“Senta, senta, senta” – ao vivo do Brasil

senta

Anúncios

Turquia – “Sei que não podem vir para cá, mas por favor levem-nos para aí.”

 
“São seis da manhã cá e acabo de chegar a casa. Foi uma das noites mais inacreditáveis da minha vida e tenho um favor a pedir-vos: por favor divulguem tudo o que puderem sobre a resistência na Turquia. Hoje fui expulso de um parque com uma carga policial. Hoje fui empurrado para um hotel com dezenas de feridos. Hoje fui… fechado em salas com gás lacrimogéneo por todo o lado, sem conseguir abrir os olhos de tanto arder,sem conseguir respirar. Hoje levei com um canhão de água com químicos só por estar em frente a um hotel sem estar a ameaçar o quer que seja. Hoje estive nas ruas com o povo de istambul. Hoje construí barricadas com eles, hoje atirei de volta as cápsulas de gás para cima da polícia, hoje fugi lado a lado pelas ruelas com medo da Polis. Hoje passei por Gezi durante a noite e já bulldozers a destruir tudo: o nosso parque, as nossas tendas, as nossas coisas. Hoje vi pessoas quase a asfixiarem, vi feridas abertas nos corpos. Hoje senti um tiro raspar-me as calças. Hoje fui tirado à bruta de dentro de um taxi pela polícia e revistado de cima a baixo, tudo o que estava dentro da mochila, e ofendido por ter um panfleto de Gezi como separador de um dos livros. Hoje volto a casa com uma raiva deste grupo de pessoas, deste grupo de caras, deste grupo de gravatas,destes Tayyips, e desta gente que veste o uniforme enquanto despe a consciência. Hoje chego a casa estoirado, a sentir que não durmo há dias, mas com a energia para correr todas as ruas desta cidade. Hoje chego a casa com mais força para lutar. Principalmente porque sei que não estou sozinho. Mas também sei que se a mensagem não passar aí para fora estamos perdidos. Estou num país onde um homem tem o direito de mandar espancar brutalmente milhares de cidadãs só porque ocuparam um parque. Sei que não podem vir para cá, mas por favor levem-nos para aí.”

As Zonas Autónomas Latentes

O texto anarquista mais influente e conhecido das últimas décadas, até à edição em 2009 da “Insurreição Que Vem” do Comité Invisível, será o “Zonas Autónomas Temporárias” de Hakim Bey. O texto percorre inúmeras situações colectivas efémeras, das cidades piratas à Fiume do futurista Annunzio, sugerindo-as enquanto exemplo de uma verdadeira liberdade percorrida por fluxos e desejos selvagens, códigos de honra heterodoxos, um negociamento constante de hierarquias e um óbvio ponto final que asseguraria que as multidões em devir insurrecional nunca se aburguesariam ou institucionalizariam. Hakim Bey é o pseudónimo de Peter Lamborn Wilson, académico norte-americano do ramo das religiões comparadas, orientalista convertido e convicto, que após deambular entre os festivos sixties e umas derivas neo-tradicionalistas descobriu Debord e os Situacionistas. A perenidade de uma série de experiências deixava de ser um problema para ser uma vantagem táctica, ou seja, o esgotamento anímico de um colectivo, de uma comuna, de uma insurreição ou de uma revolução deveria ser reconhecido e celebrado porque só assim seria prevenida a sua eventual decadência e derrota. Esse nomadismo dos desejos e das formas de vida nunca seria apanhado nas armadilhas mortais do sedentarismo, do activismo, da política formal. O sujeito revolucionário não era então o operário consciente ou o cidadão informado mas sim uma galerias de rebeldes e malfeitores: piratas, artistas, cowboys, índios, “apaches” do fin-de-siécle francês, patifes iletrados, espécimes exóticos das caraíbas, etc etc etc. Na verdade Hakim Bey foi mais inspirado pela pré-história da internet do que pelo império Comanche e projectava mais a sua utopia rizomática nas redes cibernéticas do que no festim bêbado de mil e um sacanas sem pai nem mãe. O conceito ganhou popularidade e foi adoptado por inúmeras dinâmicas mais ou menos interessantes durante os anos 90, da cultura das raves ilegais e da música electrónica às cenas okupas que proliferavam na Europa.

BM2X8c-CMAEYJif.jpg-large

Não obstante o tom jocoso aqui apresentado Bey apresentava um quadro pertinente. Encurralado ante o “fim da história”, o presente contínuo do capitalismo, e os sucessivos falhanços do movimento operário organizado e desorganizado, parecia que o único acto subversivo possível seria aquele que dispensasse qualquer programa e estrutura e se constituísse numa irrupção ontológica do acto insurrecional. Por outro lado é também interessante a colocação do projecto utópico não numa sociedade hiperfuncional populada por seres hipersocializados, no fundo o projecto de grande parte da esquerda, mas sim na própria dissolução do sujeito revolucionário num cocktail marado de personagens marginais. Ante o império triunfante apenas o devir bárbaro faria sentido.

1008385_571421289547519_1306405363_o

Ora onde a questão se torna bicuda é no processo através do qual um se constitui bárbaro. Pressupor-se-ia que o mero abandono do sistema, das suas regras, dos seus mecanismos de reprodução bastariam para afirmar essa secessão, e que questionando as últimas amarras da crença na sociedade todo um novo mundo estaria além da grande muralha. e invece no. Na verdade, e nas suas várias reformulações, é esta a questão de toda a actividade política especializada: como constituir um campo de acção e de reprodução própria que não seja baseado nesse hercúleo voluntarismo. Como tornar a insurreição natural. A questão que Bey procura resolver prescindindo de modo fatalista da resposta é precisamente esta: o projecto de mobilização política é minado pela insustentabilidade da sua vertente voluntarista e não necessariamente pelas suas insuficiências estruturais. A ideia de que ao esforço reprodutivo do capital é preciso fazer corresponder quantitativamente um número semelhantes de horas de esforço reprodutivo militante na direcção contrária, numa dialéctica encenada nos espaços de mediação e de pertença, assenta num simulacro de participação que vários processos têm vindo a por em causa.

