Israel: 66 anos de Sabras e Chatilas.

Belém, 2008

Belém, 2008

Este blog já lembrou Sabra e Chatila aqui. A recente agressão perpetrada por Israel em Gaza faz-me voltar a este triste acontecimento precisamente no mês em que teve lugar o massacre há 32 anos : Setembro de 1982. Sabra e Chatila (subúrbio de Beirute) não é diferente de Deir Yassine (1948, perto de Jerusalém), Jenine (2002, norte da Cisjordânia) ou Shejayah (2014, subúrbio de Gaza cidade), todos eles relevam de uma vontade de vergar uma população, a palestiniana. O massacre que teve lugar em Deir Yassine ficará conhecido como o inicio do exílio palestiniano, cujo espectro de terror e matança deixado pelo caminho levou ao exílio dos sobreviventes. Deir Yassin é assim um dos momentos fundadores daquilo que é a Nakba (« catástrofe ») para os palestinianos e da criação do Estado de Israel para os sionistas. Ilan Pappé no seu combate intelectual para o estabelecimento dos factos de 1948 tem mostrado no seu trabalho como os responsáveis do massacre de Deir Yassin justificaram as atrocidades cometidas pela necessidade de seguir o plano Daleth. Não será difícil chegar à fonte primeira deste plano, mas chega uma breve procura na Wikipédia para se compreender no que consistia o programa implementado pelas forças sionistas. O plano Daleth assenta na lógica de destruição de todas as « bases inimigas » julgadas estratégicas e, concomitantemente, que a destruição dessas bases conduzisse à expulsão dos seus habitantes.

Duas razões levaram-me a começar este texto por Deir Yassin, uma primeira que diz respeito à Nakba e uma segunda que diz respeito a uma regularidade estratégico-militar utilizada por Israel. O êxodo, exílio, expulsão dos palestinianos em 1948 levou à dispersão dos palestinianos por diversos cantos, os menos abastados concentraram-se em campos de refugiados, entre os quais os de Sabra e Chatila, Jenine e Shejayah (este ultimo, considerado bairro popular com uma grande densidade populacional). As execráveis condições materiais de existência nas quais estas populações vivem, sejam eles no Líbano, na Cisjordânia ou em Gaza, propiciam aquele sentimento que Israel tenta apagar há 66 anos: o sentimento de se ser palestiniano e o apego à terra onde os antepassados nasceram. Dizer isto significa a implicação de todos os habitantes, com armas ou sem armas, na luta pela libertação da Palestina. Estes campos de refugiados, que ao longo dos anos foram-se literalmente cimentando, são berços de resistência, aquilo a que o plano Daleth chamaria hoje de “bases estratégicas” a destruir. Encontramo-nos, portanto, numa dinâmica de movimento e contra-movimento, na medida em que o movimento sionista fustiga o contra-movimento palestiniano.

A luta pela libertação da Palestina tendo sido exportada para o Líbano torna a dinâmica mais complexa, uma vez que ela mistura outras realidades geográficas, outras realidades étnico-religiosas. O massacre de Sabra e Chatila é consequência disso. Numa excelente tese de doutoramento, a historiadora Jihane Sfeir, mostra como a chegada maciça de palestinianos em 1948 ajudou a forjar a identidade libanesa (contra uma outra estrangeira) numa região onde as fronteiras ainda estavam muito pouco definidas… numa região que ainda era chamada por alguns de grande Síria. No Líbano, ao contrario de outros países de acolhimento como a Síria, os refugiados palestinianos de 1948 e seus descendentes nunca puderam aceder à naturalização libanesa, não podendo exercer por exemplo certas profissões ou adquirir propriedades, seguindo a lógica que estes iriam um dia voltar à Palestina. Na verdade a naturalização desequilibraria o já pouco equilíbrio demográfico existente entre comunidades religiosas no Líbano. Os Palestinianos não puderam naturalizar-se nem puderam de facto regressar à Palestina, mas voltemos a Sabra e Chatila… Foi nestes campos onde a Organização pela libertação da Palestina (OLP) reuniu o essencial da sua direção, entre os quais Arafat. Num país mergulhado numa guerra civil desde 1975 que opunha varias fações comunitárias e políticas, a questão palestiniana e mais particularmente a questão da ocupação israelita da Palestina não era obviamente secundária. É neste cenário que Israel invade o Líbano, em Junho de 1982, e à qual chamou o nome angélico de “operação de paz na Galileia”. E é em seguida neste cenário de invasão que se criaram alianças entre as forças sírias e os palestinianos no exílio, entre as forças israelitas e uma determinada fação dos católicos libaneses. Com o assassinato de Bashir Gemayel, presidente libanês e chefe das milícias falangistas aliadas de Israel, no dia 15 de Setembro de 1982, a situação acelerou rapidamente. Sabra e Chatila são cercados, sem saídas nem entradas, com a argumentação moral da parte de Israel da necessidade de preservar a ordem depois do assassinato do presidente libanês. Conta-se que o exército israelita armou os seus aliados libaneses e enquanto a aviação iluminava os campos, nas 48 horas seguintes, um massacre tem lugar em Sabra e Chatila (entre 700 e 3500 palestinianos são assassinados dependendo das fontes). Alguns dias mais tarde Ariel Sharon admite no Knesset (parlamento) que o exército israelita entrou em Beirute-oeste para acabar com as infraestruturas dos terroristas. Ou seja, o plano Daleth 1948 de erradicação das “bases estratégicas” do “inimigo” continuava na agenda dos sionistas em 1982. A direção da OLP tinha sido no entanto evacuada dias antes do massacre para a Tunísia. O massacre visou assim “pessoas normais sem nada de excepcional”, a não ser a excepcionalidade de serem palestinianos.

