jornalistas a escrever peças sobre radicais com contactos no estrangeiro e o General Leandro e Leonardo a dar à coisa um ligeiro toque chileno.

A violência não começou quando foi lançada a primeira pedra. Ela está presente no conjunto das relações sociais e relembrá-lo parece oportuno, uma vez que muito boa gente que costuma concordar com essa banalidade de base escreve e fala agora como se isso fosse um pormenor sem importância. Naturalmente que quem jogou todas as suas fichas na alternativa de esquerda e pretende fazer da rua um suporte dessa aposta tem todo o interesse em repetir até à exaustão que respeita as regras do jogo, que repudia a violência, que está dentro da lei e que se indigna de modo inequivocamente pacífico. Simplesmente, só podemos falar de pacifismo se este corresponder à escolha de uma opção entre muitas outras. Só é pacifista quem equaciona seriamente a possibilidade de recorrer à violência. Caso contrário, pacifismo é apenas uma palavra simpática para traduzir obediência, resignação e subordinação ao monopólio da violência por parte do Estado. Renunciar por princípio à violência e simultaneamente aceitar a violência alheia como legítima tem muito pouco de pacifismo.

No momento em que vivemos, em que nos repetem constantemente que não há alternativa nem nada que possamos fazer para parar aquilo a que a esquerda – com o seu talento para a hipérbole inócua – tem vindo a chamar «um assalto fiscal», «uma declaração de guerra aos trabalhadores», um «roubo organizado», «um genocídio social»» (entre outras fórmulas igualmente imaginativas), percebe-se mal como se poderá renunciar ao terreno da ilegalidade. Todos os sinais de proibido, disposições legais, serviços mínimos, desalojos de bairros inteiros ou de casas ocupadas, perseguições de imigrantes e limitações do direito de greve ou de manifestação, aí estão para nos demonstrar que, mantendo o conflito nos estreitos limites da lei, estamos condenados à derrota e à impotência. É a nossa própria existência que está à beira de ser criminalizada se implicar menos do que a obediência incondicional à lógica da valorização capitalista. Quem se coloca fora do debate acerca das formas de ilegalidade que convêm ou não convêm ao movimento arrisca-se a viver muitos anos de austeridade. As diversas pessoas que têm estranhado o silêncio ou a timidez da esquerda acerca dos factos de 14 de Novembro devem ter em conta estes dados fundamentais da situação: um milhão de pessoas nas ruas e abraços à polícia não fizeram recuar a austeridade. É tempo de pensarmos e debatermos com seriedade – todos e todas – o que é que podemos fazer para que a nossa resposta à violência deles não chegue demasiado tarde.

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A violência ilustrada II

Tudo em S. Bento é desfavorável a uma invasão. Como se não bastasse a ampla vantagem do corpo de intervenção sobre os manifestantes (o seu treino e preparação física, a sua vontade de malhar e o seu prazer em bater, o seu equipamento defensivo e ofensivo, a sua organização e coesão), a disposição do espaço também lhes dá uma ajudinha. Estão numa posição vantajosa acima da praça, conseguem ver tudo melhor do que os manifestantes e perceber os seus movimentos com alguma antecipação. Junte-se a isto as poucas saídas existentes: barrando à direita e à esquerda (o que se faz facilmente com um dispositivo policial numeroso) só se pode fugir pelas escadas ou pela rampa. Já tinha acontecido noutras ocasiões e podia voltar a acontecer – uma carga policial decidida e em força, que tivesse esse propósito, isolaria e cercaria sem dificuldades uma boa parte dos manifestantes presentes no largo e permitiria ao corpo de intervenção espancar muita gente. Por sinal, precisamente a mais lenta e menos habituada ou preparada para uma situação de confronto: idosos, pessoas com dificuldade de locomoção, adultos acompanhados de crianças, gente que nunca viu uma carga policial.