Tornou-se claro que aos olhos do império todos somos marginais a partir do momento em que nos definimos para lá de meras rodas dentadas. Todos, dos professores às putas, dos desempregados aos reformados, dos “profissionais da desordem” aos indignados, somos uma ameaça potencial ao divino projecto económico a partir do momento em que procuramos salvaguardar uma especificidade alheia aos desígnios da incessante e kafkiana reprodução social do capital. A facilidade e despudor com que, um pouco por toda a parte, o poder assumiu a sua excepcionalidade relativamente às suas próprias leis mostra que a linha da marginalidade à polis não está nas fronteiras da sociedade responsável, mas exactamente entre o poder, multiforme e tentacular, e tudo o resto. É precisamente a partir desta consciência que o mundo tem pegado fogo. O que ontem ocorreu na Turquia não surge, apenas, do devir militante/activista/guerrilheiro dos Turcos mas precisamente da activação das suas zonas autónomas latentes e difusas: dos partidos às claques, do movimento LGBTQ aos curdos. A evidente secessão colectiva que junta a enorme lista de variantes ideológicas e identitárias assume-se a partir não de uma condição de povo consciente mas precisamente a partir da afirmação, não ideológica mas material, de uma alteridade total ao estado e ao poder. O medo só mudará de lado quando este vinculo com o/este estado for quebrado e quando nessa ruptura se encontre o modo de reconstruir os vínculos que nos interessam, sem vanguardas nem refúgios. A linha da frente está agora em todo o lado.

istanbul-barricade

 

“Look how beautiful this barricade is”

Um “amigo internacional” enviou estes pequenos textos com as suas impressões dos dias que passou no parque Taksim. São aqui reproduzidas com a sua autorização.

P1070309

9 JUNHO

“Everyday I’m Çapuling!” reads the banners all over Gezi Parkl, having become the unofficial slogan of the uprising. Çapulcu is what Prime Minister Erdogan called the demonstrators, meaning ‘looters’, hooligans, slackers. Accepting the challenge, the people have embraced the word, adding it to signs, shirts, graffiti, barricades, masks, buses. Everyone tells us how funny the slogans are; one barricade is spray painted with “Look how beautiful this barricade is.” Erdogan recently suggested that all women should have at least three children to support the great Turkish nation. So one of the chants blasted during the rally responded with: Do you want three children like us? The humor catches everyone off guard, especially the government, who have amped up the repression in Ankara, Izmir and other poor parts of Istanbul. But the mocking, jokes, and satire doesn’t stop, creating a complex language of resistance mixed with self-reflection that elevates the critiques to a whole new level of vitriol.

Saturday was the day of the football hooligans, where one hundred thousand of Istanbul’s ultras united to take part in the mega-rally at Taksim, screaming anti-government chants at the top of their lungs mixed with each team’s call-and-response. “Drop your sticks, throw away the gas, come and get us!” everyone shouted at one point. “Blue” “Yellow” Blue” “Yellow” could be heard for miles as crowds bounced up and down waving team flags and pointing firecrackers in the sky. Every inch was packed and noone could move anywhere but together. The bitter enemies of Fenerbahce and Beşiktaş did the impossible and joined together to shoot off fireworks and drape banners over the towering AKM building surrounding the square, as another hundred thousand people looked on and celebrated their previously unthinkable peaceful co-existence. Not only the uniting of the football fans but the sheer heterogeneity of political groups sitting together has been the most shocking of all. Weeks ago it was unthinkable for nationalists and kurdish groups to share space in a rally, let alone the scores of leftist sects that hate each other, but now its already normal. Not everyone gets along, but everyone has a corner, and everyone has the freedom to give and take as they please.

What’s stunning about the sprawling occupation of Gezi park and the mass demonstrations in Taskim square is the utter absence of large assemblies, consensus trainings, and open meetings, all forms of collective decision making which dominated other popular movements in the last years. Here, the spontaneous organization is complete, without anyone really having a clue of what’s going on overall, making it impossible to control, diffuse, or democratize with formal procedures and skilled experts. Hundreds of micro-groups and thousands of individuals volunteer to bring food, do medical work, sweep the grounds, patrol the barricades, distribute water, but it is in no way centralized or coordinated. Supposedly there are negotiations going on with some groups and the government, but to call those groups “representative” of the movement is laughable, and they know it, claiming not to speak for anyone at all. The government want the barricades gone, the square cleared, and the park tamed; the original organizers of the park occupation want no park destruction, no new mega-development, and a retreat of the government’s . But what do the tens of thousands across the country want? What do the hundreds of thousands, maybe millions in Istanbul who stream in and out everyday want? More than a reform, less than a revolution, something in between we don’t know how to name yet.

Sunday all the parties came out with their flags and speeches, but it was mostly a day for families, music, kids, and celebration. Down the main shopping streets rode bike gangs who rode in from all over Turkey to take part. Everywhere the same melodies could be heard: Tayyip Istifa! Tayyip Resign! Schoolchildren sit in smashed out buses posing for photos with their moms as trade-unionists form circles with environmentalists to dance to traditional music. The barricades are silent now, safety is assured, and all is well in this city on the hill. The calm has descended like a fog, everything seems like it will last forever, and that’s why everyone knows it won’t.

some answers to questions are here: http://mustereklerimiz.org/answers-to-occupy-wall-street

J

P1070062

8 JUNHO

dear friends and others,

(This is not an analysis on the uprising, just an impression of my experience there so far. if you want an analysis, this is a good one: http://www.counterpunch.org/2013/06/05/istanbul-uprising/)

