« 100 dias de greve, 100 dias de desprezo, 100 dias de Luta »

100jours
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Da luta contra o aumento das propinas passou-se a um nível superior de contestação : demissão do governo . Jean Charest cometeu um erro basico quando adoptou a lei 78 – especial estudantes – que proíbe o direito dos estudantes a manifestar . Apesar das centenas de detenções e multas, as manifestações não só continuaram como se tornaram ainda maiores, agora com um amplo apoio do resto da população. O fruto proibido é o mais apetecido… fala-se em desobediência civil. Entretanto, já é noticia em França.
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O hit das panelas ouvido nas manifestações
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Resposta dos estudantes ao pedido da policia de Montréal do percurso de manifestação.

Quem é Line Beauchamp ?

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Mais de três meses de conflito entre estudantes e o governo levaram Line, ministra da educação, a demitir-se do seu cargo. Estamos a falar do Quebec (região por enquanto com as propinas mais baixas do Canada, ou seja, longe das propinas dos EUA). O governo, liderado por Jean Charest, decidiu aumentar 1625 dólares as propinas durante os próximos cinco anos, os estudantes responderam não. Conclusão ainda não terminada : três meses de greve e de manifestações onde se saldaram vários feridos
causados pela brutalidade da policia e varias detenções (novidade : uma estratégia surpresa de protesto registou-se neste movimento… muitas das manifestações são noturnas . Possível razão : muitos dos estudantes no Quebec são também trabalhadores).
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Amanha, ser estrangeiro em França vai ser punido por lei


Amanha, quando o dia amanhecer, nas ruas e nos transportes públicos vou olhar à minha volta e vou ter uma impressão de estar rodeada de fascistas, chauvinistas, pétainistas (quase 20% na Le pen ???). A França é um país de direita com um minoria de esquerda. Esta minoria, forte nas ruas e com capacidade de agitação de ideias, conseguiu dar uma identidade revolucionaria ao país. O sentimento quando se quantifica as vozes é por essa razão quase sempre de desilusão. Historicamente, essa minoria teve por varias vezes de pegar em armas para forjar uma reviravolta no estado de coisas. é portanto urgente que a esquerda repense quais são as melhores armas de luta contra a dupla de fascistas e de especuladores financeiros.

Se o Front de Gauche ganha, muita coisa vai mudar !