Acresce a tudo isto que se tornou previsível e quase ritualizado ir para ali, derrubar barreiras e ficar à espera que algo aconteça, com menor ou maior agressividade contra a polícia de permeio. Do ponto de vista táctico, como nos dirá qualquer manual sobre o tema, a previsibilidade do que irá fazer um adversário/inimigo é uma vantagem decisiva. Desta vez essa vantagem estava toda do lado das forças da ordem.

Não pretendo aqui ser demasiado severo para com os e as que estiveram na primeira linha da manifestação a atirar pedras e outras coisas contra a polícia. Acho que a situação em que vivemos justifica todas as raivas e todas as ilegalidades, compreendo quem sente que sair à rua e gritar palavras de ordem é manifestamente insuficiente (voltarei a este assunto). Mas pensar estrategicamente num contexto como aquele em que vivemos é não apenas desejável como absolutamente imperativo. Tudo o que dê vantagens à polícia e ao governo (bem como aos diversos aspirantes a substituí-los para fazer mais ou menos a mesma coisa) paga-se caro. E neste momento estamos a pagá-lo.

Não tendo estado lá, hesito em cagar sentenças. Mas ainda assim, penso que não é inútil enunciar algumas preocupações e princípios fundamentais. Quem pretende fazer subir o nível do conflito (lutas de classes e outros jogos de plataformas, certo?) dificilmente poderá ignorar a importância de não se deixar isolar, de não se deixar encaixar no retrato robô da criminalização policial, de ter, em suma, a preocupação de não ser considerado uma ameaça ou um perigo pelos outros manifestantes. É um jogo difícil e que não está isento de riscos, ninguém está em condições de dar lições a esse nível ou isento da possibilidade de cometer erros. Mas para os corrigir é preciso ter as ideias minimamente claras do que se quer e não quer. Quem esteve hora e meia de cara tapada a lançar pedras sabia (tinha de saber) que uma carga policial era bastante provável. Penso que não chega ser simplesmente o mais rápido a fugir dessa carga e deixar para trás uma data de gente a levar na boca. Isto não é uma acusação, mas uma preocupação. Eu tenho tanto medo como outra pessoa qualquer de ficar cercado a levar bastonadas ou ser levado para um calabouço de Monsanto. E por isso mesmo faço as minhas avaliações e escolhas à luz desse medo, de maneira a que isso não aconteça, nem a mim nem a outros. Descontando o papel de bófias de cara tapada lá no meio a dar os piores conselhos e a fazer a figura dos mais exaltados de todos, parece-me que a atitude correcta em qualquer situação deste género é procurar antecipar as várias possibilidades e escolher as que dificultem uma acção repressiva. Massificar a ilegalidade é a melhor maneira de combater a sua criminalização. E a melhor maneira de massificar a ilegalidade é fazer com que ela se torne uma escolha normal, pragmática, consciente e até razoável. Com riscos, mas em que eles são partilhados por todos e todos se defendem uns aos outros. Falo da segurança que só pode advir de confiar em quem está ao nosso lado. Foi essa segurança que ganhou forma a 15 de Setembro e a 15 de Outubro e que se perdeu agora quando dava ainda os primeiros passos. A iniciativa voltou a passar para o lado escuro da força e veremos as consequências disso nas próximas mobilizações.

A violência ilustrada I

Não estive em S. Bento no dia da última greve geral. Afazeres vários levaram-me para outras paragens e para outra (a mesma?) greve geral, onde também não faltou agitação e turbulência. Tenho estado por isso atento a vários relatos e tomadas de posição relativamente ao que ali aconteceu, mas hesitante no que diz respeito a escrever algo sobre o assunto. Neste momento, porém, passados alguns dias e perante a sucessão de acontecimentos, parece-me oportuno fazer algumas considerações.

Desde Setembro que a rua escapava ao controlo policial e que a ilegalidade se banalizava nas manifestações, sem que fosse possível estabelecer a clássica e sinistra distinção entre os bons manifestantes pacíficos e os maus manifestantes violentos. A situação atingiu o auge quando bófias à paisana foram escorraçados da manifestação e obrigados a correr para trás do corpo de intervenção. Para resumir a coisa em poucas palavras, a iniciativa tinha passado para o lado dos manifestantes e escapado às chefias policiais, que não faziam ideia de como reagir sem contribuir para um agravamento da situação. Nesse momento, uma carga policial poderia ter incendiado o país inteiro, num contexto em que os membros do governo eram vaiados e insultados onde quer que fossem.

