Falinhas mansas e a violência da Ana Nicolau na manifestação de amanhã

“É preciso fazer qualquer coisa de extraordinário. É preciso tomar as ruas e as praças das cidades e os nossos campos. Juntar as vozes, as mãos.”

Contrariamente a outras recentes convocatórias da “sociedade civil”, a deste sábado é arrojada nos termos, não se perde tanto em falinhas mansas para agradar a toda a gente e chega a sugerir a luta contra a submissão, além da tomada das ruas.

 

À violência imposta que, a cada dia e a cada medida anunciada, se torna mais evidente, esta manifestação propõe como respostas a Ocupação e a Indignação. No terreno não quer então uma passeata, claro está, como tantas outras. Tudo óptimo até aqui.

No entanto, Ana Nicolau, uma das 29 signatárias do apelo à manifestação de amanhã, em declarações ao Público de hoje, confessa afinal ao que vamos. Como tem noção, diz ela, de que poderão juntar-se aos manifestantes grupos de pessoas cujo intuito será o de gerar actos de violência, apela “para que todos se sentem no chão logo que acontecer qualquer acto violento, para que os autores sejam mais facilmente detectados”.

Tão novinha, esta realizadora de 29 anos, e já a sabe toda hein? Ora muito bem, já não precisávamos de ter receio das brutalidades da polícia, como podemos passar a ter dos organizadores, que pelos vistos só lhes vai faltar a farda se não se demarcarem destas declarações.

Cara Ana, a coisa normalmente é feita da seguinte forma: Quando convocada uma manifestação não controlada pelo PCP, a polícia fica bastante insegura, e além de, na sua fachada bacaníssima, contactar os organizadores, começa a mandar cá para fora notícias alarmistas sobre a eventual violência. Seja por comunicados ou pelos seus agentes na comunicação social, como é o caso da Valentina Marcelino no DN, vão depois crescendo as preocupações como uma bola de neve e o palco está pronto para a acção: assim já podem com mais facilidade carregar em tudo o que mexe, desde gente a impedir uma detenção (caso da última carga), até aos criminosos que, veja-se bem, atiram ovos.

As declarações já seriam muito graves se se resumissem a isto: ajudar a preparar o terreno justificatório da repressão policial, mas não contente com isto, a agente Ana diz ainda mais, estar no chão servirá essencialmente para que os desordeiros sejam “mais facilmente detectados”!

Cara Ana e restante organização, que antes de lançarem este tipo de bujardas respondam as estas perguntinhas para ver se entendemos melhor a posição desta plataforma:

  1. Onde está a fronteira entre a violência e a não-violência em ocupações como as defendidas no apelo?
  2. No decorrer da manif quem julgará essa fronteira e quem mandará sentar os manifestantes?
  3. Qual o motivo de declarações sobre uns “grupos violentos”, excluindo desse grupo os polícias que têm sido os principais agentes (e quase sempre os únicos) de violência em manifestações?
  4. A Ana diz que (os organizadores) “estão conscientes que poderão juntar-se grupos violentos”. Quem deu essa info, e que tipo de grupos se refere?
  5. Não consideram que declarações destas sem qualquer contexto (como  por exemplo as eventuais respostas às perguntas anteriores) podem objectivamente ajudar à justificação prévia de violência policial na manifestação?

Bom, para terminar uma pista de resposta à pergunta 4:

“Olha, não posso dizer, mas aqui entre nós, foi mesmo a polícia que nos passou a informação, é vai haver malta da extrema-direita a organizar-se e é preciso que não haja rixas entre eles e o pessoal mais extremista ou anarquista ou lá o que é que vai à manifestação.”

Para acabar este relato da violência da Ana (e dos organizadores, se não se demarcarem destas declarações), deixo-vos com mais um pouco do manifesto dos organizadores que em tudo me parecia bem longe da baixaria alarmista e denunciadora que esta sua signatária, em nome da organização, veio anunciar.

“Este silêncio mata-nos. O ruído do sistema mediático dominante ecoa no silêncio, reproduz o silêncio, tece redes de mentiras que nos adormecem e aniquilam o desejo. É preciso fazer qualquer coisa contra a submissão e a resignação, contra o afunilamento das ideias, contra a morte da vontade colectiva”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

15 thoughts on “Falinhas mansas e a violência da Ana Nicolau na manifestação de amanhã

  1. Pingback: who the fuck is Ana Nicolau? | cinco dias

  2. «Cara Ana, a coisa normalmente é feita da seguinte forma: Quando convocada uma manifestação não controlada pelo PCP, a polícia fica bastante insegura, e além de, na sua fachada bacaníssima, contactar os organizadores, começa a mandar cá para fora notícias alarmistas sobre a eventual violência. Seja por comunicados ou pelos seus agentes na comunicação social, como é o caso da Valentina Marcelino no DN, vão depois crescendo as preocupações como uma bola de neve e o palco está pronto para a acção: assim já podem com mais facilidade carregar em tudo o que mexe, desde gente a impedir uma detenção (caso da última carga), até aos criminosos que, veja-se bem, atiram ovos.»