No comício de Marselha, aclamado pela multidão, Jean-Luc Mélenchon responde: “Tinhamos combinado que era para dizer “resistência”, não “Mélenchon ao poder”, mas não se preocupem eu sei o que fazer com ele”. Muitos jornalistas quando se encontram frente a frente com Mélenchon começam precisamente por uma questão que está intimamente ligada a esse aspecto : “não acha que há um excesso de personalização na sua campanha ?”. à partida a esta pergunta eu responderia “nem mais nem menos do que os outros candidatos”. Ser presidente em França não é mesma coisa que ser presidente em Portugal. Ser presidente em França é acumular um conjunto de poderes, é estar, diria, numa linha de governo de tradição Bonapartista onde o soberano detém um poder forte. A isto chama-se um regime presidencialista. O Front de Gauche no seu programa defende a abolição deste sistema para substitui-lo por um regime parlamentar. Portanto, torna-se estranha a acusação dos oposicionistas sobre a estratégia de personalização do candidato do Front de Gauche, quando Mélenchon é precisamente um dos únicos candidatos a defender a supressão da figura do presidente da república “absolutista”.
Mas não sejamos mais papistas que o papa, temos que assumir: o gajo é bom, é mesmo muito bom. O Mélenchon numa tribuna, é como um Maradona num campo de futebol. Espantada com o meu entusiasmo, sigo pela primeira vez uma campanha presidencial minuto por minuto, comício em comício, entrevista em entrevista. Rimos, batemos palmas, gritamos “resistência” nos bares de bairro onde assistimos colectivamente à tournée du Front de Gauche pelo país fora. É uma organização pensada, com uma fachada de espontaneidade… ainda assim parece que resultou, de um pequeno rebanho de ovelhas tornàmo-nos num mar de gente. Li o programa inteiro do Front de Gauche como se tratasse do “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Num só rasgo. Mas em vez de um evangelho encontrei um verdadeiro programa que visa uma sociedade igualitária, começando pela implementação do salário mínimo a 1700 euros (bruto por 35h/semana) e a fixação de um salário máximo. Podem chamar culto de personalidade, “heroizaçao”, moda… o que quer que seja. Parto de uma certeza e assumo-o: deleito-me com a sua capacidade oratória, com o seu lirismo, derreto-me quando ele fala no “temps des cerises” e na bandeira vermelha, tenho uma lágrima no canto do olho quando colectivamente nos meetings dizemos “Non pasaran” ou cantamos aos milhares a internacional.
Dito isto, corre o rumor que o gajo é um pouco resmungão nos bastidores, mas o que interessa isso quando aquilo que defendemos não é apenas a pessoa mas um programa, não é apenas a forma mas também o fundo. Volto por isso ao titulo deste post: “muita coisa vai mudar”. Quando num programa assume-se a insubmissão como pratica de ação estamos automaticamente numa dinâmica de mudança. Desobediência é o termo utilizado para expressar que a França, se o Front de Gauche ganhar, não seguirá as diretivas neoliberais da Europa. Não se quer com isto demonstrar que a linha pelo Front de Gauche defendida é a negligência de um projeto político e de direitos sociais ao nível europeu. Ao contrario, pode-se ler no programa que o Front de Gauche agirá no sentido de desenvolver novas politicas europeias, libertas dos tentáculos dos mercados financeiros. O BCE, a sua missão e o seu estatuto atual, seria o primeiro alvo de uma proposta de remodelação. Esta instituição passaria a estar sob controlo democrático. Claro que quem fala assim não é gago. Mélenchon quando dá um espaço especial à Europa nos seus discursos, e quando fala nos golpes duros que a populaça dos países do Sul sofre, sabe que o seu país não é periférico, e que se a França mudar de rumo, “muita coisa vai mudar”. “Nao lutamos apenas por nos, de todos os lados observam o que estamos a fazer (…) vamos acabar com o eixo Merkozy, de violência e austeridade” (ultimo meeting – 20 de abril – Porte de Versailles). Estas palavras soam um pouco a pretensiosismo regional vindo de uma elite iluminada avangardista, mas quando sabemos que nos movemos num terreno de dominações nacionais, estas frases acabam por ser de um realismo trágico.
Mas os dois grandes feitos do Front de Gauche, do meu ponto de vista, sintetizam-se em duas grandes palavras: União e Ideias. Ter conseguido unir uma diversidade de forças, tornando-se cada uma delas mais fortes e com uma capacidade de dialogo mais ampla, é tornar colorido um espaço que nos habituamos a ver cinzento. O resultado não poderia ser outro que a criação e inscrição no espaço publico de liberdade e circulação de ideias de progresso social, pulsando tanto Sarkozy (ex°fiscalidade) como Hollande (ex°salário mínimo) a rever o seu programa. Quem diria que o PCF aceitaria tocar na energia nuclear? Eh oui, o Front de Gauche propõe uma planificação ecológica, que utiliza os avanços tecnológicos, inventividade, inteligência, no sentido de olear a engrenagem produtiva francesa em compatibilidade com as regras verdes. Por outro lado, não poderia deixar de referir que Mélenchon foi o único a dar luta à Marine Le Pen, a conseguir reduzi-la ao seu saco de veneno. A utilizar palavras justas que desconstroem um discurso que “destila odio” em relação aos estrangeiros. Não ter pejo de dizer: regularização de todos os sans-papiers. Foi o primeiro a dizer que basta de falar de integração, toda a “gente come couscous e merguezes em França”, a integração está mais do que feita (aqui há um pequeno cheiro de republicanismo à la française, palavras sinceras de humanismo universalista ao qual poderíamos opor alguns argumentos, mas ficará para um próximo texto).
Tanta coisa para contar desta campanha… uma campanha que sublinhou a importância de não ignorarmos o facto dos ricos terem uma consciência de classe, enfatizando assim a necessidade de nos organizarmos igualmente pelos nossos interesses. Domingo estarei na praça de Stalinegrad para uma soirée eleitoral organizada pelo Front de Gauche para festejar colectivamente os resultados de mudança (espero-o muito sinceramente).

Para Party Program e pour cause : PREC Tunisino !


Tunes continua ativa. Sábado os diplomados no desemprego foram espancados na Avenida Bourguiba. Ontem, manifestantes que desfilavam na mesma avenida para comemorar o dia dos mártires (em memoria de 9 de Abril 1938 -repressão de uma manifestação em Tunes pelo exército francês -) conheceram a mesma violência. Os dois cortejos denunciam também a proibição pelo governo de qualquer manifestação ou concentração na Av. Bourguiba. Lembrar que esta avenida situa-se no centro da cidade de Tunes (tipo Rossio em Lx), para além de ser um ponto em comum de todas as lutas sociais e históricas em Tunes.
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A virilidade e viralidade sionista do “O Insurgente” //