The first barricade seems impenetrable. Hundreds of bricks piled high, torn fences, and flipped over cars mix into a single wide shield of corrugated steel with long metal spikes sticking out front, as if ready to defend against any horse charge. But then you walk another 10 meters and see the next one, twice as big, more bricks, more fences, graffiti all over it. And then walk a bit more and see another, and another, and another, and not only the main street but all the side streets and every surrounding street is blocked. All the sidewalks are sand, having their bricks taken out and put to new uses. Constant streams of people are hanging around each barricade, posing for photos; there’s vendors selling spray paint, gas masks and goggles in between each barricade. Iphones, ipads, and all i-devices are capturing the moments of joy and pride for all people. All ages join in jumping on the destroyed cars, playing inside the smashed out tractors, buses, media vans. Anonymous style guy fawkes masks are ubiquitous, as are vendors selling kofte, corn, tea, and of course, flags, thousands of red flags with the face of the founder of the republic, mustafa kemal ataturk, but also trotskyist, anarchist, feminist, and other flags. Anarchists mix with nationalists, while football hooligans and environmentalists, anti-capitalist muslims and LGBT Kurds all share every meter of soil within Gezi Park, making it shoulder-to-shoulder tight as you try to squeeze through from one side to the next. Tents on top of tents, a whole village lives within the park now. Construction materials from the stalled development litter the surrounding streets. Every piece of constant capital looks like rubble after a battle. The Ataturk cultural center, a five-story building on one side of Taksim square, is draped with massive banners saying “Don’t Obey”, “Tayyip Resign”, and huge flags of Ataturk, mixed with anarchist graffiti and football signs.

The whole thing seems medieval, with helmets, javelin poles, and a view of the Bosphprus, Hagia Sophia, and Blue Mosque in the horizon; the square itself is more of a carnival than anything else. Hundreds of thousands of people packed together, dancing, singing, chanting, hawking, just celebrating each other’s presence in a cop-free central zone for the first time in memory. Everyone is arguing, debating, laughing, telling stories of tear gas and trees. The police haven’t attacked for a few days, there’s just too many people, too many barricades. Every 20 minutes another march comes through with another chant, sometimes kemalist, sometimes communist, sometimes a song, sometimes a prayer. A mix of youth, students, activists, families, and travelers set up picnics, tables, and booths selling whatever ideology or product they have. If it wasn’t for the mounds of brick and car barricades surrounding the place, one could easily forget the force and violence that started it all.

Most people we talk to say they didn’t like the park so much beforehand, but the police response to the original environmental demo was so harsh, that they had to come out. Some are angry against the neoliberal development, some against the new islamist laws banning alcohol, some against the police, some are just anti-government. Almost everyone is surprised that it grew so large, so fast. they’re worried how it will end, but for now, the feeling is joy, almost euphoric as the whirling dervishes and horns and drums bang nonstop. The side streets outside the park and blocks away are full of people too, drinking in public late at night and sitting on the street, where it was banned beforehand to do either. Cops have abandoned the entire region around Taksim, massing instead in Besiktas, by the presidential palace and football stadium. For now, every day is a rally and every night is a party.

The majority of violence, it seems, has moved to the other 60+ cities in Turkey where demonstrations arose, especially in Ankara. The local demands of the Gezi Park demonstration no longer have any relevance for the majority of people taking part in this mass uprising, but everyone is still somehow unified by their opposition to the police and enraged at the overreaction of the government . What binds the hundreds of thousands of people in Taksim square together can’t be explained by any political ideology or secular vs. religious divide or green movement. Rather, it seems that the sheer joy of taking over the center of the city has kept the movement alive, liberating it from both police control and the market-imperative of growth, determining what to do with every inch, ignoring all the construction machines, police trucks and media vans, sitting together indefinitely singing, talking, debating, dancing not for freedom or democracy, but for something else, something like, ownership of the present.

J

P1070185

Delicias Turcas

Sempre que alguma capital mundial se incendeia surgem imediatamente os lamentos relativos à mediocridade mobilizadora do povo de Portugal: submisso, triste, incapaz, frustrado. O queixume sobre o queixume assume sempre um ponto de vista essencialista no qual o poder de fogo popular está inscrito num ADN colectivo, fatal, no fundo tão português quanto o bacalhau ou o pastel de nata. Os macambúzios são eventualmente confrontados por uma mão cheia de românticos que histéricos abanam os cartões vermelhos e gritam haver quem diz não! haver quem diz basta! e que embalados pela hiperventilação e adrenalina de quem grita em voz alta inclinam a cabeça e assumem pose de capa de jornal de secção da quarta.

Ora tudo isto se torna ainda mais evidente quando ao mesmo tempo que uma manifestação em Lisboa se volta a desenrolar enquanto passeata e enquanto mero background para os soundbytes das figuras da esquerda, em Istanbul e em Ankara todos, mas mesmo todos, do cão ao periquito, colaboram para destruir o sistema. Claques de futebol enterram as armas e colaboram entre si, as retroescavadoras são comunizadas, os estudantes de enfermagem fazem cadeias de transporte de calhaus, fogos de artifício voam contra os helicópteros, etc, etc, etc.

