Um ano com 40 horas

Faz hoje um ano que uma grande maioria de funcionários públicos começaram a fazer 40 horas de trabalho semanal. Um ano depois ninguém deste governo deve fazer ou querer fazer a mínima ideia da relação deste aumento de horas, a troco do mesmo salário, e o funcionamento da administração pública. Pouco ou nada importa em que é que este acréscimo de horas contribuiu para o a melhoria do funcionamento do Estado, ou seja, em que medida este aumento melhorou as nossas vidas (que é o mesmo que dizer o país, apesar do anedotário recente em torno da ignorância de que estas realidades coincidem). As escolas oferecem mais valências? Os tribunais avançaram os processos pendentes? As finanças tornaram-se mais expeditas? As bibliotecas abrem mais horas? Os hospitais e os serviços de saúde oferecem mais consultas mais operações? Maior horas de atendimento? A segurança social e o centro de emprego passaram a fazer as pessoas esperar menos e a resolver os pedidos que lhes chegam? Todos sabemos por demais as respostas.

Uma medida aprovada na AR por uma maioria parlamentar contra os votos dos restantes partidos, contra os parceiros sociais, todas as estruturas representativas dos trabalhadores, contestada nas ruas e nos ministérios. Uma medida imposta com esta arrogância sem ter bases que a sustentem ou suportem do ponto de vista do funcionamento ou benefício do Estado. Se dela não resulta nada em concreto ou em abstrato que se possa dizer a favor, o mesmo não podemos dizer do que isso significa de perdas incomensuráveis e irrecuperáveis na vida de todos e cada um sujeito a esse acréscimo de trabalho. A interrupção obrigatória do período da refeição transforma um dia de trabalho em nove horas, se juntarmos o tempo de deslocação, facilmente percebemos o que sobra no dia de cada funcionário, de cada trabalhador onde quer que ele esteja, e a um dia somam-se dias, e semanas, e meses, e anos. Menos uma hora para ler o jornal, conversar com os filhos, com os pais os avós, os vizinhos. Menos uma hora para ver filmes, estudar, percorrer novos espaços na cidade, plantar begónias. Menos uma hora para não fazer nada ou fazer tudo. Menos uma hora em cada dia para juntar forças a outros, seja num sindicato num grupo de bairro, na filarmónica, no grupo de teatro, no ténis de mesa. Uma hora a menos para amar.

As 40 horas, sem natureza económica ou de crises que as expliquem, só encontram o seu lugar na intensa batalha que o governo iniciou, muitos anos antes de governar sequer, muitos anos antes de qualquer troica, contra o trabalho. Baixar o valor do trabalho, subjugar de todas as formas e feitios aqueles que vivem dele, acelerar e aprofundar a dicotomia entre estes e o capital. A liberdade do capital só se faz estreitando-se, nas formas e conteúdos, o valor do trabalho. Criando exércitos de desempregados, embaratecendo toda a mão-de-obra e operando ideologicamente esta batalha que esmifra e verga a energia dos que fazem sem ter alternativa a não o fazer.

Por todos os serviços do Estado multiplicam-se os beneficiários das prestações de desemprego em contratos de inserção sem ter em vista o emprego, como forma de ocuparem de forma socialmente útil o seu tempo. São escolas e serviços de saúde abertos e a funcionar graças a esta mão-de-obra. Ao seu lado os que se foram reformando, assinando rescisões amigáveis, os que perderam em salários nos últimos quatro anos mais do que qualquer grupo ou classe profissional, os que trabalham a contratos há mais de 10 anos sem saberem se terão trabalho amanhã ou sabendo o que sabem os professores desempregados durante o mês de Setembro porque o concurso atrasou como Citus. Se pudessemos pôr todas as horas a mais trabalhadas neste ano num offshore, como a Tecnoforma, quanto é que elas estariam a valer?

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