Dizer aqui que a Khulood Badawi é uma amiga, diria mesmo uma amiga bastante próxima já não sei se é uma boa ou uma má ideia. Quando há uns tempos traduzi um mail de um amigo libanês que vive em Damasco, cujo conteúdo era o seu ponto de vista em relação à situação Síria, um dos comentários foi : “Porque haveremos de confiar nesse teu amigo? ». Primeiro, ninguém obrigou a acreditar em ninguém (o mesmo se passa no presente post) ; segundo, porque tendo confiança pessoal e política nos meus amigos estou disposta a colocar as mãos no fogo por eles, de contrario não partilharia tal informação. Estou certa que a barra de ferro em brasa não me vai deixar traços de queimadura.
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Inocentemente pensei que as redes sionistas não fossem tão eficazes para chegarem a Portugal, mas este post no insurgente provou-me o contrario.
Khulood no sentido de denunciar os massacres atuais em Gaza inseriu nas suas redes sociais pessoais uma fotografia com uma criança em sangue no colo de um pai desesperado. Veio-se a descobrir que o acontecimento que esta fotografia retrata não ocorreu nos ataques atuais de Israel, mas sim em 2006. A difusão da fotografia foi feita no desconhecimento desses factos. Para mais detalhes sobre este erro que concerne também Diana Alzeer, ver aqui . Aproveitando este erro, honestreporting lançou uma campanha contra Khulood Badawi pedindo a demissão do seu emprego na ONU.
Alguns comentários impõem-se visto a situação
– A campanha contra Khulood é feita por uma franja de sionistas extremistas e desvia a atenção sobre os ataques que estão a ocorrer atualmente em Gaza contra civis, inclusive crianças. ( 25 mortos segundo as ultimas informações, entre as quais crianças )
– Khulood Badawi sempre assumiu o seu ativismo político. A sua intensa atividade política pela liberdade e denuncia da opressão do seu povo não poderá ser em algum caso dissociada do emprego que ela ocupa, seja qual for o emprego em questão. A legitimidade dessa associação passa por vezes e infelizmente pela história pessoal de cada um. Como Palestiniana, com passaporte israelita, sofreu desde sempre na pele a condição de ser cidadã de segunda em Israel (ex° não teve direito a bolsas de estudo pelo facto de ser palestiniana). Isto não invalida a seriedade e capacidade de analise que ela tem sobre a situação no Médio-Oriente e que lhe é pedido no desempenho da sua atividade profissional na ONU.
– A foto estava a circular nas redes sociais, não foi dela o tweet original como diz o gajo do insurgente que nem sabe de quem está a falar. Para além do facto da fotografia ter sido publicada no seu canal PRIVADO do twitter.
– Esta campanha visa também lançar a crença que os relatórios da ONU são enviesados por uma ideologia pro-palestiniana (enfim, só acredita nisto quem não conhece a história política da ONU em relação ao Médio Oriente).
Por tudo isto, e muito mais, a campanha que está a ser feita contra a Khulood é uma campanha caluniosa longe de ser honesta como o nome do site que a lançou quer fazer acreditar.

Um êxodo fictício a saborear no rescaldo das revoluções árabes

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(Manif em Paris, Jan. 2011)
Em 1963 a França, no auge dos seus “trinta gloriosos”, vai recrutar trabalhadores à Tunísia para responder à insuficiência de mão-de-obra no país. É assim que os trabalhadores tunisinos, jovens e másculos, vão penetrando no solo francês e nas estatísticas como uma nacionalidade discriminada. De 50 mil em 1975 a 200 mil em 1990, engendrou-se a abertura de um corredor migratório enquanto surgia uma retórica de encerramento das fronteiras europeias. A França pôs e dispôs de uma mão- de-obra vulnerável, relembrando os bons tempos da época colonial.
Se inicio o texto nos anos 60, sem ir mais longe no colonialismo francês, é porque aí encontro umas das razões das vissicitudes históricas das migrações do Norte de África rumo à Europa nos dias que correm. A Europa despertou para as revoluções árabes não a 17 de Dezembro de 2010, mas a 12 de Janeiro 2011, quando Alliot-Marie, então ministra francesa dos Negócios Estrangeiros, propôs a Ben Ali o savoir-faire francês em matéria de repressão para conter as manifestações (“conhecido mundialmente”, sobretudo nas ex-colónias). Um segundo despertar deu-se em Fevereiro, quando Frattini, então ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, profere um discurso premonitório sobre o “êxodo bíblico” que se dirige para as terras europeias.
Dois discursos seriam assim o apanágio da reacção europeia aos esforços de transformação política e social dos vizinhos do Sul: o securitário e o identitário. Duas matrizes intimamente ligadas e que deram origem a um encastramento contraditório dos princípios europeus de democraticidade na luta contra a imigração (tendo em conta que desde o final dos anos 90 as políticas migratórias da UE não relevam de um só Estado). Noutros termos, os europeus, confrontando-se com o destronar de ditadores (que haviam por sua vez destronado, para seu belo proveito, as lutas anticoloniais) com quem tinham assinado um pacto de “vigilância” migratória, tiveram que ser eles a mostrar a sua moralidade superior nas águas mediterrânicas. O resto conhecemos.
Embora o “êxodo bíblico” nunca tenha atracado à costa europeia, a chegada de alguns imigrantes à “metrópole” não deixou de constituir um “verdadeiro perigo sanitário e moral” (Mauco, 1932). Entretanto o clã Le Pen e os lacaios sarkozianos continuam a apregoar a prioridade do controlo dos fluxos migratórios em detrimento da livre circulação ou do simples direito à vida na travessia do Mar Mediterrâneo.
Parece-me que estamos cada vez mais longe da compreensão do alcance revolucionário das reivindicações que os tunisino, egípcios, sírios e outros nos têm demonstrado a cada dia que passa. Afinal a revolução também é isso… uma transgressão à norma, o pisar de uma fronteira. Tal e qual como um taxista em Tunes me explicou quando não parou num sinal vermelho.