Reduzir um processo complexo e pleno de sentidos contraditórios aos 30 segundos que passam na TV ou aos 3 minutos do videozinho do youtube fazem com que tudo adquira um sentido mistificante e simplista, que tudo se reduza a uma questão de coragem ou desapego. Ora afirmar que o problema da passividade em Portugal se encontra numa qualquer característica essencialista do povo, ou da sociedade, é persistir e reforçar um certo fatalismo desesperado e niilista. Longe de pretender esgotar o tema, ou sequer de o abordar com alguma profundeza, deixo aqui três sugestões de enquadramento da questão:

375764_178206695675754_368718608_n

1) A geografia urbana do pais. Ao contrário de grande parte das cidades do sul da europa e do mediterrâneo, Lisboa é uma cidade vazia. Tunis, Istambul, Atenas, Roma são metrópoles gigantescas nas quais os centro históricos, ou outros, são habitados por uma imensidade de pessoas – são por excelência territórios cujas redes escapam largamente ao controle do estado e que assumem dinâmicas relacionais próprias não mediadas pelas instituições. Grande Lisboa tem cerca de dois milhões e meio de habitantes espalhados por territórios atomizados e dispersos, muita vezes fruto de migrações massivas de outros locais do pais, e onde portanto não emerge essa condição de estranhamento cosmopolita que fomenta o surgimento de hipóteses colectivas várias que depois se tornam operativas nos terrenos de confronto. Veja-se como os inúmeros cenários de resistência urbana dos últimos tempos, da Plaza Sol em Madrid à Avenida Bourghiba em Tunis, se tornam viáveis pela pré-existência de hipóteses gregárias que dispõe já de uma metodologia quando ocupam o território, sejam elas claques de futebol, okupas, etc.  Não há ainda essa dimensão populacional que torna anónimizante o espaço público e o que nele se passa, ou seja, essa função primordial da condição urbana que torna a cidade o local da reinvenção de cada um no abandono das suas características de origem. Qualquer proposta subversiva mais séria terá de dedicar algum tempo à questão do território urbano e às especificidades locais de cada metrópole.

2) A narrativa do Estado Português é que este se constituiu contra o fascismo e que portanto ainda é “nosso”, ou seja, os instrumentos do estado, as suas funções e os seus organismos são bons, mas foram usurpados pela canalha. A questão não é discutir ou não a necessidade do estado, ou sugerir que todo o turco na rua é anarquista, mas propor que essa identificação com o poder e essa familiaridade com os órgãos do estado ainda previne que os protestos assumam outro nível. A relação com o estado será desconfiada e cada vez mais precária, mas este é essencialmente o principal veículo de socialização a vários níveis e não uma entidade herdeira de séculos de abuso e poder. O mito de que abril foi uma ruptura total nos mecanismos de poder e na sua reprodução é discutível desde várias perspectivas: primeiro porque não destituiu as elites que governam o pais, segundo porque realmente não abandonou nem reformou significativamente as formas e as influências do estado.

3) A esquerda portuguesa constitui-se exclusivamente dentro desse panorama participativo e tem intrinsecamente propósitos hegemónicos dentro da sua área política. As cisões dos dois grandes partidos assumem-se enquanto candidatas a essa hegemonia, sendo a sua prática essencialmente discursiva e organizacional. O debate entre diferentes perspectivas resume-se a questões palacianas e/ou identitárias e está fundamentalmente colado à agenda política e ideológica do poder, ou seja, não há um debate e uma prática que procure desbravar um caminho e propor linhas de reflexão e experimentação. Se de certo modo é relativamente indiferente o que é que fazem meia dúzia de militantes daqui e dali a questão torna-se mais pertinente quando esta esquerda se mostra incapaz de fazer o mínimo que se espera dela, ou seja, criar quadro conceptuais que enquadrem os processos de revolta em curso e que proponham mecanismos para a sua defesa e sofisticação. A maior parte da reflexão pública da esquerda, bem como dos seus agentes, salvo honrosas excepções, é paupérrima e meramente derivativa (e decorativa).

Etc etc etc

Nos bastidores de « La Vie d’Adèle »

kechiche

Por detrás desta imagem glamorosa, onde duas mulheres bonitas dão um beijo a um homem (imagem bem sexista que nos habituámos a ver na entrega de prémios nos Tours de bicicleta), há uma outra menos feliz. As condições de trabalho que Kechiche impôs à equipa técnica do filme parecem ter sido menos glamorosas : Jornadas de trabalho intermináveis, planificação da rodagem mudada à ultima da hora, pagamentos dos técnicos muito a baixo dos mínimos salariais previstos no código de trabalho dos intermittents du spectacle, abuso de utilização de estagiários, etc, etc… Mesmo se globalmente as rodagens costumam ser antros de incertezas, a lista do desprezo demonstrado por Kechiche em relação aos técnicos que participaram neste filme é longa, e muitos abandonaram aliás a aventura a meio. Estas denuncias não se reduzem a este ultimo filme, outras histórias já tinha ouvido, nomeadamente da boca de portugueses que foram chamados para trabalhar nos filmes dele (imagino porque estes aceitariam de ser menos pagos que os outros). Os primeiros filmes de Kechiche, lembro por exemplo o Esquive (filme fenomenal que mete em cena jovens dos subúrbios), foram produzidos com muito poucos meios. Hoje, para a Vie d’adèle, Kechiche beneficiou  de 4 milhões de euros, o que faz deste filme não uma grandíssima produção, mas com condições relativamente aceitáveis no meio do cinema. Se nada justifica o desrespeito das condições de trabalho, Kechiche já não tem autoridade para argumentar os seus abusos através dos limites orçamentais. Comer ostras e beber Champagne pode ser necessário para solidificar a confiança entre os actores e o realizador, fazê-lo em frente dos técnicos sem que estes possam usufruir do momento é menos delicado. 

Um filme é por excelência um trabalho colectivo. A excelência de um filme passa portanto pelo respeito de toda a equipa que participou na sua realização. É sempre bonito ouvir-se em Cannes um discurso de homenagem aos jovens tunisinos que fizeram uma revolução… Sabe sempre bem ver-se bons filmes, imagino que a Vie d’Adèle entra na categoria dos “bons filmes”… Mas mais do que palavras ou filmes individuais que soam bem, prefiro filmes que transpirem a imagem de uma verdadeira realização colectiva. Vou ver este filme, mas sem duvida com uma sensação de estar a comer ostras estragadas.

Do interior de Israel…

Belo debate sobre o sistema segregacionista do Estado de Israel.