Esta é claro uma versão simplificada do acontecimento, mas que avança pistas que refutam a imagem que nos é transmitida pelo filme “A valsa com Bashir”, sobre o qual este blog também já dissertou aqui e aqui. A responsabilidade de Israel na gravidade deste massacre é de tal ordem importante que a beleza do filme aplaudido e premiado por todo o mundo, incluindo em Israel, é insuficiente. Insuficiente porque o filme apresenta o massacre como o fruto de uma parceria entre libaneses falangistas e Israelitas, onde uns e outros são cúmplices, onde a responsabilidade é tão partilhada que se dispersa nas vicissitudes malignas da humanidade. Não, o massacre de Sabra e Chatila não foi uma simples irregularidade histórica, ele tem origem na criação do Estado de Israel e nas ambições territoriais sem limites dos seus consecutivos governos. Não se pode estetizar despolitizando a culpa de Israel no massacre de Sabra e Chatila, porque em Jenine repetiu-se, porque o massacre em Shejayah continua, porque a Nakba não terminou. Citando Daniel Bensaid, “que a nossa língua cole ao céu da boca se esquecermos Jenine”. Quem diz Jenine, diz Sabra e Chatila, Deir Yassine ou Shejayah.    

Nos bastidores de « La Vie d’Adèle »

kechiche

Por detrás desta imagem glamorosa, onde duas mulheres bonitas dão um beijo a um homem (imagem bem sexista que nos habituámos a ver na entrega de prémios nos Tours de bicicleta), há uma outra menos feliz. As condições de trabalho que Kechiche impôs à equipa técnica do filme parecem ter sido menos glamorosas : Jornadas de trabalho intermináveis, planificação da rodagem mudada à ultima da hora, pagamentos dos técnicos muito a baixo dos mínimos salariais previstos no código de trabalho dos intermittents du spectacle, abuso de utilização de estagiários, etc, etc… Mesmo se globalmente as rodagens costumam ser antros de incertezas, a lista do desprezo demonstrado por Kechiche em relação aos técnicos que participaram neste filme é longa, e muitos abandonaram aliás a aventura a meio. Estas denuncias não se reduzem a este ultimo filme, outras histórias já tinha ouvido, nomeadamente da boca de portugueses que foram chamados para trabalhar nos filmes dele (imagino porque estes aceitariam de ser menos pagos que os outros). Os primeiros filmes de Kechiche, lembro por exemplo o Esquive (filme fenomenal que mete em cena jovens dos subúrbios), foram produzidos com muito poucos meios. Hoje, para a Vie d’adèle, Kechiche beneficiou  de 4 milhões de euros, o que faz deste filme não uma grandíssima produção, mas com condições relativamente aceitáveis no meio do cinema. Se nada justifica o desrespeito das condições de trabalho, Kechiche já não tem autoridade para argumentar os seus abusos através dos limites orçamentais. Comer ostras e beber Champagne pode ser necessário para solidificar a confiança entre os actores e o realizador, fazê-lo em frente dos técnicos sem que estes possam usufruir do momento é menos delicado. 