Recusamos este apadrinhamento publico, somos indivisíveis

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Cerca de 5 milhões de espetadores encontravam-se em frente do televisor quando Marine Le Pen anunciou que se ganhasse as eleições (presidenciais 2012 em França) iria festejar a vitória “Chez Tonton, um restaurante português muito simpático que se situa em Nanterre ao lado da sede do partido Front National (FN)”. Esta resposta inscreve-se numa bateria de perguntas que o programa do canal France 2 – “Des paroles et des actes” – repete a cada candidato convidado a participar na mesma emissão. Primeira ilação: a resposta de Le Pen foi bem estudada e constitui o pontapé de partida de um programa político perigoso e admitamos “por vezes” inteligente. Esta inteligência, que é talvez mais inteligível que inteligente, pode tanto passar pela “desconstrução ordeira do euro” como pela atitude contra a “imigração como arma ao serviço do grande capital” (projeto presidencial do FN).
A referência ao tonton (tio) português ramifica-se numa tríade de significações, sobre a qual seria possível desenvolver uma complexa teoria semiótica. No entanto, como a minha capacidade no domínio da semiologia é relativamente limitada, reduzirei a minha analise da mensagem de Le Pen à banalidade seguinte: o discurso é gerador de sinais e por sua vez produtor de sentidos. Veremos, neste caso, que através de uma simples frase (não arbitrária), cujo conteúdo demonstra uma idiossincrasia partidária, Marine Le Pen faz eco à génese da fabricação de um estrangeiro aceitável. Interessante será assim compreender e desmontar a extravagância do discurso do FN através da analogia que se pode alinhavar com a retórica oficial francesa vis-à-vis da imigração portuguesa desde os anos 60. Nessa tríade de significações encontramos: 1) a recepção visada pela mensagem; 2) o “obreirismo” implícito na mensagem; 3) um programa eleitoral bastante centrado na problemática da imigração.
1) O reconhecimento social é uma reivindicação “assídua” quando se fala numa colectividade imigrante ancorada num país hostil ao reconhecimento da diferença, como é o caso da França. Marine Le Pen ao elogiar um só imigrante português em França, um só restaurante português em território francês está a piscar o olho a toda a colectividade portuguesa (quase 600 000 nascidos em Portugal segundo o ultimo censo (sem contar com a imigração recente), sem duvida mais de 1 milhão se tivermos em conta os descendentes de portugueses com um forte sentimento de pertença em relação ao país natal dos pais). Le Pen chega, portanto, pelas suas palavras aos corações mais sinceros do orgulho de ser português desenvolvido em situação migratória. Marine Le pen oferece-nos assim, no horário nobre televisivo, o reconhecimento publico e perceptível tao alemejado do nosso esforço dedicado na construção da pátria francesa. Mas não sejamos naïfs, Marine filha e herdeira de Le Pen não está tão interessada nos portugueses como está nos franceses de “raça” e na prioridade nacional. Ela visa o eleitorado francês humanista ainda não completamente convencido na unidade nacional, porque afinal existem estrangeiros bons e estrangeiros indesejáveis, estrangeiros brancos e estrangeiros não brancos. Os segundos constituem e constituirão sempre um “veneno contra a coesão nacional” (projeto presidencial do FN).
2) Ao referir um restaurante português em Nanterre, Marine Le Pen faz também referência à modéstia da escolha do seu partido em oposição às grandes festarolas de elite realizadas pelos seus concorrentes (por exemplo no Fouquet’s situado nos Champs Elysées). Modéstia de escolha que nos remete ao respeito da honestidade do trabalho dos operários. Que imagem poderia ser mais eloquente que o honesto e dedicado trabalhador português, que ao longo dos tempos conseguiu o lugar de chefia na construção civil? Esse mesmo bom imigrante que pelo seu inédito rigor laboral conseguiu um estatuto na hierarquia socioprofissional que faz dele inevitavelmente o carrasco dos outros imigrantes situados na cauda dessa hierarquia (Cf. Jounin, “Chantier interdit au public”). O restaurante português, onde se servem pratos fartos sem lugar para a insaciedade, reenvia a essa imagem de operário, onde o valor do trabalho manual grassa sem obstáculos superficiais ou imateriais. Um restaurante do povo para o povo, envolto e ancorado num bairro popular, onde os eleitores normais que não têm nada de especial podem auferir nem mais nem menos de uma refeição a 9 euros.
3) A referência aos Portugueses é por fim importante no esclarecimento de todo um programa político onde a omnipresença da imigração é a chave da “honra de ser francês” (projeto presidencial FN). O problema não são os portugueses que mais não fazem que oferecer-nos uma boa gastronomia e a sua sincera força de trabalho, não constituindo amiúde nem em regra o grosso da instabilidade da ordem nacional. O problema mesmo são “os conflitos interétnicos, as revindicações comunitárias e as provocações político-religiosas, consequências diretas de uma imigração massiva que interfere negativamente com a nossa identidade nacional e traz com ela uma islamização cada vez mais visível” (projeto presidencial FN). Voltamos portanto à clivagem utilitária do bom estrangeiro e do estrangeiro indesejável, e insiste-se nesta diferença pois a “dupla nacionalidade cessará de ser autorizada exceptuando os casos de dupla nacionalidade com um outro pais da União Europeia” (projeto presidencial FN).
A especificidade portuguesa que Marine Le Pen tenta introduzir e fazer passar na opinião publica não é inédita. Desde os anos 60/70 os discursos dos políticos franceses referem-se aos portugueses como os imigrantes “bem integrados” (Cf. Albano Cordeiro), tendo-se servido disto nos anos da imigração de massa (60/70) para dosear a necessidade da mão-de-obra argelina (imagem conflituosa e de alteridade extrema, embebida na dolorosa guerra de independência). Para além da racionalidade “racial” subjacente, a retórica hegemónica dos portugueses “bem integrados” é forjada no silêncio e esmagamento das experiências e heterogeneidade dos portugueses em França. Paralelamente, este tipo de discurso, seja proferido por Le Pen, pelo embaixador Português em França ou por Sarkozy, tem como consequência a estigmatização de uma população inteira em vários campos sociais, como exemplifica inesperadamente muito bem este exercício jornalístico no Le Monde : “Chez Tonton, le vrai QG du FN” (quartel geral)
E agora que dei mais espaço de antena do que aquele que devia ao projeto presidencial do FN, dizer que como imigrante portuguesa em França senti-me envergonhada e ofendida de ouvir a palavra português da boca de Marine Le Pen. Saí do meu “je” individual e apropriei-me do “nous” colectivo. Este “nous” que não é simplesmente o “nous” português, mas também o “nous” argelino, o “nous” senegalês ou o “nous” chinês. Nós estrangeiros em França, indivisíveis na nossa condição material de imigrantes, expostos impunemente à xenofobia explicita e institucional.