Se é necessario lembrar e relembrar a configuração Apartheidista na qual toda a região está embrenhada, Tal Dor mostra também que dentro das fronteiras da Palestina 67 os Palestinianos cidadãos israelitas vivem igualmente sob um regime colonialista.

A resposta de Tal Dor à pergunta do jornalista sobre porque não existe uma tomada de consciência maior do estado de situação entre os judeus israelitas é também interessante : chama-se dominação da ideologia hegemónica – o sionismo –  !

TV5MONDE : Maghreb-Orient Express – Israël-Palestine : Apartheid, la fin d’un tabou ?.

“Um Piano nas Barricadas. Autonomia Operária em Itália (1973-1979)” de Marcello Tari II

indiens_metroplitains-2

“Mas começam também a surgir outras figuras de explorados e exploradas que já não têm vontade de permanecer passivos no que toca à reestruturação da sociedade por parte do capital, como as empregadas dos grandes armazéns comerciais, que começam a reflectir sobre que diabo de trabalho era o seu em que deviam “sorrir” a toda a gente, antecipando por muitos anos e com um olhar bem mais crítico e combativo, as análises pós-modernas sobre os “afectos tornados trabalho”; ou os professores das escolas, que se vêm transformados em proletários intelectuais; ou ainda os técnicos industriais, para os quais uma alta qualificação, conseguida muitas vezes com grandes sacrifícios, correspondia a um “trabalho de merda”, desqualificado e aborrecido. Os estudantes começavam a pensar que não existia grande diferença entre a escola, a universidade e a fábrica e que portanto as técnicas de luta operárias poderiam e deveriam ser utilizadas nas suas batalhas: no fundo não era necessário um grande esforço de imaginação para compreender a escola enquanto fábrica, com os seus tempos, os seus departamentos, os seus dirigentes e os seus operários. No entanto, se em 1968-69 o fenómeno novo era constituído pelos estudantes que se aproximavam dos portões das fábricas, são agora os operários que aproximam de todas as formas de vida subversivas que habitavam a metrópole. A partir destes encontros nascerá a experimentação de uma vida mestiça, inteligente e particularmente dotada de uma força de contágio incontrolável.”

“Para o Movimento dos anos Setenta, contudo, as coisas nunca foram mecânicas e não bastava certamente um alargamento quantitativo das figuras e territórios do trabalho para produzir uma deslocação das lutas, era necessário dar um salto qualitativo enorme, que não correspondesse a uma requalificação das velhas lutas e dos novos sujeitos num novo molho, mas sim a uma ruptura que permitisse o reconhecimento de uma nova realidade ética metropolitana na qual já não havia lugar para as ladainhas marxistas-leninistas ou para o anarquismo de antanho. A questão era novamente (e ainda é), por um lado, como é que seria possível que as novas figuras sociais criadas dentro e contra o desenvolvimento recusassem e destruíssem não só o capital mas a si próprias enquanto parte do capital, ou seja, que se negassem enquanto sujeitos, deslocando assim novamente o conjunto das lutas e, por outro, questão fundamental, como construir uma organização das autonomias capaz de assumir o confronto com os aparelhos do Estado. Já não se tratava, com pretendia o operaísmo, de lutar “dentro e contra”, estava na hora do “fora e contra”. Em 1977 tentou-se dar o salto.”

BREVEMENTE E SEM PREFÁCIO DE BOAVENTURA SOUSA SANTOS!

“Um Piano nas Barricadas. Autonomia Operária em Itália (1973-1979)” de Marcello Tari I

Image

“Durante o mês de Março os sindicatos, intuindo que a raiva operária estava em crescimento, começam a convocar greves sincronizadas de poucas horas, que não tinham qualquer impacto sobre o patronato e davam aos operários apenas uma incómoda sensação de frustração. As coisas tinham de mudar, e velozmente. Na edição de Abril de “Rosso”, na altura ainda o “jornal quinzenal do grupo Gramsci” de Milão, os operários das oficinas da Mirafiori relatam que tudo começou num dia em que fizeram uma assembleia sem os “bonzos” do sindicato. Os operários sentaram-se à mesa da cantina e começaram a falar entre eles, percebendo que todos concordavam que as formas de luta levadas a cabo pelos delegados dos conselhos de fábrica eram insuficientes. Mas descobrem também, graças aos mais jovens entre eles, que existem outras maneiras de estarem juntos: não burocratizadas, mais vivas, mais belas e das quais se sai mais forte. Decide-se mudar de sistema. Como em 1969, começam a ser vistas manifestações no interior das instalações da fábrica, agora lideradas por operários mais jovens que, com o rosto coberto com lenços vermelhos, atacam os chefes, os seguranças, os fura-greves e os espias, destroem a maquinaria, sabotam os produtos acabados. Vão todos em cortejo à reunião seguinte do conselho de fábrica e os delegados sindicais receiam seriamente ser agredidos: os operários interrompem a reunião e dizem “basta”. A 23 de Março, durante a enésima greve com manifestação interna, começa a ser preparado o plano de ataque: bloqueio das mercadorias em saída, piquetes nas portas de entrada da fábrica e grupos móveis de operários que controlam todos os departamentos. A 26 começa o primeiro bloqueio de uma hora, mas no dia seguinte a coisa torna-se maior, corre a informação nos departamentos, nos refeitórios, por todo o lado. Escondem-se as bicicletas dos chefes e dos fura-greves e organizam-se estafetas entre as diversas portas, sentinelas vermelhas sobem aos muros da fábrica, os telefones dos seguranças são sequestrados e utilizados para trocar informações em tempo real. A organização da luta transforma-se, de um fetiche adorado pelos mais variados inventores de “consciências externas” do proletariado, em algo que nasce no momento da acção e dentro desta. A ocupação da Mirafiori não deverá nada a ninguém: nem ao sindicato, nem ao PCI, nem aos grupos extraparlamentares: todos foram colhidos de surpresa e obrigados a perguntar a si próprios como fora possível que uma tal organização da luta, por maior que pudesse ser a sua invisibilidade, tivesse escapado por completo à previsão ou compreensão dos seus estrategas.