Mas no dia 31 de Outubro o cenário em S. Bento possuía já algo de surreal, reproduzido aliás no dia 12 em Belém, em frente ao CCB. Pouca gente na manifestação, mas muita dela de cara tapada, por vezes a uma curta distância da polícia, as barreiras lançadas abaixo, fogo ateado, objectos arremessados, insultos e nada. Nem uma carga, nem uma detenção, nem um cerco para identificação. Quem se habituou ao modus operandi clássico da PSP (desde as cargas na Rua do Carmo e em Setúbal, aos cercos na Av. da Liberdade aquando da cimeira da NATO e na Igreja dos Anjos no dia do desalojo de S. Lázaro ocupado, até às detenções por paisanos em diversas manifestações) não podia deixar de ficar inquieto perante este súbito jogo de expectativa.

Em Belém, algum pessoal de cara tapada investiu contra a barreira policial mas o que parecia ser um movimento de várias pessoas era na verdade um enxame de jornalistas que os filmavam e fotografavam à espera desse momento mágico capaz de resumir a situação política e social numa imagem. Consciente de que a guerra se estava a jogar ao nível da imagem e das representações, o comando da PSP quis preparar e encenar cuidadosamente a sua estratégia de intimidação e criminalização do protesto social. Foram então tomadas ao mais alto nível (ou seja, no governo) as decisões que levaram à carga policial de 14 de Novembro.

Só quem quer ser puxado

Ora, os mitos nacionalistas têm uma face dupla, tanto servem para identificar o nós como o outro, e entre estes mitos tem ressurgido ultimamente o da culpabilidade alemã. Em resumo trata-se de dizer que, se os alemães foram culpados do nazismo e do genocídio dos judeus, não espanta que sejam agora culpados das medidas de recessão económica impostas aos países da periferia meridional da zona euro. Mesmo alguém como o prof. Boaventura Sousa Santos, que pelo menos deveria ter alguns conhecimentos históricos, ousou escrever em meados do ano passado que «podemos ser preguiçosos, podemos não saber como nos governar, mas não matámos 6 milhões de judeus e ciganos. Tenho pena de o dizer, mas tenho de o dizer. O nacionalismo puxa o nacionalismo» (veja aqui). Mas o nacionalismo, prof. Boaventura, puxa só quem quer ser puxado.

João Bernardo, O mito da culpabilidade alemã

O inimigo interior

Não é novidade para ninguém que há já alguns anos que a luta contra a construção de uma linha férrea de alta velocidade, a ligar França e Itália através do Piemonte, tem sido um dos epicentros das mobilizações ambientalistas e anticapitalistas na Europa. Menos conhecida será a rivalidade crescente entre diferentes grupos que participam nessa luta, alimentada de resto por pequenas questiúnculas locais e polémicas um pouco mais sérias a nível internacional.
Alguns companheiros «antiautoritários» franceses acharam bem partilhar em público as suas reflexões em torno da experiência de participação no movimento em Agosto deste ano, acusando os «autónomos marxistas-leninistas» do CSO Askatasuna (Turim) de dirigirem o movimento de forma autoritária e desonesta. Está aqui, para quem lê em francês.

Um camarada do dito centro social respondeu, em francês e em italiano. Alguns dos temas da discussão acabam por trazer ao de cima muitos dos problemas relacionados com a coordenação e cooperação entre grupos com diferentes experiências e métodos de acção, para além de acabarem por ilustrar a facilidade com que problemas de ordem prática (desde a tradução simultânea nas assembleias à ementa das refeições colectivas) se transformam em pretexto para acusações completamente gratuitas e afirmações identitárias sem fim à vista. Enquanto não chega o resto, aqui fica um excerto traduzido do texto de resposta escrito em Turim:

O movimento No TAV sempre assumiu formas colectivas, não é novidade para ninguém; e não é necessário dar-se conta disso apenas quando estas formas são agradáveis ou divertidas, ou individualmente partilhadas. Cada um é livre de não reconhecer o âmbito colectivo enquanto lugar de decisão, na base das suas próprias ideias, mas não pode impor essa posição, e as suas próprias ideias, a um movimento popular que, ao longo de anos, escolheu a forma assembleária como a mais apropriada para permitir a todas as realidades encontrar-se e produzir uma iniciativa comum. As ideologias não são para aqui chamadas, por uma questão de respeito e de método. O movimento fez esta escolha de forma autodeterminada, já há muitos anos, e não pode submeter-se a nenhuma autoridade externa, nem sequer a vossa; não bastar definirem-se enquanto “antiautoritários” para passarem a ser considerados respeitadores da autonomia e da liberdade dos processos de luta… é necessário demonstrá-lo com factos.

Considero patético que tenham insultado os No Tav que vos convidaram a respeitar as decisões da assembleia definindo-os como “polícias”. Isso, bem longe de demonstrar que vocês são “antiautoritários”, mostra que não são capazes de respeitar os outros e que não sabem calibrar, já não digo sequer a discussão, mas as próprias ofensas. Em vez de chamarem polícias aos No Tav, seria melhor, da vossa parte, evitar fornecerem aos polícias (os verdadeiros, italianos e franceses) informações detalhadas acerca de supostas decisões tomadas pelos camaradas (cuja identificação vocês tornam possível graças à indicação  do nosso espaço ocupado) em matéria de práticas ilegais, relativamente à jornada de 31 de Agosto e da sua suposta “organização”. Sobretudo num contexto como o do vale, caracterizado por uma utilização descomplexada da repressão carcerária e da militarização do território.

“Que não façam uma justiça patriótica e nacionalista”


O julgamento do Policia que assassinou Kuku de 14 anos decorre em silencio (longe da praça publica) a caminho de ser mais um caso de impunidade das execuções racistas da policia. A sentença é lida a 13 de Novembro. Com este concerto a Plataforma Gueto quer voltar a dar voz ao caso de KUKU situação à situação de violencia racista que prossegue nas ruas, nas esquadras e nas prisões portuguesas. Queremos também angariar fundos para os custos judiciais do processo. Apoia Esta Luta. KUKU somos todos e todas! Justiça e Paz

Plataforma Gueto

Giorgios Kornakkis (1917-2012)

Faleceu ontem, numa  rua de  sentido único em Berlim, o filósofo marxista Giorgios Kornakkis, com 95 anos de idade. Kornakkis, um dos nomes esquecidos do movimento operário revolucionário internacional, destacou-se desde jovem pela sua militância comunista na Grécia, onde trabalhava na marinha mercante. Combatente internacionalista em Espanha,  rompeu com o Komintern pouco antes do levantamento insurrecional de Barcelona, em Maio de 1937, integrando então o grupos Amigos de Durruti, que levava a cabo uma denúncia sistemática do estalinismo e da orientação contra-revolucionária assumida pela cúpula da CNT/FAI.

Nesta fotografia, é o segundo à direita na fila de cima

Gravemente ferido na frente de Aragão, abandonaria a Catalunha pouco antes da conquista de Barcelona pelas tropas franquistas, exilando-se em França. Evadido do campo de concentração onde fora colocado pelo governo francês, mergulhou nos meios marginais parisienses, dedicando-se às expropriações revolucionárias e ao banditismo social, para integrar um dos primeiros grupos clandestinos de resistência após a invasão alemã. Circulando num meio composto sobretudo por exilados políticos antifascistas e antigos combatentes da guerra civil espanhola, Kornakkis viria a formar com outros camaradas seus a Internacional Comunista Combatente, levando a cabo actos de sabotagem contra o esforço de guerra alemão e represálias na sequência de actos repressivos por parte dos ocupantes.