Allô Damasco ?

Vivas, aqui em baixo deixo-vos um mail de um amigo que vive e trabalha em Damasco. O estilo do texto é típico de uma escrita “mailistica” e de uma tradução rápida feita por mim em cima dos joelhos. Embora não concorde com tudo o que ele diz, tem a vantagem de ser um relato “bruto” do seu quotidiano, da percepção política do que se passa “sur place”, sem maquilhagem nem triagem mediática. Por fim, dá-nos alguns elementos para a compreensão da situação. Escusado seria dizer que pedi a devida autorização para publicar aqui.
« Olá,
A desorientação governa por todo o lado, há uma falta de objectividade flagrante de todos os lados, uma guerra mediática suja especialmente do lado daqueles que possuem os medias, que controlam a informação e a press mundial (capitais americanos, europeus e do Golfo árabe). A concentração da propriedade das sociedades de informação internacionais explica porque é que a press livre tem desaparecido pouco a pouco, a margem de liberdade de expressão não pára de recuar.
Sinto que esta aliança política/económica/mediática conseguiu com a sua propaganda meter-nos numa situação de embaraço moral perplexo. Estamos no centro de uma “matraquage” mediática intensiva que nos empurra a enveredar por uma posição ou uma outra, sem a menor verificação dos factos ou informações, sob o risco ou ameaça de sermos catalogados como participantes activos na matança das crianças sírias.
Creio que o que se passa atualmente assemelha-se ao cenário que foi instaurado antes da ocupação do Iraque em 2003. é a mesma política de diabolização, a propagação de valores morais (democracia, liberdade, proteção dos civis…) e a sua aplicação seletiva.
O modelo é exatamente o mesmo que no Iraque. Mas na Líbia e agora na Síria, constato que houve um ajustamento local inteligente (customization), mais « arabizado ».
Quanto a mim, continuo em Damasco, continuo a fazer vai e volta todos os fins-de-semana ao Líbano. A vida em Damasco já não é a mesma que tu conheceste, podemos ver que as pessoas não se sentem em segurança como antes. Os cafés e mesmo as ruas estão vazias a partir das 22horas. Temos algum receio de sair de noite, mesmo no centro da cidade que era bastante calmo antes dos atentados. O ambiente em Damasco foi envenenado depois dos atentados suicidas, mas ainda assim é relativamente melhor que noutras regiões. O bairro onde vivo desde que tu estiveste cá continua calmo, a maioria dos habitantes são Drusos e Cristãos. No entanto, há alguns subúrbios mais agitados mesmo em Damasco. é ai onde vivem as camadas da população mais desfavorecidos, onde há uma islamização maior e onde os Cheiks/corrente islâmica são mais influentes e seguidos. Onde a situação é mais tensa, constato este panorama, nomeadamente um sectarismo agudo onde domina um sentimento « anti-Alawites». As mesquitas e os media, sobretudo Al-Jazira, Al-Arabiya e canais salafistas que propagam os fatawas, o takfir de Alawites e Xiitas, não mostram as incitações ao odio e à violência, nem as denunciam. Ao contrário, alimentam e amplificam este sentimento. O regime e os Alawites são diabolizados, transformou-se o desconforto dos pobres e as suas aspirações por uma vida melhor em rancor e odio contra os Alawites.
Sobre a tua questão sobre a situação em Homs : há uma grave escalada de sectarismo (Sunita/ Alawites), parecendo cada vez mais uma guerra civil. A cidade é constituída por uma mistura de confissões (Sunitas, Alawites, Cristãos…). A maioria são Sunitas, os Alawites representam apenas um quarto da população. Mais uma vez a situação parece como a do Iraque no pós ocupação pelos americanos em 2003 (conflito entre Xiitas e Sunitas). Muitos acontecimentos ocorreram nos últimos meses para chegar a esta grave situação de carnificina quotidiana em Homs. Estamos longe da autodefesa contra a repressão de Estado. Neste exato momento estamos numa situação de guerra, Homs é hoje aquilo que foi Fallujah no Iraque ou na Tchetchénia para os combatentes jihadistas. Ninguém pode negar a crueldade dos serviços sírios de segurança. Centenas de civis parecem ter sido mortos pelas forças armadas. Mas temos também que reconhecer que a violência é oriunda de vários lados da barricada e é por isso que também há um numero elevado de soldados mortos (perto de 2 000 pessoas). A teoria propagada que são soldados mortos pelo próprio regime, por estes terem recusado em « abrir » fogo contra os civis, é uma pura mentira. é uma propaganda mediática.
Em Homs, a violência resulta tanto do exército e serviços de segurança, como dos combatentes islâmicos, e dos militantes Sunitas e Alawites. Os médias mostram apenas um lado da realidade, é sobretudo a imagem que querem veicular de um regime armado que mata civis e manifestantes pacíficos. Por exemplo, estima-se que perto de 1000 Alawites foram massacrados/executados em Homs pelas milícias jihadistas ou antirregime. Os medias contam e fotografam essas vitimas como civis mortos pelo exército sírio. A maior parte dos 200 cadáveres estropiados e mostrados pendurados nas ruas antes da ultima reunião da ONU eram Alawites. Estes cadáver foram “stockés” e centralizados para esse « filming ». Os dias que precederam a reunião foram os dias mais pacíficos em Homs, toda a gente conhece o fiasco. é a mesma política de propaganda mediática e cobertura seletiva de acontecimentos (focalização sobre alguns factos, dissimulação ou mesmo fabricação de outros) alternados com as declarações politicas internacionais que lembram o célebre speech de Colin Powell na ONU sobre as armas de destruição massiva no Iraque e que veio a revelar-se uma pura fabricação enganosa.
Bawsat »