Não se tratava de qualquer espécie de espontaneísmo, mas antes a auto-reflexão prática e indelegável dos rebeldes, que criava e determinava de modo imanente o próprio poder da fábrica, não para a fazer funcionar melhor mas para a destruir enquanto agregação de exploração e domínio, de fadiga e de nocividade. Os delegados do PCI e do sindicato começavam a compreender o que se estava a passar e procuraram difamar quem levava avante as lutas com as acusações do costume: “aventureiristas” e “provocadores”. Mas era demasiado tarde e os funcionários da anti-revolução até poderiam ter-se retirado para ir jogar às cartas para a cantina. Se a 28 de Março é proclamada uma greve autónoma de 8 horas, a 29 o bloqueio é total, bandeiras vermelhas surgem de todas as portas da fábrica, funcionários e dirigentes são rejeitados nos piquetes e, adicionalmente, os blocos começavam a mover-se ameaçadoramente para fora do estabelecimento, ao longo dos cruzamentos, onde os ocupantes pedem aos automobilistas uma portagem para financiar a caixa comum. A ocupação da Mirafiori transborda, a indicação política é clara: sair dos muros da fábrica, apropriar-se do território.”

SAI MAIS LÁ PARA O FIM DO MÊS

Todas ao MINISTÉRIO

Ministério

Neste momento, a PSP encontra-se no MINISTÉRIO tentando despejar os ocupantes e retirar o equipamento sem mandato ou ordem judicial. Encontra-se também no local uma carrinha do corpo de intervenção. Pede-se a todas as pessoas disponíveis que se mobilizem para o local. Campo dos Mártires da Pátria, nº1
Todas ao MINISTÉRIO

“Todas ao Ministério” é o repto lançado por um grupo de ativistas que ontem, dia 25 de Abril, ocuparam o Palácio Silva Amado, um edifício que durante o Estado Novo albergou o Ministério da Educação e que se encontra devoluto há vários anos. Ainda que a ocupação tenha ocorrido durante as comemorações do 25 de abril, cerca de 20 pessoas já tinham invadido o imóvel, localizado no Campo Mártires da Pátria, dois dias antes, tendo arregaçado as mangas para limpar o amontoado de detritos que nos últimos anos se acumulou no edifício datado do séc. XVIII. O grupo prossegue com o trabalho de limpeza para transformar o espaço num local de cultura e debates cívicos.

Ao JN, alguns elementos do grupo garantiram que este é um movimento cívico heterogéneo, que com esta ocupação pretende lançar um alerta para o número de casas devolutas na cidade. Combater a especulação imobiliária e lutar por uma cidade com pessoas são alguns dos objetivos destes ativistas. “É por demais óbvio o fosso que separa a proteção concedida aos grandes proprietários e investidores imobiliários, os principais responsáveis pelos milhares de casas abandonas na cidade de Lisboa, e quem se vê confrontado com o aumento do valor de empréstimos e rendas”, pode ler-se no manifesto do grupo. Até ao dia 1 de maio, estão previstas várias atividades de caráter cívico, como workshops de “subvertising” (publicidade e subversão) e debates sobre a cidade, política e movimentos sociais. Ao início da tarde desta sexta-feira, a PSP foi ao local e procedeu à identificação dos ocupantes, mas na ausência de queixa por parte dos proprietários do imóvel não procedeu ao despejo. As atividades no Palácio começam esta sexta-feira, com o debate “Abril e Abrileiros”.

O Palácio Silva Amado é propriedade de um particular e desde 2008 que tem licenciamento para ser transformado num condomínio privado com 32 habitações.

Grupo ocupa antigo edifício do Ministério da Educação

25 de Abril II – Com jeito vai…

campo pequeno

 Desfile no 25 de Abril (II) – 15h, DN

“Alguns anos depois do fim do enredo inicial as forças do mal regressam com novos poderes e propósitos demoníacos. Os heróis do passado revelam-se incapazes de os combater e toca às pessoas comuns do presente reorganizar-se para enfrentar estes novos desafios.

Com interpretações notáveis, efeitos especiais inesquecíveis, uma banda sonora arrebata-corações e momentos de aventura e tensão que marcarão toda uma geração, “25 de Abril II” é já considerado o blockbuster do verão de 2013. Em parte thriller psicoló…gico e épico bíblico é no entanto pontuado por momentos de humor hilariantes sobretudo quando os vários candidatos a “líder” do movimento são ridicularizados por toda a gente em devir comunizante e insurreccional.

A não perder, estreia dia 25 de Abril às 15h em frente ao Diário de Noticias, no início da Avenida da Liberdade. Os convidados para a estreia deverão fazer-se acompanhar de máscaras, lenços de cowboy, instrumentos musicais e outra parafernália interessante.”

 

Como fazer a revolução?

Big-Bite-Size-Vintage-Tea-Party-Tea-Ladies

Vivemos um ciclo intenso de protestos de rua, com mais de dois anos (em 2012, a polícia referenciou mais de 3000 protestos), acompanhado por um ciclo de poder político particularmente inócuo a esses mesmos protestos. Não há forma de escapar a uma reflexão profunda sobre esta dinâmica de impotência histórica.

Já não há revoluções hoje em dia? Como fazer a revolução?