Permaneceu em Paris após a libertação, levando a cabo um amplo trabalho de crítica comunista ao capitalismo de Estado vigente na Rússia, bem como um combate sistemático às orientações do Partido Comunista da União Soviética. Viria a tornar-se um dos principais propagandistas das ideias e concepções organizativas do comunismo de conselhos. A partir de finais da década de 50, começaria a desenvolver um conjunto de estudos de crítica da economia política, entrando em contacto com diversas correntes e organizações, desde a Internacional Situacionista aos Quaderni Rossi. Terá então influenciado profundamente Guy Debord, a quem recomendou a leitura de História e Consciência de classe, obra maldita escrita por Lukács durante a sua juventude. A ruptura entre os dois decorreu de um mal-esclarecido triângulo amoroso que tinha como vértice Michèle Bernstein, esposa de Debord e amante de Kornakkis, culminando num duelo de navalhas do qual o primeiro saiu bastante mal-tratado.  Viriam a reconciliar-se provisoriamente durante o Maio de 68, integrando ambos o Conselho pela Manutenção das Ocupações e combatendo ombro com ombro nas barricadas do Quartier-Latin.

Kornakkis dedicou-se a partir da década de 70 ao estudo das transformações produtivas decorrentes da crise do capitalismo mundial e do alastramento da conflituosidade operária. Dando origem a conceitos como «caos metropolitano», «bloqueio selvagem do capital circulante», «catástrofe organizada»  ou «produção de destruição», Kornakkis optou contudo por permanecer na sombra, recusando convites para leccionar em diversas universidades  e furtando-se a qualquer aparição mediática. Os seus interlocutores permaneceram sempre os revoltosos e subversivos de todo o mundo.

Concentrando-se sobretudo sobre a denominada «revolução dos contentores» e os seus impactos sobre o transporte de mercadorias à escala global, antecipando as transformações produtivas e as alterações na divisão mundial do trabalho que esta implicaria, Kornakkis havia recentemente publicado  um curto mas vigoroso ensaio sugestivamente intitulado «Não haverá paz sobre as ondas do mar», em que sublinhava a centralidade do transporte marítimo no interior do ciclo produtivo pós-fordista e a vulnerabilidade da acumulação flexível face a movimentos conflituais  de trabalhadores organizados à escala internacional. Kornakkis arriscou mesmo profetizar que um novo ciclo de lutas sociais e convulsões à escala planetária poderia ser inaugurado no momento em que um sector-chave, como o trabalho portuário, rejeitasse em bloco a precariedade e se unisse em torno da contratação colectiva. Referiu então a elevada probabilidade de o conjunto da esquerda institucional e sindical reagir com desconfiança e distanciamento face ao regresso de velhas formas violentas da luta de classes combinadas com novidades históricas ao nível da subjectividade do proletariado moderno, assinalada por uma simultânea massificação e fragmentação a nível quotidiano.  «Será porventura a última ocasião histórica em que um dirigente sindical se sentirá em condições de denunciar a violência no contexto da luta de classes, sem recear ser imediatamente pintado de merda», escreveu nos seus momentos finais de lucidez.

O corpo de Kornakkis foi cremado e as suas cinzas espalhadas no mar, segundo o seu pedido. Aos seus familiares e amigos, o Spectrum endereça as mais sentidas condolências. A luta continua.

«A polícia não nos faz mal»

Garantiu Arménio Carlos que a polícia não nos faz mal, para apelar aos estivadores que se deixassem de loucuras e viessem escutar recatadamente o seu discurso. É seguramente uma originalidade histórica, ouvir um dirigente sindical marxista-leninista garantir a trabalhadores em luta (ameaçados por uma requisição civil, note-se bem) que o aparelho repressivo do Estado não é repressivo. Mas então, que espécie de encenações foram estas?