Um filme é por excelência um trabalho colectivo. A excelência de um filme passa portanto pelo respeito de toda a equipa que participou na sua realização. É sempre bonito ouvir-se em Cannes um discurso de homenagem aos jovens tunisinos que fizeram uma revolução… Sabe sempre bem ver-se bons filmes, imagino que a Vie d’Adèle entra na categoria dos “bons filmes”… Mas mais do que palavras ou filmes individuais que soam bem, prefiro filmes que transpirem a imagem de uma verdadeira realização colectiva. Vou ver este filme, mas sem duvida com uma sensação de estar a comer ostras estragadas.

Do interior de Israel…

Belo debate sobre o sistema segregacionista do Estado de Israel.

Se é necessario lembrar e relembrar a configuração Apartheidista na qual toda a região está embrenhada, Tal Dor mostra também que dentro das fronteiras da Palestina 67 os Palestinianos cidadãos israelitas vivem igualmente sob um regime colonialista.

A resposta de Tal Dor à pergunta do jornalista sobre porque não existe uma tomada de consciência maior do estado de situação entre os judeus israelitas é também interessante : chama-se dominação da ideologia hegemónica – o sionismo –  !

TV5MONDE : Maghreb-Orient Express – Israël-Palestine : Apartheid, la fin d’un tabou ?.

Obama Grandolado…

Aquilo que o Obama nao ouviu nem quer ouvir, mas que foi dito :

Rabeea Eid interrupted Obama’s speech by saying: “Do you really came here for peace, or to give Israel more weapons to kill and destroy the Palestinian people? Have you seen the apartheid wall in your way?” He added: “There are Palestinians in this room. This state must be for all its citizens, not the state of the Jewish people. “Who killed Rachel Corrie? Rachel Corrie was killed by your money and your weapons””

 

Eles dizem que têm o passaporte do coelho.

“O Salto, le saut, c’est la triste odyssée des travailleurs portugais chassés par la misère. (…). O Salto est précisément le nom que donnent eux-mêmes les Portugais à leur voyage clandestin vers la France. O Salto, c’est le saut, la culbute par-dessus les Pyrénées. Ils disent qu’ils ont le passeport du lapin”.

Droit et Liberté, n° 266, out. 1967

Uma conferência com um titulo digno de anuncio

« Três fases de economia política imperialista e as suas consequências para as formações sócio-sexuais europeias » por Peter Drucker. Já no próximo sábado num dos auditórios históricos da Sorbonne em Paris, inscrita no seminário « Marx au XXIème siècle ».

Visto a distância, fica ainda assim aqui o link para quem tiver o interesse de ver 6 anos de arquivos Áudio e Vídeo (de 2005 a 2011) deste mesmo seminário, dados por vários e “eminentes” marxistas do século XXI…  

Ainda e ainda Palestina

Mais um autocarro israelita vitima de um atentado terrorista. A mim só me espanta não haver mais, visto que cerca de 20 % do total da população em Israel são potenciais terroristas (estes 20% são aqueles a quem chamam de Árabes Israelitas, para não dizer Palestinianos e assim considerar que existe uma Palestina).

Mas passando o fait divers, já não há paciência para os medias mainstream ocidentais sobre o massacre que se perpetua ainda e ainda na Palestina. Chomsky & Co já escreveram um texto sobre o assunto : « nous accusons ». Não nos esqueçamos, porém, que para além do massacre desta semana, há um massacre quotidiano perpetrado desde 1948.

é de assinalar ainda, a insistência de medias como a CNN ou o Publico (lido na versão papel de segunda feira) de meter lado a lado testemunhos de vitimas palestinianas e vitimas israelitas. Encenar a vitimização de um lado e outro do muro é cair no ridículo da CNN (ver vídeo), é criar a sensação de um joguinho do toca e foge, quando na realidade estamos a falar de um massacre colonial. Um grave problema está na base de todas estas coberturas mediáticas, nomeadamente o facto de se partir da fabula da existência de dois estados. Não há nem nunca existirá. Como tenho defendido várias vezes, se solução houver a única solução viável é a de um só Estado.