As manifestações constituem no presente momentos do conflito social cuja importância releva sobretudo do seu carácter público e multitudinário. São estes eventos que tornam visíveis com outra amplitude os sinais de descontentamento, em alguns casos revolta, face ao programa de miséria generalizada que a austeridade apresenta como inevitável. Porém, e apesar da importância que possam ter enquanto lugar de encontro ou de catarse colectiva, ou mesmo de ataque, as manifestações não têm oferecido muito mais para além desse lugar. De facto, a recusa das políticas de austeridade que confina a sua expressão à organização ou participação em manifestações acaba por se ver condenada a reproduzir o jogo estéril da representação política de uma oposição ao regime, no lugar de idiota mais ou menos útil, cuja presença e gestualidade são passíveis de apropriações e distorções de todo o tipo.

O panfleto das Edições Antipáticas, já com umas semanas e postado em baixo, procura fazer uma história dessa rua. Mais do que o detalhe historiográfico e exaustivo dos protestos, o texto vai construindo uma posição política, a partir da área anti-autoritária e anti-capitalista, traçando importantes linhas de atrito com a esquerda institucional “governativa”, de um lado, e com o anarquismo mais identitário e “exilado” da realidade, por outro. Mas é ainda, sejamos francos, a história de uma impotência, ou pelo menos impasse. Talvez seja também a história de uma «secessão» desejada, para usar essa bela palavra do texto.

Produzir essa «secessão», quebrando deste modo o círculo de impotência e frustração em que nos encontramos, implica trazer para o dia-a-dia da vida as “vontades” e as “necessidades” que se levam para as manifestações, dando-lhes uma expressão concreta e real. Ao carácter fortemente simbólico e mediado daquelas deve contrapor-se a potência da organização autónoma de espaços de vida e luta que se constituem como poder. Economias de pão e afectos, de subtracção e confrontação. Um poder que é contra-poder, desde logo, pela negação e recusa de quaisquer lideranças ou direcções nas formas e nos métodos de organização. E contra-poder ainda pela criação de estruturas e mecanismos que permitam responder às necessidades e desejos colectivos que surgem a cada dia nas nossas vidas.

Os últimos anos foram palco de uma série de experiências de utilização de espaços em diferentes cenários e locais. Do RDA69, Severa e Casa Viva à Escola da Fontinha e a São Lázaro, passando por todas as associações que entretanto surgiram com os seus espaços, foram vários os sítios que passaram a proporcionar momentos de encontro e ligação entre grupos e indivíduos com diferentes ideias e sensibilidades. Não obstante todas as distâncias e contradições que possamos encontrar entre essas experiências, há pelo menos dois aspectos que as relacionam: por um lado, a vontade de construir dinâmicas de sociabilidade fora de uma lógica mercantilista e empresarial, por outro, o reconhecimento de que tais dinâmicas dependem em grande medida da apropriação de espaços e território.

Perante um intensificar da degradação das condições sociais e do conflito político torna-se urgente pensar de que modo estas experiências poderão dar o salto qualitativo necessário para se constituírem como bases materiais suficientemente consistentes e solidárias para fazer frente à reconfiguração do modelo de organização social e política que está em curso e abrir caminhos ainda não descobertos.

Não se trata obviamente de opor ao protesto de rua a cantina popular, como a linha revolucionária justa, mas de entender a riqueza e potencial dos fluxos que se estabelecem nos espaços de luta e entre estes e a luta na rua. Trata-se de entender que a recusa do QSLT e de todas as outras instâncias de organização e gestão de protestos, enquanto cadeias de transmissão do jogo político dos partidos e do regime, nos coloca perante a necessidade de imaginar/criar os lugares de irradiação de força, inteligência, sensibilidade e poder contra a austeridade e a organização capitalista das nossas vidas.

Tout a failli, vive le communisme!

Na sua coluna desta semana Nuno Ramos de Almeida afirma em boa voz a ideia que se tem sublinhado inúmeros momentos recentes: este governo tem de cair pela rua. A reemergência desta enquanto fórum e enquanto novo rio rasgado por afectos políticos inesperados veio sugerir duas ideias: A primeira é que perante o exercício do poder especialmente perverso do governo em funções a rua é a última carta de um povo acossado, aquela que não está limitada ou formatada pelas contingências e vicissitudes dos outros poderes. A segunda é que a rua pode actuar enquanto processo constituinte que sirva a uma reconfiguração da esquerda, renovando-a e reforçando-a, servindo simultaneamente enquanto argamassa que permita a união das esquerdas e enquanto diluente que suavize as suas densidades incompatíveis.

É nas inúmeras variantes desta nota que se têm processado os múltiplos encontros que deram então uma forma a essa rua – e que traduzem um pensamento interessante: que é necessário repensar as formas de poder nas quais nos investimos e revemos e que é necessário que essas formas novas destituíam as presentes.

Ora onde a questão se torna mais complexa é precisamente nas questões seguintes: que formas pode sugerir essa rua, tanto prévias como posteriores a ela, e de que falamos quando falamos da união das esquerdas. Esta problemática torna-se ainda mais urgente quando se tem evitado discutir a primeira em função da segunda, assumindo essa união um pendor alquímico e salvífico ante a barbárie neoliberal. A união das esquerdas passaria pela formalização de uma grande instituição que albergasse no seu seio as diferentes tendências emancipatórias num programa comum e razoável. Essa força permitiria constituir-se enquanto poder formal que tomaria posse das instituições de estado, injectando-as de liberdade e democracia, traçando um continuo estrutural da assembleia de bairro à assembleia da república. Na verdade poucas estruturas seriam mais kafkianas do que a que procurasse integrar numa mesma formalidade o voluntarismo dos activistas com a ortodoxia dos militantes à volta com dezenas de identidades ideológicas. Imagine-se a experiência recente do BE, some-se o PCP, uns pozinhos de extrema-esquerda e ala esquerda do PS e multiplique-se pelos aparatos de estado. O resultado não é um amanhã que canta, é um Titanic vermelho a afundar com todos à porrada e uns quantos a grândolar as ondas que se abatem no navio. Por outro lado a rua que é convocada para abrir espaço a este projecto procurando manter-se num regime de governabilidade abre caminho a outra questão: ao sugerir-se enquanto hipótese de discurso, ou seja, ao perder a sua autonomia, inscreve-se num argumentário que mais depressa se prestará a justificar pactos de regime entre as diversas tendências do poder do que a qualquer escancarar de portas à esquerda que vem.