A propósito de relativismo… e civilizações.

Há um problema na tradução das declarações de Claude Guéant (Ministro de Sarkozy)no Publico de hoje. Não seria muito grave se essa tradução não eufemizasse o sentido e as intenções do mesmo. Enquanto que Claude Guéant diz « Toutes les civilisations ne se valent pas », o Publico traduz “nem todas as civilizações são equivalentes”. Enquanto que a segunda faz apenas referência a uma hierarquia de civilizações de maneira abstracta, a primeira faz alusão a um sistema de valores “justos” existentes em certas civilizações e inexistentes noutras. As declarações de Guéant são mais graves do que isto, incluem “nous devons proteger notre civilization”. A oposição francesa diz em uníssono que estas declarações servem a campanha eleitoral, nomeadamente para “roubar” votos ao FN. Outros sublinham o perigo de trazer termos como “civilização” para praça pública. Alain Gresh aqui lembra que a “ideia de civilização está na base do argumentário de muitas das políticas coloniais ao longo da História.
Aqui em baixo, um texto para francófilos (não fossemos nós elitistas). é uma carta aberta (“très puissante”) de André Breton escrita em 1925 (inícios do surrealismo) a Paul Claudel. Dois aspectos estão no hors-champ deste texto: um Político e outro Literário. O primeiro contra a guerra do Rif em Marrocos, o segundo contra os escritores “estadistas”, imagem incorporada com sucesso por Paul Claudel. Esta carta poderia ter sido escrita hoje a Guéant.

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Impasse transmontano num documentário


Anseio Lisboa como penso Damasco e descubro ainda Trás-os-Montes, terra materna. Desde o “Veredas” (Joao César Monteiro,1977) que não entrava em convulsão com um missa transmitida num écran. No entanto, ao contrário de “Veredas”, compreendemos que o padre da « La vie au loin » (Marc Weymuller, 2011) enveredou pela carreira eclesiástica para possuir um dia o rádio a pilhas com o qual o padre da sua infância fazia um brilharete. «Que assim se veja a força da igreja » onde se « respeita mais a morte do que a vida » (excertos do Veredas), e onde se canta à Nossa Senhora para que esta “abençoe os emigrantes, que da nossa terra são tantos” (excerto de “La Vie au Loin”).
« La vie au loin » é mais do que isso, é um retrato de uma região isolada onde neva como em Paris, onde a faina se faz ao ritmo da época romana. Veem-se instrumentos agrícolas desprovidos de motores, manobrados pelo homem graças à musculatura dos animais.
Cruzam-se personagens que passaram por Angola, Brasil ou França e que voltaram um dia de nevoeiro à terra fria. Escreve-se poemas ao som de uma maquina de escrever comprada com muito esforço a 20 contos no Porto. Entra-se em catarse com a dor da morte de um pai, “oh meu pai, junta-te à minha mãe que já lá está”. Gritos de dor necessários, já tão pouco aceites em sociedades autocensuradas. Que se grite histericamente… vozes femininas de desespero, tal como um ritual fúnebre no sul da Tunísia.
“La vie au loin” é um retrato de Portugal do interior, onde ainda se contam histórias de bruxas, vive-se de histórias de casamentos com o pastor do povo e sofre-se de solidão.
A televisão analógica não pareceu fazer parte da paisagem, quanto mais a digital. Mas engane-se aquele que pensa que não se sonha no futuro em terras isoladas do pos-materialismo, com modos de vida ancestrais. Derretemo-nos em frente do filme “La vie au loin” não porque se colocam perguntas existenciais… mas sim essenciais.
Giacometti conseguiu gravar e reabrir uma caixa de pandora de cânticos quase desaparecidos. Não que seja uma revivalista de um mundo perdido, mas faz sentido compreender as condições de vida presentes daqueles que vivem (mesmo que seja) num longínquo lugar. “La vie au loin” acabou de ser realizado, é um produto da modernidade.