Por fim, ainda dar conta da cobertura do Le Monde em relação à Palestina, como se ainda não estivéssemos completamente convencidos sobre a mediocridade da coisa… Depois de um artigo de merda intitulado “A Sdérot, en Israel, face à Gaza :  Nous attendons cette offensive depuis des année” (19 nov.) continuo a folhear o jornal até chegar à secção da Economia. Nesta secção deparo-me com metade da página dedicada ao tema “L’Angola, terre de refuge pour les Portugais” (tema predileto dos medias franceses para falar da crise) e uma outra metade (estão a ver o tamanho da páginas do Le Monde ?) preenchida com uma publicidade que diz apenas “Solidarité des juifs de la diáspora avec Israel” assinado por um tal Ilan Flammer. Bom, conhecemos as dificuldades com que todos os jornais se deparam, mas dai a aceitarem publicidades politicamente explicitas pelos crimes de guerra vai um grande salto…

Enfim, para apaziguar as almas, bolsos de resistência aparecem-nos às vezes da Bélgica livre, ver aqui.

Das “alternativas” a uma “frente popular”

Enquanto em Portugal se fazem congressos das alternativas, na Tunísia faz-se uma « Frente Popular ». Depois dos resultados nada satisfatórios da esquerda tunisina nas eleições « pós-revolução », 11 partidos (nem mais nem menos) juntaram-se para fazer da «união faz a força » o seu slogan. Diz quem lá esteve, aliás como os congressistas portugueses,  que « é para continuar ». Juntar partidos que têm como heróis Sadam ou Estaline não é fácil, mas os tempos urgem.

Tudo o que é sólido derrete-se na água.

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Embora não tenha um opinião completamente formada como o PP em relação a ações simbólicas, estou de acordo que o MEDO, muito mais generalizado do que o « chico-espertismo da classe política », deve ser o alvo de toda e qualquer ação destinada a combater as « verdades » do sistema capitalista.

A necessidade de ingerirmos alimentos, outrora vista como um aspecto relacional/integrador, foi transformada num elemento de medo e de exclusão. Esta transformação não é de hoje, Karl Polanyi (47) já a descrevia assim : « O económico foi desvinculado do resto da sociedade para vir a ser o reino da fome e do ganho. A nossa dependência animal da alimentação foi posta a nu e o medo puro de morrermos de fome autorizado a impor-se livremente. A nossa escravidão humilhante perante o «material», que toda a cultura humana foi criada para mitigar, foi tornada, deliberadamente, mais rigorosa. » Mais vale pensar que os sacrificios que fazemos pelo medo, derretem-se sempre na retrete. 

A « rentrée » dos Roms.

Estávamos em pleno verão quando fui contactada pela RFI em França para falar sobre os Roms… o quê ? Quoi ? Não estivesse eu em férias no meio da natureza sem internet, já teria ouvido falar da (re)perseguição dos Roms. Nada de anormal se o Partido Socialista não tivesse sido eleito três meses antes. Apanhada pela atualidade, sem por isso estar desprevenida, respondi que era a continuação de uma política de direita e mais precisamente da política de Sarkozy. Como poderia ficar desiludida com um socialismo que nunca me iludiu? Isto para não falar do “Tratado Sobre a Estabilidade”, mais conhecido por Tratado Merkozy e que reitera a lógica da austeridade, sobre o qual François Hollande fez contracampanha e que afinal (nada leva a crer no contrario) fará vite-fait uma vénia nos próximos dias (dia 19 de setembro: apresentação do projeto de lei de ratificação; dia 1/2 ou 8/9 voto do projeto de lei para o parlamento francês).

Sobre os Roms aqui fica uma petição do melhor que se pode fazer nos círculos intelectuais franceses.

Uma medalha de ouro para a natação de Rio de Mouro City !

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As declarações deste senhor podiam ter um impacto bem mais pertinente em termos políticos, se ele não tivesse caído na ladainha de sempre de reduzir o problema do país aos sentimentos pouco encorajadores da totalidade dos portugueses.

Estou de acordo que exigir « medalhas sem consciência do que é o alto rendimento e uma participação a este nível » é insensato, mas mais insensato ainda é ficar qualificado nos 16 melhores sem ter havido um investimento para isso.  

Em tempos de verão não posso deixar de pensar nas minhas capacidades de natação : com a escola publica nunca meti um pé numa piscina. Talvez esta realidade varie segundo a escola, bairro ou região do país… a verdade é que eu cresci em Rio de Mouro city !