    Verdade, verdadinha!

  3. Amanhã, cumprimentem cordialmente os vossos camaradas de manifestação, os skinheads. Mais: este post prova que há predisposição para a violência; depois não digam que foi a polícia que vos provocou. Portem-se como selvagens e perderão toda a razão que as pessoas julgam que vocês têm.

  4. ela que liberte o olho da camara de filmar para cine-murro à Eisenstein ou de outra maneira não vai lá !

  5. Caro Paulo , passo aqui pela primeira vez mas vejo animos exaltados de ambas as partes, não vou discutir quem têm razão ou não!
    Está encaminhado para uma revlução afinal de acordo com o primeiro ministro vivemos em democracia embora ele e o seu grupo esteja sozinho nas intenções de liderar pois nao aceita criticas de ninguem e é tão raro ver tudo unissono numa só voz em que as politicas que seguem estão erradas…
    pessoalmente sou apologista da desobdiência civil no ponto em que estamos mas é so uma opiniao e nao acarreta violência mas se por exemplo com outros tantos cortamos uma estrada a policia vêm e que faz ? deixa ou tenta uma carga ? afianl apesar de sermos povo fomos nós que votamos (embora nao tenha posto la estas cores) mas penso que todos estamos contra sejamos simples operários ou policias e mesmo militares ( não de altas patentes)
    seria bonito de se ver a policia do lado dos manifestantes como aconteceu em barcelona e outras tantas cidades espanholas em madrid a policia de choque tevce de recuar também pois nao havia numero suficiente de agentes e os bombeiros nao ligaram os canhões de agua como lhes foi pedido tiraram os capacetes e ficaram sentados entre o povo e a policia

    Afinal estamos todos ou quase todos atrás do mesmo : um PORTUGAL MELHOR e com justiça igual para todos – acabar com as mamas dos amigalhaços, acabar com más politicas!

  6. Fica bem no currículo de qualquer realizadora-chique ter andado a convocar manifestações.

    Ainda há uns dias outra política-chique, de nome Helena Roseta, disse com o seu ar blasé que se fosse preciso “era de novo presa”.

    Esta gente faz das palavras bolinhas de sabão.

  7. Pingback: Reservoir dogs « Declínio e Queda

  8. A Ana Nicolau acaba de dizer na sua página do facebook: “fui mal citada pelo jornal “público” e não lancei apelo nenhum, nem em meu nome pessoal nem em nome dos meus companheiros e companheiras”.

    Duas notas:

    1. faz sentido esclarecer cabalmente o que disse ou não e no caso de não ter dito avançar com o direito de resposta que tem;
    2. Por estas e outras é que faz sentido não haver porta-vozes mas comunicados, assim ninguém se engana.

    Paradise Café

  9. Pingback: via “Paradise Café” – Spectrum |

  10. O desmentido abaixo foi colocado agora no blog (não sei se foi tb enviado ao Público para direito de resposta) o que considero muito positivo e que vale a pena denunciar situações como esta. De qualquer forma continuo com muita pena que Ana Nicolau não diga o que é verdade e mentira na peça jornalística, ou seja que diga realmente o que disse e por outro que os organizadores não digam para que servem este tipo de notícias. De todo o modo, mais uma, vez, óptimo.

    Comunicado – Desmentido da notícia do Público

    Acerca da notícia do Público de hoje, os subscritores e as subscritoras do apelo do 15 de Setembro querem reafirmar a sua posição que não está devidamente expressa nesta notícia. A mensagem transmitida foi deturpada.
    O apelo à manifestação de amanhã é de natureza pacífica. É a expressão da revolta de milhares de pessoas contra a política da troika e.deste governo que a serve. Os organizadores tudo farão para atingir este objectivo político. Os activistas não são nem serão polícias de outros activistas. A sua convicção e vontade expressa-se pelas palavras e pela forma como participarão nas grandes manifestações de amanhã. Frisamos ainda que ao contrário do que é dito pelo mesmo jornal o percurso foi definido politicamente e não houve qualquer alteração.

    Paradise Café

  11. Eu não percebo nada disto: «Quando convocada uma manifestação não controlada pelo PCP, a polícia fica bastante insegura (…)» ??? Então mas esse partido não estava morto há uma data de tempo ??? Ainda mexem ???

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