Impasse Sírio num desabafo

Damasco, essas pessoas … esses piqueniques à beira da estrada nas quintas feiras anoitecidas e arrefecidas dos 48° graus de um dia de verão. Por aqueles que lá deixei, talvez pela proximidade e afinidade platónica, teimo em preocupar-me com o destino de todo um povo, de uma região inteira. Anseio Lisboa como penso em Damasco. Traço por isso cenários, num sincretismo tão real como surreal, forjando uma visão onde um povo é reduzido a uma análise binária da política. Veem-se dois eixos no fim do túnel: por um lado Riade – Damasco – Cairo ; e por outro, Teerão – Damasco – Beirute (Hezbolah). Seria de um conformismo primário, aproximando-me do contrarrevolucionário, dizer que gostaria que tudo ficasse na mesma. Contudo é impossível não nos enrodilharmos nos pros e contras de saída de crise Síria. Falei (num dos posts em baixo) nos erros que foram cometidos no Iraque no pós ingerência americana… desagradável é então pensar que podemos ter um panorama com mecanismos de desorganização social idênticos na Síria. Desde a criação do Estado de Israel em 48 que o Sionismo visa a desintegração do Médio Oriente em províncias étnica ou religiosamente homogéneas. Hoje o sionismo tem mais parceiros, não fosse a máxima das potências imperialistas « dividir para melhor reinar ». No Iraque conhecem-se também as consequências dessa desintegração, uma dissolução do exército nacional que resultou na edificação de milícias armadas dispersas. Durante estes últimos dias, da Síria chegam-nos informações descosidas, contraditórias, sobretudo quando temos em conta toda a panóplia de informações veiculadas não só pelos médias oficiais mas também pelos médias alternativos. Testemunhos de tortura relatados nos canais mainstream (entre os quais Al-jazeera) e testemunhos opostos que passam pelas vias informais. O Massacre de Homs não foi um massacre de Estado, foi perpetrado por grupos armados (corre o rumor) pagos pelo Qatar para influenciar o voto do Conselho de Segurança na ONU. Respirámos fundo quando a Rússia e a China opuseram o seu veto. Serviu para obstar pelo menos a curto termo a defesa “institucional legitima” de uma das partes daquilo que mais parece hoje uma guerra civil (reitero sobre isto as minhas duvidas). Ghannouchi, o primeiro ministro tunisino do Enahada (corrente da irmandade muçulmana) torna-se igualmente o bom estudante dos países do Golfo, nomeadamente quando decidiu expulsar o embaixador sírio do país. Penso esquizofrenicamente que a Síria está em maus lençóis, seja qual for a saída. Quanto ao povo sírio parece que já não é uma questão de oposição política, mas sim de resistência para existir independente.

Portugal em direcção de um cenário grego ?

Embora não faça a mínima ideia se a análise deste artigo do jornal Libération de ontem « LE PORTUGAL VERS UN SCÉNARIO GREC ? » está certa , penso que a questão colocada é pertinente e cada vez mais urgente. E como por vezes os comentários são mais inteligentes do que os artigos regozijei-me a dar uma vista de olhos. Ficam aqui alguns que refletem o olhar de quem parece estar salvaguardado de um eventual tsunami :
– é como um jogo de domino, tal como Brel diz numa das suas cançoes : « au suivant » (« c’est comme un jeu de domino, ainsi que le dit Brel dans sa chanson: au suivant. »)
-é muito pesado o fado… da dívida (« IL EST TROP LOURD LE FADO… de la dette »)
– Um sirtaki ao som de um Fado (« Un sirtaki au son d’un Fado »)
– Vamos rir quando em França tivermos um sirtaki ao som de um schuhplattler… sim, sim, aquelas danças de Baviera (« …on va rigoler quand en France on aura un sirtaki au son d’une schuhplattler… si si, tu sais les danses bavaroises… »)

« Au suivant » de Jacques Brel

Sirtaki

Schuhplattler

Iraque sem transiçao de futuro

Obama podia ter salvo a pele, quanto à sua implicaçao pessoal na guerra no Iraque, se nao tivesse sido tao estupido nas declaraçoes que fez pouco tempo antes do fim (como quem diz) da ocupaçao nesse país : « a intervençao americana foi um sucesso espetacular, permitiu ao Iraque de se libertar da ditadura baassista e de se dotar de um Estado soberano, estavel, autosuficiente, com um Governo eleito pelo seu povo ». MENTIRA.
Este artigo « La transition irakienne a-t-elle eu lieu ? » mostra num estilo límpido e sereno o que acontece quando se faz uma importaçao forçada de um modelo de democracia (entre parênteses, tremo muito sinceramente quando penso que a Siria pode ser o proximo a ser encastrado nesse ideal tipo). A autora, sem precisar de justificar porque é que a guerra do Iraque (2003) foi um dos projectos belicistas coevo mais desastrosos, faz uma bela demonstraçao sobre o que « nao » foi a « transiçao » tao almejada pelos americanos. Fui particularmente sensibilizada por dois dos seus argumentos : um que diz respeito à «desbaassificaçao » e purga de todos os orgaos e actores políticos da sociedade iraquiana, nomeadamente o desmantelamento brutal do exército (que teve como consequência o engrossar das fileiras das milícias armadas) e a substituiçao por uma outra elite corrupta no poder actual ; e um segundo erro que diz respeito à vontade dos americanos em estruturar a ordem política por um sistema de quotas etnicas e de confissao religiosa.