Nunca se rendem

Não é propriamente uma novidade para ninguém, mas dá sempre gozo. Algumas dezenas de estivadores subiram a Rua das Flores – a caminho de S. Bento – e resolveram fazer uma visita ao Secretário de estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, nas instalações do Ministério da Economia, ao Chiado  Pelo caminho soltaram um ou outro petardo, assinalando a sua presença e dando à coisa um certo jeito de estrilho que marca toda a diferença e chama a atenção de toda a gente que passa. Lá chegados, encontraram apenas um polícia à porta, que ficou branco depois de ter ficado roxo e pouco antes de se tornar verde (pálido). Palavras de ordem, insultos ao Sérgio, cânticos («a estiva em Portugal somos nós», etc.) e os parabéns cantados a um camarada que fazia anos. Chegam os reforços policiais, na sua carrinha, e formam com pouca convicção à frente da porta. Os estivadores sobem a rua em direcção a S. Bento, mas ao passar pela carrinha, onde estavam apenas dois agentes, batem nos vidros e lançam um petardo. Empurrões, insultos e a maioria dos bófias muito encolhida à espera que passe a borrasca. Um deles, à paisana, pergunta timidamente ao dirigente sindical «para onde é que vão» porque precisa de reportar aos seus superiores. A resposta vem carregada de desprezo «vocês sabem perfeitamente para onde é que vamos».

Prossegue-se sob a chuva miudinha, já com escolta enquanto se desce a Calçada do Combro. Vira-se à direita em direcção à Escola Passos Manuel e corta-se por uma rua de sentido único, dificultando a vida à carrinha policial. Os estivadores chegam a S. Bento pelas escadinhas da Travessa da Arronchela, gritando «o povo unido, jamais será vencido». Lá em baixo são saudados com aplausos pelos poucos manifestantes presentes (CGTP, CNA, «Que se lixe a Troika», Indignados de Lisboa e avulsos) e viram imediatamente à direita, em direcção à Rua de S. Bento, provocando imediatamente a concentração de polícias à sua volta e a chegada de mais carrinhas. Isto promete.

E esta sensação de poder que representa percorrer as ruas sem pestanejar minimamente devido à presença policial e à possibilidade de uma carga, que tanto jeito daria noutras manifestações. E este sentimento de força que advém da determinação colectiva de lutar, que tanta falta tem feito nos dias de greve geral. E esta impressão de que estamos perante um conflito exemplar, como nos diz Alan Stoleroff, onde se pode estar a jogar o futuro do conflito social neste país. Até porque os estivadores nunca se rendem.

Um compromisso tão grande quanto a nossa diferença

Estou bastante convicto de que a reunião já assinalada pelo Party Program foi marcada por um profundo consenso no que toca à análise da situação do país e às soluções a encontrar num futuro próximo, no sentido de resolver os problemas da precariedade.
Até porque, parafraseando um texto injustamente esquecido nas profundezas da rede:

A esquerda que pode e há-de vencer é aquela não desiste para a facilidade, mas que terá de fazer o caminho mais difícil, contra a política de fluxograma e da vernissage, contra o fechamento e contra a sedução da pequena decisão. Aquela esquerda que terá de aprender como construir um compromisso tão grande quanto a nossa diferença.

Por outro lado, o Rui Maia é já há alguns anos uma figura incontornável na construção de um futuro auspicioso para os jovens deste país. Como quando pugnava pela criação de um ensino técnico profissional de qualidade para os mais pobres:

Portugal tem uma taxa de abandono escolar na ordem dos 49%, e a melhor maneira de manter os jovens na escola é criar uma verdadeira alternativa ao ensino superior. Esta alternativa pode e deve ser a criação de uma rede pública de escolas técnico-profissionais para os jovens que devido à sua condição económica-social se vêm obrigados a abreviar a entrada no mercado de trabalho.

E felizmente que esta vontade de encontrar compromissos já conseguiu estabelecer pontes entre os Precários Inflexíveis e a CGTP. O que, espero eu, evitará novos e tristes episódios como este, que aparentemente não provocou manchetes espalhafatosas acerca dos «radicais perigosos» nem dos «activistas com perfil mais violento», apesar da excelente qualidade do material fotográfico que o documentou. Dores e perigos que só uma esquerda que não desiste para a facilidade está em condições de superar.