Não se trata aqui de contrapor à “união das esquerdas” um vago sonho molhado de fúria popular indistinta ou de menosprezar as riquíssimas experiências aí implicadas, mas a de começar a sugerir outras linhas de reflexão: uma relativa à validade do conceito de “esquerda” enquanto comunidade especializada e separada, do colectivo anarco-nãoseiquê ao grande partido da classe trabalhadora, que se procura constituir enquanto instrumento de poder e uma outra relativa a como esse campo foi perdendo a sua materialidade. Generalizando grosseiramente este surge como o traço comum: se uma parte maioritária da reflexão e prática de esquerda se foi construindo tendo em conta a sua constituição enquanto estado, por vias democráticas ou revolucionárias, uma outra, minoritária, foi-se afirmando de modo identitário, procurando acima de tudo assegurar a sua reprodução social e o seu papel essencialmente decorativo. Ambas se pautam no entanto pela mesma questão, a de propor uma procura e um gregarismo essencialmente ideológicos que se vieram a revelar francamente incapazes nos últimos tempos. Que, por exemplo, as assembleias de bairro saídas das acampadas no estado espanhol se estejam agora a constituir enquanto cooperativas mutualistas atesta bem essa necessidade: organizar, organizar, organizar sim, mas à volta de algo imediato, prático, tangível.

Isto para dizer que, nesta humilde opinião, o governo só cairá pela rua quando ela se apresentar inequivocamente enquanto ingovernabilidade e que a rua só ganhará esse poder quando se assumir enquanto materialidade colectiva e não enquanto espaço de reivindicação.

“”Faz” com o que tens, e se tiver que ser ao murro, tem de ser ao murro.”

mgoncalves

Mas o dia 1 de Abril não foi ontem? Hoje já não vale! Hoje é a sério!

Não é um “radical”, não é um “extremista”, não é o super-homem. Quando se pensa que o governo não pode descer mais baixo…enganamo-nos.

O novo “embaixador do Impulso Jovem” é um mini-me do Relvas. Foi escolhido pelo You Tube, trabalha à borla, incita o pessoal a trabalhar as horas todas que forem precisas e promete chapadas aos manifestantes. Um mimo. Uma espécie de relvas, cruzado com um humurista de stand-up com toques de actor publicitário do red bull.
Tem público porque diverte e anestesia. Mas depois espalha-se ao comprido na ignorância ” Se as políticas são para um lado ou para o outro… sou ignorante”. Nada que o leve a não aceitar ser embaixador de um conjunto de políticas nulo ou que o leve a sentir-se mal de partilhar o mesmo espaço físico que o relvas.

Não percam este momento pois vale a pena pela quantidade de pérolas por linha corrida:

Apresentando-se como “um rapaz simples”, que “acredita em sonhos e super-heróis”, Miguel Gonçalves foi abordado pelo ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, para ser, “sem remuneração”, a nova cara do programa de estágios lançado em agosto pelo Governo.O argumento da falta de dinheiro para pagar propinas também não convence o fundador da Spark Agency, uma agência de criatividade especializada na criação de soluções de comunicação interna em grandes empresas.“Eu paguei as minhas propinas a trabalhar. Estudar em Portugal não é como em Stanford, que custa 45 mil euros por ano. A um jovem estudar custa 1.200 ou 1.300 euros por ano, são 100 euros por mês. Amigo, se tu com 20 anos não consegues fazer 100 euros por mês para pagar o que estudas vais ter muitos problemas na vida, muito maiores do que esse”, disse.Ninguém deve deixar de trabalhar porque não tem dinheiro. É um mito. Até a vender pipocas no centro comercial se arranja dinheiro para pagar 100 euros por mês”, concluiu.

Para mais do “génio”:

O movimento social vai nu

No jornal I de ontem saiu um artigo pidesco sobre o QSLT. O artigo surge em grande parte enquanto tentativa de descrédito da “plataforma”, sugerindo que afinal este é dirigida por uma espécie de maçonaria de esquerda e que a presença de militantes e dirigentes partidários de certo modo macula as suas pretensões de inaugurar novos modos de participação política. As alegações venenosas e muitos factos errados provocaram, justamente, bastante indignação entre os participantes e simpatizantes que afirmaram rapidamente que a desqualificação de alguém pela sua pertença a partido de esquerda era algo politicamente bastante dúbio. Já relativamente ao resto das acusações não vi ninguém contestar ou ficar ofendido pela sugestão: que o QSLT se tinha constituido enquanto forma de conduzir o conflicto social às urnas e que apesar do seu cunho de novo “movimento social” funcionaria através de um bastante exclusivo centralismo democrático informal.

Ora o artigo sai um dia depois de um livro em que umas das pessoas visadas enquanto “lider” no artigo nos dá a sua narrativa outono quente de 2012. Na mini-biografia final o autor diz que a sua actividade política consiste em ser dirigente de um movimento de precários. Esquece-se de dizer que também faz parte da mesa nacional do Bloco de Esquerda e que todos os membros desse movimento de precários são militantes ou dirigentes do BE que se gabam publicamente de, enquanto BE, controlarem o QSLT.

Quantas vezes no spectrum e em outros locais foram levantadas estas questões? inúmeras. Foram sempre insultadas enquanto tentativas de abanar gratuitamente o barco, de inventar guerrinhas, de sabotar o movimento quando este precisa de união, encaradas enquanto reveladoras de um profundo sectarismo, mau génio e fraca higiene pessoal.

O resultado é óbvio: Quem recusa encarar as suas próprias questões abre o flanco para que os outros as encarem contra ele.