Cruzadas mediáticas

As revoluçoes nos paises arabes deram origem a uma parafernália de artigos nos paises europeus. O espaço mediático europeu encontrou-se assim, de um dia para o outro, colonizado por uma nova elite jornalistica especializada na geoestratégia politica arabo-islamica, mas também especializada nos fundamentos do Corao, na filosofia e estilo de vida cultural muçulmana, e o que mais quiserem por ai adiante. Escusado seria dizer que quando se ambiciona tudo saber, cometem-se erros, muitos erros, muito primários. Ironico lembrar que desde o inicio do século XX a antropologia cultural já criticava aquilo que mais tarde se chamou uma postura etnocêntrica.
Deixo-vos aqui um artigo (em francês) « La nouvelle croisade de Caroline Fourest en Tunisie », escrito por duas Tunisinas, que tem por alvo uma jornalista que abusou do espaço mediático que lhe foi dado, ofendendo atrás do véu de laicidade aqueles sobre quem ela escreve. O argumentário do artigo é interessante uma vez que desmonta a retorica ocidental inicialmente desenvolvida sobre as revoluçoes e substituida actualmente por uma retorica sobre a democracia no Sul do Mediterrâneo. Longe de se reduzir à tal jornalista, este artigo questiona e faz questionar retoricas que tentam dar liçoes, cuja « legitimidade » se consolida no « ideal » de Democracia do Norte.

L’avant-gardisme tardivo do Ministério do ensino superior francês

Enfim uma boa noticia, parcial mas ainda assim importante. O Ministère de l’enseignement supérieur et de la recherche lançou uma circular (dirigida aos presidentes de Universidade) sobre a utilização de elementos de estado civil nos documentos emitidos pela Universidade.
Madame ou Mademoiselle ? Eis a questao. Mademoiselle para os meus professores, Madame para os meus alunos. Mademoiselle porque nao sou casada, Madame porque nao sou « virgem », Mademoiselle porque tenho menos de trinta anos, Madame porque quero ser respeitada ? A linguagem administrativa produz e reproduz representaçoes sexistas e maniqueístas. A aboliçao das categorias distintivas do estado civil (nomeadamente das mulheres) nos documentos, formularios, listas publicas, etc, é um verdadeiro primeiro passo para acabar com costumes patriarcais « démodés » mas estupidamente cristalizados no uso quotidiano.
Extractos :
“(…) s’agissant des données d’état-civil, le ministère rappelle que :
– la formule « Madame X épouse Y » est à proscrire ;
– les formulaires administratifs doivent faire apparaître les mentions « nom de famille » et non « nom patronymique » et « nom d’usage » et non « nom d’épouse» ;
– dans le cas où une personne a mentionné un nom d’usage, c’est celui-ci qui doit être employé ;
– l’appellation « Madame » doit être systématiquement utilisée pour désigner les agentes, à l’exception de ces dernières qui auront expressément demandé à être désignées comme « Mademoiselle ». »

O Chaâbi da Casbah d’Argel ressuscita em Paris

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Da Casbah de Argel guardo apenas estas duas fotografias tiradas de longe por nao ter ousado penetrar na intimidade deste centro nevralgico citadino. Nao ousei, mas também nao me deixaram ousar. A Casbah é um dos bairros mais populares de Argel, um eventual Intendente em Lisboa, uma Goûtte d’Or em Paris. Entra quem conhece. A excepçao da Casbah sao os barbudos e o espectro que paira do terror do fundamentalismo islamico dos anos 90.
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Mas dos cafés limítrofes à Casbah guardo também a imagem de fotografias, penduradas nas paredes, dos cheikh’s do Chaâbi (musica popular nascida na Casbah de Argel nos anos 20 e que mistura varios estilos, entre os quais o andaluz, o berbere e o religioso). Desde a « Batalha de Argel » os cheikh’s do Chaâbi dispersaram-se, seguiram vias diferentes. A independência tem destas coisas, desenraíza para melhor enraizar. Um bom exemplo foi o grupo « El Gusto » formado por judeus e muçulmanos. Mais de 45 anos depois os amigos reunem-se e como se nada tivesse acontecido nas entrelinhas historicas argelinas o Chaâbi por eles novamente tocado continua a rimar com o ritmo popular.


Concerto no Grand Rex (Paris), 10 de Janeiro 2012

Obituário político sírio

Yasser Arafat e Malam Bacaï Sanha morreram na mesma cidade. Este ultimo e Michel Aflak morreram no mesmo hospital. O que tem a França de especial para os homens politicos moribundos virem morrer nela ? Este post nao tinha intençao de ser um obituário. Mas é importante sublinhar que Michel Aflak morreu em 1989 em França e Gilles Jacquier em 2012 na Siria. O que têm em comum estes dois óbitos ? O primeiro foi perseguido pelo partido que o proprio fundou, o segundo morreu quando esse mesmo partido implantou-se para nao mais sair do pedestal. Em suma, triste é o charme feito pelos partidos através de politicas revolucionarias, utilizando a violaçao de todos os direitos elementares para transgredir os principios por eles inicialmente propagados. Este foi o caso do golpe de Estado em 1970 cometido por uma facção do partido Baas Arabe Socialista Sirio e que meteu no poder Hafez el-Assad (pai de Bashar).