A poesia acabou (1943-2012)

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina, in “Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde”

Juntos

É sintomático que a «tensão» nas ruas tenha subido de tom no momento em que a composição social das manifestações começou a ganhar novas formas. Os activistas e militantes do costume começam a encontrar-se com estivadores, pessoal de claques, jovens dos subúrbios, moradores de ghettos, desempregados fodidos. Partilho a preocupação que muitos sentem com a repetida emergência de palavras de ordem nacionalistas e do hino nacional nestas manifestações, mas é preciso sublinhar que a esquerda movimentista não faz melhor quando clama pela perda da soberania nacional e apresenta soluções nacionais para a crise.

Parece-me ainda cedo para avaliar o impacto e alcance das últimas manifestações. Uma coisa é certa, a comunicação e solidariedade e acção colectiva entre pessoas que mal se conhecem é uma realidade no momento de escolha da ilegalidade de massas contra a austeridade e a repressão policial. Ontem, estava muita gente de cara tapada (e ao contrário do que sustentou em tempos, com toda a solenidade, o Daniel Oliveira, muitas mulheres estavam na primeira linha de cara tapada) e muita mais ao seu lado. No relvado lateral, uma vez derrubadas as barreiras, vi reformados e senhoras de idade ao lado de pessoal de passa montanhas que lançava petardos. Dois polícias à paisana foram identificados, cercados e forçados a refugiar-se atrás da barreira policial. É preciso recordar que são precisamente estes que prendem pessoal quando as manifestações estão a acabar ou quando apanham alguém mais isolado por ter ido beber água ou mijar. E também importa não esquecer que isto aconteceu e poderá voltar a acontecer. Se os manifestantes fossem a massa selvática e inconsciente que é retratada pelos media – se fossem «radicais violentos» – não teriam tido dificuldades em linchá-los. Demonstraram bastante inteligência e sangue frio ao obrigá-los a correr.

Não deixa de ser irónico que venha de um meio habitualmente conotado com a alienação das massas e a sua despolitização este novo ímpeto à contestação nas ruas. É como se um feitiço se virasse contra o feiticeiro.  Os estádios de futebol tornaram-se há muito – num contexto de isolamento e fragmentação da vida social – dos poucos espaços de agregação e socialização dos jovens da classe trabalhadora e dos grupos subalternos. A experiência das claques – nomeadamente nas suas deslocações – familiariza os seus membros com os métodos do controlo e da repressão policial, bem como com as estratégias colectivas para lhe fazer frente. Ontem, em S. Bento, estava toda a gente junta, mas a iniciativa coube claramente a um conjunto de pessoas que sabia uma coisa ou outra acerca do confronto violento com a polícia e se preparou para ele. Se tivessem sido apenas manifestantes de esquerda com um punhado de anarquistas lá pelo meio teria sido porventura mais fácil para a polícia pôr um fim a tudo aquilo. Assim, esta confluência entre estivadores, hooligans (isto não é um insulto e, à falta de melhor, vocês sabem bem do que é que eu estou a falar), pessoal mais militante e manifestantes que já estão fartos de passeatas e discursos simpáticos, resultou num momento que poderá vir a dar o tom para o futuro.

A polícia carregou quando se esperava que carregasse, não antes. E fê-lo com todas as cautelas que a situação impunha. Não correu à desfilada a bater em tudo o que mexe. Não perseguiu pessoal durante horas pelas ruas. Ficou ali, quietinha, a defender o perímetro. Naturalmente que lançou a mão a quem conseguiu (a vida é feita de aprendizagens, quando eles carregam não serve de nada levantar os braços e ficar quietinho), mas convenhamos que o saldo não lhe foi propriamente positivo, se o compararmos com manifestações anteriores. Quando eles têm medo e são obrigados a defender-se, quando perdem a iniciativa, todos ficamos mais seguros. E por último, não é menos importante que se reflicta colectivamente acerca da repressão policial e se procure identificar alguns meios para lhe fazer frente. O panfleto ontem distribuído, Vamos juntos, voltamos juntos, foi um excelente ponto de partida. Esta merda está muito longe de ter acabado. Encontramos-nos nas barricadas.